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domingo, 31 de maio de 2026

(LA) Sessão 42

A honra manchada

A defesa

O gabinete do comandante Dariam Ferrembrasa tinha cerca de 12 m², paredes de rocha maciça e pouca decoração. A mesa com dezenas de pergaminhos desorganizados era o foco do local.

A acusação sobre Haftor pesava, mas a reputação que construiu permitiu que lhe fosse concedida uma defesa justa antes de qualquer condenação. O paladino aproveitou a oportunidade para organizar seus argumentos.

— Mestre Dariam, imagino que as acusações sejam do sacerdote de Telas? Ele é um corrupto e a cidade parece estar sendo dominada pela elite dos magos de lá. Eles parecem ter esse clérigo na carteira.

— Calma, calma, Haftor. — interrompeu Ferrembrasa. — Vamos por partes. Primeiro, você nega as acusações? — O comandante virou-se e pegou um punhado de pergaminhos enquanto falava. Leu-os em voz alta: — Assassinato. Usurpação da autoridade judiciária de Telas. Invasão de domicílio da patronesse Syllen’ae. Tem outras aqui que eu ignoro. — disse, jogando os papéis sobre a mesa.

— Bem, vamos por partes, então. A invasão de propriedade foi parte de uma investigação de escravização de anões. Nós encontramos alguns. Inclusive, tem um com a gente. Um anão muito bom, um guerreiro.

— Espere... você não está negando?

— Se invadir uma casa durante uma investigação de tráfico configura invasão da soberania e da propriedade da patronesse, não posso negar que fiz isso. E o assassinato que eles estão alegando foi em legítima defesa.

Ferrembrasa estava consternado. Esperava uma declaração de inocência, mas, em vez disso, Haftor confirmava todos os fatos. Apesar disso, ouvia e tentava compreender a situação.

— E... — continuou o paladino — quanto à usurpação de autoridade em Telas, não havendo um paladino no local, o templo estava vazio porque, afinal, ele convenientemente estava fora. A ordem exige a minha autoridade como lei local. Eu participei de um julgamento de um companheiro daquela elfa sombria que foi, inclusive, condenado.

O paladino continuou com sua explicação, argumentando ferrenhamente em sua defesa, enquanto seu irmão e Dariam Ferrembrasa escutavam.

— Temos dois problemas aqui. Um é o problema da corrupção em Telas. O outro é um problema interno no templo de Crizagom, que eu vou reportar, e ainda vamos fazer uma auditoria lá.

— A relação entre Blur e Telas não é tão lisa quanto imagina, Haftor. — mencionou Dariam. — Nossa ordem de Crizagom no núcleo de Blur é isolada, comparada com a ordem que está em Telas, que é muito mais relacionada com o norte do que temos vontade. Mas quero muito acreditar em você. Eu odeio aquele Thragner, mas as acusações estão aí. Não posso fechar os olhos para todas elas.

— Mestre Dariam... — interrompeu Haldor. — O senhor lembra de Kórgan? Ele desapareceu em uma missão.

— Vocês tinham mencionado, mas está vivo?

— Então, está vivo, está conosco. — revelou Haldor. — Vivo e bem. E ele pode corroborar a nossa versão. Se a nossa palavra não transpassa a verdade, mesmo depois de todos os anos que temos juntos, nós temos uma terceira pessoa que pode ajudar.

— Não leve para o lado pessoal. — justificava-se Ferrembrasa.

— De maneira alguma. Mas, quando dizemos ao senhor que nossas acusações são fruto de intrigas, mentiras e corrupção, se fosse ao contrário, eu acreditaria cegamente.

— Onde está Kórgan?

— Está pela cidade. — respondeu Haftor. — Chegou com a gente.

— Haftor... tentaremos um acordo com Telas por via diplomática e talvez um julgamento à distância, mas, se retornar, será preso e julgado.

— Eles provavelmente vão tentar me eliminar diretamente. Então, se esse for o desejo de Crizagom, eu vou assumir. Mas saiba que é injusto.

— Não seja ingênuo. Não tem nada a ver com o desejo de Crizagom, mas com a vontade de corruptos. Eu compreendo a sua situação. Não acredito em nada do que esse sacerdote meia-tigela diz. Conheço o tipo dele, mas estou preso à burocracia. Não podemos simplesmente remover os cartazes da superfície. Você deve encarar isso como um ordálio do seu julgamento.

O paladino não ficara convencido. Ele acreditava poder resolver sua situação diretamente, apesar dos apelos do comandante.

— Não terão percalços em Blur. São bem-vindos aqui, sua terra natal. Mas saibam que precisarão comprovar sua isenção dos fatos, ou pelo menos justificá-los. Talvez Kórgan possa ajudá-los.

— Não se preocupe. — amenizou Haftor. — Eu não pretendo me esconder. Vou seguir com minha missão, que é muito mais importante do que isso. E, se eu for levado a Telas por qualquer tipo de autoridade, não vou oferecer nenhum tipo de resistência.

— Ah! — lembrou-se Haldor. — Antes que eu me esqueça, Horgrundis é o traidor.

— O senhor lembra de um tal de Durnam, o Expurgado? — questionou Haldor.

Ferrembrasa acenou com a cabeça, lembrando-se do nome.

— Aparentemente, ele está em Blur e agindo com uma rede de tráfico. — completou Haftor.

— Impossível. — argumentou o comandante. — Ele jamais poderá retornar. Perdeu seu nome, sua identidade. Durnam não existe.

— Esse agora atende por Horgrundis. E a última informação que temos dele é a de que estava em Blur.

— Horgrundis... já ouvi falar. Há várias acusações contra ele.

Dariam dirigiu-se à prateleira e retirou um tomo pesado e empoeirado, soprando a poeira e abrindo-o nas anotações sobre Horgrundis.

— Horgrundis foi acusado de contrabando, corrupção, assassinato e traição. Ninguém conseguiu fazer uma descrição clara de como ele é ou quem ele é. Ele não é visto. O nome dele se espalha pelo submundo de algumas cidades e fortalezas, mas nunca conseguimos capturar alguém que tenha negociado diretamente com ele.

— E o nome Horgrundis surgiu com ele?

— Sim. Ele não é filho de ninguém, não é de clã nenhum.

— Se ele é Durnam, como dizem, está claro o porquê. — concluiu Haftor.

— Agora, sabendo que se trata de um anão nativo de Blur, podemos investigar melhor. Talvez sua família saiba de algo. Eu conheci pessoalmente o pai dele no momento do expurgo. Ele passou a negar a existência de um filho. Não parece ser alguém que corroboraria esse tipo de atitude, mas vamos investigar de perto.

Devolvendo o livro à prateleira, Dariam voltou a falar sobre o julgamento de Haftor. O comandante pedia encarecidamente que o paladino não fosse aprisionado em Telas, pois isso dificultaria a defesa por parte de Blur.

— Por favor, apenas não volte a Telas. — implorou Ferrembrasa.

— Não posso prometer. — respondeu Haftor, cético.

— Por favor, Haldor, ponha juízo na cabeça de seu irmão!

— Eu tento, mas às vezes eu tenho menos do que ele.

Por fim, Haftor lembrou Dariam sobre a carga interceptada. Ao ouvir sobre a quantidade e o conteúdo, equipou-se, vestiu sua capa e acompanhou a dupla pessoalmente para constatar as provas do contrabando.

Réctor, Guia, Kórgan, Demétrius e Olgaria aguardavam perto de onde as nuvens voadoras haviam pousado com as carroças.

Ao ver o comandante, Kórgan se aproximou e cruzou braços com Ferrembrasa.

— Mestre Ferrembrasa!

— Que alegria vê-lo realmente vivo, como haviam mencionado. Preciso que explique o que aconteceu com você em detalhes.

— Eu queria saber por que um herói está com sua cabeça a prêmio. — intrometeu-se Réctor, indignado.

— Tenho certeza de que sabe exatamente tudo o que se passou com Haftor nas últimas semanas e que também sabe qual é o ambiente em Telas. — respondeu Dariam, com formalidade. — Nossa relação com aquela cidade é tensa. Diplomática, mas tensa.

As palavras de Ferrembrasa não tiravam o ceticismo de Réctor.

— Sim, eles se desviaram do caminho de Crizagom há muito tempo. — completou o napol.

— Os magos fazem o que precisa ser feito para alcançar seus objetivos, ignorando as leis divinas. Isso às vezes nos coloca em situações difíceis, como eu tenho certeza de que Haftor foi colocado.

Ferrembrasa olhava para todos, certificando-se de que o grupo o ouvia e percebia suas intenções antes de continuar.

— Mesmo não concordando totalmente com as ações que Haftor tomou, tenho certeza de que foram as únicas que ele poderia ter tomado na situação que lhe foi imposta.

— Certeza. — ironizou Réctor.

— Senhor. — Kórgan pediu a palavra. — Eu fui sequestrado por elfos sombrios graças a uma informação de Horgrundis, um traidor que se chamava Durnam.

— Haldor mencionou. Isso esclarece muitos documentos que tenho arquivados.

— Fui levado a um calabouço no subterrâneo de Telas e marcado. — O anão colocou a mão na nuca com uma expressão de pesar e sofrimento, lembrando-se da marca removida pela graça de Crizagom trazida por Haftor. — Graças a Blator e Crizagom, essas pessoas chegaram e me tiraram de lá.

— Eu não entendo muito desse negócio aí de leis, não. — comentou Garuk, impaciente com as formalidades. — A cidade estava toda corrompida. A gente foi lá e meteu a porrada em todo mundo para que isso não se repetisse, porque quem tava lá tava fingindo que não tava vendo o que tava acontecendo. Vocês ficam aí falando bonito e ninguém entende porra nenhuma.

— Quer defesa melhor do que essa? — argumentou Réctor. — Eu acho um ultraje ver estas imagens. — dizia o napol, mostrando um cartaz de procurado com o retrato do paladino. — Mesmo que Telas possa criar algum problema, não colocariam um herói para ser caçado. E, se precisarem de ajuda lá, procurem o colégio necromante. Eles podem ajudar e dizer exatamente o que aconteceu.

— Eu acho que aqui não é o lugar certo para conversarmos sobre isso. — lembrou Haftor.

— Quero começar com você. — Dariam apontou para Kórgan. — Me acompanhe ao meu gabinete. Preciso do seu testemunho o quanto antes.

— E o senhor viu aqui nossa carguinha? — brincou Réctor, aproximando-se das carroças e revelando parte dos lingotes de Corvear.

Ao ver o minério lapidado, Dariam levou ambas as mãos à cabeça, perplexo. Aproximou-se e pegou um lingote.

— Por Blator! Quanto tem aqui? Uma carga desse tamanho não pode ter saído de Blur sem que ninguém tenha percebido.

— Várias cargas dessas já foram levadas. Essa aqui era só a última.

Dariam respirou fundo, visivelmente tenso e sério com a dimensão do problema interno na fortaleza.

— Olha só, o senhor falou aí que tem uns papéis com um monte de denúncia. Era melhor vocês começarem a parar de olhar papel e começar a olhar em volta, hein. — sugeriu o Guia.

O grupo explicou sobre a rota de saída de Corvear a partir de Vir-Máliz, mostrando ao comandante o mapa que encontraram com Kovor e seu bando.

— Vou enviar as cartas necessárias. Precisamos reforçar a segurança em Vir-Máliz e descobrir quem são essas pessoas que estão traindo o coração de Blur.

O peso das reputações

Dariam conduziu os oito aventureiros pelo interior da imensa fortaleza, levando-os a uma sala grande e sem janelas, iluminada apenas por candelabros e com um forte cheiro de ar fechado. No centro, havia uma mesa espaçosa para doze pessoas.

O grupo se acomodou enquanto Ferrembrasa foi providenciar pergaminhos para anotações e bebidas para todos.

Enquanto aguardavam, o grupo teve uma conversa com Demétrius, que ainda temia por seu destino nas mãos dos juízes de Blur. Réctor tentou acalmá-lo, dizendo que ele já fizera muito por sua redenção e que, talvez, fosse perdoado por seus crimes. O falsário permaneceu tenso, mas colaborativo.

— Sobre esse Horgrundis... alguns dos documentos dele chegavam até Trisque. Talvez, nas minhas coisas, ainda tenha alguma assinatura dele. Pode ser que bata com a desse tal Durnam aí.

— Isso aí, Magrelo, assim que se faz! — elogiou o Guia.

Minutos depois, Dariam retornou com um barril de cerveja sobre os ombros e encheu os canecos de todos.

— Não podemos conversar de boca seca.

Dariam passou um longo tempo redigindo meticulosamente o testemunho de Kórgan. Ao finalizar e assinar os papéis, voltou sua atenção para o restante do grupo, pronto para entender as ramificações mais profundas daquele carregamento místico.

O grupo, especialmente nas palavras de Réctor, explicou que os elfos sombrios buscavam uma forma de canalizar a energia da Aurora Gelada para si como forma de dominar o karma infernal.

— Seu povo já lapidava as pedras da Aurora Gelada, não é? — questionou o feiticeiro.

— O Corvear é uma rocha típica de Blur que não deve ser exposta ao exterior, pois foi com ela que construímos as ferramentas mais poderosas, responsáveis pelo grande cisma há muito tempo. Eu vou comunicar o quartel-central sobre o contrabando. Com certeza, darão a atenção que isso merece.

O grupo falou sobre Elga, a intermediária que negociou com Kovor em Vir-Máliz, mas Ferrembrasa não a relacionou com ninguém. O mapa com o trajeto percorrido pelo contrabandista foi cedido ao comandante, uma vez que o Guia já decorara o percurso.

— Obrigado.

— Inclusive... — interrompeu Haftor. — Tenho um pedido a fazer. Sei que a situação já está bem complicada e é um certo abuso, mas gostaria de levar esse grupo para dentro de Blur. Temos muito o que descobrir, tanto no templo de Crizagom quanto mais perto do Forja. Podemos ajudar a descobrir o paradeiro de Horgrundis.

Dariam ficou perplexo. Era nítido em seu rosto. O Guia quebrou os instantes de silêncio que se seguiram enquanto o comandante processava o pedido inusitado, mencionando o Testamento da Ordem e uma figura importante encontrada junto ao laboratório de Veridion Scriptôr, na Torre Branca do Sul.

— O senhor já ouviu falar de uma tal Irina?

— Não me recordo.

— Ela vivia na torre a leste daqui, perto da costa.

— Os anões que viajam à superfície às vezes não têm relações com Blur. Então, não, eu não a conheci. Mas já ouvi falar do Testamento da Ordem, embora ele não tenha relação com as nossas cidades.

— Eles já tinham muito Corvear.

— Pelo que já ouvi, o Testamento da Ordem é uma lenda muito antiga, talvez anterior ao cisma. Então, é possível que eles tenham manuseado o Corvear com autorização.

— E quem dá essa autorização hoje? — insistiu o Guia.

— Ninguém. É proibido. No passado era um minério muito valioso e que os ferreiros tinham liberdade para trocar. Porém, poucos conseguiam tirá-lo daqui em razão dos preços praticados. Mesmo assim, não era proibido.

— Por que o Corvear foi proibido? — indagou Haldor, que não conhecia a história por trás do metal anão.

— O cisma foi um conflito entre clãs anões ocorrido há muito tempo. Um desses clãs adorava uma entidade externa ao panteão. E eles faziam uso do Corvear para dominar os poderes dela. Eles foram expulsos e, com eles, toda a possibilidade de exportar Corvear.

— É, mas podem ter deixado alguma coisa escrita, né? Se há algum registro, está na biblioteca da capital. — supunha o napol. — Em Caridrândia tem uma biblioteca maior do que a de vocês aqui. Provavelmente eles sabem disso.

A sugestão de que os elfos possuíam uma biblioteca melhor do que a dos anões irritou Dariam. Seu olhar mudou instantaneamente.

— O conhecimento dos elfos é superficial e egocêntrico. Eles não estão preocupados com as tradições anãs. Não estão preocupados nem com as próprias tradições, pois as abandonaram há muito tempo, quando se corromperam.

— É, mas para pegar Corvear sem vocês saberem eles são bons. Duas toneladas de coração nobre. — provocou Réctor.

— Nem o coração mais nobre está imune à corrupção. Você deve saber disso. Duas toneladas são irrelevantes perto da montanha que existe no interior de Blur, entre o Forja e o Krokanon.

— É, mas, pelo que eu sei, devem ter sido cinco ou dez cargas de duas toneladas.

Dariam bateu com a mão na mesa, perdendo a paciência.

O grupo amenizou a situação, alegando que estava ali para ajudar e que o comandante deveria guardar seu rancor para aqueles que o estavam traindo. Então, explicaram que não tinham intenção de insultar, apenas pedir passagem para resolver a situação.

— Eu não sou a pessoa a quem devem pedir entrada em Blur. Mas saiba, Haftor, que, por cento e cinquenta anos, não houve um não anão que tenha pisado no interior das fortalezas. O interior de Blur é cobiçado por muitas pessoas: mercenários, comerciantes... ninguém foi aceito. A terra dos anões é para os anões.

— Mas o que está em jogo é muito grande, senhor. De qualquer forma, agradeço demais a sua compreensão. Vamos fazer o possível para ficar fora do seu caminho.

— Acho que já anotei tudo que precisava ser registrado. Haldor, fale com Gruntor se quiser uma autorização especial, mas eu não seria muito otimista.

O julgamento informal

Após a tensa reunião com Dariam Ferrembrasa, o grupo percebeu que precisaria de uma nova abordagem para entrar na montanha. Decidiram, então, afastar-se do centro burocrático e buscar um lugar para descansar e traçar planos.

Os aventureiros adentraram uma grande taverna construída inteiramente em pedra. O interior estava aconchegante e significativamente mais quente devido às duas lareiras acesas, uma de cada lado do salão. O ambiente era animado, preenchido por cerca de quarenta pessoas, quase todos anões, e pela música de um bardo tocando gaita de fole.

Uma anã taverneira aproximou-se para guiá-los até uma mesa. Garuk, devido ao seu imenso tamanho e anatomia, encontrou dificuldades com o mobiliário local, sendo obrigado a sentar-se no chão.

Depois de serem abastecidos com canecos de cerveja, o grupo pediu um porco para comer. No entanto, “Carne de Bandido” era uma das opções propostas no cardápio pela taverneira. O nome gerou brincadeiras e provocações dirigidas a Demétrius.

A menção ao julgamento fez o grupo retomar o assunto sobre o destino do Atravessador. Como ele já havia ajudado consideravelmente desde a captura, alguns achavam que tinha pago sua dívida com a justiça.

— E, por falar nisso, Haftor, você vai mesmo denunciar Demétrius? — perguntou Olgaria. — Eu acho que ele já pagou a dívida dele, né?

— A lei é clara e ele tem que passar pelo julgamento, mas tenho certeza de que posso dar uma boa palavra para ele se sair bem.

— E se você não conseguir entrar com ele lá no túnel?

Percebendo que talvez houvesse dificuldades para conduzir um bandido para o interior da fortaleza, Réctor surgiu com uma sugestão:

— Mas, olha só, você falou que, quando não tem quem exerça a lei, você pode exercer. Bem, então, se ele não pode entrar e você é a lei, julga ele aí!

— É, Haftor! Resolvemos isso agora! — interessou-se Demétrius.

— Eu acho que o Demétrius já cumpriu a parte dele. — opinou Olgaria.

— É, mas sua opinião não vale aqui. — cortou Réctor.

Haftor decidiu assumir a responsabilidade e iniciar o rito ali mesmo, na mesa da taverna.

Haftor assumiu um tom mais sério e sacerdotal para proferir sua avaliação sobre os atos de Demétrius, enquanto o grupo argumentava que andar com eles já era punição suficiente.

— Você realmente tem mostrado que se redimiu, mas ainda precisa pagar por seus crimes. Você acha que, sem a gente por perto, estaria melhor?

— Eu estaria em Trisque, assinando documentos falsos para Táviga. Não, não estaria melhor.

Réctor intrometeu-se, dizendo que poderia conduzir Demétrius até as terras dos bárbaros e, de lá, ele poderia partir para os reinos do norte, onde haveria “um monte de gente para ele enganar que ainda não o conhecia”.

— Não, ele não vai mais enganar ninguém, não é mesmo? — pressionou Haftor.

— Eu sou outro homem. Por Crizagom, eu juro.

— Cuidado com esse tipo de juramento, hein. — duvidou Réctor. — Vamos fazer o seguinte...

Antes que Réctor pudesse concluir seu pensamento ou Haftor proferisse o veredito final que libertaria oficialmente Demétrius, o julgamento informal foi abruptamente interrompido.

A porta da taverna se abriu, revelando oito homens armados. O líder, um humano de cabelos e barbas grisalhas curtas, vestindo uma tabarda azul, fixou o olhar diretamente em Haftor e deu ordens em voz baixa aos seus homens, espalhando tensão pelo salão anão e dando início a um novo e perigoso conflito.

O duelo de Garuk

— Droga, estava quase livre. — resmungou Demétrius.

O homem aproximou-se da mesa com postura ameaçadora e identificou-se, dirigindo-se a Haftor.

— Eu sou Jorgan, mercenário de Telas, e fui ordenado a levá-lo diretamente para julgamento na cidade.

— Não será necessário, meu nobre. — disse Haftor. — Saiba que a validade dessa procura está sendo questionada. Seria bom aguardar que essa questão se resolvesse antes de querer sua recompensa.

— Fala que você não vai. — instigava Réctor. — Vamos, arranje encrenca.

— Seus companheiros não têm nada a ver com isso. — explicou o mercenário.

— Têm a ver. — pontuou Réctor. — Se você encostar nele, a gente vai arrebentar vocês na porrada.

Haldor sacou seu machado e o apoiou ao lado do corpo, deixando claro que não recuaria. Imediatamente, dezenas de anões da taverna se levantaram e sacaram seus próprios machados, em solidariedade aos compatriotas e em repúdio à insolência do humano de Telas.

Jorgan deu um passo atrás, hesitante.

— Disseram-me que você era um sacerdote honrado, que viria responder por seus crimes.

— Não tem crime, cara. — disse Réctor. — Só tem corrupto naquela cidade.

Intimidado pela demonstração de força coletiva e recuando em suas intenções primárias, Jorgan gesticulou para que seus homens recuassem. Garuk percebeu a hesitação e começou a imitar uma galinha, fazendo barulhos de “pocó” para zombar do líder. A taverna inteira aderiu à humilhação.

— É covarde! — diziam os anões, em coro. — Você não pode entrar numa taverna, fazer uma acusação dessas e sair com o rabinho entre as pernas!

— Que tal um duelo? — desafiou Garuk.

Jorgan virou-se para o sekbete com a mão no punho da espada.

— Valendo a custódia do prisioneiro Haftor.

— E valendo a tua honra, cara. — provocou Réctor. — Você que está aí, recuando.

— Amanhã, ao pôr do sol, do lado de fora.

Garuk não se contentou. Nem Réctor. Eles provocaram o humano, que acabou cedendo a um duelo imediato.

Pressionados, Jorgan e seus homens seguiram para fora da fortaleza, até um campo nevado. Os anões formaram um grande círculo na neve para assistir ao espetáculo. Garuk, demonstrando total desprezo pelo nível de perigo do oponente, fincou seu machado no chão e decidiu lutar apenas com as próprias garras. Jorgan sacou uma espada manchada de sangue.

— Eu vou te arrebentar na mão!

O combate teve início. Jorgan investiu com sua espada larga, mas Garuk esquivou-se habilmente, abaixando-se rente à neve, e contra-atacou repetidamente com suas garras, forçando o mercenário a recuar, pular e gastar muita energia. Jorgan logo começou a suar frio diante da bestialidade de Garuk.

Após mais uma investida falha de Jorgan, cuja lâmina esbarrou inofensivamente na armadura de ossos do combatente bestial, Garuk bateu no próprio peito, atiçando a torcida.

— E isso é um mercenário que se preze para capturar alguém?

O desfecho foi brutal e rápido. Garuk desferiu um golpe com a mão esquerda no ombro e no pescoço de Jorgan, derrubando-o de bruços na neve. No exato instante em que o mercenário apoiou os joelhos no chão e levantou o rosto ensanguentado para tentar se erguer, Garuk desferiu uma garrada de baixo para cima. A unha cravou abaixo do queixo de Jorgan, atravessando a base da boca e arremessando-o no ar. O humano caiu completamente apagado e estirado no chão, com a espada distante do corpo. O sangue manchou a neve e os anões vibraram.

Réctor, sem perder o humor, virou-se para o segundo no comando dos mercenários, que estava prestes a assumir a liderança da tropa diante da morte iminente de Jorgan.

— Parabéns, Galvir!

— O que está acontecendo aqui? — indagou um guarda da fortaleza, aproximando-se.

— Um assassinato! — exclamou outro.

Antes que a situação se tornasse um problema legal, Haftor avançou até o corpo mutilado de Jorgan. Colocando as mãos sobre o mercenário caído, invocou milagres divinos para fechar o terrível ferimento no queixo e despertar o homem, poupando sua vida.

— Está vivo e desperto. — anunciou o paladino.

— Tá tudo certo. — informaram os guardas. — Briga de taverna.

Jorgan despertou atordoado, segurando o próprio queixo, com a língua ainda machucada e presa, e olhou para o sacerdote que fora enviado para caçar e que agora o curava.

— Obrigado, Haftor. Não vou mais persegui-lo.

— É bom saber disso.

— Luta bem. — disse o homem, voltando-se para Garuk.

— Eu queria que você lutasse melhor, mas obrigado. — desdenhou Garuk.

Para selar o humilhante fim do contrato do mercenário, Haftor lhe deu uma última penitência antes de liberá-lo junto de seus homens perplexos.

— Sua ressurreição não pode ser gratuita. Não esqueça de passar em um templo no caminho e fazer uma doação... Não deixa no de Telas também não, tá?

Os mercenários de Telas recolheram suas coisas e partiram derrotados. Sob os olhares de admiração dos anões, que cumprimentavam Garuk com respeito, os aventureiros retornaram para a taverna para terminar a refeição prometida.

A estratégia para entrar em Blur

— Muito obrigado, meus amigos. Eu vou ficar com vocês. — declarou Demétrius, após o julgamento informal realizado por Haftor, que o absolveu.

Enquanto comiam, os aventureiros começaram a debater seus próximos passos em relação aos elfos sombrios e ao misterioso contrabando. Eles sabiam que precisavam atrair os inimigos para fora, mas também concordavam que, antes de qualquer confronto direto ou emboscada, era fundamental garantir o acesso oficial às galerias internas de Blur. Evitando os tortuosos caminhos da burocracia, Haldor decidiu que a melhor tática seria uma abordagem direta e pessoal com o líder militar.

Como o nome de Haftor ainda estava manchado pelas acusações vindas de Telas, Haldor optou por levar consigo o recém-resgatado Kórgan.

Haldor e Kórgan caminharam até o imenso paredão na montanha e adentraram por uma porta guarnecida. Os anões presentes abriram caminho em sinal de respeito. No trajeto, foram abordados por um guarda anão conhecido de Haldor, que ficou surpreso ao ver Kórgan vivo.

— Olá, Kórgan. Achei que estava morto! É um prazer vê-los bem. Vieram falar com quem? — questionou um dos guardas.

— O prazer é nosso, meu querido. Viemos ver o mestre Gruntor. — anunciou Haldor.

— Venham comigo. Eu os levo até ele.

— Como estão as coisas?

— Você ouviu falar do resfriamento do Krokanon? Algumas alas de Blur estão preocupadas, achando que podem congelar. Os artífices também dizem que não vão conseguir trabalhar e que as tradições vão se perder.

— Daremos um jeito, nem que tenhamos que pedir ajuda aos magos para aquecer nossas forjas.

— Não diga isso para Gruntor ou vai conquistar a antipatia dele pela eternidade. — alertou o guarda, que já terminava o trajeto até a grande porta de madeira que separava o corredor de pedra da sala do líder militar.

— Como está, meu amigo? — indagou Gruntor, aproximando-se para cumprimentar Haldor com um abraço.

— Estou bem.

— Está bem mesmo? Ouvi notícias trágicas sobre seu irmão.

— Tudo mentira.

— Eu não duvido. Aquele sacerdote de Telas é um tremendo vigarista.

— Na verdade, venho, além de cumprimentar meu nobre amigo, que não vejo há tempos, para trazer de volta nosso amigo Kórgan, que estava prisioneiro.

— É uma honra ver um guarda veterano sobrevivente de tantas batalhas. — elogiou Gruntor, referindo-se a Kórgan. — Cada um de nossos homens armados é uma peça importante.

— Temos traidores. — alertou Haldor.

— Pelo visto, sua estadia na superfície não o amoleceu nem um pouco, meu amigo.

— Pelo contrário! Vi coisas horríveis e vi que nossa tradição e filosofia devem ser cada vez mais preservadas.

Preparado o terreno diplomático, Haldor expôs o verdadeiro motivo da visita. Revelou que sua comitiva investigava os infiltrados em Blur e ousou ligar o contrabando à anomalia do vulcão.

— Eu falei com Ferrembrasa, e ele me orientou a falar pessoalmente com você para que autorizasse eu e minha comitiva, sob minha total responsabilidade, a atravessar nossos domínios.

Apesar do olhar desconfiado, Gruntor pareceu considerar o pedido.

— Hum... entendo. E são você e mais quantos?

— Somos oito.

Ao mencionar cada um dos companheiros, Gruntor invocou as tradições.

— Nossa tradição não permite que não anões entrem em Blur. Por que abriríamos uma exceção agora?

— O Krokanon está definhando, reduzindo sua potência, e nós temos uma chance de recuperar seu vigor. Horgrundis está contrabandeando Corvear debaixo dos nossos narizes.

— Nós não estamos conseguindo resolver isso.

— E este pode ser o motivo que está enfraquecendo o nosso vulcão. Eu tenho certeza de que, se resolvermos esse problema, você será lembrado como o grande líder que autorizou esse feito.

— Mesmo assim... — ponderou o líder de Tar-Néldor. — Parece-me algo muito delicado autorizar o acesso de cinco não anões às galerias de Blur. Você compreende a responsabilidade.

— Com certeza. — compadeceu-se Haldor. — E eu me responsabilizo por cada um deles e dou o meu pescoço a prêmio.

— Sua honra e sua reputação como fiadores deste acordo não são pouca coisa. — considerou Gruntor. — Mesmo seu irmão, que teve a honra manchada pelos últimos episódios, ainda mantém reputação entre os nossos, graças a tudo que cultivaram no passado.

— Mas em breve meu irmão terá o nome limpo. São apenas boatos maldosos de pessoas corruptas.

— Bem... vou precisar pensar uma noite. — anunciou. — Traga-me os nomes e o histórico de cada um dos não anões que o acompanharão. Eu decidirei pela manhã.

Com a promessa de Gruntor, Haldor despediu-se do mestre anão e retornou rapidamente à taverna onde o resto do grupo aguardava. Explicou as dificuldades da reunião e as exigências impostas para a liberação.

Os membros do grupo tentaram entender exatamente o que deveria constar naquele documento oficial e quais eram os limites da tolerância de Gruntor.

— Eu dei a minha palavra a ele de que não vamos fazer nada de errado e nem divulgar nenhum dos segredos que veremos lá embaixo. — explicou Haldor.

Sabendo da exigência de um relatório minucioso e formal sobre os feitos heroicos de aventureiros tão exóticos, o grupo recorreu imediatamente ao talento providencial do membro recém-absolvido. Com isso, Haftor encarregou-se de redigir o pergaminho em pedra, enquanto Demétrius o ditava minuciosamente, garantindo as palavras certas para que todos os feitos realizados por cada membro fossem traduzidos em características aceitáveis para seu acesso ao reino anão.

A mensagem foi entregue na fortaleza com o raiar do sol. Depois, por volta das onze horas, enquanto uma leve neve caía sobre a cidade de Tar-Néldor, um mensageiro da fortaleza chegou à estalagem procurando pelo responsável pelo pedido. O pergaminho dizia:

“Sob a responsabilidade do guarda Haldor, estão autorizados a entrar em Blur os sekbetes Garuk e Goragar, o napol Réctor e os humanos Olgaria e Demétrius. Nenhum deles poderá permanecer desacompanhado de Haldor enquanto se encontrar nas galerias. Se capturados, serão exilados eternamente. Esta autorização tem validade de quinze dias.”

O grupo comemorou. No entanto, ainda tinham tarefas a cumprir antes de entrar. Os quinze dias passavam a contar imediatamente.

A estatueta de Rodérico

Antes de começarem sua jornada de volta ao sul, Réctor verificou a integridade de sua casa dos sonhos. Como utilizava a tiara de Andote, o napol esperava observar alguma alteração nos filamentos dourados. O que viu, no entanto, foi um congelamento total do progresso da Aurora Gelada em sua mente. Nenhuma mudança foi observada: nenhum fio aumentou e nenhum diminuiu enquanto permaneceu com o adorno. Apesar disso, o feiticeiro sentia algo diferente. Algo inexplicável que parecia tornar o ambiente de sua casa distinto do que era em seu acesso anterior.

Sem conseguir deduzir do que se tratava, Réctor voltou-se para o planejamento de como atrair os elfos sombrios para uma armadilha junto de seus companheiros.

O plano consistia em montar uma armadilha na estrada e sobrevoar a área com a nuvem voadora. Quando os elfos sombrios encontrassem a isca, a estatueta de Andote, o grupo os abordaria de surpresa.

Definida a estratégia, retornaram para o Solar das Sombras Longas para falar com Andote e pegar a estatueta.

— Acho que essa é a peça ideal para vocês levarem. — disse Andote, carregando uma estatueta com a inscrição: “Talvez forma e memória sejam a mesma coisa”. — Levem esta.

Com o objeto em mãos, Réctor relatou à artesã a eficácia da tiara de Corvear.

— A tiara inibe a influência da Aurora.

— Interessante... Eu tenho sentido algumas coisas esquisitas. Vou usá-la. Talvez meu pai estivesse certo.

Antes de partir, Réctor explicou que, caso precisasse conversar com Andote, a convocaria em sonhos.

A maga do grupo de Kovor fora a única prisioneira ainda não entregue à justiça. Sombra a ressuscitou, pois o grupo precisava obter algumas informações.

— Eu negociei com anões em Vir-Máliz. — disse a maga.

— Você sabe o nome desses anões ou a aparência deles?

— Os que eu conversei, sim.

— Então entregue-os.

— Nenhum deles era Horgrundis. Eram dois subordinados dele.

Réctor demonstrou desprezo pela situação da maga, uma estudiosa que se vendera para uma função mercenária. A mulher, indignada, rejeitou a pena que o napol sentia.

Réctor, então, pôs-se a fazer um retrato falado dos anões que a maga descreveu. Com a arte em mãos, o grupo tinha mais uma ferramenta para encontrar os traidores.

Estavam prontos para colocar o plano de emboscada em ação.

Tar-Néldor, dias 28 e 29 do mês da Sabedoria do ano de 1502

domingo, 24 de maio de 2026

(LA) Sessão 41

Sessão 41 - A abordagem dos contrabandistas

A batalha sangrenta

O grupo já possuía a informação sobre a carga: corvear contrabandeado.

Decididos a atacar, os aventureiros planejaram como fariam isso. Réctor conduziria sua nuvem até a superfície, e o grupo investiria rapidamente para aproveitar a vantagem da iniciativa. A maga era a prioridade.

Os aventureiros prepararam suas armas e encantamentos antes de emboscar o inimigo. Garuk saltou de quase cinco metros de altura sobre um inimigo, que o percebeu pela sombra e se esquivou no último instante. O peso do sekbete o fez afundar na neve e criou uma pequena distração. O restante do grupo o seguiu.

No entanto, o inimigo estava em alerta, e apenas Garuk teve a vantagem da surpresa.

Olgaria, Réctor, Guia e todos os outros saltaram da nuvem e atacaram os inimigos à sua maneira. Enquanto a zumi e os anões avançavam a pé, o napol e o Guia preferiam lutar à distância.

— Protejam a carga! — gritou o chefe da caravana, enquanto se preparava para o combate.

Sombra foi quem iniciou o confronto com o alvo prioritário. Invadindo a carroça com a carga de corvear, a amiga imaginária de Réctor farejou a mística invisível e lançou sua baforada de chamas. O calor não a revelou, mas a presença da inimiga era certa.

— Eu sei que você está aqui. Eu vi você. — pronunciou a amiga de Réctor com sua voz espectral.

O Guia seguiu a aliada. Abandonando o arco, o rastreador lançou marteladas às cegas dentro da carruagem, guiado apenas pelo faro da humana.

— Afaste-se, besta! — gritou a maga, enquanto seu corpo surgia no vazio. Ao tentar conjurar um feitiço sobre o Guia, ela quebrou a regra de sua própria invisibilidade.

O receio que o Guia sentiu ao ver o cajado da inimiga, no entanto, logo se dissipou. O encantamento lançado contra ele falhara e, agora, a inimiga estava ao alcance do martelo.

Enquanto isso, Haftor, Haldor e Kórgan digladiavam-se contra os soldados da caravana do lado de fora da carruagem. Os mercenários retribuíam com uma saraivada de flechas e golpes de espada, tentando manter a formação.

Porém, a formação bem posicionada dos inimigos era tudo de que Garuk precisava. Embrenhando-se no meio do campo de batalha, o sekbete lançou seu rugido aterrorizante, um rito berserker capaz de quebrar a confiança até mesmo do mais corajoso inimigo.

A maior parte dos inimigos se apavorou. Alguns poucos, no entanto, resistiram.

O rugido do sekbete não apenas aterrorizava, mas também distraía. Uma das protetoras da caravana que não demonstrou medo se despreviniu. Olgaria aproveitou. Quando a mulher se virou para a zumi, a lâmina do machado já visava seu pescoço em um golpe brutal e fatal.

Réctor ampliou o pavor sobre seus inimigos enquanto sobrevoava o campo de batalha. Um feitiço assustador passou a sufocá-los. Aqueles que já estavam com medo correram apavorados, caindo pelo campo em agonia. Os que ainda mantinham a compostura conseguiram segurar a respiração para permanecer, ao menos, preparados para se defender.

A maga, sem conseguir respirar e vendo seus companheiros sufocarem até a morte, cambaleou para fora da carroça. Desesperada, clamou por um dos soldados próximos, mas já era tarde.

O Guia e Kórgan a perseguiram. Uma marretada do rastreador a lançou ao chão. O machado de Kórgan a feriu gravemente. Demétrius, oportunamente, desferiu o golpe final em suas costas.

Com a principal ameaça eliminada, a carnificina continuou ao redor. Vários mercenários pereceram sufocados na neve, enquanto outros tombavam sob os ataques de Haftor, Sombra e Haldor.

— Nós nos rendemos! — gritou Kovor, mantendo a posição defensiva enquanto os sobreviventes se agrupavam ao seu redor. — Apenas nos deixem ir e levem a carga que quiserem.

— Vamos duelar só nós dois, e quem perder, perde tudo. — sugeriu Garuk.

O berserker pressionou o comandante inimigo, que não teve opção senão defender-se.

— Eu me rendo! — esbravejava o inimigo, em pânico, mas Garuk persistia.

— Solte sua arma! — ordenou Haftor.

Após um segundo reunindo coragem para largar sua única arma diante do enorme Garuk brandindo um machado à sua frente, o guerreiro resolveu render-se completamente.

— Covarde! — bufou Garuk, desapontado.

Os poucos guardas sobreviventes fizeram o mesmo. O grupo reuniu cordas, amarrou-os e os colocou de joelhos.

A rota dos contrabandistas

Os prisioneiros foram agrupados no campo nevado para serem interrogados. Garuk permaneceu por perto, enquanto Réctor ditava o ritmo.

— O que vocês estão fazendo com esse material, e quem o forneceu para vocês?

— Estamos apenas transportando para o acampamento élfico.

Percebendo a dificuldade que teria para obter informações, o napol ameaçou os prisioneiros com a irracionalidade de Garuk. “Ele é instável”, “ele gosta muito de pés” e “o Garuk é sanguinário” foram alguns dos argumentos utilizados pelo feiticeiro.

— Nós trouxemos o corvear de uma fortaleza ao norte. — Kovor começou a revelar, hesitante.

— Com quem vocês conseguiram?

— Peguei com um intermediário, mas a carga pertencia a alguém chamado Horgrundis.

— Isso eu vi, está escrito na carga. Eu quero saber quem é o intermediário.

— É uma anã. Elga. Foi como ela se apresentou para mim.

O nome não era familiar nem para Haldor nem para Haftor.

— Quanto material há na carga? — continuou Réctor.

— Umas duas toneladas — revelou Kovor. — Disseram-me que seria um serviço fácil, rápido e limpo.

— Como você se sente por ter roubado um metal tão precioso?

— Eu não roubei — insistiu o contrabandista.

O grupo percebeu que Horgrundis havia criado uma rede muito maior do que imaginavam. Seus tentáculos permaneciam em Blur, e ele os utilizava para extrair corvear e profanar o metal raro das montanhas em colaboração com os inimigos sombrios.

Emquanto o interrogatório continuava, o restante do grupo revistava a carruagem e os corpos caídos. Durante as buscas, encontraram documentos: um mapa que conectava a fortaleza de Vir-Máliz ao acampamento élfico, evitando todas as fortalezas anãs e outros agrupamentos sombrios.

— E para quem vocês entregariam essa carga? — continuou Réctor.

— Fomos encarregados de entregar ao líder do acampamento élfico, Vorgon, o Dilacerador.

Com as informações reunidas, os prisioneiros imobilizados e a carga segura, Réctor criou três nuvens voadoras para transportar todos até a fortaleza anã de Tar-Néldor. O grupo pretendia entregar os prisioneiros às autoridades antes de prosseguir com o plano de enfrentar os elfos sombrios. Os cavalos seriam transportados para o plano onírico do feiticeiro.

Com tudo definido, o grupo seguiu viagem pela nuvem voadora, percorrendo o longo caminho sem precisar enfrentar o terreno difícil. Assim, chegaram à fortaleza no início da noite.

O procurado

A aproximação com a estrada que conectava Telas à fortaleza anã de Tar-Néldor era marcada por um aumento na quantidade de tropas circulando. O Guia, que se mantinha atento à superfície, comunicava ao grupo todas as alterações.

— Eu acho melhor descermos um pouco antes, porque não vai ser muito legal chegar à fortaleza anã em uma nuvem — concluiu Réctor.

A decisão se mostrou acertada. As balestras da cidadela já apontavam para os aventureiros quando eles desembarcaram perto dos muros. A nevasca e a noite obstruíam uma visão clara, dificultando sua identificação, mas, ao mesmo tempo, impedindo que fossem alvos fáceis.

Os anões lideraram a comitiva. O grupo atravessou os portões e logo se encontrou no centro do distrito comercial, o setor superficial da fortaleza.

— O comandante quer conversar com você. — disse um guarda a Haftor, que conduzia a diplomacia. — Depois de deixar os prisioneiros, peço que vá ao quartel.

Haftor estranhou a recepção, mas Haldor logo percebeu a razão. Estampado em uma das paredes, um cartaz de procurado exibia o rosto de Haftor e uma recompensa de 70 moedas de ouro.

— Aí, mano, vou ganhar uma recompensa! — brincou Haldor, apesar da gravidade da situação.

O cartaz denunciava Haftor por traição em Telas, por descumprimento de leis e por traição à Ordem de Crizagom.

Indignado, o paladino recolheu o cartaz e o guardou consigo. Ele e seu irmão marcharam em direção ao quartel, carregando os prisioneiros para a reunião com o comandante da fortaleza.

A dupla percebeu olhares estranhos dirigidos a Haftor enquanto caminhava. Apesar disso, ninguém abordou o anão. Ao que tudo indicava, os habitantes da fortaleza ignoravam a ordem emitida pelo sacerdote de Telas.

— Senhor Haldor! — cumprimentou um dos guardas, reconhecendo o compatriota.

— E o senhor, como está? — perguntou outro, dirigindo-se a Haftor. Sua expressão era de pesar. — Lamento pela sua situação e pela situação em Telas. Espero que possa resolver tudo.

— Fique tranquilo. Não estou nem um pouco preocupado. É tudo mentira.

Após tranquilizarem os guardas, os dois foram guiados para o interior da fortaleza, até o gabinete do comandante.

Atrás de uma mesa repleta de documentos, assinando pergaminhos com uma enorme pena tinteiro, o comandante calvo ergueu a cabeça alguns instantes após autorizar a entrada dos irmãos. Levantou-se, contornou a mesa e, com um sorriso, começou:

— Se não é Haftor, o paladino renegado!

— Gostaria de saber: renegado por quem?

Mantendo a postura firme, mas retirando o sorriso do rosto, Dariam Ferrembrasa, o comandante, apontou para a quantidade de problemas burocráticos que estava resolvendo.

— Tem uma pilha de papéis aqui para assinar. Muitos deles dizem respeito ao senhor. Precisamos conversar.

Apesar da entrada tensa, Dariam logo quebrou o clima. Ao perceber Haldor, estendeu a mão para cumprimentar o velho conhecido.

— É bom revê-lo, Haldor.

— É igualmente bom estar em casa.

— Sentem-se. Nossa conversa precisa ser produtiva.

Tar-Néldor, dias 28 e 29 do mês da Sabedoria do ano de 1502.

domingo, 17 de maio de 2026

(LA) Sessão 40

Sinais do traídor

Os sangares no Solar

— Você já viu o que aconteceu, Sonhador. — intimou a velha senhora da tribo.

— Tenho tantas dúvidas. — admitiu Réctor. — Se você conseguisse me esclarecer, seria ótimo.

As palavras da anciã ecoavam profundamente, como se carregassem uma verdade palpável, mas indistinguível. Andote, trêmula e tensa diante da grande comitiva parada logo atrás das grades, interpelou com desconfiança:

— Isara, desta vez você trouxe toda a sua tribo? Isso parece uma ameaça.

— Sentimos o fio sendo puxado. — rebateu Isara com serenidade, balançando o cajado em gestos contidos. — Precisávamos vir. O despertar é iminente.

— Mas você… — interveio Réctor, dirigindo-se a Isara ao perceber o nervosismo de Andote, que buscava palavras enquanto suava frio. — Vocês vieram com atitudes hostis? Vão criar problemas aqui?

— Não temos a intenção de provocar o mal. Apenas queremos impedir que o despertar seja barrado outra vez.

— A Aurora Gelada me disse que, assim que tudo se iniciar, não terá mais como parar. Não se preocupe, acho que vai dar certo. O tempo…

— … o tempo corre diferente do nosso. — interrompeu Isara. — O despertar ocorrerá no momento propício. Isso pode levar gerações. Eras.

— Eu acho que não vai, não. Acho que está para acontecer.

— O que as obras e meu pai têm a ver com algo tão grandioso? — questionou Andote, ainda nervosa. — Mesmo que signifique alguma coisa, elas são apenas… apenas um sinal. Por que vêm até aqui como se estivessem tão obcecados quanto ele?

Isara apontou o cajado para a tiara de Andote.

— Tire sua tiara, Andote. Veja com seus próprios olhos aquilo que seu pai via. Abrace o despertar.

— Viu? Não falei que era só um bloqueador? — vangloriou-se Réctor.

Andote recuou assustada e levou a mão à tiara, sem removê-la.

Haftor e Haldor chegavam da patrulha nos muros. O paladino apresentou-se diretamente:

— Eu sou Haftor, campeão de Crizagom, e gostaria de entender melhor a sua cultura, se possível. Seu povo tem relações diferentes com o despertar. O que é o despertar para vocês?

— A restauração do ciclo como o mundo deveria ser.

— E qual benefício isso vai trazer?

Baixando a cabeça e apoiando o peso do corpo no cajado, a anciã permaneceu alguns segundos em silêncio, formulando uma resposta.

— Diga-me: qual o benefício da paralisia do mundo em que vivemos hoje? A Aurora Gelada está acordando não para cobrir o mundo de gelo, mas para fazer o tempo voltar a correr, sacerdote. Ela trará um inverno verdadeiro, um inverno que mata a terra, mas que permite que a primavera também nasça. Sem ela, continuaremos sendo essa carcaça congelada para sempre.

— Entendo. Então vocês almejam o despertar da Aurora para conseguir a primavera.

— Você e outros homens da cidade olham para nós, para o sul, e veem apenas um deserto de neve eterna. Mas o frio que racha os ossos não é o desenho dos deuses; é uma ferida. Uma ferida que nunca foi fechada. As geleiras são o tempo parado, um cadáver. Vivemos sobre o corpo de um cadáver apodrecido.

— E o que é essa sombra… — questionou o feiticeiro, apontando para as estátuas que brilhavam em azul. — … que dizem poder desfazer o despertar? O “Mal Sob o Gelo” me parece um antagonista dela, não é?

— Todas as lendas sangares convergem para o mesmo mal, e todas representam o mesmo despertar. Onde o sangue da aurora pinga, a terra responde.

Isara apontou o cajado para a base de uma estátua que brilhava em azul. Réctor e Garuk acompanharam o gesto e testemunharam uma mudança drástica em relação ao que haviam presenciado minutos antes. Onde uma flor desabrochara aos olhos de Réctor, agora erguia-se um pequeno mortalo.

— Você sonha com brotos verdes, vales quentes e o abraço de Maira. Mas eu caminhei pelas franjas de Telas. Vi vinhas escuras que se alimentam do chorume de mortalos.

— Talvez o despertar dela dependa de nós… de mi, de você… Eu não sei. — refletiu Réctor.

Enquanto Olgaria juntava-se à reunião no pátio, Isara continuava a conversa com o feiticeiro:

— Qual é o verdadeiro rosto da dama, Sonhador?

O napol sacou o artefato tindadeli de seus pertences e o estendeu a Isara.

— Não tem rosto. Ela parecia isso: o escuro, pontos luminosos… Parecia um céu estrelado.

Maravilhada com a revelação e com a esfera cósmica, Isara ergueu o cajado para observar o objeto com atenção.

— Minhas visões silenciaram antes dessa revelação. Não sei se ela trará o jardim que cura ou a floresta de ossos que se levanta da terra.

— Eu acredito que seja o jardim que cura. — respondeu o feiticeiro. — Pelo menos, até agora, é o que tenho visto. Os elfos sombrios têm tentado fazer com que a energia dela sirva a eles. Mas o que você veio fazer aqui?

— Fomos atraídos pela mácula no éter. Sentimos a podridão. Prevíamos que suas obras, Andote, manifestariam esse presságio. E talvez tenhamos chegado no momento certo, e nosso encontro seja o verdadeiro presságio.

— E o que deseja fazer agora que está aqui? — indagou Haftor.

— Deixe-nos entrar. Deixe-nos observar suas estátuas, as obras de seu pai, o canto que elas executam.

— Andote — iniciou Réctor — você teme que eles façam alguma coisa com as obras de seu pai?

Após alguns segundos de reflexão, a herdeira quebrou o silêncio com a voz embargada, olhando para a multidão silenciosa além dos portões:

— Eles falam como meu pai.

— Isso talvez não seja um grande problema. Talvez eles tragam respostas que seu pai não te deu. Porque, pelo que entendi — disse o feiticeiro, apontando para a tiara — seu pai te protegeu todo esse tempo. E ele recebeu toda essa carga, a mesma que eu tenho recebido, mas tenho conseguido controlar.

Andote pôs a mão na testa e tocou a joia recebida do pai. Sua expressão ainda demonstrava receio, mas sua compostura já havia retornado diante da chegada de Isara.

— Talvez seja o momento de você realmente tirar essa tiara e tentar entender um pouco do que seu pai passou. — continuou Réctor. — Às vezes é mais fácil compreender alguém passando pelos mesmos problemas. Talvez assim você entenda seu pai.

— Eu tenho uma sugestão. — interveio Haftor, preocupado que a remoção súbita do artefato pudesse causar um colapso na artesã. — Sugiro que esperemos até ela tirar a tiara, sentir o que tiver de sentir e, depois, decidimos se abrimos o portão ou não.

Andote, no entanto, respirou fundo e tomou sua decisão final, inspirada pelo feiticeiro.

— Eu não preciso temer essas pessoas.

Enquanto isso, o Guia infiltrava-se entre os sangares através de sua sombra projetada. O rastreador buscava sinais de algum elfo sombrio infiltrado, mas percebeu que o grupo era formado apenas por humanos. Eles eram quem diziam ser.

— Não traremos nada que já não exista aqui, Andote. — apelou Isara. — Sua oficina está sendo invadida por raízes sombrias. Se você não terminar o que seu pai começou, as sombras terminarão por você.

— Que seja, então. Guardas, abram os portões para o povo sangar!

Os guardas do solar hesitaram, trêmulos, recuando diante do portão de ferro. Ao notar o princípio de insubordinação decorrente do medo, Haldor deu um passo à frente e soltou um forte brado militar para reerguer a moral dos homens.

— Vamos, homens! Não esmoreçam! Ordens são ordens!

As grades abriram-se por completo, e o povo sangar iniciou sua entrada solene no solar, marchando em filas de três. Cada nativo trazia consigo uma pequena lanterna azulada que emitia um brilho idêntico ao das estátuas.

Ignorando Isara, Andote ou os aventureiros, os homens e mulheres da tribo espalharam-se imediatamente pelos jardins, ajoelhando-se individualmente aos pés de cada escultura de pedra e iniciando sussurros e mantras ritualísticos em um idioma incompreensível, consolidando a ocupação pacífica do Solar das Sombras Longas.

Enquanto isso, Réctor chamou Isara para sua casa dos sonhos. O feiticeiro mostrou como os fios dourados expandiam-se de forma desordenada, enredando-se no cerne de seu éter. Ele colocou a roca nas mãos da anciã, que fiou com o objeto mágico e viu o filamento dourado regredir.

— Esse fio… — iniciou Réctor. — Tem se enrolado cada vez mais na minha árvore central. Cada vez que você usa a roca, eles recuam um pouco.

— Eu nunca havia visitado uma casa onírica como esta. — revelou a sangar, devolvendo a roca ao anfitrião. — Seus poderes são incríveis, mas sua relação com a entidade é ainda mais impressionante. Nunca imaginei que o domínio que ela exerce sobre nós pudesse ser tão… tangível.

— Eu estive na presença dela duas vezes. Em uma delas havia um arauto, “Aquele que Vela o Instante”. É a voz dele que você escuta nas estátuas.

Enquanto os dois conversavam, Haftor observou um detalhe crucial na cintura da anciã: uma sutil pulsação luminosa azulada no exato momento em que ela manuseou a roca. O paladino guardou a informação para si, mas deduziu que Isara possuía um fragmento do Sangue da Aurora.

— Convivo com profecias e lembranças do despertar desde muito jovem, mas jamais o senti tão perto, tão iminente. Ver esses fios espalhando-se em sua mente é como a comprovação de que minhas visões não são delírios, como os homens da cidade costumam dizer. A Dama do Ciclo talvez esteja, de fato, quase entre nós. Infelizmente, não posso lhe dizer muito, pois minhas visões cessaram há alguns meses.

Simultaneamente, o Guia permanecia na guarita de vigia. Depois de confirmar a legitimidade do povo tribal, manteve os olhos concentrados na floresta ao redor do Solar.

Com a visão aprimorada por seus sortilégios sombrios, o rastreador percebeu, na escuridão além das luzes do Solar, um corvo sombrio batendo em retirada assim que Réctor e Haftor entraram no ambiente onírico. Imediatamente, Petisco emitiu dois pios, indicando perigo.

“Siga-a”, ordenou mentalmente o Guia.

Depois, avisou Olgaria sobre o ocorrido. A zumi entrou na casa dos sonhos e alertou o feiticeiro e o paladino:

— Réctor, estávamos sendo vigiados! O Guia quer falar conosco.

— Quem estava nos vigiando? Os sombrios? Talvez Vaela?

Isara esboçou uma reação familiar ao ouvir o nome da elfa. O feiticeiro percebeu e perguntou se a conhecia.

— Eu já estive com ela. Ela se proclama uma pesquisadora dos elfos sombrios, alguém com sabedoria e conhecimento acima de todos os outros, de todos os sangares.

O grupo retornou ao solar. Discretamente, Haftor revelou a informação ao feiticeiro:

— Ela tem uma das pedras!

— Onde estão os outros? Estamos sendo observados. — interrompeu o Guia.

— Eu não vi nada. — avisou Olgaria.

— Era um corvo sombrio. Assim que vocês entraram na casa dos sonhos, ele se afastou para oeste.

— Será que eram os elfos?

— Bem provável. Petisco foi atrás deles, mas eu queria rastreá-los. Pode ser a oportunidade de pegá-los.

— Será que dá tempo? — indagou o feiticeiro.

— Sempre dá. — insistiu o Guia, com um sorriso.

— É melhor irmos rápido. — sugeriu Haftor. — Só tenho uma preocupação: pode ser um engodo.

— Pode ser. — ponderou o feiticeiro.

Isara aproximou-se do círculo dos aventureiros com passos lentos e firmes. Tendo escutado os fragmentos finais da conversa, interpelou-os com seriedade:

— Qual acordo vocês possuem com os elfos sombrios?

— Nenhum, senhora. — respondeu o Guia prontamente. — Matar todos. Todos!

— As intenções deles com a Dama do Ciclo são diferentes das nossas. — explicou Réctor. — Eles buscam construir, ou reconstruir, a própria Dama à vontade deles. Querem purificar sua essência de alguma forma.

— Pelo que me disseram, eles querem apenas potencializá-la, remover os riscos. Dizem que encontraram a fonte perfeita de poder. — esclareceu a anciã.

— Ô, dona velha, posso fazer uma pergunta? Quem foi que impediu a dama da outra vez? Deve ter sido alguém muito poderoso, já que ela é tão forte assim.

Isara franziu o cenho e permaneceu alguns instantes encarando o horizonte sombrio antes de responder:

— Eu não sei essa resposta. Nunca chegou até mim. — Então voltou-se para Réctor.

— Um de nossos rastreadores sabe o local onde os elfos sombrios mantêm um acampamento. Eles vão lá com frequência. Talvez Vaela também visite o lugar.

— E fica em que direção? — perguntou o Guia. — Cadê esse sujeito?

Isara procurou entre os membros de sua tribo, que entoavam mantras no pátio, e apontou para um guerreiro esguio de feições firmes que orava próximo a uma escultura cuja tonalidade azul começava a minguar.

— A anciã falou que você sabe onde fica o acampamento dos sombrios.

Vailór, o rastreador, apontou para oeste enquanto respondia ao sekbete:

— No desfiladeiro da Garganta Seca, perto da montanha além da primeira colina, antes da próxima montanha.

— Você sabe quantos são?

— É um agrupamento grande. A última vez que estive lá trocando peles, deveriam ser cerca de cinquenta.

— Eles têm corvos?

— Sim. São seus animais de criação preferidos.

O Guia sentiu a direção para a qual Petisco voava e confirmou que o animal seguia as orientações do rastreador. Depois, ouviu as explicações detalhadas de Vailór. O trajeto levaria cerca de dezoito horas de marcha acelerada, o equivalente a dois dias e meio de deslocamento normal para uma caravana comum através da neve profunda das Terras Selvagens do sul.

— Olha, não é um grupo pequeno, não. — informou o Guia aos companheiros. — O cara falou que deve ter umas cinquenta cabeças. Tem fortificação de madeira. É um posto comercial. Vai levar uns dois dias até lá.

— Talvez seja melhor seguir o plano inicial e atraí-los para um lugar neutro. — sugeriu Haftor.

Enquanto discutiam, o Guia foi acometido por um choque e uma dor aguda e lancinante. O elo místico com Petisco havia sido quebrado: o animal fora abatido.

— Pelo menos agora eles sabem que a gente também está observando. — amenizou Réctor.

A coruja havia partido há quase quatro horas. Pelos cálculos do Guia, deveria estar próxima do acampamento inimigo. O forte talvez já estivesse em alerta máximo.

— Ele foi muito corajoso. — encorajou Haldor. — Teve uma morte digna. Foi um bom companheiro.

Os negócios do acampamento sombrio

A tensão era palpável. Repentinamente, a morte de Petisco fez o grupo sentir a presença dos elfos sombrios tão próxima quanto em Telas. O perigo era real.

Nesse ambiente de urgência, a jovem herdeira de Rodérico tomou sua decisão. Os pesados portões da mansão se abriram, e a mulher surgiu sem sua tiara de corvear.

— Resolvi tirar. — explicou de forma simples e humilde.

— Logo verá o que seu pai via. — profetizou Isara. — E ouvirá e compreenderá o destino do mundo.

— Quando você se sentir ameaçada por esses pensamentos, coloque a tiara de novo. Talvez seja como o meu tear. Talvez rebobine um pouco o fio.

Vailór aproximou-se do círculo e postou-se ao lado da anciã.

— Não sei como seu pai forjou aquele objeto que apenas os anões possuem. Mas também não entendo por que ele queria isolá-la do contato com a Dama do Ciclo. Será bom para você ver tudo.

— Ele ficou maluco, né? — explicou Réctor. — De repente, queria poupar ela.

A reflexão do feiticeiro o fez cogitar se a tiara de Andote não poderia produzir o mesmo efeito da roca em sua mente. O grupo questionava se o corvear realmente seria capaz de impedir esse fenômeno. Ao escutar o nome do metal, Vailór interveio:

— Corvear? Já ouvi esse nome. É como se chama a sua tiara?

— Onde você ouviu isso? — interrompeu Réctor.

— Os elfos do acampamento estão esperando um carregamento que virá de um anão.

— Ih! E quando foi isso?

— Agora a gente vai ter que visitar a cidade. — complementou o Guia.

— Faz alguns dias. — continuou o rastreador sangar. — A última vez que estivemos lá… — o homem lançou um olhar pensativo para sua anciã antes de completar: — Uma semana, no máximo.

— Ô, Haftor, qual era o nome daquele anão traidor?

— Horgrundis.

— Isso, exatamente isso. — concordou Vailór.

Com a nova informação, o grupo começou a traçar um novo plano. O acampamento sombrio parecia grande demais para uma abordagem direta. No entanto, interceptar o carregamento de corvear poderia representar um golpe poderoso contra os inimigos.

— De onde viria essa carga? — questionou o paladino ao sangar.

— Os elfos não disseram, mas vem dos anões. Deve vir dos montes. Não há muitas rotas comerciais. Se não vier pelas rotas secretas de Blur, só pode ter vindo pela mesma estrada que vocês utilizaram.

As perguntas sobre o corvear continuaram. Pelas informações de Vailór, aquele não seria o primeiro carregamento recebido pelo acampamento.

Com o fim das discussões e dos brilhos azuis nas estátuas, os sangares retiraram-se para acampar no limite da Floresta de Obriana. O grupo recolheu-se aos aposentos designados: a maioria foi para os quartos, mas o Guia permaneceu em vigília na torre.

Réctor recolheu-se à casa dos sonhos e colocou seu experimento em prática. Com a tiara de Andote, que pedira emprestada, observou os filamentos para verificar o que aconteceria. A regressão dos fios, como esperava, não ocorreu. No entanto, percebeu que eles pararam completamente de oscilar e vibrar, permanecendo congelados e inertes. Todavia, o bloqueio foi tão severo que impediu o feiticeiro de girar e operar a roca do tear dourado.

Pela manhã, o grupo que pernoitou na mansão despertou com um fenômeno psicológico perturbador: uma melodia masculina, grave, rítmica e sem letra ecoava simultaneamente na mente de todos, como um cantarolar persistente que parecia impregnado em suas memórias havia dias. Os guardas do Solar e a própria Andote, visivelmente assustada durante o café da manhã, também repetiam o som para si mesmos. A artesã confessou que a melodia se assemelhava ao misterioso assobio do vento que costumava ouvir quando portava a joia.

Réctor devolveu a tiara a Andote e explicou as conclusões que havia tirado. Depois, reuniu-se com o grupo para planejar o próximo passo.

Decididos a agir antes que a última remessa de corvear entrasse no território dos elfos sombrios, os aventureiros solicitaram os mapas da região. Andote forneceu uma carta comercial que detalhava apenas a estrada oficial de Telas. No entanto, Demétrios interveio à mesa, utilizando carvão para traçar três rotas comerciais alternativas, menos populares e mais próximas das franjas montanhosas, por onde contrabandistas anões perseguidos criminalmente por Blur fatalmente optariam por trafegar.

Os contrabandistas de corvear

Havia muitos caminhos possíveis, mas o grupo agora dispunha de novas ferramentas.

Réctor revelou aos companheiros que havia aprimorado sua nuvem voadora. O napol gabou-se de que o feitiço seria capaz de transportar toda a carga necessária. Assim, conjurou nos jardins uma imensa massa de fumaça cinza-azulada.

Sólida e fofa, a nuvem mística era capaz de erguer cavalos, anões e até Garuk a mais de cem metros de altura para iniciar a varredura aérea em busca dos contrabandistas.

À medida que avançavam sobre a tundra ártica, o relevo montanhoso começou a subir acentuadamente, forçando Réctor a coordenar a altitude da nuvem para evitar colisões com os acidentes geográficos. Com a subida, as condições climáticas tornaram-se severas e punitivas. O vento gerado pelo deslocamento a cerca de quarenta quilômetros por hora, combinado à temperatura ambiente que despencara para quase trinta graus negativos nas proximidades das geleiras, criou um cenário extremo de sobrevivência.

Haftor agiu rapidamente para mitigar o frio, conjurando sua magia de resistência para proteger a si mesmo e alguns companheiros. Garuk ativou seu próprio poder de resguardo, enquanto Kórgan e Haldor reforçaram os agasalhos. Todavia, a fisiologia de Garuk reagiu de forma alarmante: por ser um homem-crocodilo de sangue frio, a ausência total de calor ambiental fez seus músculos enrijecerem e seus olhos permanecerem fixos, paralisando-o quase por completo e dando início a um processo biológico de hibernação forçada na retaguarda da nuvem.

— Acho que o Garuk tá com frio, hein.

— Não… não… tô… bem. — resmungou o sekbete.

Vendo a situação preocupante do companheiro, Réctor conjurou uma barreira mágica. Trazendo-a de sua própria imaginação, o feiticeiro envolveu o sekbete em uma cápsula sólida capaz de barrar o vento ártico, mitigando a perda de calor do companheiro. Com isso, o encantamento de resistência lançado sobre si mesmo tornou-se suficiente para mantê-lo aquecido.

Enquanto a nuvem avançava protegida, o Guia postou-se na borda frontal da plataforma para monitorar o solo. Valendo-se de sua habilidade de visão animal, vasculhou a estrada de terra batida que cortava a tundra abaixo. O rastreador detectou a passagem de duas caravanas distintas: a primeira pertencia a uma tribo local de sangares em migração rústica; a segunda continha uma escolta armada de elfos sombrios deslocando-se para o norte, possivelmente retornando de Caridrândia rumo ao acampamento principal. O grupo optou por ignorar ambas para não comprometer a missão.

Cerca de uma hora e meia após o início do voo, o Guia avistou um terceiro comboio deslocando-se de norte a sul. Tratava-se de uma carruagem grande, pesada e totalmente fechada por painéis de madeira, escoltada por cavaleiros armados. A contagem aérea inicial indicava dez indivíduos na estrada, incluindo humanos, dois guerreiros anões e um sekbete.

Réctor reduziu a velocidade da nuvem e pairou invisível no céu, permitindo que Sombra, sua aliada imaginária, descesse para inspecionar o interior do veículo em movimento.

Ao atravessar a parede de madeira da carruagem, Sombra encontrou uma mulher vestindo calças largas, túnica fechada e uma pesada capa de peles, sentada em silêncio com um cajado apoiado entre as pernas: uma maga de escolta. O interior do veículo também abrigava três grandes pilhas de caixas de madeira lacradas. Movendo-se furtivamente, a criatura localizou uma sacola de couro amarrada ao lado da mulher.

Ativando o poder da gema dimensional fixada na testa, Sombra fez a sacola, que continha seis chaves metálicas quadradas de confecção tipicamente anã, desmaterializar-se e ser armazenada em seu bolso interdimensional. No entanto, a sutil flutuação mágica despertou a feiticeira.

A maga acendeu a extremidade do cajado, iluminando o interior do veículo e forçando Sombra a recuar e subir de volta para a nuvem. O grupo pfirmou que o comboio transportava uma carga protegida por engenharia anã e escoltada por forças místicas.

Réctor traçou um plano tático imediato: utilizou a velocidade da nuvem para ultrapassar o comboio em linha reta, pousando o grupo de forma oculta na vegetação rasteira à beira da estrada, cerca de quinhentos metros à frente da rota do veículo.

Os aventureiros desembarcaram, desembainharam as armas e postaram-se diretamente no meio da estrada para interceptar a marcha, simulando uma barreira de patrulha. Assim que a carruagem e seus cavaleiros contornaram a curva e avistaram o grupo fortemente armado bloqueando a passagem, o líder da escolta humana ergueu a mão e ordenou a parada imediata do comboio.

Haftor deu um passo à frente, iniciando o tenso confronto verbal na estrada deserta:

— De onde vêm, parceiros? E tão levando o quê aí?

— Isso é um assalto? — indagou o líder, analisando as armas, armaduras e a presença intimidadora do grupo.

— Não. É uma pergunta.

— Então prefiro não responder.

— É polido responder quando alguém te pergunta.

— Não numa estrada vazia, contra pessoas armadas. Não somos indefesos. É melhor saírem do caminho.

Enquanto Haftor mantinha o líder e os cavaleiros ocupados com a discussão na frente do comboio, um dos guardas humanos cavalgou até a lateral da carruagem, abriu uma fresta da cortina e alertou a feiticeira em sussurros:

— Estamos sendo abordados. Se prepara, tá?

A maga levantou-se irritada e exclamou para si mesma dentro do veículo:

— Eu sabia! Tem alguma coisa aqui!

Aproveitando a comoção e a distração causada pela barreira improvisada de Haftor, Réctor enviou novamente sua companheira invisível para a traseira da carruagem.

A feiticeira ergueu o cajado e conjurou um feitiço de ocultamento em massa, tornando a si mesma e as caixas completamente invisíveis para proteger a carga de uma inspeção visual. Contudo, Sombra já possuía a memória espacial e a posição exata das caixas. Tateando o espaço às cegas através da invisibilidade, inseriu uma das chaves anãs roubadas no trinco do baú principal, destrancou a fechadura de ferro e puxou para dentro da bolsa dimensional o primeiro objeto pesado que conseguiu alcançar, batendo em retirada logo em seguida.

Réctor deu o sinal místico de sucesso para o grupo na estrada, permitindo que Haftor encerrasse a falsa blitz alfandegária.

— O senhor sabe que transportar ilícitos é uma falta grave por aqui. O senhor é algum guarda ou coisa parecida? Eu sigo a lei de Crizagom.

— Pois eu não! Agora saiam do caminho, todos vocês!

— Tudo bem, peço desculpas. — respondeu Haftor ao perceber o sinal de Réctor.

O líder exibiu uma expressão de confusão e desconfiança diante da mudança súbita de postura do paladino de Crizagom, mas não iniciou hostilidades. Os cavaleiros e os guardas da escolta mantiveram as armas empunhadas, passando lentamente e de forma tensa pelos aventureiros enquanto a carruagem fechada cruzava o bloqueio.

Assim que o comboio desapareceu atrás das colinas rasteiras da tundra, Réctor abriu um portal no solo, transportando todos os heróis e seus equipamentos de volta à segurança da plataforma aérea da nuvem voadora.

No alto do céu, Réctor acessou a bolsa dimensional e retirou o artefato extraído do baú invisível: tratava-se de uma barra maciça e pesada de minério puro de corvear. O bloco trazia profundas gravações em relevo confeccionadas com runas anãs tradicionais, identificando a marca de forja e a assinatura metalúrgica de Orvek.

O nome não era estranho para os anões. Orvek era um dos mais renomados, tradicionais e respeitados mestres-ferreiros da ala norte das profundezas de Blur, famoso por forjar metais raros utilizando o calor dos vulcões subterrâneos.

— Espero que ele esteja sendo roubado. — afirmou Kórgan sobriamente. — Pro bem dele.

domingo, 10 de maio de 2026

(LA) Sessão 39

Sessão 39 - A filha de Rodérico

Caça ou caçadores?

Garuk estava de braços erguidos, sustentando o tronco que obstruía a estrada, quando foi alvejado por uma flecha. O projétil, porém, apenas raspou nos ossos de sua armadura.

Uma névoa densa começou a se erguer ao redor do grupo enquanto Réctor, responsável pelo feitiço, alçava voo para enxergar melhor os emboscadores.

— O que vocês querem? — perguntou o napol, sacando uma flecha do alforje.

— Deixem suas coisas e partam! — gritou uma figura oculta atrás de uma rocha, do outro lado do campo de batalha.

— Você sabe que isso não é possível — retrucou Réctor.

— Então matem todos!

— Vocês terão uma última chance de desistir e se render — recomendou Haftor, defendendo-se da espada de um inimigo com o escudo.

Réctor concentrou seus ataques à distância na líder inimiga. Haldor, Haftor, Garuk e Olgaria continham os assaltantes, que pareciam focados na carroça guiada por Demétrius. O Guia orientava o cocheiro para mantê-lo longe do confronto.

— Demétrius, leve os cavalos para longe. O mestre quer matá-los — ordenou o rastreador, enquanto disparava flechas contra os bandidos.

O feiticeiro lançou chamas contra a líder inimiga. A magia incendiou a grama ao redor dela, mas não a feriu. Sombra acompanhou seu mestre e concentrou os ataques na meio-orca.

Olgaria avançou de forma sobrenatural para trás de um dos bandidos que ameaçava o desprevenido Garuk. Com um golpe preciso de machado, a zumi matou o inimigo imediatamente.

— Está bem, Garuk?

— Melhor agora — respondeu o sekbete, recompondo-se antes de usar sua força bruta para lançar o enorme tronco contra dois adversários. Ambos conseguiram se esquivar, mas a demonstração de força os deixou visivelmente abalados.

Percebendo que os viajantes não eram vítimas indefesas, a líder inimiga mudou de estratégia:

— Não deixem eles escaparem! Peguem o que puderem e saiam!

Porém, o grupo queria respostas. Agora, eram eles os caçadores.

O avanço dos aventureiros sobre os inimigos foi implacável. Mesmo após o brado aterrorizante de Garuk ecoar pelo campo e lançar medo nos corações dos assaltantes, o grupo não recuou. Eles perseguiram os sobreviventes que conseguiram encontrar, e Olgaria acabou rendendo a líder meio-orca, que revelou chamar-se Vôlga.

Enquanto parte do grupo caçava os fugitivos pela mata, o Guia encontrou materiais inflamáveis montados na copa de uma árvore, preparados para incendiar a estrada com uma única flecha. O plano dos bandidos tornou-se evidente: encurralar as vítimas entre o tronco caído e uma parede de fogo.

O rastreador recolheu tudo o que poderia reaproveitar e reuniu-se aos demais, que conduziam Vôlga até uma cabana nos arredores.

Ao abrirem a porta do simples chalé de madeira, um som abafado vindo do canto do cômodo chamou a atenção de Haftor e Olgaria, que carregavam a prisioneira. Sob um tapete de pele de urso, encontraram um homem completamente amarrado e amordaçado. Vestindo uma cota de malha e aparentando ser um guerreiro ferido, ele foi rapidamente libertado.

— Quem é você? — perguntou Olgaria.

— Eu sou Alvor, guarda do Solar.

— Foram eles que prenderam você aí? — indagou Haftor.

— Sim. Ela é Vôlga, uma bandida da região que causa problemas há bastante tempo.

— É, mas parece que ela veio atrás da gente. Então vamos descobrir quem a enviou.

A meio-orca permaneceu caída no chão, fingindo-se de morta, mesmo depois de Haftor utilizar milagres para regenerar seus ferimentos mais graves. Olgaria, percebendo a encenação, sentou-se à mesa rústica e encarou a prisioneira com desdém.

— Mexe na ferida dela que você vai ver se ela tá viva ou não — sugeriu o paladino.

— Huunf — resmungou Vôlga, desistindo da atuação.

Nesse momento, a porta da cabana se escancarou violentamente. Garuk surgiu da floresta em velocidade sobrenatural, carregando um prisioneiro abatido. Com um movimento brusco, lançou o homem ao chão, perto de Vôlga.

— Hora de falar o que a gente quer saber — disse o sekbete.

Enquanto a meio-orca reorganizava os pensamentos e preparava-se para falar, Olgaria investigava os pertences dos assaltantes.

— Ei… essa adaga aqui não é de elfos sombrios? — perguntou a zumi, encontrando uma arma com inscrições élficas.

— Onde você conseguiu isso? — perguntou Haftor.

— Eu comprei.

— Comprou onde? Sombrios não costumam vender essas coisas.

— Trocamos por objetos que pegamos de alguns comerciantes.

Volga calou-se imediatamente, recusando-se a dar mais detalhes sobre o contato com os elfos. O Guia entrou na cabana trazendo os cavalos e a carroça para perto da entrada, juntando-se ao restante do grupo. Hector também entrou. Garuk aproximou-se da prisioneira com uma postura ameaçadora.

— E onde estão os comerciantes?

— Demos um sepultamento digno para os que morreram. Os outros fugiram.

— E quando foi isso? — atravessou-se o Guia.

— Há uma semana.

O Guia perguntou a Alvor si os fugitivos haviam retornado ao Solar. O guarda confirmou que sim, mas explicou que estava nos arredores procurando os pertences dos mortos, já que os objetos haviam sido adquiridos no Solar das Sombras Longas.

— Ah, entendi. Onde vocês encontraram esses sombrios aí, ô dona orca?

— A oeste daqui, perto das montanhas. Uns dois dias de jornada. Depois de atacar os guardas, nos escondemos numa montanha mais adiante — explicou a prisioneira, gesticulando para oeste — e os sombrios apareceram do nada, dizendo que queriam os objetos e ofereceriam várias coisas em troca.

— E como eles acharam vocês?

— Sei lá. Magia. Dizem que são bruxos talentosos. Não perguntei. Fiquei com medo.

— Que objetos eles queriam trocar? — perguntou Réctor.

— Umas estátuas horrorosas de umas pessoas sem forma.

— Como ousa falar assim das obras de arte do mestre Rodérico?! — indignou-se Alvor.

Réctor e Haftor trocaram olhares significativos ao ouvirem a menção às estátuas disformes do escultor. O feiticeiro suspeitou que os sombrios poderiam estar utilizando as bússolas de rastreamento dos prismas da Aurora para localizar as esculturas.

O grupo continuou buscando provas de que os bandidos realmente os aguardavam na estrada. Haftor removeu o tapete de pele de urso e encontrou, escondido sob o assoalho, um mapa detalhado em pergaminho.

O Guia analisou o documento. Tratava-se de um mapa conceitual representando o vilarejo que haviam cruzado, o Solar e o ponto da Floresta de Obriana onde estavam, marcado com um X. Nas margens, uma caligrafia fina e estranha trazia pequenas anotações:

— “Observar Andote”… “quem entra?”… “pedras que cantam”… “o escultor”.

— E de quem é essa cabana aqui, ô dona? — perguntou o Guia, apontando para a marcação do Solar das Sombras Longas.

— É da mulher que se acha artista.

— Quem é essa aí?

— Mestra Andote — interrompeu Alvor. — Uma artista talentosa. Herdeira do senhor Rodérico.

— E isso aqui? — a garra afiada do Guia apontava para as anotações sem rasgar o pergaminho delicado. — São instruções? Quero saber o que significa isso aqui.

— É para observar a mansão. Os elfos me entregaram isso. Disseram para eu prestar atenção no Solar e tentar conseguir mais estátuas de Rodérico.

— O que são essas “pedras que cantam”? São as estátuas? — perguntou Haftor.

— Isso eu não sei. Não entendo dessas coisas.

— Entende, sim — contrariou Haftor, em tom ameaçador.

— São as obras do falecido mestre Rodérico — esclareceu Alvor. — Dizem que inspiravam, cantavam… que eram místicas. Deve ser isso que os elfos queriam dizer. Eles tentaram comprar algumas esculturas há algum tempo, mas a mestra Andote recusou.

— E tinha Corvear nessas coisas aí?

— Tinha o quê? — confundiu-se Alvor.

— Deixa pra lá.

— Eles me entregaram esse mapa e tiveram que explicar tudo. Eu não entendi direito também. Só disseram para eu observar a mansão e pegar mais objetos de Rodérico. As obras de Andote não interessavam a eles. Em troca, manteriam meu grupo alimentado e armado.

— Boa, dona. Agora a senhora chegou onde eu queria. Entregar quando e onde?

— Eles disseram que nos encontrariam.

— E como fariam isso?

— Eu não perguntei! Eles apareceram do nada naquela montanha. Achei que iam encontrar a gente de novo.

Irritado com as respostas evasivas e desconfiando de que Vôlga ainda escondia informações, Garuk resolveu intervir à sua maneira. Erguendo o prisioneiro que havia trazido da floresta por uma das pernas, encarou-o brutalmente.

— Você ainda pode viver. Ou eu posso comer uma parte sua… ou uma parte dela. A escolha é sua. O que ela tá falando é verdade ou tá escondendo mais alguma coisa?

— Eu vi os elfos!

— Onde?

Antes que o homem pudesse responder claramente, Garuk abriu a bocarra e, num movimento bárbaro, arrancou o pé do assaltante com uma mordida violenta, mastigando-o diante de todos. O homem soltou um grito agudo de pura agonia. Volga rangeu os dentes e estremeceu contra a parede, tomada pelo pânico.

Garuk limpou o sangue dos lábios e encarou a líder meio-orca.

— Bem… ele pode ser curado. Então é ela que vai ser minha janta de hoje — disse, atirando o mutilado na direção de Haftor. — Já que você não quis falar.

O sekbete avançou lentamente com um sorriso de crocodilo.

— EU FALEI TUDO QUE EU SABIA! — gritou Volga em desespero. — DEIXA EU IR! DEIXA EU IR!

Haftor ergueu a mão para conter o companheiro, encerrando a barbárie. Em seguida, aproximou-se de Réctor e falou em voz baixa:

— Talvez deixar ela ir seja uma boa ideia. Se esses elfos aparecerem, a gente pega eles.

— É… talvez. Acho que concordo. Tem como você colocar uma marca nela, né? — perguntou ao Guia.

O rastreador aproximou-se da prisioneira, que permanecia encolhida ao lado da cama, coberta de suor frio. Aproximando o focinho do corpo dela, aspirou profundamente, memorizando seu odor místico.

— Acho que consigo encontrar ela depois. Ou pelo menos seguir o rastro.

— Então vocês vão libertá-la? — perguntou Haftor.

— Deixa ela ir — decidiu Réctor. — Ela cooperou. Só deixa todas as armas e todo o dinheiro.

Sem hesitar, Volga abandonou as armas e as moedas no chão e avançou rapidamente para a porta. A voz de Réctor ainda a fez congelar de medo por um instante. O napol queria perguntar sobre algum artífice da região, mas a meio-orca estava apavorada demais para responder coerentemente. Percebendo o estado dela, Réctor a dispensou.

Volga recolheu o subordinado mutilado e mancou para fora da cabana. Enquanto se afastava pela mata, o Guia testou sua percepção sobrenatural para garantir que conseguiria rastreá-la no futuro.

Com a partida da prisioneira, Haftor terminou de tratar os ferimentos de Alvor. Em seguida, o grupo retomou a viagem rumo ao Solar das Sombras Longas. O guarda foi acomodado na carroça guiada por Demétrius, e a jornada prosseguiu pela estrada fria da floresta.

O Solar das Sombras Longas

A estrada até a residência de Rodérico era simples, mas aparentava receber manutenção frequente.

Réctor abriu a porta de sua Casa dos Sonhos para que o grupo pudesse descansar durante a noite. Ao entrar, percebeu que os fios dourados haviam avançado um pouco desde o dia anterior e assumiu novamente seu posto na roca mística para conter o avanço da contaminação.

Na manhã seguinte, após poucas horas de caminhada por uma estrada sinuosa que cortava as colinas em meio à mata densa, Alvor apontou para a encosta.

— Estamos quase no Solar das Sombras Longas. Vou na frente para que os guardas não se alarmem. Posso ir acompanhado do seu companheiro, se ele quiser. Só preciso chegar antes.

O Guia acompanhou o guarda até a revelação do cenário. Incrustada na pedra escura da colina, erguia-se uma mansão colossal protegida por um muro de quase três metros de altura. Acima da muralha, destacavam-se dezenas de estátuas esguias representando figuras femininas semelhantes entre si.

Apesar do frio intenso da região, os últimos quinhentos metros da estrada estavam completamente limpos de neve e iluminados por tochas acesas, criando uma tênue zona de calor.

— Eles me salvaram de Vôlga Quebra-Ossos — explicava Alvor aos guardas do portão. — Me ajudaram bastante e descobriram algumas coisas sobre ela também.

— Obrigado pelo que fizeram — respondeu um dos soldados ao Guia. — Avisaremos a mestra Andote sobre o favor que prestaram ao Solar.

O grupo pediu para falar com a herdeira e foi prontamente conduzido ao interior da propriedade.

Enquanto atravessavam o jardim impecavelmente cuidado, passando entre estátuas monumentais de quase quatro metros de altura, os aventureiros perceberam que as feições das esculturas lembravam diretamente a estátua da Dama encontrada em Telas. Além disso, cerca de um quarto das obras reagia à presença do grupo — ou talvez aos objetos da Aurora que carregavam — emitindo um tênue brilho vermelho pulsante.

Garuk sacou o prisma ao sentir pulsações dentro da bolsa.

— Não chega perto dessas pedras com isso aí, Garuk — recomendou Réctor.

— Olha isso aqui, gente — impressionou-se o sekbete ao perceber que o prisma também reagia à proximidade das esculturas brilhantes.

As estátuas pareciam ter sido esculpidas de um único bloco, sem emendas ou junções. Tratava-se do mesmo mineral exótico que compunha o prisma de Garuk e o hectaedro de Réctor: a substância chamada por Kétil Monda de “Sangue da Aurora”.

Alvor retornou da entrada principal da mansão.

— O brilho dessas estátuas começou há pouco tempo.

— Como assim? — surpreendeu-se Réctor. — Então elas brilham em outras ocasiões também? Outras pessoas vieram aqui e elas reagiram?

— Sim. Às vezes brilham durante a noite. O mestre Rodérico dizia que elas até cantavam.

— Eu não duvido.

— Venham. Vou levá-los até a mansão.

Enquanto caminhavam em direção à entrada principal, Hector examinou as esculturas tentando encontrar referências aos pingentes que haviam descoberto durante a jornada, mas não encontrou símbolos semelhantes. Aproveitando o percurso, Alvor explicou a origem da fortuna do Solar.

— O mestre Rodérico era um artesão talentoso. Quando jovem, vendeu obras até para o norte, e muitas esculturas acabaram nas hands de nobres em Telas. Depois, quando envelheceu, ficou obcecado por esses minerais. Dizia que eram místicos… que cantavam para ele. Nessa época ele já tinha dinheiro suficiente para construir este lugar.

— Ele morreu de quê? De vinho? — perguntou Garuk.

— De velhice, eu acho. Tinha mais de setenta anos. Mas passou os últimos anos muito isolado. Nem a própria filha conseguia falar com ele direito. As esculturas ficavam cada vez mais estranhas. Essas aqui do jardim foram feitas no começo da obsessão.

“Será que ele também estava puxando o fio?”, pensou Réctor, lembrando-se das palavras de Kétil Monda sobre a dominação da Aurora Gelada.

Uma mulher vestida como serviçal aguardava o grupo na entrada da mansão.

— Olá, senhores. Sou Nara. Obrigada, Alvor. A partir daqui eu os acompanho.

— Foi um prazer conhecê-los — despediu-se o guarda. — Se precisarem de mim, estarei no quartel. Somos uns vinte guardas por aqui. Estamos bem protegidos.

Os corredores da mansão eram decorados com pinturas e pequenas esculturas. Conforme avançavam, algumas das estatuetas também pulsavam em vermelho. Diferentemente das obras monumentais do jardim, essas peças menores possuíam feições grotescas e disformes, com braços longos demais e rostos desprovidos de qualquer harmonia humana.

Após cruzarem uma calçada de paralelepípedos no jardim interno, Nara abriu uma pesada porta de madeira. Um som áspero e contínuo de ferramentas raspando pedra ecoou do interior.

— Podem entrar. Há um guarda protegendo a senhora. Eu ficarei aqui.

A oficina estava repleta de esculturas inacabadas de granito e basalto, a maioria representando guerreiros. No centro do recinto, uma mulher afastou-se de uma obra ainda incompleta, limpou as mãos e virou-se para recebê-los. Seus olhos percorreram rapidamente as roupas manchadas de sangue seco que os aventureiros ainda vestiam após o confronto com o bando de Vôlga.

— Sou Andote, herdeira do Solar. Nara disse que vocês viriam. — A jovem aproximou-se e fez uma reverência formal com a capa. — Vieram comprar alguma obra ou objeto?

— Talvez estejamos aqui para tirar algumas dúvidas e entender um pouco mais sobre seu pai — respondeu Réctor.

— Claro. Os guardas me disseram que salvaram Alvor. São bem-vindos ao Solar. Imagino que tenham tido problemas para enfrentar Vôlga. Estão feridos? Como recompensa, podem permanecer aqui alguns dias até se recuperarem.

— Obrigado.

Decidido a abandonar formalidades e demonstrar imediatamente a gravidade da situação, Hector sacou sua chave mística, aproximou-se de uma das paredes de pedra bruta da oficina e inseriu o artefato diretamente na rocha. Diante do olhar atônito de Andote e do guarda que a escoltava, a parede se deformou lentamente, abrindo um portal para a dimensão da Casa dos Sonhos de Hector.

— Poderia nos acompanhar?

— Mestra Andote! — alertou o guarda, levando a mão ao cabo da espada. — Não sabemos o que existe do outro lado. Pode ser uma armadilha.

— Pela honra de Crizagom, vocês estarão seguros — garantiu Haftor.

— A senhora acha mesmo que esse guarda aí conseguiria impedir alguma coisa, se a gente quisesse? — insinuou Garuk.

Réctor interrompeu rapidamente o companheiro antes que provocasse um incidente.

— Eu garanto que nada acontecerá com você lá dentro. Precisamos conversar sobre a Aurora Gelada.

Andote hesitou por alguns instantes antes de assentir.

— Está bem. Eu entrarei.

A herdeira sinalizou para que o guarda relaxasse a postura e atravessou o limiar acompanhada do escolta. Ambos ficaram maravilhados e assustados diante da vastidão da dimensão onírica, da vegetação mística e da gigantesca árvore envolta pelos filamentos dourados da Aurora Gelada.

As obras de Rodérico

Réctor conduziu os convidados até a base da árvore colossal para mostrar de perto os fios dourados que emanavam da fogueira mística. Movida pela curiosidade, Andote estendeu a mão na tentativa de tocar um dos filamentos que flutuavam no ar, mas seus dedos atravessaram o brilho sem encontrar qualquer resistência física.

Diante do silêncio perplexo da herdeira e de seu guarda, Hector tomou a palavra para explicar a ligação entre Rodérico e aquele fenômeno.

— Sabemos que seu pai trabalhava muito com esse material — começou o napol.

Réctor apontou para o octaedro e para a esfera trazidos das geleiras do norte.

— Foi você quem esculpiu isso? — perguntou Andote, observando o objeto.

O feiticeiro explicou a formação espontânea do artefato na Torre de Gelo Quebrada, descrevendo o gigante golpeando inconscientemente os cristais até que o hectaedro assumisse a forma atual.

Em seguida, detalhou a descoberta dos quatro pingentes antigos mencionados em um livro ancestral encontrado em Telas. O Guia abriu o tomo diante de Andote, exibindo as páginas ilustradas com os desenhos dos colares, enquanto Réctor mostrava a amostra da água mística e relatava a descoberta da escultura metálica de Corvear encontrada na cidade. O napol enfatizou que os elfos sombrios perseguiam aqueles artefatos a qualquer custo e explicou que os filamentos dourados na árvore eram evidências de que a Aurora Gelada tentava dominar sua mente.

— O que me intriga é que, pelo que ouvi, no fim seu pai estava um pouco…

— Perturbado — completou Andote.

— Acho que consigo mostrar exatamente isso aqui dentro. Como essa coisa tem dominado minha mente.

— Vocês deveriam se manter afastados disso.

— Pois é, mas não podemos. Precisamos chegar ao fundo dessa história.

— Por quê? Meu pai foi consumido por essa obsessão durante anos. Eu mal o reconhecia no final. Fui a última filha que restou a ele, e minha mãe morreu logo depois. Meu pai praticamente deixou de falar comigo quando eu ainda era criança, completamente obcecado por essas pedras. Até hoje pessoas vêm ao Solar procurando as “pedras que cantam” de Rodérico. Vocês não são diferentes. Estão atrás das mesmas coisas.

— Talvez não pelas mesmas razões. Os elfos sombrios querem transformar a energia da Aurora em uma ferramenta. Não podemos permitir isso. Provavelmente pretendem usá-la para algo terrível.

— E é você quem decide o que é terrível?

Andote aproximou-se da fogueira onírica e observou ao redor, contemplando a vegetação impossível daquele lugar. Após alguns segundos em silêncio, voltou-se para os aventureiros e começou a falar sobre as lembranças do pai.

— Eu nunca compreendi Rodérico. Ele era um estranho para mim. Conversava sozinho com as estátuas. Dizia que elas eram esculpidas conforme pediam. Dizia muitas coisas… Morreu acreditando que suas esculturas eram portas para aproximá-lo de alguma coisa enterrada há muito tempo. Tudo aquilo era incompreensível.

— Talvez ele estivesse certo — respondeu Réctor.

— Ele falava sobre um fio, dona? — perguntou o Guia.

— Sim. Dizia existir um “fio” guiando sua vida e suas esculturas.

— Provavelmente é a mesma coisa que está acontecendo comigo — concluía o feiticeiro. — E aqui você consegue ver isso.

Réctor mostrou os fios dourados e as mudanças provocadas pela Aurora na Casa dos Sonhos, explicando que aquele reino onírico deveria refletir apenas sua própria mente, mas estava sendo lentamente contaminado pela vontade da entidade.

— Não me parece um bom destino, considerando como seu pai terminou — admitiu.

Garuk mostrou o prisma, e Réctor apresentou o mineral como o “Sangue da Aurora”, nome atribuído por Kétil Monda.

— Eu entendo como você vê as pessoas que vêm até aqui. Todos querem as mesmas coisas. Mas acho que ninguém antes chegou ao Solar com a intenção de fazer algo maior. Queremos ajudar a Aurora Gelada. Ela pode salvar o nosso world e trazer de volta o calor que perdemos.

— E essa mesma Aurora enlouqueceu meu pai.

Réctor explicou que a entidade não parecia possuir discernimento sobre o próprio despertar. Algumas facções — como os elfos sombrios — desejavam apenas controlar esse poder latente e transformá-lo em arma. O feiticeiro insistiu que as intenções do grupo eram diferentes.

— Acho que entendo o que você quer dizer, Réctor. Mas ainda não compreendo o que esperam de mim.

— Eu queria entender como seu pai encontrava essas pedras. Quando encontrei esta aqui — disse, erguendo o hectaedro — tive uma visão de uma batalha antiga envolvendo um grande guerreiro. Talvez, se eu encontrar pedras maiores, consiga compreender melhor sua essência.

— Meu pai extraía essas pedras das geleiras. Ele tinha mapas, embora eu não saiba onde estejam guardados. Dizia sempre que o “fio” o guiava. Nunca vi nenhum instrumento ajudando na busca. Ele simplesmente partia por semanas, levando duas carroças e alguns guardas rumo ao norte, e retornava carregado de matéria-prima suficiente para esculpir várias estátuas. Com o tempo, as obras ficaram menores… e mais estranhas. As piores estão escondidas.

— Eu gostaria de vê-las.

— Posso mostrar.

— Então… — começou Garuk — ainda existe alguém daquela época? Das caravanas?

— Alvor participou de algumas viagens. Talvez consiga ajudá-los, se ainda lembrar de alguma coisa. Faz muitos anos.

Garuk então mostrou a Andote o mapa encontrado com Vôlga.

— Estão espionando a senhora! — alarmou-se o guarda.

— Isso não me surpreende — respondeu Andote, séria. — Há algumas semanas recusei uma proposta agressiva de compradores anônimos. Queriam adquirir meu estoque secreto. Eu neguei.

— Então vou direto ao ponto, dona — disse o Guia. — A senhora está na mira dos sombrios. Eles querem tudo isso que a senhora esconde aqui. Aquelas estátuas que vendeu pros comerciantes roubados? Estão com os elfos agora. E se Vôlga saiu do esquema, eles vão encontrar outro jeito de chegar até a senhora.

— Precisamos de mais homens, senhorita — sugeriu o guarda.

— Não tenho recursos para manter um contingente maior — respondeu Andote. Então voltou-se para o Guia: — Seu plano talvez funcione.

Antes de deixarem a Casa dos Sonhos, Réctor mostrou as ilustrações dos Corações d’Aurora presentes no livro do Guia. Explicou que o grupo já possuía dois dos sete artefatos e apresentou os exemplares pertencentes a ele e a Olgaria.

— Isso tem relação com as pedras do meu pai?

— Ainda não sabemos.

— Nunca vi esses objetos… — respondeu Andote, hesitante. Então reconsiderou: — Não. Talvez eu tenha visto algo parecido.

— Seu pai possuía um deles?

— Não exatamente. Mas algumas das últimas estatuetas dele carregavam objetos semelhantes.

— Podemos vê-las?

Andote conduziu o grupo pelos corredores internos da mansão. Subiram diversos lances de escada até alcançarem o terceiro andar de uma torre isolada. Diante deles havia uma gigantesca porta de madeira reforçada, com quase três metros de altura, protegida por duas fechaduras maciças.

A herdeira pediu as chaves ao guarda. Cada uma delas possuía o tamanho de uma mão humana.

Quando a pesada porta foi aberta, revelou-se um recinto mergulhado na completa escuridão. Andote acendeu uma pequena vela e atravessou o limiar, mas Réctor rapidamente conjurou globos de luz que iluminaram todo o ambiente.

Três longas fileiras de mesas ocupavam a sala, repletas de pequenas estatuetas empilhadas.

Garuk avançou com o prisma em mãos para testar a ressonância.

— Essas estátuas que a senhora vendeu também brilhavam?

— O brilho começou há pouco tempo, mas sim. Elas também reagiam.

— E brilhavam de que cor?

— Normalmente vermelho. Às vezes azul.

O cômodo apresentava sinais claros de pouco uso.

— Aqui estão as obras mais estranhas de meu pai — explicou Andote. — Ele deixou anotações em quase todas.

À medida que Garuk caminhava pelos estreitos corredores entre as mesas, o prisma reagia intensamente. As estatuetas grotescas começavam a pulsar em vermelho conforme ele passava, apagando-se logo depois.

Enquanto isso, Haftor examinava atentamente a estrutura da torre. O anão descobriu algo fascinante: embutidas nas paredes de pedra comum havia colunas verticais de Corvear puro, medindo exatamente 2,73 metros de altura e espaçadas de maneira perfeitamente regular. As estruturas formavam uma malha geométrica precisa ao redor de toda a sala.

Haftor compreendeu imediatamente sua função.

— Quem construiu este lugar?

— Foi antes do meu nascimento — respondeu Andote.

— Todo mundo conhece esta sala?

— Não. Apenas eu, Nara e Alvor.

— Então é por isso que os sombrios ainda não atacaram. Eles não conseguem detectar as pedras aqui dentro.

— Meu pai desenhou pessoalmente essa sala. Foi a primeira coisa que fez antes de guardar as estatuetas aqui.

O grupo passou a discutir se Rodérico realmente compreendia o que estava acontecendo consigo mesmo ou se era apenas conduzido pela influência da Aurora.

— Acho que ele sabia — disse Andote.

— Eu não tenho tanta certeza — respondeu Réctor. — Se tivesse entendido completamente, talvez não tivesse ido tão longe.

— Você mesmo já cogitou deixar o fio tomar conta da sua mente — observou Haftor.

Andote caminhou até uma das mesas e pegou uma pequena estatueta representando uma criatura marinha semelhante a uma sereia. Virou a base da peça e mostrou a inscrição para Hector.

— Esta sempre foi a minha favorita.

Na base estava escrito:

“Talvez forma e memória sejam a mesma coisa.”

Réctor continuou lendo outras inscrições deixadas por Rodérico:

— “A voz não usa palavras o tempo todo”… “Andote disse que ouviu vento. Não havia vento”… “As pedras do norte ressoam mais profundamente que as de Telas”.

O feiticeiro então percebeu a tiara ornamentada que Andote usava na testa.

— Essa pedra aí… do que é feita?

— Foi um presente dele.

A escultora retirou a tiara e entregou-a para análise. Réctor imediatamente percebeu que a pedra estava protegida por um invólucro de Corvear puro.

Ele devolveu o objeto lentamente.

— Talvez isso tenha protegido sua mente. Acho que seu pai não sabia explicar o que sentia, mas ainda tentou cuidar de você.

Andote sorriu discretamente antes de recolocar a tiara.

— Você se lembra de ter dito algo sobre vento para ele? — perguntou o Guia.

— Não. O vento sempre me assustou muito. Aqui ele nunca para. Meu pai dizia que não era o vento… eram as estátuas.

— Talvez você não quisesse ouvir da mesma forma que ele ouvia.

Ao fim da conversa, o Guia perguntou qual das esculturas serviria de isca para atrair os sombrios.

— Passem a noite aqui — respondeu Andote. — Descansem. Amanhã decidiremos o que vocês levarão.

Em seguida, chamou Nara e ordenou que fosse preparado um grande banquete para receber os aventureiros.

A marcha Sangar

Após deixarem a ala secreta da torre protegida por Corvear, os aventureiros atravessaram os longos corredores do casarão e seguiram até o quartel do Solar, uma construção ampla situada do outro lado do jardim. Próximo à entrada, encontraram Alvor, um soldado experiente de cerca de cinquenta anos, sentado em um banco rústico enquanto conversava com outro guarda.

Ao avistar o grupo, Alvor levantou-se para cumprimentá-los e aceitou o convite para uma conversa mais reservada. Caminharam até uma área isolada do jardim, afastada da maioria das esculturas monumentais, onde Garuk e Hector passaram a questioná-lo sobre as antigas expedições realizadas ao norte ao lado do falecido Rodérico.

Alvor contou que participou de duas grandes incursões até a cadeia mais externa de montanhas que cercava as geleiras. Explicou que apenas Rodérico conhecia verdadeiramente aquelas rotas, mas revelou um detalhe importante: nos trechos mais perigosos, o escultor contratava um rastreador elfo chamado Ialas.

Quando Hector perguntou como Rodérico conseguia se orientar com tanta precisão, Alvor relembrou as reações do próprio Ialas diante da habilidade quase sobrenatural do escultor.

— O elfo vivia intrigado com aquilo. Mas Rodérico só apontava pra própria cabeça e dizia que “o fio guiava sua mente”.

Antes de se despedir, o guarda revelou que Ialas provavelmente ainda vivia ao norte do grande lago. Bastaria atravessar as águas e caminhar um dia inteiro rumo ao oeste até encontrar uma imensa árvore congelada. O Guia marcou cuidadosamente a localização aproximada da cabana do elfo em seu mapa.

Com o cair da noite, Andote reuniu todos no salão principal para o banquete prometido. Duas serviçais, acompanhadas de Nara e da própria herdeira do Solar, serviram pratos fartos de carne de javali e vinhos finos.

Após a refeição, os aventureiros foram conduzidos aos aposentos distribuídos ao longo de um extenso corredor voltado para a fachada principal do casarão. Contudo, o mistério envolvendo as “pedras que cantavam” impediu qualquer descanso verdadeiro.

Determinados a testemunhar as manifestações noturnas descritas por Andote, os aventureiros dividiram-se em vigília pelos pontos estratégicos da propriedade.

O Guia deslocou-se silenciosamente até o topo de uma das torres de vigia da muralha principal. Lá encontrou dois soldados humanos fazendo sentinela, ambos previamente instruídos por Andote a permitir livre acesso ao grupo.

— A casa estava sendo observada há alguns dias. Vocês perceberam alguma coisa? — perguntou o rastreador.

— Não. Ninguém apareceu pelos arredores.

— Não que vocês tenham visto, né?

— Só se foram discretos demais.

Com seus poderes sombrios, o Guia manteve os olhos fixos na floresta além do alcance das tochas.

Enquanto isso, Haldor realizou uma longa patrulha pelo alto dos muros, conversando com outros sentinelas para entender melhor a rotina do Solar. Os guardas confirmaram que a região costumava ser relativamente pacífica, embora pequenos bandos de criminosos ocasionalmente cruzassem as redondezas, normalmente evitando o Solar devido às muralhas elevadas e ao contingente de cerca de vinte soldados.

Ao perguntar quais rotas eram mais vulneráveis a ataques, os guardas apontaram para a trilha principal que levava à entrada da propriedade.

Enquanto isso, Réctor recolheu sua esfera de constelação e caminhou em silêncio até o pátio frontal ajardinado. No instante em que entrou entre as estátuas carregando os artefatos, os objetos começaram a emitir pulsações diferentes, reagindo intensamente à presença das esculturas monumentais.

Garuk desceu logo atrás para lhe dar cobertura.

À medida que caminhavam pelos corredores de pedra, Réctor percebeu um som sutil atravessando o silêncio da madrugada. Não era o vento comum das montanhas, mas um cantarolar agudo, estranho e efervescente. A melodia parecia vir diretamente do interior de uma das estátuas que brilhava em vermelho.

Tentando localizar a origem do som, o feiticeiro aproximou-se da escultura. Porém, no instante em que chegou perto o suficiente para tocá-la, teve a nítida impressão de que o canto havia migrado para outra estátua mais distante.

Conforme insistia em seguir aquela melodia errante, a esfera em suas mãos começou a vibrar violentamente, sacudindo seus braços a ponto de quase escapar de seu controle.

Garuk correu até ele ao perceber o tremor.

No momento em que o sekbete segurou a esfera junto com Hector, uma onda mística atravessou sua mente, projetando um breve vislumbre psíquico em seus pensamentos.

Assim que Garuk soltou o objeto, o tremor cessou abruptamente e o brilho diminuiu.

Réctor, porém, compreendeu imediatamente o que havia escutado.

Aquela era a mesma voz grave e ecoante de “Aquele que Vela o Instante”, a entidade cósmica que já surgira em seus sonhos para apresentar a Aurora Gelada.

Guiados pela sensação sobrenatural, os dois passaram a examinar a base das esculturas. Onde antes havia apenas vegetação rasteira, pequenas flores começaram a brotar e florescer instantaneamente por onde Hector caminhava, aceleradas pela presença dos artefatos da Aurora.

Os aventureiros cogitaram se aquele mesmo princípio de crescimento acelerado não estaria relacionado aos experimentos dos elfos sombrios com os “mortalos”.

Então, sem qualquer aviso, todas as dezenas de estátuas do pátio começaram a brilhar simultaneamente.

O vermelho desapareceu.

As esculturas passaram a irradiar uma luz azulada, gélida e ressonante.

No mesmo instante, nuvens densas encobriram completamente a lua, mergulhando o Solar na escuridão. Apenas o brilho azul das estátuas permanecia iluminando o pátio.

Do alto da torre, o Guia arregalou os olhos ao perceber a mudança de cor.

— Ficou azul… Alguma coisa está acontecendo.

— Bonito, né? — respondeu Réctor, fascinado.

Mantendo os olhos fixos além do alcance das tochas graças à sua visão sobrenatural, o Guia percebeu algo alarmante em meio à mata: dezenas de pequenos pontos luminosos avançavam pela escuridão de forma coordenada.

— Fiquem atentos!

O rastreador apoiou-se contra a muralha e entrou em profunda concentração, conjurando a magia “Olho das Sombras”. Suas pupilas tornaram-se completamente negras enquanto sua consciência projetava-se para o interior da floresta.

A cerca de cem metros das muralhas, ele avistou uma marcha silenciosa composta por algo entre vinte e trinta pessoas.

Vestiam trajes tribais adornados com ossos e madeira entalhada, carregando bastões, tacapes e lanternas. Com base em seus conhecimentos das Terras Selvagens, o Guia reconheceu imediatamente o povo: eram Sangares.

Os nativos avançavam sem qualquer tentativa de ocultação, guiados de maneira quase hipnótica pela ressonância azul emanada pelo Solar.

Quando a marcha aproximou-se dos portões, os dois guardas que vigiavam o lado externo bateram em retirada tomados pelo medo. As pesadas folhas de madeira foram fechadas com violência, ecoando por todo o pátio.

— Chamem a mestra! Chamem a mestra! — gritava um dos sentinelas.

— O que aconteceu? — perguntou Garuk.

— A… a tribo está lá fora. Quer falar com a mestra Andote.

— Será que eles estão amaldiçoados ou alguma coisa? — perguntou Réctor.

A agitação fez as portas principais do Solar se abrirem. Andote surgiu nos degraus acompanhada de Alvor e de sua escolta pessoal.

Ao ouvir os golpes ritmados vindos do portão, tomou uma decisão imediata.

— Deixem entrar.

Os guardas abriram apenas uma estreita passagem, permitindo a entrada de uma única figura: uma mulher idosa de cerca de sessenta anos. Os outros guerreiros permaneceram imóveis e silenciosos do lado de fora das muralhas.

A anciã caminhou lentamente pelo pátio iluminado pelo brilho azul das esculturas.

Seu nome era Isara.

Inicialmente, ela ignorou completamente Andote. Seus olhos enrugados fixaram-se diretamente em Hector.

— O Sonhador ouviu o chamado desta vez…

Só então voltou-se para a herdeira do Solar.

— Sua casa voltou a cantar, mestra Andote. Está mais perto do que deveria… mais perto do que seu pai chegou. Deixe-nos ajudá-la. Deixe-nos ajudá-la a trazê-la de volta.

Isara ajoelhou-se solenemente sobre o gramado iluminado pelas esculturas.

— Nós sentimos o despertar nas montanhas — declarou a anciã. Então, ainda curvada, voltou-se novamente para Hector: — Você já viu o que quase aconteceu, Sonhador.

Terras Selvagens, dias 26 a 27 do mês da Sabedoria do ano de 1502.