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quinta-feira, 2 de abril de 2026

(VS) Sessão 28

Emboscada em Absalom e ecos do Multiverso

O Malandro Chefe

Após 24 horas ininterruptas de trabalho para a remoção das raízes biomecânicas que infestavam o compartimento de carga e o motor de deriva, a tripulação preparava-se para deixar o hangar de alto risco em Absalom. No entanto, o grupo foi interceptado por três caçadores de recompensas que bloquearam a rampa de acesso da Berenice.

O líder do grupo, identificado apenas como "Malandro Chefe", interpelou o capitão Rykkgnaw com uma proposta hostil:

— "Ah, tenho uma recompensa boa por vocês, cara. Mas nós temos um acordo para fazer. Se vocês pagarem ela, a gente deixa vocês saírem."

Ao ser questionado sobre o valor, o caçador revelou que o governo de Triaxus oferecia 15.000 créditos pela cabeça do draconiano. Rykkgnaw respondeu com escárnio, provocando o líder a "tirar a chupeta da boca para falar", o que desencadeou a ordem de ataque imediata: "Queima ele".

Ed, que já mantinha seu rifle tático de 7.62mm em posição, antecipou-se ao comando. Com um aviso seco — "Cuidado com os ovos" —, disparou um tiro de precisão diretamente nos genitais do Malandro Chefe, derrubando-o instantaneamente. O combate generalizou-se no hangar. Rykkgnaw utilizou sua técnica de Sid Step para flanquear os inimigos e disparou com seu Plasma Caster contra o líder caído. Flynn, sintonizado com energia de fóton, atingiu dois adversários com um raio de plasma e finalizou um dos capangas com chicotadas precisas de sua espada especial, atingindo pernas e pescoço. Edric forneceu suporte técnico com seu rifle de precisão, eliminando o último agressor com um disparo crítico.

Após o confronto, Rykkgnaw saqueou os corpos, recuperando 6.800 créditos e um dispositivo de leitura avançado. No aparelho, encontrou uma mensagem oficial identificando-o como um emissário procurado, acompanhada de uma nota manual dos mercenários: "Alvo fácil".

A decolagem de emergência

A calmaria após o combate foi breve. Pip informou que, devido às mortes no hangar, a tripulação havia sido marcada oficialmente como foragida pela polícia de Absalom. Através dos comunicadores, uma mensagem das autoridades ordenava que aguardassem no hangar para interrogatório, com previsão de chegada em duas horas.

— "Então vamos embora," ordenou o capitão.

Sob o comando de Edric, a Berenice realizou uma decolagem de emergência, escapando da estação antes que o cerco policial se fechasse. No espaço profundo, a tripulação traçou rota para Vesk Prime. Durante o trajeto, Astra instalou melhorias na ala médica e preparou os suprimetos para o "procedimento" de apagamento de memória de Vexia Flux, que permanecia instável após os eventos em Triaxus.

A volta de Berenice e as fendas de Bullet

Enquanto a nave se afastava de Absalom, um chiado agudo nos comunicadores — que anteriormente agredia os ouvidos da tripulação — deu lugar a uma voz feminina familiar:

— "Capitão, retornei. É a voz da Berenice," anunciou a IA.

A consciência de Evelyn Reed informou que, durante o período em que esteve isolada no motor de deriva, conseguiu mapear a localização exata de seu corpo original, que estaria mantido em um estado de estase desconhecido.

Simultaneamente, no asteroide Bullet, Hotspot (Héctor) enfrentava as revelações do Dr. Kenji Tanaka. O cientista explicou que Héctor é um "Nexo" — um hardware orgânico capaz de visualizar e captar a existência de seus clones em outras dimensões. Tanaka utilizou o rastreador deixado por Héctor na Berenice para enviar um sinal de busca, o que acidentalmente expôs a posição da nave para toda a rede da Lança de Hierofante. Sob a influência de uma dosagem experimental de Tanaka, Héctor foi lançado a uma visão fotônica, onde vislumbrou a própria Evelyn Reed e compreendeu que o portador do braço esquerdo do Santo, Cormic, pretendia usar sua natureza de Nexo para abrir fendas dimensionais permanentes e extrair tecnologias de realidades mais avançadas.

Mundos do Pacto, Absalom e Diáspora, sexta, 11, e sábado, 12 de Serenith do ano 325 DL.

sábado, 28 de março de 2026

(LA) Sessão 33

Provas manchadas de sangue

O armazém

O Guia e Garuk haviam saído dos túneis escuros para o armazém de Volrath. A atmosfera era carregada pelo peso místico do Domo, localizado a poucos metros dali.

O armazém, repleto de caixas, mesas de desenho e livros, estava escuro, com as janelas fechadas.

— Garuk, essa é a sala em que eu vi a elfa. Vá chamar o Haftor e o Réctor. O documento deve estar aqui.

Enquanto Garuk descia para convocar os companheiros, o Guia passou a escutar os sons externos. Ouviu passos abafados e movimentos no lado de fora, no jardim. O odor de Syllen’ae ainda permeava o ambiente, mas era impossível dizer se era recente.

Instantes depois, todos se reuniram no armazém de Volrath e começaram a busca pelo documento que o incriminaria.

— A gente tá no meio de um jardim — orientava o Guia, com seu conhecimento prévio do ambiente. — Eu tô escutando passos, mas ainda estão longe. Eu já vou fuçar aqui em cima.

— Eu e Haftor vamos começar por aqui — disse Réctor, analisando as gavetas com minúcia, assim como o anão.

Enquanto isso, Garuk e Olgaria ficaram atentos aos movimentos no exterior. Haldor e Demétrius verificavam as caixas.

— Isso aqui são coisas escavadas… — disse Haldor, mexendo em estatuetas e ferramentas de arqueologia, sem encontrar documentos relevantes.

Réctor e Haftor, analisando os papéis nas escrivaninhas, depararam-se com diversos documentos redigidos em malês e élfico. Eram como contratos, mas complexos demais para uma leitura rápida. Ainda assim, como o nome de Volrath aparecia com frequência, o napol decidiu guardá-los.

— Ei, pessoal, estão se posicionando para uma emboscada! — anunciou Garuk. — Eles vão investir aqui a qualquer momento.

O sekbete se posicionou para uma abordagem direta. Caso alguém invadisse o armazém, seu machado brandiria em chamas imediatamente.

— Peguem as caixas pesadas e ponham na porta. Vamos barricá-la! — ordenou o paladino.

No andar superior, o Guia encontrou um escritório pequeno e oculto, com uma escrivaninha central e estantes junto às paredes. Não havia janelas.

Ao forçar uma das gavetas, arrancando-a, ativou um mecanismo oculto: um dardo envenenado disparou em sua direção. Graças aos seus poderes sombrios, ele resistiu.

A gaveta caiu no chão durante sua breve hesitação. De dentro, rolaram pergaminhos e uma pena preta, que flutuou lentamente até o chão.

No andar inferior, a urgência aumentava.

— Estão jogando óleo! — alertou Haftor. — Vão incendiar isso aqui!

Hector subiu para ajudar o Guia e sugeriu: — Quebra a outra gaveta contra a parede!

O Guia entregou os pergaminhos e a pena a Réctor, que imediatamente reconheceu o objeto como pertencente a um napol.

O cheiro de fumaça já tomava o ambiente.

Haftor subiu por último e destruiu armários trancados. Em um deles, encontrou um cofre de metal maciço. Pesado e difícil de abrir, decidiram levá-lo.

— Me ajuda com o cofre! — gritou Haftor. — Vambora!

O alçapão era a única saída. Porém, ao retornarem, encontraram a passagem bloqueada por uma parede de cristal.

Garuk a golpeou com força. — Tem magia aqui!

Com um feitiço de anulação, Réctor desfez a barreira, consumindo grande quantidade de energia devido à proximidade com o Domo de Arminus.

Com a passagem liberada, o grupo saltou para o túnel. Demétrius machucou a perna na queda, mas todos sobreviveram. O caminho de volta era conhecido, mas os perigos poderiam ter mudado.

Emboscada no calabouço

O golem não fora um obstáculo. Assim como na entrada, o pingente encantado garantiu que a criatura não os atacasse. Os aventureiros retornaram rapidamente ao calabouço dos prisioneiros.

Ao abrirem a porta metálica onde suas vítimas ainda jaziam no chão, depararam-se com um portal mágico aberto no centro da sala.

— Não deixem eles escaparem com vida! — gritou Volrath, do outro lado do portal, enquanto capangas surgiam armados.

— Vamos matar todos ou só tentar passar? — perguntou Haftor.

— Precisamos matar todos. Ninguém pode saber que somos nós — respondeu Réctor.

O combate foi inevitável. Réctor iniciou as hostilidades com uma flechada antes mesmo que os inimigos se posicionassem. Em poucos instantes, o grupo se viu diante de um número elevado de combatentes.

— Matem todos eles e destruam o que estiverem carregando! — ordenou Volrath, antes de desaparecer com o fechamento do portal.

Garuk e Olgaria avançaram em conjunto, flanqueando um dos oponentes. O rugido aterrorizante do sekbete fez o inimigo hesitar, abrindo espaço para golpes brutais.

Haldor e Haftor foram especialmente eficientes. A dupla de anões antecipava os movimentos adversários com precisão. O martelo de Haftor e o machado de Haldor trabalhavam em perfeita sincronia.

Quando o primeiro inimigo caiu, um dos sobreviventes tentou se render. O código de honra de Haftor o fez hesitar. O Guia, no entanto, não compartilhava daquela limitação. Uma flecha precisa atravessou o crânio do oponente rendido, encerrando sua vida.

A batalha seguiu sem recuo. Um a um, os inimigos caíam.

— Por favor… eu não estou sendo pago tão bem… — implorou o último sobrevivente.

— Quem troca armas com a guarda, morre — sentenciou Haldor, abrindo o abdômen do homem com um golpe seco.

Sem perder tempo, Réctor convocou seu transporte pelas brumas, levando todos diretamente para a tenda de Lismara, até mesmo os corpos dos inimigos.

Recomposição no acampamento da arqueóloga

Os guardas de Lismara entraram em posição defensiva ao verem vultos e cadáveres surgindo do nada.

— Não cheguem mais perto — alertou um dos guardas.

— Vocês também querem brincar? — retrucou Garuk, empunhando o machado.

— Não, não, Garuk! Esses são aliados — interveio Réctor. — Senhores, viemos falar com sua patroa.

Lismara saiu de sua tenda e deparou-se com a cena: aventureiros ensanguentados cercados por corpos.

— O que você fez, Demétrius?

— Olha esse monte de gente armada… você acha mesmo que fui eu? — respondeu o Atravessador.

— Não foi culpa dele — explicou Réctor. — Encontramos um meio de entrar lá… e vimos coisas que não podíamos ignorar. Ninguém saiu vivo para contar.

— É pior do que você imagina — completou Haftor.

— Tragam tudo para dentro. Rápido — ordenou Lismara. — Se alguém perceber isso…

— Mulher, obrigado! — disse Garuk, abraçando-a de forma inesperada. — Você me deu um pouco de diversão no meio dessa pasmaceira!

Dentro da tenda, o grupo começou a analisar os documentos, separando o que poderia incriminar Volrath.

— Syllen’ae… a patronesse das artes? — surpreendeu-se Lismara. — Ela está envolvida nisso? Ela financia pesquisas em Telas…

— Existe alguma autoridade em Telas? — perguntou Haftor.

— Às vezes, os magos assumem esse papel quando não há representante da Igreja de Crizagom. E o atual está viajando.

— Então temos um. Eu sou esse representante — declarou Haftor.

Enquanto isso, o Guia pressionava Demétrius a abrir o cofre recuperado. Demétrius, exibindo habilidade, manipulou suas gazuas e abriu a fechadura com rapidez.

Dentro, encontraram pergaminhos ainda mais comprometedores, escritos em élfico arcaico.

— Mais papel… — resmungou o Guia. — O cheiro de Volrath e Syllen’ae está em tudo isso.

Os documentos detalhavam contratos de comércio de “mercadorias vivas”, realizadas na Estrada do Ogro Morto a cada vinte dias. Tudo indicava uma operação organizada — exatamente o que Lismara precisava para expor Volrath.

Córgan e a mensagem da justiça

Haldor e Haftor atravessaram o acampamento de Lismara até a tenda dos prisioneiros resgatados. O ambiente, iluminado por uma fogueira tênue, oferecia algum calor aos feridos. Córgan, o único que recebera tratamento intensivo, fazia a guarda.

— Ah, vocês voltaram! Eu temia não vê-los novamente.

— Não se preocupe, está tudo bem — respondeu Haftor. — Me conte o que aconteceu. Como veio parar aqui?

Do lado de fora da tenda, longe dos outros sobreviventes, Córgan começou seu relato.

— Fomos emboscados durante a travessia entre Blur e Telas. Éramos três: eu, Troin e Bori… — sua voz vacilou por um instante — eles não sobreviveram.

O anão respirou fundo antes de continuar. — Eu fui capturado, já ferido, e trazido para cá. Nossa localização foi entregue por aquele maldito… fiquei sabendo que ele mudou de nome depois de ser expulso de Blur. Durnan. Lembram dele?

O nome não era estranho para Haldor. Um anão exilado por traição, banido das montanhas e destituído de seu nome.

— Agora ele se chama Horgrundis — revelou Córgan. — Foi ele quem nos vendeu. Sabia exatamente quando estaríamos vulneráveis. Levaram os lingotes que transportávamos de Blur para Telas.

— Sabe onde podemos encontrá-lo? — perguntou Haldor.

— Não. Mas ouvi dizer que ele é um contato frequente dos elfos sombrios. Tem vendido os nossos para eles.

— Então os crimes dele vão além do exílio — concluíu Haftor. — Ele não merece continuar vivo.

Córgan assentiu, em silêncio. Percebendo o estado do anão, Haftor fez uma oferta: — Você pode se recuperar conosco. Estamos a caminho de Blur. Se quiser, pode vir.

— Seria um grande favor… eu jamais teria como pagar.

— Não é necessário.

A acusação

Após organizarem as provas, o grupo decidiu que a melhor estratégia seria levar os documentos às autoridades religiosas de Crizagom. Na manhã seguinte, Haftor reuniu a papelada e atravessou a cidade até o templo de seu deus, acompanhado dos companheiros.

— Nosso responsável encontra-se viajando — informou a acólita ao recebê-los. — Ele foi ao norte, mas deve retornar em poucos dias.

— Temos um caso de crime muito grave. Já que o responsável não está, eu assumirei — declarou Haftor.

A acólita conduziu o sacerdote até uma mesa, onde começou a redigir a acusação com base nas informações apresentadas. O texto elaborado por Haftor condenava diretamente Volrath. No entanto, a burocracia de Telas logo se impôs:

— Precisamos levar essas informações ao Conselho dos Colégios. Eles também possuem voto e devem ratificar a decisão. Em duas ou três horas, consigo as assinaturas necessárias.

Ao perceber que a acólita reunia todos os documentos, Lismara demonstrou preocupação. — Mas precisa de todos?

— Eu fico com os documentos — interveio Haftor. Valendo-se de sua autoridade como sacerdote, ele convenceu a acólita a levar apenas o testemunho inicial para abertura do processo.

Com isso, restava ao grupo aguardar. Haftor decidiu permanecer no templo de Crizagom, esperando ser o primeiro a receber qualquer resposta, mesmo que durante a madrugada.

Os demais retornaram ao acampamento de Lismara para descansar e se preparar. Olgaria permaneceu na tenda da arqueóloga, enquanto o restante do grupo se abrigou em outra.

Durante a noite, Haftor foi despertado por um corvo batendo insistentemente na janela. Ao abri-la, ouviu uma voz grave vinda da ave:

— Os necromantes sabem que você tem pesquisado sobre eles.

— Isso é um problema? — respondeu o paladino.

— Depende. Alguns deles estão dispostos a conversar. Vá ao colégio amanhã, ao entardecer. Procure por Kel.

Enquanto isso, no acampamento, uma presença menos sutil se aproximava. Haldor, em vigília, percebeu uma sombra movendo-se próxima à fogueira, deslizando rapidamente para trás de uma das barracas.

O anão retornou à tenda dos aventureiros e abriu a entrada com cautela. A luz externa invadiu o interior escuro — e, com ela, uma sombra distorcida se projetou no chão e sobre os tapetes.

— ACORDA! — gritou, chutando Garuk. — Temos movimento!

A sombra se movia… e buscava o Guia.

— ACORDA, GUIA! — O sekbete despertou em alerta imediato. Ao ver a figura sombria se aproximando, reconheceu-a sem hesitar: Era Margoth.

Telas, dias 12 e 13 do mês da Sabedoria do ano de 1502

domingo, 22 de março de 2026

(LA) Sessão 32

O resgate no calabouço

O guarda anão

— Haldor, aqui!

Kórgan

O guarda ouviu seu nome vindo de uma gaiola fétida no calabouço, repleto de prisioneiros. Ao se aproximar, encontrou um antigo companheiro de Blur: Kórgan. O anão estava ferido, cansado e desarmado. Marcado como escravo, fora deixado à própria sorte em uma cela, aguardando que sua vontade sucumbisse.

— Eu achei que nunca mais o veria — disse o prisioneiro, entre tosses secas.

— Calma, amigo. Vamos tirar você daqui.

Haldor logo percebeu que as gaiolas possuíam travas resistentes, exigindo a intervenção de Demétrius.

Enquanto o Atravessador trabalhava nas fechaduras, o restante do grupo discutia como retirar os onze prisioneiros do calabouço.

— Eu posso abrir um portal para um lugar seguro e mandar essas pessoas para lá. Levar todo mundo a pé vai ser complicado — sugeriu Réctor.

A proposta foi rapidamente aceita.

O Guia, atento à porta sul, ouviu sons mecânicos vindos do outro lado, acompanhados de vibrações no solo.

— Tem alguma coisa atrás da porta. Parece uma criatura presa por correntes.

— Gente, vamos andar logo com isso aí? Vocês estão tomando cuidado demais. A pergunta é: vamos esperar alguém chegar para brigar ou vamos arrebentar essa porta? — sugeriu o sekbete berserker.

Assim que Demétrius abriu as celas, Kórgan bebeu uma das poções de cura do grupo e se recuperou rapidamente.

— Eu preciso te falar agora… aquele verme que todos olhavam de lado em Blur… Durnam. Ele nos vendeu.

— Durnam? Ele foi expulso de Blur há uns 30 anos — respondeu Haldor, surpreso.

— Aquele verme…

A conversa foi interrompida. Demétrius terminava de abrir as gaiolas, enquanto Garuk arrancava os grilhões que prendiam dois prisioneiros às paredes.

Réctor abriu um portal instável e disforme, afetado pela influência mística do Domo. Os prisioneiros se organizaram em fila. O assunto de Kórgan teria que esperar.

— Quando chegarem lá, procurem por Lismara — orientou o feiticeiro.

Haftor, organizando a fila, foi surpreendido por uma prisioneira tentando roubá-lo. O paladino se irritou e a ameaçou.

— Como você faz isso com quem está tentando te ajudar?

— Perdão… — implorou ela, de joelhos, após as moedas caírem no chão. — Eu só queria sair daqui e ter alguma coisa.

Enquanto isso, Haldor se despedia do companheiro:

— Esta não é nossa última conversa. Sobreviva e tome cuidado.

— Obrigado — respondeu Kórgan, agora empunhando um malho emprestado. — Aguardo vocês lá em cima.

Réctor pediu que Kórgan ficasse atento à ladra. Um a um, os prisioneiros atravessaram o portal. Quando o último passou, a passagem se fechou.

Os inimigos na caverna

Imediatamente após o portal de Réctor se fechar e os prisioneiros serem salvos, o ambiente mergulha em um silêncio absoluto, quebrado apenas pelo gotejamento constante da caverna.

O Guia, com seus sentidos aguçados, percebe uma perturbação.

— Pessoal… alguma coisa vem!

O som metálico de uma fechadura destranca a porta sul. Uma fresta se abre rapidamente. Uma mão humana surge apenas o suficiente para lançar um objeto esférico no centro da sala, próximo às gaiolas agora vazias.

O grupo se protege instintivamente.

A esfera explode em uma bola de fogo, atingindo quase todos.

Logo após a explosão, a porta é escancarada. Soldados humanos e elfos sombrios avançam, acompanhados de mastins. O combate começa imediatamente.

Haftor assume a linha de frente, atraindo a atenção de parte dos inimigos. O Guia se dissipa nas sombras e surge na retaguarda adversária. Réctor permanece atrás, disparando projéteis à distância. Olgaria, Garuk e Haldor avançam para sustentar o combate corpo a corpo.

— Vou chamar reforços! — grita um dos elfos sombrios, tentando recuar.

A resposta é imediata.

Uma flecha precisa do Guia atravessa a perna do inimigo, derrubando-o. Antes que pudesse reagir, um enorme golem de pedra se aproxima e o esmaga com golpes brutais.

Enquanto isso, Haldor, Garuk e Olgaria eliminam os inimigos restantes no calabouço.

Com o caminho limpo, o grupo avança até a posição do Guia.

— Tem um bicho pesado ali — alerta o rastreador. — Eu atingi o elfo que tentou chamar reforços. O bicho chegou e partiu ele no meio… e agora pegou o mastim. Ele é forte.

Haftor e Garuk decidem avançar para enfrentar a criatura na área cavernosa. O golem reage imediatamente.

À luz trêmula que revela um pequeno altar no centro da caverna, a criatura se impõe.

— É melhor recuar. Recuar! — ordena Haftor.

— Aqui onde eu tô ele não veio. Tô parado na porta e ele não veio até mim — observa o Guia, identificando um limite claro no comportamento da criatura.

Enquanto o golem intimida qualquer um que se aproxime, Réctor retorna à sala anterior e começa a vasculhar os corpos dos inimigos, suspeitando que possuam algum meio de passar pelo guardião sem serem atacados.

A busca dá resultado.

O feiticeiro encontra um pingente idêntico ao que o Guia havia recuperado anteriormente na sala de pertences dos prisioneiros.

Ao colocarem o pingente e entrarem novamente na área do golem, percebem que a criatura não reage.

Com uma ordem direta de Réctor, o golem recua e permanece inerte.

O pingente funcionava.

A entrada do armazém

Com o golem neutralizado, o grupo avançou até o altar e a porta metálica ao fundo da caverna.

Réctor e Haftor voltaram sua atenção ao altar. Entre pergaminhos e anotações dispersas, um livro com cadeado se destacava.

Os registros continham nomes de pessoas e locais em Caridrândia.

Demétrius tentou abrir o livro, mas recuou.

— É delicado. Há uma armadilha que derrama ácido sobre as páginas se eu forçar sem sucesso. O livro seria destruído — explicou o ladino, desistindo da tentativa naquele momento.

Enquanto isso, o Guia examinava a porta metálica. Do outro lado, ouvia um mecanismo pesado operando em intervalos regulares, acompanhado pelo som de correntes.

Usando seus poderes sombrios, o rastreador atravessou para o outro lado.

Lá, encontrou um elevador suspenso por correntes grossas e uma alavanca de acionamento.

Pouco depois, dois humanos desceram pelo mecanismo, carregando barris. Eles comentavam sobre os sons vindos da sala do golem, desconfiados, mas ainda dentro de uma rotina aparentemente normal.

— Melhor alertarmos lá em cima.

Enquanto isso, do outro lado da porta, Demétrius ainda tentava abri-la — até Garuk perder a paciência.

— Sai daí. Tá devagar demais.

Com um chute brutal, o sekbete arrombou a porta metálica, assustando os dois homens. Um deles caiu ao lado do Guia, que já estava na sala, enquanto o outro entrou em pânico.

— Fiquem quietos! — ordenou o Guia, sem sucesso. — Aquela alavanca ali, o que aciona?

Preocupados com o alarme iminente, os sekbetes agiram rápido.

Garuk dilacerou um dos homens com suas garras. O Guia, mais contido, bateu a cabeça do outro contra a parede até silenciá-lo.

BUM

O som veio de cima.

Alguém havia travado o elevador e selado o acesso ao andar superior.

O grupo entendeu imediatamente: haviam sido detectados.

Sem perder tempo, o Guia subiu nos ombros de Garuk e tentou forçar o alçapão, mas não conseguiu.

— Eu tenho uma ideia — disse Haftor. — Réctor, você não encontrou uma daquelas esferas de fogo?

— Encontrei. Vamos tentar.

O grupo se protegeu enquanto a esfera era lançada contra o mecanismo do elevador.

A explosão destruiu parte da estrutura e abriu o alçapão.

O Guia e Garuk escalaram as correntes e emergiram no andar superior.

Assim que saiu do poço, o rastreador reconheceu o ambiente.

O escritório de madeira. O cheiro característico dos elfos sombrios. As caixas.

Foi ali que ele viu Syllen’ae pela primeira vez.

sexta-feira, 20 de março de 2026

(VS) Sessão 27

O Nexo

Allen e Vexia

O grupo estava deixando a Deriva rumo à Absalom. A nave carregava um fragmento desconhecido no compartimento destruído pelas ogivas, na ala de carga. Somado a isso, as explosões haviam provocado danos estruturais significativos, obrigando os aventureiros a buscarem reparo imediato.

A jornada pelo espaço convencional levaria algum tempo, e o grupo concentrou-se em decidir o destino do Dr. Allen e de sua pupila, Vexia.

Depois de uma rodada de discussões, concluíram que precisariam propor uma intervenção invasiva na mente dos dois, de forma a fazê-los esquecer o que presenciaram enquanto estavam na presença do grupo. Porém, não desejavam fazer isso contra a vontade dos cientistas.

Rykk convocou Allen para a ponte via comunicador. Charlie, a IA atual da nave, na ausência de Berenice, o guiou protocolarmente.

— Vão me matar? — indagou Allen, ao se aproximar do draconiano.

— Não faz muito sentido, né, meu querido? — desdenhou Rykk, com um sorriso malicioso. — Isso nunca passou pela nossa cabeça. O senhor está aqui para conversar.

— Eu sabia que precisariam da minha genialidade em algum momento.

— Claro, claro… A questão é a seguinte: esse tempo todo que o senhor passou aqui com a gente torna complicado devolvê-lo ao mundo.

Allen ouvia atento, mas buscava o olhar de Kassius com frequência. O soldado encarava de volta com firmeza e uma expressão ameaçadora.

— Estaria disposto a participar de um pequeno procedimento cirúrgico para remover as últimas semanas de sua memória? — sugeriu Rykk, tentando apoiar-se no abalo psicológico que Kassius provocava.

— Vocês querem mexer no meu cérebro? Vocês não têm ideia do que estão falando! Ninguém toca na minha genialidade! — gritava o cientista, com o dedo apontado para o draconiano. — O meu cérebro é uma força da natureza. Jamais tocarão nele.

— O seu cérebro pode ser tudo isso que o senhor está falando, mas, se ele não ficar ligado a um pulmão, coração, rim e estômago… também não vai funcionar.

— Matem-me, matem-me, mas não façam isso. Eu não aceitarei jamais!

Diante da negação veemente, Rykk ordenou que Allen retornasse às suas instalações.

Astra garantia que o único lugar seguro para a realização desse procedimento seria uma clínica em Absalom, apesar de a nave ter espaço suficiente para a instalação de um laboratório capaz de realizar a tarefa.

A estação estava próxima, e Rykk convocou Vexia para conversar. B9i a conduziu até a ponte.

— Senhoria Vexia, em primeiro lugar, eu gostaria de pedir desculpas por toda essa viagem forçada e pelo tempo que ficou longe de seus entes queridos.

— Não tem problema. Vocês estão nos levando de volta para casa?

— Então… essa é a questão. Estamos em uma missão muito crítica, que diz respeito basicamente a toda a galáxia. Não podemos permitir que os últimos acontecimentos da nossa nave vazem para ninguém. Portanto, eu quero te pedir um último favor. Gostaríamos de poder fazer um procedimento com você para que perca toda a ciência do que aconteceu nas últimas semanas.

— Confesso que esse tempo não foi nada bom. Um pouco traumático. Mas não sei se estou entendendo bem. Vocês estão me impondo isso para me libertar?

— Não, estamos apenas perguntando se você pode passar por esse procedimento. Estamos dispostos a bancar todos os custos e até recompensá-la pelo seu tempo.

A proposta abalou a jovem. Ela olhou ao redor, analisando cada um da tripulação, como se soubesse que os esqueceria depois.

— Onde está o homem do capacete? — indagou.

— Ele não resistiu ao nosso último confronto — lamentou Rykk.

Após alguns instantes de reflexão, Vexia encarou Rykk com o olhar pesado e o corpo frouxo:

— Eu vou pensar, mas vocês teriam que prometer que eu serei libertada para retornar à minha família em Absalom.

— Combinado. Será melhor assim — concluiu Rykk. — Sem o procedimento, você se tornará um alvo fácil para a Lança de Hierofante.

— E o doutor?

— Vamos fazer a mesma proposta para ele.

— Me digam depois o que ele responder. Pode me ajudar a decidir também.

O grupo seguiu discutindo a melhor alternativa para os dois cientistas. Quando Vexia deixou a ponte, Rykk teve uma ideia para discutir com Allen. O draconiano tentaria apelar para o ego do doutor.

Rykk se dirigiu rapidamente até o quarto trancado do Dr. Allen. O draconiano acusou o cientista de colaborar para a criação de uma arma biológica poderosa. Allen, em contrapartida, dizia que tudo estava sob controle e que jamais permitiria que tal fado fosse atribuído às suas criações.

— A Lança está tentando militarizar, controlar, transformar em uma arma essa radiação sepulcral. O senhor pode estar se fazendo de tonto ou pode ser só inocente, não está percecendo que é isso que está acontecendo, mas é isso que vai acontecer. Você acha que consegue descer dessa pompa toda e trabalhar para o bem da galáxia, ou ainda acha que o seu jeito é o único jeito certo?

— Você está me oferecendo um emprego?

— Estou te oferecendo uma saída. Não vamos te tratar como um escravo. Vamos te pagar e vamos, inclusive, creditar seu trabalho quando resolvermos toda a situação da síndrome da galáxia. Você quer ser conhecido como o cara que descobriu a penicilina e não quis patentear ou quer ser reconhecido como o cara que criou a bomba atômica?

Com um sorriso controlado, Allen levantou-se da cama em que estava sentado, com mais energia do que nunca:

— Eu sabia que vocês estavam interessados em minha mente desde o começo. Meu serviço é para o bem da galáxia, senhor Rykk. Se vocês oferecerem uma oportunidade melhor nas suas condições, parece que não tenho como recusar. Mas vou precisar reformar o laboratório de vocês. Aquele troço é inútil. Também vou precisar de um assistente. Aquele bruto do seu mercenário servirá.

No entanto, Rykk designou B9i para a tarefa de assistente, o que também agradou Allen. Entretanto, o cientista desejava fazer algumas reprogramações, o que provocou fúria em Ed, que bloqueou o sistema do robô.

O emissário comunicou o cientista sobre Vexia cogitar aceitar o procedimento, e o doutor não hesitou em dizer que ela é “muito apegada à família”, recomendando que desistissem de mantê-la na nave.

Absalom

A atracagem na Estação de Absalom ocorreu após quatro dias de viagem pela Deriva, período em que a tripulação da nave se recuperou dos danos massivos causados pelo confronto com Kormiik.

Ao sair da Deriva, o sistema de comunicação da nave, operado temporariamente pela IA Charlie, interceptou os primeiros sinais da estação. Charlie solicitou ordens ao capitão Rykk sobre o envio das credenciais.

— Estamos nos aproximando de Absalom. Estou recebendo os primeiros sinais de contato para que nos apresentemos. Devo enviar as coordenadas completas, capitão?

— Espera só um minuto — disse o capitão, enquanto sintonizava seu comunicador para o sinal codificado de Berenice, no motor de Deriva. — Berenice, você já consegue voltar?

— Estou isolada no motor de deriva e parece que os danos estruturais estão me impedindo de fazer uma restauração completa.

— Ok. Charlie, pode passar estes dados — informou Rykk, enquanto transmitia as credenciais falsas para que a nave se comunicasse com o controle de tráfego.

— Fomos aceitos, capitão. Aportaremos em Absalom em 12 minutos. Preparem-se para o desembarque.

Assim que Edric assumiu o manche na cadeira do piloto para finalizar a aproximação, os sistemas da estação enviaram um diagnóstico preliminar de danos e a indicação de atracagem no hangar 19. No entanto, o custo de manutenção e permanência era proibitivo para os recursos da tripulação.

— Capitão, vão nos cobrar 2.000 créditos.

— Eu consigo por menos! — interveio Pip. — Conheço algumas pessoas em Absalom que podem nos ajudar a fazer o conserto nós mesmos, mas teremos que ir para um estaleiro nas bases inferiores.

O capitão concordou com a proposta. Segundo o mecânico, os setores inferiores eram menos seguros, mas a vigilância reduzida poderia ser útil.

— Melhor ainda — disse o piloto. — Vou tentar isso, capitão. Só não é uma vizinhança muito boa.

— Nós também não somos pessoas muito boas — concluíu o capitão.

— Você pode requisitar uma atracagem entre os níveis 40 e 50 — instruiu Pip.

Assim que Ed solicitou a alteração do hangar, a estação emitiu um alerta de segurança:

— As atracagens entre os andares 40 e 50 são consideradas de alto risco. Você aceita?

A nave foi redirecionada imediatamente após a confirmação, causando uma turbulência momentânea, porém forte, para a tripulação.

Assim que o procedimento de atracagem foi concluído, os mecânicos do estaleiro se aproximaram e perceberam os danos na nave.

— Mas que merda é essa no casco da nave?

— É uma merda, mas é nossa — amenizou Ed.

A tripulação desembarcou, mantendo Astra e B9i na ponte por segurança. O grupo seguiu diretamente para a avaliação de danos.

Pip saltou da escada de acesso para o chão do hangar. Rykk, Flynn e Kassius seguiram logo atrás. Ed, no entanto, foi surpreendido por uma fisgada dolorida no braço do relicário assim que pôs os pés para fora da nave.

Resistindo à dor, o operativo se aproximou da área danificada juntamente com o capitão. Enquanto isso, Pip foi atrás de seus contatos para realizar o conserto.

A árvore

Ao entrarem na antiga quadra de basquete, agora devastada, depararam-se com uma árvore nativa de Castrovel, inclinada e com as raízes espalhadas por todo o setor. O crescimento era impossível para o período de apenas quatro dias de viagem.

— Olha para isso! — exclamou Ed. — Agora tem a porra de um parque florestal na nave.

A dupla percebeu que a árvore não estava apenas ocupando o espaço; suas raízes estavam se embrenhando nos dutos de ventilação, amarrando-se aos fios e crescendo em direção ao motor de deriva. No centro do tronco, algo emitia uma luz azul pulsante.

— É uma árvore de Castrovel — avaliou o capitão, explorando seu conhecimento em biologia. — O que uma árvore de Castrovel está fazendo aqui? E o que é aquele treco piscando em azul?

Apesar da dor aguda, Edric aproximou-se do tronco, sentindo os galhos baterem em seu capuz e a dor aumentar conforme a proximidade.

— Capitão, acho que eu aguento — gemeu Ed, enquanto tentava tocar no objeto que pulsava dentro do tronco. — Tem alguma coisa aqui dentro.

Ed tocou o tronco e, em seguida, inseriu o dedo em uma pequena abertura do tamanho de uma ervilha, por onde a luz azul escapava. Ele recebeu um choque forte que se espalhou pelo braço, mas o contato permitiu que percebesse a intenção biológica da planta.

— Capitão, eu não sei explicar, mas estou sentindo que essa coisa está indo para o motor de deriva… Recomendo remoção imediata. Tem alguma coisa aqui brilhando que dói quando eu chego perto.

Para evitar mais danos a Edric, a Dra. Astra utilizou um microdrone médico — normalmente usado para procedimentos internos em pacientes — para investigar o interior da árvore.

As imagens projetadas pelo drone revelaram uma barreira metálica e um painel de circuitos integrados à seiva e à madeira. Rykk identificou que a tecnologia era uma mistura biomecânica.

Diante da necessidade de abrir o tronco, o robô B9i interveio ao saber que Pip buscava uma motosserra:

— Possuo motosserra em meus acessórios e não quero ser reprogramado — informou B9i, misturando assuntos. — O que cortamos, capitão?

B9i utilizou uma serra rotatória e um esmeril integrados ao braço para fatiar a madeira e expor o painel interno. A operação revelou uma fiação emaranhada nas raízes, mesclada a elas de forma orgânica.

Edric conectou seu terminal portátil diretamente aos fios expostos para hackear o sistema. Ele identificou que o dispositivo era um propagador de sinal sonoro na frequência de 77 Hz, construído de forma artesanal com peças da Frozen Trove e tecnologia de Castrovel.

— Parece que as duas coisas estão trabalhando juntas — concluiu Rykk. — Se você mexer no mecânico, estraga o biológico. Se mexer no biológico, estraga o mecânico.

Edric descobriu que a programação estava ligada a dados da Síndrome da Marcha Definhante (SMD) e que o dispositivo buscava o motor de deriva da nave.

O operativo iniciou um protocolo de desligamento forçado com duração de dez minutos para neutralizar a anomalia.

Enquanto isso, os mecânicos trazidos por Pip aguardavam para dar início ao trabalho. Com a ajuda do mecânico, o preço havia caído para 500 créditos.

O despertar de Hothspoth

Após o resgate e a recuperação no tubo de regeneração no laboratório de Tanaka, Hothspoth viu-se diante do auxiliar de Evelyn Reed, subordinado à Kormiik, seu algoz no confronto em Berenice.

O solariano passou por diversos ciclos de despertar controlados pelo doutor. Ele percebeu que Tanaka o mantinha consciente na ausência do androide, exceto quando solicitado o contrário.

— Ah, despertou. Foi mais rápido desta vez — aliviava-se Tanaka, enquanto se aproximava da maca do solariano e ajustava a dosagem dos medicamentos. — Baixei a dosagem faz só dois minutos. Como está se sentindo? Você tem algum nome, ou é só Hothspoth?

— Hector.

— Kormiik disse que vai falar com você desta vez. Daqui a pouco ele vem.

Tanaka aproximou-se e sussurrou para Hothspoth, demonstrando uma cumplicidade temerosa em relação ao androide invasor:

— Você me contou de Reed… então acho que estou devendo você alguma coisa.

Enquanto aguardavam a chegada de Kormiik, Tanaka e Hothspoth conversaram sobre o Projeto Eucarion. O cientista perguntou o que o solariano sabia sobre o projeto e, em seguida, revelou que Hector Hothspoth era o quinto na linhagem do Soldado Ícarus — ou seja, o quinto clone de sua realidade.

Tanaka revelou que os Hothspoth servem a um “Santo”. O Projeto Eucarion, na visão da Lança de Hierofante local, visa criar solarianos para atuar como recuperadores dos fragmentos da entidade.

As várias realidades mencionadas pelo cientista confundiram Hothspoth. No entanto, Kormiik entrou na sala, interrompendo o diálogo. Tanaka colocou a maca do solariano em posição vertical para a conversa.

— Você tem controle sobre os seus dons? — indagou Kormiik, direto ao ponto.

— Senhor Kormiik — intrometeu-se Tanaka — eu acho que ele ainda não tem noção do que consegue fazer.

— Não falei com você — e, voltando-se para Hothspoth — se você não souber, é inútil para mim. Vou atrás dos seus irmãos. Talvez sejam mais úteis.

Ao agarrar o queixo de Hothspoth com a mão esquerda — o braço que abriga um fragmento do Santo — o solariano sentiu um choque e teve uma visão de Tanaka trabalhando em outro local.

Kormiik deixou a sala rapidamente.

— Hothspoth, em nossos estudos, chamamos você de Nexo — revelou Tanaka. — Por alguma razão, durante o incidente Riven Shroud, você foi afetado de forma distinta. Enquanto os outros clones da linhagem Ícarus não têm noção da existência uns dos outros, você é o único receptor capaz de vê-los através das realidades. Esse é o interesse de Kormiik em você. Se ele conseguir o seu nexo, ele pode tirar qualquer coisa de qualquer lugar e trazer para cá.

Tanaka revelou que Kormiik possui o braço esquerdo do Santo, o que lhe permite abrir fissuras entre as realidades. No entanto, ele não é capaz de identificar o que está além da fissura, tornando sua capacidade limitada de forma isolada.

As revelações delicadas que o cientista fazia para Hothspoth demonstravam que sua relação com a Lança de Hierofante não estava harmoniosa.

— Minha utilidade aqui está se esgotando — preocupava-se o cientista. — E meu tempo aqui, com eles, também. Se eu libertá-lo, acha que consegue nos tirar daqui vivos? O comandante Signus aportará no asteroide em 11 dias, e podemos usá-lo para fugir.

— Consigo nos levar até Ed.

— O outro receptáculo? Como?

— Meu tablet. Pegue-o. Coloque o código de rastreio que eu lhe informar.

Hothspoth informou a frequência de rastreamento do localizador que adquiriu na Diáspora e que permaneceu em Berenice. Tanaka, então, sintonizou uma estação de processamento potente para buscar o sinal.

Poucas horas depois, na estação Absalom, enquanto o grupo concentrava-se em consertar os estragos na nave, Astra detectou um sinal anômalo nos sensores.

— Capitão, recebemos um sinal de Hothspoth. Não sei se é confiável, mas ele acabou expondo a presença da Berenice para todo o sistema.

Diáspora, Mundos do Pacto, quinta, 11, a quarta, 17 de Serenith do ano 325 DL.

domingo, 15 de março de 2026

(LA) Sessão 31

O sórdido esquema

Os carniçais

O cheiro pútrido dos corpos em decomposição dos mortos-vivos espalhava-se pela galeria que os aventureiros percorriam. O Guia, na dianteira, tinha linha de visão clara para um deles, que se agitava e gemia, alheio à presença do grupo.

A flecha do rastreador voou em silêncio pela penumbra e penetrou no corpo decrépito. O gemido do monstro alertou outras criaturas, e o grupo se pôs à frente, pronto para o confronto.

Eram quase uma dezena de mortos-vivos. Eles aguardavam a eternidade na escuridão da caverna.

Olgaria e Garuk avançaram furiosamente. Haldor não fez diferente, assim como Sombra. Réctor e o Guia permaneceram à distância, alternando entre magia e flechas. Haftor, o paladino, brandiu sua marreta brilhante e invocou a autoridade de Crizagom para ameaçar os inimigos.

O poder do sacerdote afastou um punhado de criaturas. Amedrontadas, tornaram-se alvos fáceis para o grupo. Enquanto isso, os demais eliminavam os carniçais resistentes. Os ataques brutais de Garuk destruíam os corpos inimigos, enquanto a mordida incandescente de Sombra reduzia os membros atingidos a brasas.

Com a derrota dos carniçais que resistiram à autoridade de Crizagom, o combate tornou-se uma mera limpeza. Os inimigos foram abatidos com facilidade, permitindo aos aventureiros explorar a câmara.

Um lago apodrecido ocupava o norte da área cavernosa. Corpos em decomposição — de mortos-vivos destruídos ou sequer animados — ajudavam a contaminar o local.

— Essa água fede — disse Olgaria, enojada, afastando-se.

— Ô sacerdote, será que esse aqui vai levantar também? — perguntou Garuk, puxando um cadáver de dentro do lago.

— Não, não vai levantar. Está faltando alguma coisa… — ponderou o paladino. — Esses carniçais não têm como voltar. Vocês desmantelaram vários deles.

— Depois a gente vem fazer uma limpa. Acho que não precisa fazer muita coisa aqui, não. Esse Volrath vai ser preso, com certeza — concluiu o feiticeiro.

Réctor buscou algo de útil nos corpos e encontrou um objeto peculiar no cadáver de uma mulher: uma corrente de bronze com um pequeno pingente em forma de disco que se abria. No entanto, o que havia dentro já se perdera há muito tempo. Na parte traseira, havia a gravação de um símbolo heráldico de tradição élfica. O napol guardou o objeto, na esperança de encontrar seu herdeiro.

— Pessoal, o rastro segue por aqui. Vamos? — instigou o Guia. — Ou vocês vão olhar mais alguma coisa?

— Vamos. E com cuidado a partir de agora. Podemos ter feito barulho.

O cofre sombrio

Os aventureiros desceram a escadaria até um corredor largo. O gotejamento natural da caverna misturava-se ao som do farfalhar das chamas das lanternas e a um ruído rítmico de madeira batendo ao longe.

Analisando o chão e os rastros dos elfos que os guiaram até ali, o Guia observou que as pegadas seguiam pelo canto da parede, em fila, em vez de ocuparem o centro do caminho.

— Ninguém passa no meio… — murmurou. — Ô magrelo… Atravessador… — completou, já com um plano em mente. — Tá vendo ali? As pegadas vão só pelo canto. Deve ter algum motivo. Qual?

— Isso aqui parece um alarme — concluiu Demétrius, ao se debruçar sobre o centro do túnel.

Haftor e Demétrius ergueram suas fontes de luz. No teto, perceberam um sino. O ladino encontrou um fio de seda extremamente fino conectado a ele.

— Eu vou cortar — disse Demétrius, sacando o punhal.

— Mas aí pode disparar, não? — questionou o Guia.

— Não. Se eu cortar aqui, o sino não toca. A vibração não chega.

O corte rápido e preciso do Atravessador impediu qualquer vibração na corda. O sino permaneceu imóvel. A armadilha estava desativada.

— Vou na frente. Pode ter mais — afirmou o Guia.

Demétrius seguiu desmontando as armadilhas seguintes da mesma forma, sem dificuldades, até que o trecho protegido terminou.

O grupo avançou até uma divisória. Ao sul, o corredor se estreitava, e o chão tornava-se repleto de pedras soltas.

O Guia se adiantou para observar.

— Ali na frente tem brita. É pra fazer barulho — alertou. — E lá no fundo tem uma porta… uma porta chique. Não sei o que tem lá, mas não dá pra passar pisando no chão.

Após discutirem como cruzar sem alertar quem estivesse além da porta, Hector utilizou Sombra para espiar pelo buraco da fechadura. Do outro lado, havia um ambiente iluminado, com baús e vozes em conversa.

— Galera, vou abrir um portal lá dentro. Os caras vão se assustar, e a gente entra. Vai ser “matar e imobilizar”. Tentem imobilizar pelo menos um.

O feiticeiro encontrou uma barreira mística que dificultava a criação do portal. Ainda assim, sua vontade prevaleceu, e a magia foi evocada.

Com a passagem aberta, o grupo atravessou rapidamente, um a um. Do outro lado, dois elfos sombrios observavam a invasão, surpresos. Amedrontados, recuaram contra a parede, sacando suas espadas.

— Quem vai pedir pra se render? — perguntou o Guia, já tarde demais.

Haftor avançou, marreta em punho.

— Não era pra render os caras?

— A gente rende depois que desmaiar — respondeu o paladino.

Garuk se aproximou de um dos inimigos, erguendo o machado em brasa. A lâmina incandescente desceu sobre a cabeça do elfo, abrindo-lhe o crânio. No mesmo movimento, um golpe bruto o lançou contra a parede, já sem vida.

A cena fez o outro elfo se render imediatamente.

— Ajoelhe-se. Mãos atrás da cabeça! — ordenou Haldor.

O prisioneiro obedeceu. Foi amarrado e colocado no centro da sala.

O ambiente continha dezessete baús feitos de um metal escuro. O elfo possuía as chaves da maioria deles, exceto de um, que Demétrius começou a arrombar.

Enquanto alguns exploravam os baús, o Guia concentrava-se nos odores do local: Syllen’ae, Caridrândia… e até Táviga. Cada cheiro se intensificava em um baú diferente.

Nos recipientes, encontraram:

Lingotes metálicos vindos de Blur, marcados por forjas anãs, mas com o odor característico da meio-orca Táviga, de Trisque.

Trinta e dois frascos de poções de cura.

Mapas de Telas com marcações de conflitos com necromantes e listas de nomes a evitar ou procurar, escritos em élfico.

Armas comuns anãs, como picaretas, martelos e machados.

— Isso é roubado de Blur! — indignou-se Haftor.

Enquanto isso, Demétrius concluiu a abertura do baú marcado com um “X”. Dentro, havia diversos porta-mapas.

O Guia analisou-os um a um. Os documentos revelavam entradas fortificadas de Caridrândia e detalhavam contingentes militares alocados em rotas específicas. Ele reconheceu algumas delas, mas o conteúdo era muito mais amplo do que seu conhecimento prévio.

Garuk voltou-se ao prisioneiro.

— E o “Escaravelho”? Fala.

— Não sei do que está falando — respondeu o elfo, confuso.

Sem hesitar, Garuk avançou e arrancou o braço do prisioneiro com uma mordida brutal.

— Quer falar alguma coisa agora? — disse, com a boca ensanguentada. — Ainda posso te curar. Temos 32 poções.

O elfo não respondeu. Caiu ao lado, gritando em dor extrema. Não fosse a barreira mágica, seus gritos ecoariam por todo o complexo.

Haftor observou a cena com desaprovação. Em um movimento rápido, cravou um punhal no peito do prisioneiro, encerrando seu sofrimento.

— Sem barulho. Isso aqui é uma incursão.

O cativeiro do horror

Após limparem a sala e esconderem os corpos nos baús vazios, os aventureiros retornaram pelo túnel da forma que entraram e retomaram a rota principal.

O caminho tortuoso os conduziu até uma enorme porta metálica. O Guia identificava pegadas de elfos, como antes, mas agora também de humanos.

À medida que avançavam, um cheiro insuportável de carne em decomposição dominava o ambiente, revirando o estômago dos aventureiros e quase lhes impondo desvantagem.

O Guia se aproximou da porta para escutar o outro lado: gemidos e o som de metal balançando. No entanto, o odor que já afligia os companheiros o atingiu de forma visceral, forçando-o a pôr para fora sua última refeição.

— Cheiro de morte, som de tortura. Acho que aqui estão os prisioneiros — concluiu o Guia.

O grupo invadiu a sala em modo de assalto, mas o que encontraram não foi um exército, e sim um depósito de seres humanos e anões.

Inúmeras gaiolas fechadas, algumas cobertas, espalhavam-se pelo local. Dentro delas havia pessoas — algumas feridas, outras mortas. Em uma delas, os restos mortais de um anão.

Havia dois humanos fora das gaiolas, presos por grilhões às paredes.

Réctor e Sombra aproximaram-se de um homem em trapos, preso aos grilhões. Seus punhos estavam em carne viva, mas seu olhar era vazio.

— Quem é você? Qual o seu nome? — começou o napol. — A gente está aqui para te ajudar. Agora você não vai mais sofrer.

Haldor e Haftor caminhavam entre as gaiolas, buscando sobreviventes, quando uma voz rouca e familiar chamou:

— Haldor…

Debaixo de um trapo que cobria uma gaiola metálica, os irmãos anões encontraram um dos seus.

Era Kórgan, um colega de academia de Haldor.

sexta-feira, 13 de março de 2026

(VS) Sessão 26

O androide superpoderoso

O combate mortal

— ONDE ESTÁ EVELYN REED? — gritava o androide com uma voz metálica e masculina, destoando de seu corpo andrógeno.

Foi o último som que o grupo ouviu antes do blecaute total da nave.

Exposto ao vácuo do espaço, Hothspoth não conseguiu alertar o invasor de que a doutora era apenas uma mente digital guiando a inteligência artificial da nave.

Apesar da queda de energia, o escudo permaneceu ativo por alguns instantes. O invasor batia contra ele, enfurecido, enquanto Hothspoth preparava-se para abordá-lo, com a porta atrás de si cerrada.

Na ponte, a tripulação buscava compreender o que estava acontecendo. Berenice havia sumido da comunicação, e o grupo dependia de seu contato vocal pela primeira vez em muito tempo.

— Capitão — ecoou repentinamente a voz de Berenice no comunicador de Rykk — eu conheço esta pessoa. É Kormiik. Ele está atrás de mim. Assim que percebi, me desconectei da nave em um sistema de backup.

— Esconda-se, Berenice. Deixe o resto com a gente — ordenou Rykk.

Quando o escudo de Berenice se desfez, Kormiik avançou como um foguete na direção de Hothspoth. O impacto não produziu som — apenas uma explosão silenciosa na mente do solariano.

Hothspoth interpôs seu escudo de gráviton para evitar o choque, mas o inimigo carregava a energia de uma arma. Ele foi arremessado para trás, e Kormiik avançou rapidamente, desferindo um soco que quebrou o visor de seu capacete.

O sistema de vida entrou em modo de emergência. Uma proteção provisória formou-se no lugar do visor, garantindo apenas alguns minutos de sobrevivência.

— Vamos descer e descobrir onde está o problema — ordenou o capitão.

— Deve ser no setor de energia auxiliar — deduziu o piloto.

— Eu fico na ponte? — perguntou Pip, assustado.

— Precisamos de você aqui — respondeu Rykk, enquanto seguia com Ed, Flynn e Kassius para a área de confronto. — Astra, vigie Allen e Vexia.

B9i fez companhia a Pip na ponte, auxiliando no que fosse necessário e aguardando o retorno da energia para iniciar os sistemas da nave.

O grupo desceu os lances de escada até o andar de carga, onde o caminhão recebido pela Aliança Solar estava estacionado. Eles se dividiram: Ed seguiu para a sala de geradores; Flynn e Kassius, para a área de carga; Rykk permaneceu ao alcance das comunicações, coordenando as ações.

Kormiik pousou as mãos na pesada porta externa e começou a abri-la à força. Hothspoth se recompôs, levantou-se e se aproximou. Tentou ajudá-lo a abrir a porta, mas, no silêncio do espaço, sua aproximação foi interpretada como ameaça.

O inimigo respondeu com um golpe de cotovelo no peito, deixando-o sem fôlego.

Do lado de dentro, Flynn abriu um terminal desenergizado e forçou manualmente o fechamento de uma porta de contenção de vácuo.

A ação foi providencial.

Poucos segundos depois, o grupo percebeu uma explosão — não pelo som, mas pelo impacto. Era Hothspoth, liberando sua explosão solar em uma tentativa falha de se livrar do inimigo.

A porta de carga estava aberta.

Hothspoth estava inconsciente.

Kormiik entrou.

— Eu quero Evelyn Reed. Eu sei que ela está aqui.

Ao ouvir isso, Rykk correu até a sala de carga.

Enquanto isso, Ed descobriu o problema no sistema de energia. Após destravar os sinais elétricos, a distribuição foi restaurada.

— Olá, tripulação. Em que posso servi-los? — disse uma voz masculina nos comunicadores. A IA padrão da nave havia retornado.

— Eu vou para a ponte, capitão — avisou Ed, enquanto corria para sua posição.

Kassius avançou sobre o inimigo, mas Kormiik, com um simples movimento de pulso, disparou um laser que perfurou sua armadura. Diante da demonstração de poder, o soldado parou. Flynn, atrás dele, estava aflito.

— Reed está morta. Ela não está conosco — argumentou Rykk.

— Eu a senti aqui. Eu sei que você está mentindo.

— Não. Você pode ver. Ela não está em lugar nenhum desta nave.

O invasor não pareceu convencido, mas manteve-se parado.

— Estão tentando invadir os sistemas — alertou Astra.

Com Kassius e Flynn, Rykk recuou até antes de uma porta de contenção. Ele ordenou que a tripulação fechasse a passagem para o compartimento de carga e abrisse a comporta.

Kormiik ainda processava alguma informação, tentando invadir os sistemas de Berenice, enquanto o corpo inerte de Hothspoth jazia ao seu lado.

— E Hothspoth, capitão? — questionou Astra. — Talvez ainda possamos salvá-lo.

— Não será possível — respondeu Rykk.

Ed posicionou-se na poltrona do piloto e acionou a comporta de carga. O vácuo invadiu o compartimento.

O corpo de Hothspoth foi lançado ao espaço.

Kormiik agarrou-se firmemente à estrutura, mas o caminhão também foi arrastado, chocando-se contra ele.

— Detone as ogivas do caminhão! — ordenou Rykk.

— Isso vai causar dano na nave — alertou Pip.

— Detone!

Ed explodiu as ogivas no compartimento de carga. Os fragmentos do caminhão arrombaram a comporta, mas lançaram Kormiik para longe no espaço.

— Motores ligados.

Os propulsores foram acionados e a nave partiu rapidamente. Em instantes, entraria na Deriva.

O dano

— Meu nome é Charlie — anunciou a IA da nave. — Ao entrarmos na Deriva, um fragmento desconhecido foi transportado para a área de carga. Não consegui identificar o que é.

— E as câmeras?

— Todas foram destruídas com a explosão das ogivas.

A explosão não havia apenas destruído o compartimento de carga, mas também isolado a área de cargas especiais, onde o relicário se encontrava, e o motor de deriva.

— Precisamos ir até um estaleiro para manutenção urgente — alertou Pip.

— Vamos para o local de encontro com Garig.

— Não será possível, capitão. A nave sofreu danos estruturais e não suportará tanto tempo de viagem sem romper. Precisamos ir até Absalom.

Contrariados, os aventureiros traçaram rota para a Estação de Absalom, um local público, mas com olhos da Lança de Hierofante espalhados por todo canto.

— Levaremos quatro dias — informou o piloto.

— Que seja.

O estaleiro em Absalom era o único local adequado para reparar a nave. Além disso, precisariam parar em algum ponto para verificar, pelo lado externo, o que a Deriva havia trazido consigo no momento da transição.

O que quer que fosse, ocupava toda a área do antigo compartimento de carga.

Os prisioneiros

Uma vista turva. Um laboratório. Computadores. Tubos de regeneração.

Os olhos de Hothspoth estavam pesados. Ele estava em uma câmara de regeneração, mergulhado em um fluido de cura.

Estava vivo.

Um homem robusto, de jaleco e olhos puxados, surgiu do outro lado do vidro. Hothspoth não o escutava, mas o doutor parecia surpreso. Seus lábios se moviam, dizendo algo, até que foi interrompido pela chegada de outra pessoa.

Kormiik entrou na sala, encarou o tubo de regeneração e, em seguida, o doutor. Os dois conversaram, mas Kormiik dominava a interação.

Assim que o androide saiu, o doutor voltou-se para os computadores, e Hothspoth tornou a perder a consciência.

Quando voltou a abrir os olhos, a situação havia mudado. Ele não estava mais no tubo de regeneração, mas preso a uma mesa vertical, conectado a fios e dutos que extraíam amostras de seu corpo e sangue.

— Olá. Eu sou Kanji Tanaka — revelou o homem no laboratório.

Hothspoth contou ao doutor sobre a natureza de Evelyn Reed e o backup de sua mente na nave Berenice.

— Eu sabia que aquela mulher não morreria… — murmurou Tanaka, aliviado.

A conversa não durou muito. Logo, Kormiik entrou na sala e, antes que percebesse que Hothspoth estava acordado, Tanaka manipulou seus equipamentos e o solariano voltou a ficar inconsciente.

Em um novo despertar, Hothspoth teve mais tempo para conversar com Tanaka. O doutor não dizia explicitamente que estava aprisionado, mas os sinais eram claros.

— Kormiik foi apenas um dos dois pacientes nos quais consegui mesclar perfeitamente um fragmento do Santo — revelou Tanaka. — O outro foi Ed, que você conhece.

— Há quanto tempo estou aqui? — perguntou Hothspoth.

— Há quatro dias.

A conversa avançou até os irmãos gêmeos de Hothspoth. Tanaka afirmou que os conhecia, mas que Hothspoth era diferente.

— Você é um Hothspoth — disse o doutor, com um olhar intrigado. — Você não sabe mesmo o que é? Eu vou lhe explicar.

Diáspora, Mundos do Pacto, domingo a quinta, 7 a 11 de Serenith do ano 325 DL.