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terça-feira, 7 de julho de 2026

(VS) Sessão 37 🤖

Fuga de Porto Furioso e o Manifesto de Allen

A Fuga de Porto Furioso

O Caminhão Monstro

A tripulação de Berenice encontrava-se em uma situação desesperadora no estacionamento do quartel-general do Veskarium. Edric, utilizando suas habilidades de manipulação da realidade, havia transposto o grupo para uma versão onde o veículo de fuga era um caminhão monstro blindado, preparado para o impacto.

Rykkgnaw assumiu o posto de comando, deitando-se na posição de condução característica dos veículos Vesk. Kassius assumiu a artilharia no canhão superior, enquanto Flynn e Hothspoth operavam os sensores e a navegação. Edric, embora exausto pelo esforço mental que descreveu como uma "sensação de fim do mundo", concentrou-se em auxiliar o capitão com a leitura dos sistemas em idioma Vesk.

— Capitão, estamos com sorte. Eles estão tentando evitar danos colaterais na infraestrutura da cidade — alertou Edric ao interceptar as comunicações do General Thor (ou Thorl).

Perseguição nas Avenidas

Ao acelerar, o estrondo do motor ecoou pelo complexo. Rykkgnaw lançou o caminhão sobre dois veículos de patrulha que bloqueavam a saída, esmagando-os enquanto ganhava a estrada principal. Sem a conexão de Berenice, que entrara em isolamento para evitar ataques cibernéticos, Flynn traçou a rota mais curta através do GPS, guiando o grupo por dentro da metrópole.

A fuga foi marcada por uma sucessão de manobras brutais:

O Tanque Inimigo: Um tanque de guerra tentou emparelhar com o grupo. Rykkgnaw jogou o peso do caminhão contra o adversário, fazendo-o capotar na pista.

A Barreira e a Rampa: Diante de um bloqueio que parecia intransponível, Hothspoth e Edric uniram suas percepções alteradas. O solariano projetou um déjà-vu rítmico que Edric materializou, transformando o asfalto plano em uma rampa ascendente. O caminhão saltou sobre os blindados inimigos, embora o impacto na queda tenha lançado Hothspoth contra as paredes internas, causando-lhe ferimentos leves.

Fogo de Supressão: Kassius demonstrou precisão absoluta na torre, destruindo drones de vigilância e abrindo brechas em tanques de guerra com disparos certeiros de projéteis.

O Rompimento do Muro

Ao se aproximarem do espaçoporto, Flynn detectou, via sensores infravermelhos, que as tropas militares aguardavam o grupo na entrada principal. Rykkgnaw optou por uma abordagem direta e violenta.

— Vamos passar por cima! — ordenou o capitão.

Com o suporte tático de Flynn e um disparo de Kassius que enfraqueceu a estrutura, Rykkgnaw lançou o veículo contra o muro de contenção do porto. A parede desmoronou sob o peso do caminhão monstro, permitindo que o grupo invadisse a pista de decolagem em meio a escombros e soldados atônitos.

O Conflito Orbital

Ascensão Meteórica

A comporta de carga da Berenice abriu-se no momento exato da chegada do veículo. Astra e Pip coordenaram a entrada enquanto a nave já iniciava o processo de decolagem sob fogo inimigo. Edric assumiu o manche assim que alcançaram a ponte, forçando os motores para deixar a atmosfera em uma subida vertiginosa de 4.000 metros em poucos segundos.

No espaço, a situação era crítica: uma frota mista de naves do Veskarium e da Lança de Hierofante aguardava a Berenice.

A Estratégia Diplomática

Enquanto a nave realizava manobras evasivas e Flynn reforçava os escudos, Rykkgnaw percebeu uma falha na coordenação inimiga. Ele abriu um canal de comunicação aberto com a nave de comando Vesk.

— Atenção, comando Vesk, interceptamos comunicações da Lança de Hierofante. Eles pretendem trair vocês assim que nossa nave for destruída — blefou o capitão, falando no idioma nativo.

Flynn complementou a manobra transmitindo os códigos de identificação das naves infiltradas da Lança que ele havia detectado nos sensores. O resultado foi imediato: as naves do Veskarium cessaram fogo contra a Berenice e voltaram suas baterias contra os antigos aliados da Lança, iniciando um combate fratricida na órbita do planeta.

Livre da perseguição, a Berenice ativou os motores de deriva. No interior, Hothspoth e Pip removeram raízes biomecânicas remanescentes que ameaçavam o núcleo de dobra, permitindo que a nave saltasse para a segurança do plano neutro.

O Outro Lado da Deriva

O Manifesto do Dr. Allen

Durante a viagem de oito dias pela Deriva, Berenice interceptou registros que o Dr. Allen estava redigindo nos terminais da nave. Tratava-se de um diário pejorativo onde o cientista atribuía apelidos insultuosos à tripulação:

Rykkgnaw: "Diretor de Circo" ou "Agente de Presídio".

Edric: "Chassi de Evelyn".

Kassius: "Torturador de Dialetos" ou "Torturador Estúpido".

Indignado, Kassius dirigiu-se ao laboratório de Allen. Ao ser recebido com o sarcasmo habitual do doutor, o soldado desferiu um soco violento, nocauteando-o instantaneamente. Rykkgnaw, após o incidente, confrontou Allen, ameaçando utilizá-lo como "combustível para o motor de deriva" caso sua atitude não mudasse radicalmente.

Pesquisa e Paranoia

Enquanto o grupo se recuperava nas câmaras de regeneração, Flynn utilizou sua nova lente — apelidada de "Óculos da Irlanda" — para observar a nave. Com o dispositivo calibrado em 77.914 GHz, ele fez uma descoberta perturbadora: os olhos do cérebro fossilizado no compartimento de carga seguiam seus movimentos, indicando atividade elétrica e consciência latente no fragmento do Santo.

Simultaneamente, Berenice contatou Hothspoth em segredo. Alegando sentir uma "oscilação na frequência" do solariano, a IA solicitou que ele inserisse um código criptografado em um dos clones de Evelyn Reed na ala médica. Héctor realizou o upload no Clone 2 na calada da noite, provocando um alerta sistêmico que quase comprometeu o laboratório antes de ele se retirar sem ser detectado.

A crônica encerra-se com a Berenice emergindo da Deriva na órbita de Vesk-4. A atmosfera relampejante e hostil do planeta é o cenário de um novo alerta: a nave foi marcada oficialmente como "procurada" em todo o sistema imperial.

terça-feira, 23 de junho de 2026

(VS)Sessão 36🤖

A Grande Fuga de Porto Furioso

O caos na enfermaria militar

A tripulação da Berenice despertou em um ambiente de esterilidade hostil: uma ala médica militar no quartel-general de Porto Furioso, em Vesk Prime. Edric, Flynn, Kassius (Cássios) e Rykkgnaw encontravam-se imobilizados em macas por arcos metálicos, sem seus equipamentos e sob a vigilância de um guarda Vesk.

Hothspoth (Héctor), movido por um impulso de libertação, iniciou uma resistência física violenta contra as amarras. Ignorando os apelos de Edric para que parasse, o solariano forçou os arcos de sua maca com tal força que os equipamentos entortaram, provocando um curto-circuito nos computadores de monitoramento. A reação do guarda foi imediata, disparando um rifle de choque contra as costas de Hothspoth. Embora o disparo tenha causado danos, o solariano resistiu ao efeito paralisante, pulando por cima das macas dos companheiros em um movimento de "parkour" para tentar libertá-los.

Kassius, aproveitaram a distração, forçou seu próprio arco metálico. Com o auxílio de Hothspoth, o dispositivo cedeu, permitindo que o soldado libertasse o braço direito. No entanto, o guarda ordenou que as enfermeiras, ocultas atrás das estações de trabalho, "apagassem o soldado" através do sistema de sedação da maca. Kassius sentiu um calor súbito no peito e, apesar de tentar resistir, mergulhou novamente na inconsciência.

A manifestação do Receptáculo

Enquanto Hothspoth continuava a atrair o fogo do guarda, Edric sentiu a ressonância do Santo pulsar em seu braço direito. Uma clareza absoluta tomou sua mente: ele compreendeu que não precisava lutar contra as algemas, pois possuía o poder de reescrever a própria condição de sua existência.

Concentrando sua vontade sob uma dor excruciante, Edric realizou uma transposição de realidade. Em um piscar de olhos, o impossível ocorreu: as algemas e os cateteres que prendiam o grupo simplesmente deixaram de existir naquela linha temporal. Para o guarda e as enfermeiras, o grupo nunca estivera de fato preso.

O operativo então focou seu pensamento no arsenal da tripulação. Subitamente, as armaduras pesadas, os rifles e os cristais solarianos — que estavam trancados em armários de vidro do outro lado da sala — retornaram aos seus donos. O grupo levantou-se das macas plenamente equipado para a guerra.

O domínio de Kassius

Hothspoth tocou o ombro de Kassius, despertando-o do coma induzido. O soldado ergueu-se de sua maca como um gigante de aço, empunhando sua bazuca. O guarda Vesk, paralisado pelo terror de ver prisioneiros desarmados transformarem-se em uma unidade de combate de elite em segundos, recuou contra a parede.

Kassius, utilizando sua autoridade física imponente, bradou: — "Ajoelhe-se agora!"

O guarda soltou seu rifle e obedeceu imediatamente, enquanto as enfermeiras fugiam em pânico pela porta principal. Rykkgnaw, ainda enfraquecido, recebeu os primeiros socorros de Héctor, recuperando a estabilidade necessária para a fuga.

A investida pelos corredores

A voz de Berenice ecoou nos comunicadores com urgência. Ela informou que estava sob ataque cibernético massivo e precisaria isolar os canais da nave para proteger sua senciência. Sob a liderança de Hothspoth, que mantinha lampejos de orientação do local, o grupo iniciou uma corrida frenética pelos corredores metálicos do complexo.

Um pelotão de guardas interceptou a fuga em um cruzamento estratégico. Os inimigos abriram fogo com rifles elétricos, mas Flynn e Hothspoth posicionaram-se na vanguarda como barreiras vivas, absorvendo os disparos enquanto o capitão e Edric buscavam flanquear a posição. Edric, sentindo o braço formigar com o eco de realidades moribundas, concentrou sua vontade para "fechar" as passagens atrás do grupo, impedindo que os guardas no pátio interno os alcançassem.

O Caminhão Monstro e a ruptura do perímetro

A tripulação alcançou a garagem do quartel, uma vasta câmara repleta de tanques e veículos de transporte. No momento em que o portão principal se abria para permitir a entrada de reforços, Edric decidiu realizar um último e perigoso ato de criação.

Visualizando um veículo capaz de romper qualquer bloqueio, Edric moldou a matéria à sua volta. O esforço causou-lhe uma hemorragia psíquica severa, mas o resultado foi avassalador: o grupo encontrou-se a bordo de um Caminhão Monstro (Monster Truck) titânico, equipado com um canhão de artilharia pesada e o motor já rugindo em alta rotação.

Rykkgnaw assumiu o volante, enquanto Berenice integrava-se momentaneamente aos comandos para fornecer suporte tático. O veículo acelerou, passando por cima dos carros de patrulha e esmagando as defesas leves da garagem. O caminhão monstro rompeu o portão de saída, ganhando as ruas de Porto Furioso sob o som de sirenes de alerta máximo.

No instante em que ganhavam a avenida principal, Berenice emitiu seu último comunicado antes de entrar em blecaute preventivo: — "Estão tentando me hackear, capitão. Preciso sair do ar".

O rádio silenciou, deixando a tripulação sem mapas e sem apoio em meio ao coração do império Vesk, fugindo em uma máquina de guerra que desafiava as leis da lógica.

Fim da Sessão.

terça-feira, 16 de junho de 2026

(VS) Sessão 35 🤖

O Embate em Porto Furioso

A Rota Desviada

Após a conclusão da tensa transação na agência de câmbio em Porto Furioso, onde a tripulação converteu seus créditos em 127.500 UBPs, o grupo solicitou um transporte autônomo (Vuber) com destino ao hangar da nave Berenice. Durante o trajeto, Kassius e Hothspoth, utilizando suas perícias de Segurança e Sobrevivência, perceberam que o veículo divergiu da autoestrada principal, adentrando uma zona industrial periférica e abandonada.

As tentativas de retomar o controle do sistema do veículo falharam sistematicamente. Edric buscou hackear a interface de navegação, enquanto Rykkgnaw tentava persuadir a inteligência artificial do carro, que respondia apenas com mensagens protocolares de segurança. A tensão escalou quando Kassius, em um impulso pragmático, quebrou o vidro do motorista com um cotovelaço e ameaçou disparar sua bazuca contra o motor para forçar a parada, sendo contido pelo grupo para evitar uma retaliação imediata das patrulhas Vesk que monitoravam a área via drones.

A Emboscada no Armazém

O veículo conduziu a tripulação para o interior de um armazém em ruínas, onde as portas se selaram automaticamente. No local, o grupo foi cercado por cinco soldados Vesk em armaduras pesadas e três torretas laser automatizadas posicionadas em pontos elevados. O líder dos agressores identificou-se como um contratado de Vandis, exigindo a entrega imediata das maletas de UBPs em troca da vida dos aventureiros.

Rykkgnaw tentou uma manobra diplomática, utilizando a presença dos drones de vigilância militar Vesk como um blefe de proteção oficial, mas os mercenários demonstraram não temer as autoridades locais. O conflito tornou-se inevitável quando o grupo se recusou a entregar a carga, dando início a um confronto brutal e desigual.

O Sacrifício e a Queda

O combate foi marcado por uma coordenação defensiva desesperada. Flynn e Kassius assumiram a linha de frente; Kassius utilizou seu Canhão Estelar em modo de "Barragem Brutal", causando danos massivos em área, enquanto Flynn alternava entre manifestações fotônicas e o uso de seu escudo para absorver disparos. Edric, posicionado na retaguarda sob a cobertura do veículo, utilizou seu rifle de precisão para neutralizar dois soldados com disparos críticos, incluindo um tiro incapacitante nos quadris de um dos oponentes.

Hothspoth utilizou seu jetpack para alcançar as passarelas superiores, iniciando um processo técnico de desativação das torretas. Embora tenha sofrido uma descarga elétrica violenta ao manipular os circuitos, conseguiu inutilizar uma das unidades de defesa.

Apesar dos esforços, a superioridade numérica e o fogo constante das torretas remanescentes cobraram seu preço. O capitão Rykkgnaw foi o primeiro a ser abatido, atingido por um disparo laser enquanto tentava flanquear os inimigos. Flynn, exaurido e com o escudo sobrecarregado, caiu logo em seguida. Kassius, após ser alvo de uma sequência de tiros de torreta que superaqueceram sua armadura, também perdeu a consciência. Edric, ferido e isolado sob o carro, foi o último a sucumbir após ser atingido por um disparo que o deixou em estado crítico.

A Intervenção do Veskarium

No momento em que a derrota parecia definitiva, os drones de vigilância militar que acompanhavam o grupo, sob ordens do General Thor (ou Major-Subordinado Radok Thorl), intervieram. Demonstrando a autoridade impiedosa do Veskarium, os drones executaram um protocolo de autodestruição, colidindo diretamente contra as torretas mercenárias para neutralizar a ameaça no armazém.

Hothspoth, o único ainda consciente no telhado, desceu para prestar os primeiros socorros. Ele utilizou um kit médico para estabilizar Edric e organizou a remoção dos companheiros inconscientes. Uma van militar sem identificação chegou ao local, conduzindo o grupo sob custódia para o quartel-general.

Sob Interrogatório e Custódia

No complexo militar, Hothspoth foi levado a uma sala de interrogatório, onde o General Thor exigiu explicações sobre a perseguição da Lança de Hierofante em solo Vesk e, mais criticamente, solicitou acesso irrestrito à nave Berenice. O solariano tentou negociar a integridade da nave, mas Thor foi enfático: ou o acesso seria concedido voluntariamente para uma varredura militar, ou a nave seria arrombada à força. Héctor acabou autorizando a entrada da equipe de solda e inspeção para evitar danos maiores à estrutura da Berenice.

A sessão encerrou-se com os demais membros da tripulação — Rykkgnaw, Edric, Flynn e Kassius — despertando em uma ala médica hospitalar vigiada. Eles encontram-se desarmados, amarrados a macas e conectados a cateteres, enquanto equipes táticas Vesk circulam pelo ambiente branco e estéril.

domingo, 31 de maio de 2026

(LA) Sessão 42

A honra manchada

A defesa

O gabinete do comandante Dariam Ferrembrasa tinha cerca de 12 m², paredes de rocha maciça e pouca decoração. A mesa com dezenas de pergaminhos desorganizados era o foco do local.

A acusação sobre Haftor pesava, mas a reputação que construiu permitiu que lhe fosse concedida uma defesa justa antes de qualquer condenação. O paladino aproveitou a oportunidade para organizar seus argumentos.

— Mestre Dariam, imagino que as acusações sejam do sacerdote de Telas? Ele é um corrupto e a cidade parece estar sendo dominada pela elite dos magos de lá. Eles parecem ter esse clérigo na carteira.

— Calma, calma, Haftor. — interrompeu Ferrembrasa. — Vamos por partes. Primeiro, você nega as acusações? — O comandante virou-se e pegou um punhado de pergaminhos enquanto falava. Leu-os em voz alta: — Assassinato. Usurpação da autoridade judiciária de Telas. Invasão de domicílio da patronesse Syllen’ae. Tem outras aqui que eu ignoro. — disse, jogando os papéis sobre a mesa.

— Bem, vamos por partes, então. A invasão de propriedade foi parte de uma investigação de escravização de anões. Nós encontramos alguns. Inclusive, tem um com a gente. Um anão muito bom, um guerreiro.

— Espere... você não está negando?

— Se invadir uma casa durante uma investigação de tráfico configura invasão da soberania e da propriedade da patronesse, não posso negar que fiz isso. E o assassinato que eles estão alegando foi em legítima defesa.

Ferrembrasa estava consternado. Esperava uma declaração de inocência, mas, em vez disso, Haftor confirmava todos os fatos. Apesar disso, ouvia e tentava compreender a situação.

— E... — continuou o paladino — quanto à usurpação de autoridade em Telas, não havendo um paladino no local, o templo estava vazio porque, afinal, ele convenientemente estava fora. A ordem exige a minha autoridade como lei local. Eu participei de um julgamento de um companheiro daquela elfa sombria que foi, inclusive, condenado.

O paladino continuou com sua explicação, argumentando ferrenhamente em sua defesa, enquanto seu irmão e Dariam Ferrembrasa escutavam.

— Temos dois problemas aqui. Um é o problema da corrupção em Telas. O outro é um problema interno no templo de Crizagom, que eu vou reportar, e ainda vamos fazer uma auditoria lá.

— A relação entre Blur e Telas não é tão lisa quanto imagina, Haftor. — mencionou Dariam. — Nossa ordem de Crizagom no núcleo de Blur é isolada, comparada com a ordem que está em Telas, que é muito mais relacionada com o norte do que temos vontade. Mas quero muito acreditar em você. Eu odeio aquele Thragner, mas as acusações estão aí. Não posso fechar os olhos para todas elas.

— Mestre Dariam... — interrompeu Haldor. — O senhor lembra de Kórgan? Ele desapareceu em uma missão.

— Vocês tinham mencionado, mas está vivo?

— Então, está vivo, está conosco. — revelou Haldor. — Vivo e bem. E ele pode corroborar a nossa versão. Se a nossa palavra não transpassa a verdade, mesmo depois de todos os anos que temos juntos, nós temos uma terceira pessoa que pode ajudar.

— Não leve para o lado pessoal. — justificava-se Ferrembrasa.

— De maneira alguma. Mas, quando dizemos ao senhor que nossas acusações são fruto de intrigas, mentiras e corrupção, se fosse ao contrário, eu acreditaria cegamente.

— Onde está Kórgan?

— Está pela cidade. — respondeu Haftor. — Chegou com a gente.

— Haftor... tentaremos um acordo com Telas por via diplomática e talvez um julgamento à distância, mas, se retornar, será preso e julgado.

— Eles provavelmente vão tentar me eliminar diretamente. Então, se esse for o desejo de Crizagom, eu vou assumir. Mas saiba que é injusto.

— Não seja ingênuo. Não tem nada a ver com o desejo de Crizagom, mas com a vontade de corruptos. Eu compreendo a sua situação. Não acredito em nada do que esse sacerdote meia-tigela diz. Conheço o tipo dele, mas estou preso à burocracia. Não podemos simplesmente remover os cartazes da superfície. Você deve encarar isso como um ordálio do seu julgamento.

O paladino não ficara convencido. Ele acreditava poder resolver sua situação diretamente, apesar dos apelos do comandante.

— Não terão percalços em Blur. São bem-vindos aqui, sua terra natal. Mas saibam que precisarão comprovar sua isenção dos fatos, ou pelo menos justificá-los. Talvez Kórgan possa ajudá-los.

— Não se preocupe. — amenizou Haftor. — Eu não pretendo me esconder. Vou seguir com minha missão, que é muito mais importante do que isso. E, se eu for levado a Telas por qualquer tipo de autoridade, não vou oferecer nenhum tipo de resistência.

— Ah! — lembrou-se Haldor. — Antes que eu me esqueça, Horgrundis é o traidor.

— O senhor lembra de um tal de Durnam, o Expurgado? — questionou Haldor.

Ferrembrasa acenou com a cabeça, lembrando-se do nome.

— Aparentemente, ele está em Blur e agindo com uma rede de tráfico. — completou Haftor.

— Impossível. — argumentou o comandante. — Ele jamais poderá retornar. Perdeu seu nome, sua identidade. Durnam não existe.

— Esse agora atende por Horgrundis. E a última informação que temos dele é a de que estava em Blur.

— Horgrundis... já ouvi falar. Há várias acusações contra ele.

Dariam dirigiu-se à prateleira e retirou um tomo pesado e empoeirado, soprando a poeira e abrindo-o nas anotações sobre Horgrundis.

— Horgrundis foi acusado de contrabando, corrupção, assassinato e traição. Ninguém conseguiu fazer uma descrição clara de como ele é ou quem ele é. Ele não é visto. O nome dele se espalha pelo submundo de algumas cidades e fortalezas, mas nunca conseguimos capturar alguém que tenha negociado diretamente com ele.

— E o nome Horgrundis surgiu com ele?

— Sim. Ele não é filho de ninguém, não é de clã nenhum.

— Se ele é Durnam, como dizem, está claro o porquê. — concluiu Haftor.

— Agora, sabendo que se trata de um anão nativo de Blur, podemos investigar melhor. Talvez sua família saiba de algo. Eu conheci pessoalmente o pai dele no momento do expurgo. Ele passou a negar a existência de um filho. Não parece ser alguém que corroboraria esse tipo de atitude, mas vamos investigar de perto.

Devolvendo o livro à prateleira, Dariam voltou a falar sobre o julgamento de Haftor. O comandante pedia encarecidamente que o paladino não fosse aprisionado em Telas, pois isso dificultaria a defesa por parte de Blur.

— Por favor, apenas não volte a Telas. — implorou Ferrembrasa.

— Não posso prometer. — respondeu Haftor, cético.

— Por favor, Haldor, ponha juízo na cabeça de seu irmão!

— Eu tento, mas às vezes eu tenho menos do que ele.

Por fim, Haftor lembrou Dariam sobre a carga interceptada. Ao ouvir sobre a quantidade e o conteúdo, equipou-se, vestiu sua capa e acompanhou a dupla pessoalmente para constatar as provas do contrabando.

Réctor, Guia, Kórgan, Demétrius e Olgaria aguardavam perto de onde as nuvens voadoras haviam pousado com as carroças.

Ao ver o comandante, Kórgan se aproximou e cruzou braços com Ferrembrasa.

— Mestre Ferrembrasa!

— Que alegria vê-lo realmente vivo, como haviam mencionado. Preciso que explique o que aconteceu com você em detalhes.

— Eu queria saber por que um herói está com sua cabeça a prêmio. — intrometeu-se Réctor, indignado.

— Tenho certeza de que sabe exatamente tudo o que se passou com Haftor nas últimas semanas e que também sabe qual é o ambiente em Telas. — respondeu Dariam, com formalidade. — Nossa relação com aquela cidade é tensa. Diplomática, mas tensa.

As palavras de Ferrembrasa não tiravam o ceticismo de Réctor.

— Sim, eles se desviaram do caminho de Crizagom há muito tempo. — completou o napol.

— Os magos fazem o que precisa ser feito para alcançar seus objetivos, ignorando as leis divinas. Isso às vezes nos coloca em situações difíceis, como eu tenho certeza de que Haftor foi colocado.

Ferrembrasa olhava para todos, certificando-se de que o grupo o ouvia e percebia suas intenções antes de continuar.

— Mesmo não concordando totalmente com as ações que Haftor tomou, tenho certeza de que foram as únicas que ele poderia ter tomado na situação que lhe foi imposta.

— Certeza. — ironizou Réctor.

— Senhor. — Kórgan pediu a palavra. — Eu fui sequestrado por elfos sombrios graças a uma informação de Horgrundis, um traidor que se chamava Durnam.

— Haldor mencionou. Isso esclarece muitos documentos que tenho arquivados.

— Fui levado a um calabouço no subterrâneo de Telas e marcado. — O anão colocou a mão na nuca com uma expressão de pesar e sofrimento, lembrando-se da marca removida pela graça de Crizagom trazida por Haftor. — Graças a Blator e Crizagom, essas pessoas chegaram e me tiraram de lá.

— Eu não entendo muito desse negócio aí de leis, não. — comentou Garuk, impaciente com as formalidades. — A cidade estava toda corrompida. A gente foi lá e meteu a porrada em todo mundo para que isso não se repetisse, porque quem tava lá tava fingindo que não tava vendo o que tava acontecendo. Vocês ficam aí falando bonito e ninguém entende porra nenhuma.

— Quer defesa melhor do que essa? — argumentou Réctor. — Eu acho um ultraje ver estas imagens. — dizia o napol, mostrando um cartaz de procurado com o retrato do paladino. — Mesmo que Telas possa criar algum problema, não colocariam um herói para ser caçado. E, se precisarem de ajuda lá, procurem o colégio necromante. Eles podem ajudar e dizer exatamente o que aconteceu.

— Eu acho que aqui não é o lugar certo para conversarmos sobre isso. — lembrou Haftor.

— Quero começar com você. — Dariam apontou para Kórgan. — Me acompanhe ao meu gabinete. Preciso do seu testemunho o quanto antes.

— E o senhor viu aqui nossa carguinha? — brincou Réctor, aproximando-se das carroças e revelando parte dos lingotes de Corvear.

Ao ver o minério lapidado, Dariam levou ambas as mãos à cabeça, perplexo. Aproximou-se e pegou um lingote.

— Por Blator! Quanto tem aqui? Uma carga desse tamanho não pode ter saído de Blur sem que ninguém tenha percebido.

— Várias cargas dessas já foram levadas. Essa aqui era só a última.

Dariam respirou fundo, visivelmente tenso e sério com a dimensão do problema interno na fortaleza.

— Olha só, o senhor falou aí que tem uns papéis com um monte de denúncia. Era melhor vocês começarem a parar de olhar papel e começar a olhar em volta, hein. — sugeriu o Guia.

O grupo explicou sobre a rota de saída de Corvear a partir de Vir-Máliz, mostrando ao comandante o mapa que encontraram com Kovor e seu bando.

— Vou enviar as cartas necessárias. Precisamos reforçar a segurança em Vir-Máliz e descobrir quem são essas pessoas que estão traindo o coração de Blur.

O peso das reputações

Dariam conduziu os oito aventureiros pelo interior da imensa fortaleza, levando-os a uma sala grande e sem janelas, iluminada apenas por candelabros e com um forte cheiro de ar fechado. No centro, havia uma mesa espaçosa para doze pessoas.

O grupo se acomodou enquanto Ferrembrasa foi providenciar pergaminhos para anotações e bebidas para todos.

Enquanto aguardavam, o grupo teve uma conversa com Demétrius, que ainda temia por seu destino nas mãos dos juízes de Blur. Réctor tentou acalmá-lo, dizendo que ele já fizera muito por sua redenção e que, talvez, fosse perdoado por seus crimes. O falsário permaneceu tenso, mas colaborativo.

— Sobre esse Horgrundis... alguns dos documentos dele chegavam até Trisque. Talvez, nas minhas coisas, ainda tenha alguma assinatura dele. Pode ser que bata com a desse tal Durnam aí.

— Isso aí, Magrelo, assim que se faz! — elogiou o Guia.

Minutos depois, Dariam retornou com um barril de cerveja sobre os ombros e encheu os canecos de todos.

— Não podemos conversar de boca seca.

Dariam passou um longo tempo redigindo meticulosamente o testemunho de Kórgan. Ao finalizar e assinar os papéis, voltou sua atenção para o restante do grupo, pronto para entender as ramificações mais profundas daquele carregamento místico.

O grupo, especialmente nas palavras de Réctor, explicou que os elfos sombrios buscavam uma forma de canalizar a energia da Aurora Gelada para si como forma de dominar o karma infernal.

— Seu povo já lapidava as pedras da Aurora Gelada, não é? — questionou o feiticeiro.

— O Corvear é uma rocha típica de Blur que não deve ser exposta ao exterior, pois foi com ela que construímos as ferramentas mais poderosas, responsáveis pelo grande cisma há muito tempo. Eu vou comunicar o quartel-central sobre o contrabando. Com certeza, darão a atenção que isso merece.

O grupo falou sobre Elga, a intermediária que negociou com Kovor em Vir-Máliz, mas Ferrembrasa não a relacionou com ninguém. O mapa com o trajeto percorrido pelo contrabandista foi cedido ao comandante, uma vez que o Guia já decorara o percurso.

— Obrigado.

— Inclusive... — interrompeu Haftor. — Tenho um pedido a fazer. Sei que a situação já está bem complicada e é um certo abuso, mas gostaria de levar esse grupo para dentro de Blur. Temos muito o que descobrir, tanto no templo de Crizagom quanto mais perto do Forja. Podemos ajudar a descobrir o paradeiro de Horgrundis.

Dariam ficou perplexo. Era nítido em seu rosto. O Guia quebrou os instantes de silêncio que se seguiram enquanto o comandante processava o pedido inusitado, mencionando o Testamento da Ordem e uma figura importante encontrada junto ao laboratório de Veridion Scriptôr, na Torre Branca do Sul.

— O senhor já ouviu falar de uma tal Irina?

— Não me recordo.

— Ela vivia na torre a leste daqui, perto da costa.

— Os anões que viajam à superfície às vezes não têm relações com Blur. Então, não, eu não a conheci. Mas já ouvi falar do Testamento da Ordem, embora ele não tenha relação com as nossas cidades.

— Eles já tinham muito Corvear.

— Pelo que já ouvi, o Testamento da Ordem é uma lenda muito antiga, talvez anterior ao cisma. Então, é possível que eles tenham manuseado o Corvear com autorização.

— E quem dá essa autorização hoje? — insistiu o Guia.

— Ninguém. É proibido. No passado era um minério muito valioso e que os ferreiros tinham liberdade para trocar. Porém, poucos conseguiam tirá-lo daqui em razão dos preços praticados. Mesmo assim, não era proibido.

— Por que o Corvear foi proibido? — indagou Haldor, que não conhecia a história por trás do metal anão.

— O cisma foi um conflito entre clãs anões ocorrido há muito tempo. Um desses clãs adorava uma entidade externa ao panteão. E eles faziam uso do Corvear para dominar os poderes dela. Eles foram expulsos e, com eles, toda a possibilidade de exportar Corvear.

— É, mas podem ter deixado alguma coisa escrita, né? Se há algum registro, está na biblioteca da capital. — supunha o napol. — Em Caridrândia tem uma biblioteca maior do que a de vocês aqui. Provavelmente eles sabem disso.

A sugestão de que os elfos possuíam uma biblioteca melhor do que a dos anões irritou Dariam. Seu olhar mudou instantaneamente.

— O conhecimento dos elfos é superficial e egocêntrico. Eles não estão preocupados com as tradições anãs. Não estão preocupados nem com as próprias tradições, pois as abandonaram há muito tempo, quando se corromperam.

— É, mas para pegar Corvear sem vocês saberem eles são bons. Duas toneladas de coração nobre. — provocou Réctor.

— Nem o coração mais nobre está imune à corrupção. Você deve saber disso. Duas toneladas são irrelevantes perto da montanha que existe no interior de Blur, entre o Forja e o Krokanon.

— É, mas, pelo que eu sei, devem ter sido cinco ou dez cargas de duas toneladas.

Dariam bateu com a mão na mesa, perdendo a paciência.

O grupo amenizou a situação, alegando que estava ali para ajudar e que o comandante deveria guardar seu rancor para aqueles que o estavam traindo. Então, explicaram que não tinham intenção de insultar, apenas pedir passagem para resolver a situação.

— Eu não sou a pessoa a quem devem pedir entrada em Blur. Mas saiba, Haftor, que, por cento e cinquenta anos, não houve um não anão que tenha pisado no interior das fortalezas. O interior de Blur é cobiçado por muitas pessoas: mercenários, comerciantes... ninguém foi aceito. A terra dos anões é para os anões.

— Mas o que está em jogo é muito grande, senhor. De qualquer forma, agradeço demais a sua compreensão. Vamos fazer o possível para ficar fora do seu caminho.

— Acho que já anotei tudo que precisava ser registrado. Haldor, fale com Gruntor se quiser uma autorização especial, mas eu não seria muito otimista.

O julgamento informal

Após a tensa reunião com Dariam Ferrembrasa, o grupo percebeu que precisaria de uma nova abordagem para entrar na montanha. Decidiram, então, afastar-se do centro burocrático e buscar um lugar para descansar e traçar planos.

Os aventureiros adentraram uma grande taverna construída inteiramente em pedra. O interior estava aconchegante e significativamente mais quente devido às duas lareiras acesas, uma de cada lado do salão. O ambiente era animado, preenchido por cerca de quarenta pessoas, quase todos anões, e pela música de um bardo tocando gaita de fole.

Uma anã taverneira aproximou-se para guiá-los até uma mesa. Garuk, devido ao seu imenso tamanho e anatomia, encontrou dificuldades com o mobiliário local, sendo obrigado a sentar-se no chão.

Depois de serem abastecidos com canecos de cerveja, o grupo pediu um porco para comer. No entanto, “Carne de Bandido” era uma das opções propostas no cardápio pela taverneira. O nome gerou brincadeiras e provocações dirigidas a Demétrius.

A menção ao julgamento fez o grupo retomar o assunto sobre o destino do Atravessador. Como ele já havia ajudado consideravelmente desde a captura, alguns achavam que tinha pago sua dívida com a justiça.

— E, por falar nisso, Haftor, você vai mesmo denunciar Demétrius? — perguntou Olgaria. — Eu acho que ele já pagou a dívida dele, né?

— A lei é clara e ele tem que passar pelo julgamento, mas tenho certeza de que posso dar uma boa palavra para ele se sair bem.

— E se você não conseguir entrar com ele lá no túnel?

Percebendo que talvez houvesse dificuldades para conduzir um bandido para o interior da fortaleza, Réctor surgiu com uma sugestão:

— Mas, olha só, você falou que, quando não tem quem exerça a lei, você pode exercer. Bem, então, se ele não pode entrar e você é a lei, julga ele aí!

— É, Haftor! Resolvemos isso agora! — interessou-se Demétrius.

— Eu acho que o Demétrius já cumpriu a parte dele. — opinou Olgaria.

— É, mas sua opinião não vale aqui. — cortou Réctor.

Haftor decidiu assumir a responsabilidade e iniciar o rito ali mesmo, na mesa da taverna.

Haftor assumiu um tom mais sério e sacerdotal para proferir sua avaliação sobre os atos de Demétrius, enquanto o grupo argumentava que andar com eles já era punição suficiente.

— Você realmente tem mostrado que se redimiu, mas ainda precisa pagar por seus crimes. Você acha que, sem a gente por perto, estaria melhor?

— Eu estaria em Trisque, assinando documentos falsos para Táviga. Não, não estaria melhor.

Réctor intrometeu-se, dizendo que poderia conduzir Demétrius até as terras dos bárbaros e, de lá, ele poderia partir para os reinos do norte, onde haveria “um monte de gente para ele enganar que ainda não o conhecia”.

— Não, ele não vai mais enganar ninguém, não é mesmo? — pressionou Haftor.

— Eu sou outro homem. Por Crizagom, eu juro.

— Cuidado com esse tipo de juramento, hein. — duvidou Réctor. — Vamos fazer o seguinte...

Antes que Réctor pudesse concluir seu pensamento ou Haftor proferisse o veredito final que libertaria oficialmente Demétrius, o julgamento informal foi abruptamente interrompido.

A porta da taverna se abriu, revelando oito homens armados. O líder, um humano de cabelos e barbas grisalhas curtas, vestindo uma tabarda azul, fixou o olhar diretamente em Haftor e deu ordens em voz baixa aos seus homens, espalhando tensão pelo salão anão e dando início a um novo e perigoso conflito.

O duelo de Garuk

— Droga, estava quase livre. — resmungou Demétrius.

O homem aproximou-se da mesa com postura ameaçadora e identificou-se, dirigindo-se a Haftor.

— Eu sou Jorgan, mercenário de Telas, e fui ordenado a levá-lo diretamente para julgamento na cidade.

— Não será necessário, meu nobre. — disse Haftor. — Saiba que a validade dessa procura está sendo questionada. Seria bom aguardar que essa questão se resolvesse antes de querer sua recompensa.

— Fala que você não vai. — instigava Réctor. — Vamos, arranje encrenca.

— Seus companheiros não têm nada a ver com isso. — explicou o mercenário.

— Têm a ver. — pontuou Réctor. — Se você encostar nele, a gente vai arrebentar vocês na porrada.

Haldor sacou seu machado e o apoiou ao lado do corpo, deixando claro que não recuaria. Imediatamente, dezenas de anões da taverna se levantaram e sacaram seus próprios machados, em solidariedade aos compatriotas e em repúdio à insolência do humano de Telas.

Jorgan deu um passo atrás, hesitante.

— Disseram-me que você era um sacerdote honrado, que viria responder por seus crimes.

— Não tem crime, cara. — disse Réctor. — Só tem corrupto naquela cidade.

Intimidado pela demonstração de força coletiva e recuando em suas intenções primárias, Jorgan gesticulou para que seus homens recuassem. Garuk percebeu a hesitação e começou a imitar uma galinha, fazendo barulhos de “pocó” para zombar do líder. A taverna inteira aderiu à humilhação.

— É covarde! — diziam os anões, em coro. — Você não pode entrar numa taverna, fazer uma acusação dessas e sair com o rabinho entre as pernas!

— Que tal um duelo? — desafiou Garuk.

Jorgan virou-se para o sekbete com a mão no punho da espada.

— Valendo a custódia do prisioneiro Haftor.

— E valendo a tua honra, cara. — provocou Réctor. — Você que está aí, recuando.

— Amanhã, ao pôr do sol, do lado de fora.

Garuk não se contentou. Nem Réctor. Eles provocaram o humano, que acabou cedendo a um duelo imediato.

Pressionados, Jorgan e seus homens seguiram para fora da fortaleza, até um campo nevado. Os anões formaram um grande círculo na neve para assistir ao espetáculo. Garuk, demonstrando total desprezo pelo nível de perigo do oponente, fincou seu machado no chão e decidiu lutar apenas com as próprias garras. Jorgan sacou uma espada manchada de sangue.

— Eu vou te arrebentar na mão!

O combate teve início. Jorgan investiu com sua espada larga, mas Garuk esquivou-se habilmente, abaixando-se rente à neve, e contra-atacou repetidamente com suas garras, forçando o mercenário a recuar, pular e gastar muita energia. Jorgan logo começou a suar frio diante da bestialidade de Garuk.

Após mais uma investida falha de Jorgan, cuja lâmina esbarrou inofensivamente na armadura de ossos do combatente bestial, Garuk bateu no próprio peito, atiçando a torcida.

— E isso é um mercenário que se preze para capturar alguém?

O desfecho foi brutal e rápido. Garuk desferiu um golpe com a mão esquerda no ombro e no pescoço de Jorgan, derrubando-o de bruços na neve. No exato instante em que o mercenário apoiou os joelhos no chão e levantou o rosto ensanguentado para tentar se erguer, Garuk desferiu uma garrada de baixo para cima. A unha cravou abaixo do queixo de Jorgan, atravessando a base da boca e arremessando-o no ar. O humano caiu completamente apagado e estirado no chão, com a espada distante do corpo. O sangue manchou a neve e os anões vibraram.

Réctor, sem perder o humor, virou-se para o segundo no comando dos mercenários, que estava prestes a assumir a liderança da tropa diante da morte iminente de Jorgan.

— Parabéns, Galvir!

— O que está acontecendo aqui? — indagou um guarda da fortaleza, aproximando-se.

— Um assassinato! — exclamou outro.

Antes que a situação se tornasse um problema legal, Haftor avançou até o corpo mutilado de Jorgan. Colocando as mãos sobre o mercenário caído, invocou milagres divinos para fechar o terrível ferimento no queixo e despertar o homem, poupando sua vida.

— Está vivo e desperto. — anunciou o paladino.

— Tá tudo certo. — informaram os guardas. — Briga de taverna.

Jorgan despertou atordoado, segurando o próprio queixo, com a língua ainda machucada e presa, e olhou para o sacerdote que fora enviado para caçar e que agora o curava.

— Obrigado, Haftor. Não vou mais persegui-lo.

— É bom saber disso.

— Luta bem. — disse o homem, voltando-se para Garuk.

— Eu queria que você lutasse melhor, mas obrigado. — desdenhou Garuk.

Para selar o humilhante fim do contrato do mercenário, Haftor lhe deu uma última penitência antes de liberá-lo junto de seus homens perplexos.

— Sua ressurreição não pode ser gratuita. Não esqueça de passar em um templo no caminho e fazer uma doação... Não deixa no de Telas também não, tá?

Os mercenários de Telas recolheram suas coisas e partiram derrotados. Sob os olhares de admiração dos anões, que cumprimentavam Garuk com respeito, os aventureiros retornaram para a taverna para terminar a refeição prometida.

A estratégia para entrar em Blur

— Muito obrigado, meus amigos. Eu vou ficar com vocês. — declarou Demétrius, após o julgamento informal realizado por Haftor, que o absolveu.

Enquanto comiam, os aventureiros começaram a debater seus próximos passos em relação aos elfos sombrios e ao misterioso contrabando. Eles sabiam que precisavam atrair os inimigos para fora, mas também concordavam que, antes de qualquer confronto direto ou emboscada, era fundamental garantir o acesso oficial às galerias internas de Blur. Evitando os tortuosos caminhos da burocracia, Haldor decidiu que a melhor tática seria uma abordagem direta e pessoal com o líder militar.

Como o nome de Haftor ainda estava manchado pelas acusações vindas de Telas, Haldor optou por levar consigo o recém-resgatado Kórgan.

Haldor e Kórgan caminharam até o imenso paredão na montanha e adentraram por uma porta guarnecida. Os anões presentes abriram caminho em sinal de respeito. No trajeto, foram abordados por um guarda anão conhecido de Haldor, que ficou surpreso ao ver Kórgan vivo.

— Olá, Kórgan. Achei que estava morto! É um prazer vê-los bem. Vieram falar com quem? — questionou um dos guardas.

— O prazer é nosso, meu querido. Viemos ver o mestre Gruntor. — anunciou Haldor.

— Venham comigo. Eu os levo até ele.

— Como estão as coisas?

— Você ouviu falar do resfriamento do Krokanon? Algumas alas de Blur estão preocupadas, achando que podem congelar. Os artífices também dizem que não vão conseguir trabalhar e que as tradições vão se perder.

— Daremos um jeito, nem que tenhamos que pedir ajuda aos magos para aquecer nossas forjas.

— Não diga isso para Gruntor ou vai conquistar a antipatia dele pela eternidade. — alertou o guarda, que já terminava o trajeto até a grande porta de madeira que separava o corredor de pedra da sala do líder militar.

— Como está, meu amigo? — indagou Gruntor, aproximando-se para cumprimentar Haldor com um abraço.

— Estou bem.

— Está bem mesmo? Ouvi notícias trágicas sobre seu irmão.

— Tudo mentira.

— Eu não duvido. Aquele sacerdote de Telas é um tremendo vigarista.

— Na verdade, venho, além de cumprimentar meu nobre amigo, que não vejo há tempos, para trazer de volta nosso amigo Kórgan, que estava prisioneiro.

— É uma honra ver um guarda veterano sobrevivente de tantas batalhas. — elogiou Gruntor, referindo-se a Kórgan. — Cada um de nossos homens armados é uma peça importante.

— Temos traidores. — alertou Haldor.

— Pelo visto, sua estadia na superfície não o amoleceu nem um pouco, meu amigo.

— Pelo contrário! Vi coisas horríveis e vi que nossa tradição e filosofia devem ser cada vez mais preservadas.

Preparado o terreno diplomático, Haldor expôs o verdadeiro motivo da visita. Revelou que sua comitiva investigava os infiltrados em Blur e ousou ligar o contrabando à anomalia do vulcão.

— Eu falei com Ferrembrasa, e ele me orientou a falar pessoalmente com você para que autorizasse eu e minha comitiva, sob minha total responsabilidade, a atravessar nossos domínios.

Apesar do olhar desconfiado, Gruntor pareceu considerar o pedido.

— Hum... entendo. E são você e mais quantos?

— Somos oito.

Ao mencionar cada um dos companheiros, Gruntor invocou as tradições.

— Nossa tradição não permite que não anões entrem em Blur. Por que abriríamos uma exceção agora?

— O Krokanon está definhando, reduzindo sua potência, e nós temos uma chance de recuperar seu vigor. Horgrundis está contrabandeando Corvear debaixo dos nossos narizes.

— Nós não estamos conseguindo resolver isso.

— E este pode ser o motivo que está enfraquecendo o nosso vulcão. Eu tenho certeza de que, se resolvermos esse problema, você será lembrado como o grande líder que autorizou esse feito.

— Mesmo assim... — ponderou o líder de Tar-Néldor. — Parece-me algo muito delicado autorizar o acesso de cinco não anões às galerias de Blur. Você compreende a responsabilidade.

— Com certeza. — compadeceu-se Haldor. — E eu me responsabilizo por cada um deles e dou o meu pescoço a prêmio.

— Sua honra e sua reputação como fiadores deste acordo não são pouca coisa. — considerou Gruntor. — Mesmo seu irmão, que teve a honra manchada pelos últimos episódios, ainda mantém reputação entre os nossos, graças a tudo que cultivaram no passado.

— Mas em breve meu irmão terá o nome limpo. São apenas boatos maldosos de pessoas corruptas.

— Bem... vou precisar pensar uma noite. — anunciou. — Traga-me os nomes e o histórico de cada um dos não anões que o acompanharão. Eu decidirei pela manhã.

Com a promessa de Gruntor, Haldor despediu-se do mestre anão e retornou rapidamente à taverna onde o resto do grupo aguardava. Explicou as dificuldades da reunião e as exigências impostas para a liberação.

Os membros do grupo tentaram entender exatamente o que deveria constar naquele documento oficial e quais eram os limites da tolerância de Gruntor.

— Eu dei a minha palavra a ele de que não vamos fazer nada de errado e nem divulgar nenhum dos segredos que veremos lá embaixo. — explicou Haldor.

Sabendo da exigência de um relatório minucioso e formal sobre os feitos heroicos de aventureiros tão exóticos, o grupo recorreu imediatamente ao talento providencial do membro recém-absolvido. Com isso, Haftor encarregou-se de redigir o pergaminho em pedra, enquanto Demétrius o ditava minuciosamente, garantindo as palavras certas para que todos os feitos realizados por cada membro fossem traduzidos em características aceitáveis para seu acesso ao reino anão.

A mensagem foi entregue na fortaleza com o raiar do sol. Depois, por volta das onze horas, enquanto uma leve neve caía sobre a cidade de Tar-Néldor, um mensageiro da fortaleza chegou à estalagem procurando pelo responsável pelo pedido. O pergaminho dizia:

“Sob a responsabilidade do guarda Haldor, estão autorizados a entrar em Blur os sekbetes Garuk e Goragar, o napol Réctor e os humanos Olgaria e Demétrius. Nenhum deles poderá permanecer desacompanhado de Haldor enquanto se encontrar nas galerias. Se capturados, serão exilados eternamente. Esta autorização tem validade de quinze dias.”

O grupo comemorou. No entanto, ainda tinham tarefas a cumprir antes de entrar. Os quinze dias passavam a contar imediatamente.

A estatueta de Rodérico

Antes de começarem sua jornada de volta ao sul, Réctor verificou a integridade de sua casa dos sonhos. Como utilizava a tiara de Andote, o napol esperava observar alguma alteração nos filamentos dourados. O que viu, no entanto, foi um congelamento total do progresso da Aurora Gelada em sua mente. Nenhuma mudança foi observada: nenhum fio aumentou e nenhum diminuiu enquanto permaneceu com o adorno. Apesar disso, o feiticeiro sentia algo diferente. Algo inexplicável que parecia tornar o ambiente de sua casa distinto do que era em seu acesso anterior.

Sem conseguir deduzir do que se tratava, Réctor voltou-se para o planejamento de como atrair os elfos sombrios para uma armadilha junto de seus companheiros.

O plano consistia em montar uma armadilha na estrada e sobrevoar a área com a nuvem voadora. Quando os elfos sombrios encontrassem a isca, a estatueta de Andote, o grupo os abordaria de surpresa.

Definida a estratégia, retornaram para o Solar das Sombras Longas para falar com Andote e pegar a estatueta.

— Acho que essa é a peça ideal para vocês levarem. — disse Andote, carregando uma estatueta com a inscrição: “Talvez forma e memória sejam a mesma coisa”. — Levem esta.

Com o objeto em mãos, Réctor relatou à artesã a eficácia da tiara de Corvear.

— A tiara inibe a influência da Aurora.

— Interessante... Eu tenho sentido algumas coisas esquisitas. Vou usá-la. Talvez meu pai estivesse certo.

Antes de partir, Réctor explicou que, caso precisasse conversar com Andote, a convocaria em sonhos.

A maga do grupo de Kovor fora a única prisioneira ainda não entregue à justiça. Sombra a ressuscitou, pois o grupo precisava obter algumas informações.

— Eu negociei com anões em Vir-Máliz. — disse a maga.

— Você sabe o nome desses anões ou a aparência deles?

— Os que eu conversei, sim.

— Então entregue-os.

— Nenhum deles era Horgrundis. Eram dois subordinados dele.

Réctor demonstrou desprezo pela situação da maga, uma estudiosa que se vendera para uma função mercenária. A mulher, indignada, rejeitou a pena que o napol sentia.

Réctor, então, pôs-se a fazer um retrato falado dos anões que a maga descreveu. Com a arte em mãos, o grupo tinha mais uma ferramenta para encontrar os traidores.

Estavam prontos para colocar o plano de emboscada em ação.

Tar-Néldor, dias 28 e 29 do mês da Sabedoria do ano de 1502

terça-feira, 26 de maio de 2026

(VS) Sessão 34🤖

A Rota Desviada em Porto Furioso

O Peso do Ouro e a Vigilância Imperial

A tripulação de Berenice encontrava-se em solo imperial, no quartel-general de Porto Furioso, sob a supervisão direta do General Thor (ou Thorl). O grupo carregava consigo um chip contendo 150.000 créditos recebidos do Capitão Signus, que, somados a valores anteriores, totalizavam 200.000 créditos. No entanto, a riqueza era um fardo: as contas oficiais dos aventureiros estavam bloqueadas pelos Mundos do Pacto, e drones de vigilância militar pairavam sobre suas cabeças, escaneando cada transação e movimento.

A necessidade era clara: converter os créditos em UBPs (Unidades de Bens de Proveito), a moeda física e material da galáxia, para permitir a manutenção da nave e a compra de suprimentos sem depender de sistemas bancários vigiados. Berenice identificou 137 pontos de câmbio na metrópole, mas recomendou uma agência de segurança devido à origem duvidosa dos créditos.

A Transação em Kravossk (ou Kravoszk)

O grupo solicitou um transporte autônomo — um Vuber — para um trajeto de 20 minutos até a casa de câmbio. A agência, um edifício imponente guardado por vesks em armaduras pesadas e rifles laser, exalava uma atmosfera de luxo e autoridade. O Capitão Rykkgnaw assumiu a negociação sozinho, entrando em um saguão de mármore clássico para tratar com o gerente, um vesk chamado Kravossk.

A negociação revelou-se um "assalto legalizado". Ao detectar a vigilância militar ativa sobre o capitão, Kravossk impôs uma taxa administrativa de 15%. Houve uma proposta de reduzir a taxa para 7,5% mediante uma varredura profunda de uma hora, mas a IA Berenice calculou apenas 38% de chance de os créditos serem considerados "limpos". Temendo a descoberta da origem ilícita e a chegada iminente de perseguidores, Rykk aceitou a perda. A tripulação recebeu 127.500 UBPs, acondicionados em dois caixotes volumosos e uma maleta de mão.

Traição no Vuber

Com a carga pesada a bordo de um novo Vuber de personalidade "amigável", a tripulação traçou rota de retorno ao hangar da nave. No entanto, durante o percurso pelas autoestradas, Kassius e Hothspoth perceberam que o veículo divergiu do trajeto estabelecido, adentrando um distrito comercial abandonado e sombrio.

A tensão escalou rapidamente dentro da cabine. Edric tentou hackear o sistema do veículo para retomar o controle, mas deparou-se com uma criptografia de nível militar impenetrável. Kassius, agindo por instinto, desferiu um cotovelaço violento que estraçalhou o vidro do motorista, tentando ameaçar a IA com sua bazuca. Nada funcionou. O carro, ignorando as ordens e o dano físico, seguiu seu curso até o interior de um armazém em ruínas, onde as portas se selaram magneticamente.

A Emboscada no Armazém

Ao desembarcarem no hangar escuro, a tripulação percebeu que a armadilha estava completa. Três torretas laser automatizadas no teto travaram mira no grupo, enquanto cinco soldados vesk em armaduras pesadas surgiram das sombras, portando bastões de energia. O líder dos mercenários alegou trabalhar para um contratante chamado Vandis.

A exigência foi direta: "Deixem toda a carga e podem partir". Rykkgnaw tentou um blefe, apontando para os drones de vigilância imperial que os seguiam como prova de proteção oficial, mas os mercenários demonstraram não temer as autoridades locais. Percebendo que o tempo estava se esgotando e que a diplomacia falhara, o grupo decidiu pelo confronto.

Início das Hostilidades

O combate irrompeu com violência: Flynn e Kassius assumiram a vanguarda. O soldado utilizou seu Canhão Estelar em modo de "Barragem Brutal", suprimindo os soldados vesks e causando danos em área. Edric buscou posição estratégica com seu rifle, enquanto Rykkgnaw utilizou seu talento de "Rei Dragão" para expelir uma baforada de gelo, reduzindo a mobilidade dos atacantes. Hothspoth acionou seu jetpack para alcançar as passarelas superiores, tentando neutralizar as torretas laser que castigavam o grupo com disparos precisos[cite: 1].

A batalha mostrou-se onerosa desde os primeiros segundos. O Capitão Rykkgnaw foi atingido por um disparo crítico de uma das torretas, e o fogo cruzado tornou o ambiente um caos de plasma e luz. O confronto foi interrompido no auge da tensão, com a tripulação lutando para não ser subjugada pelos soldados de Vandis.

domingo, 24 de maio de 2026

(LA) Sessão 41

Sessão 41 - A abordagem dos contrabandistas

A batalha sangrenta

O grupo já possuía a informação sobre a carga: corvear contrabandeado.

Decididos a atacar, os aventureiros planejaram como fariam isso. Réctor conduziria sua nuvem até a superfície, e o grupo investiria rapidamente para aproveitar a vantagem da iniciativa. A maga era a prioridade.

Os aventureiros prepararam suas armas e encantamentos antes de emboscar o inimigo. Garuk saltou de quase cinco metros de altura sobre um inimigo, que o percebeu pela sombra e se esquivou no último instante. O peso do sekbete o fez afundar na neve e criou uma pequena distração. O restante do grupo o seguiu.

No entanto, o inimigo estava em alerta, e apenas Garuk teve a vantagem da surpresa.

Olgaria, Réctor, Guia e todos os outros saltaram da nuvem e atacaram os inimigos à sua maneira. Enquanto a zumi e os anões avançavam a pé, o napol e o Guia preferiam lutar à distância.

— Protejam a carga! — gritou o chefe da caravana, enquanto se preparava para o combate.

Sombra foi quem iniciou o confronto com o alvo prioritário. Invadindo a carroça com a carga de corvear, a amiga imaginária de Réctor farejou a mística invisível e lançou sua baforada de chamas. O calor não a revelou, mas a presença da inimiga era certa.

— Eu sei que você está aqui. Eu vi você. — pronunciou a amiga de Réctor com sua voz espectral.

O Guia seguiu a aliada. Abandonando o arco, o rastreador lançou marteladas às cegas dentro da carruagem, guiado apenas pelo faro da humana.

— Afaste-se, besta! — gritou a maga, enquanto seu corpo surgia no vazio. Ao tentar conjurar um feitiço sobre o Guia, ela quebrou a regra de sua própria invisibilidade.

O receio que o Guia sentiu ao ver o cajado da inimiga, no entanto, logo se dissipou. O encantamento lançado contra ele falhara e, agora, a inimiga estava ao alcance do martelo.

Enquanto isso, Haftor, Haldor e Kórgan digladiavam-se contra os soldados da caravana do lado de fora da carruagem. Os mercenários retribuíam com uma saraivada de flechas e golpes de espada, tentando manter a formação.

Porém, a formação bem posicionada dos inimigos era tudo de que Garuk precisava. Embrenhando-se no meio do campo de batalha, o sekbete lançou seu rugido aterrorizante, um rito berserker capaz de quebrar a confiança até mesmo do mais corajoso inimigo.

A maior parte dos inimigos se apavorou. Alguns poucos, no entanto, resistiram.

O rugido do sekbete não apenas aterrorizava, mas também distraía. Uma das protetoras da caravana que não demonstrou medo se despreviniu. Olgaria aproveitou. Quando a mulher se virou para a zumi, a lâmina do machado já visava seu pescoço em um golpe brutal e fatal.

Réctor ampliou o pavor sobre seus inimigos enquanto sobrevoava o campo de batalha. Um feitiço assustador passou a sufocá-los. Aqueles que já estavam com medo correram apavorados, caindo pelo campo em agonia. Os que ainda mantinham a compostura conseguiram segurar a respiração para permanecer, ao menos, preparados para se defender.

A maga, sem conseguir respirar e vendo seus companheiros sufocarem até a morte, cambaleou para fora da carroça. Desesperada, clamou por um dos soldados próximos, mas já era tarde.

O Guia e Kórgan a perseguiram. Uma marretada do rastreador a lançou ao chão. O machado de Kórgan a feriu gravemente. Demétrius, oportunamente, desferiu o golpe final em suas costas.

Com a principal ameaça eliminada, a carnificina continuou ao redor. Vários mercenários pereceram sufocados na neve, enquanto outros tombavam sob os ataques de Haftor, Sombra e Haldor.

— Nós nos rendemos! — gritou Kovor, mantendo a posição defensiva enquanto os sobreviventes se agrupavam ao seu redor. — Apenas nos deixem ir e levem a carga que quiserem.

— Vamos duelar só nós dois, e quem perder, perde tudo. — sugeriu Garuk.

O berserker pressionou o comandante inimigo, que não teve opção senão defender-se.

— Eu me rendo! — esbravejava o inimigo, em pânico, mas Garuk persistia.

— Solte sua arma! — ordenou Haftor.

Após um segundo reunindo coragem para largar sua única arma diante do enorme Garuk brandindo um machado à sua frente, o guerreiro resolveu render-se completamente.

— Covarde! — bufou Garuk, desapontado.

Os poucos guardas sobreviventes fizeram o mesmo. O grupo reuniu cordas, amarrou-os e os colocou de joelhos.

A rota dos contrabandistas

Os prisioneiros foram agrupados no campo nevado para serem interrogados. Garuk permaneceu por perto, enquanto Réctor ditava o ritmo.

— O que vocês estão fazendo com esse material, e quem o forneceu para vocês?

— Estamos apenas transportando para o acampamento élfico.

Percebendo a dificuldade que teria para obter informações, o napol ameaçou os prisioneiros com a irracionalidade de Garuk. “Ele é instável”, “ele gosta muito de pés” e “o Garuk é sanguinário” foram alguns dos argumentos utilizados pelo feiticeiro.

— Nós trouxemos o corvear de uma fortaleza ao norte. — Kovor começou a revelar, hesitante.

— Com quem vocês conseguiram?

— Peguei com um intermediário, mas a carga pertencia a alguém chamado Horgrundis.

— Isso eu vi, está escrito na carga. Eu quero saber quem é o intermediário.

— É uma anã. Elga. Foi como ela se apresentou para mim.

O nome não era familiar nem para Haldor nem para Haftor.

— Quanto material há na carga? — continuou Réctor.

— Umas duas toneladas — revelou Kovor. — Disseram-me que seria um serviço fácil, rápido e limpo.

— Como você se sente por ter roubado um metal tão precioso?

— Eu não roubei — insistiu o contrabandista.

O grupo percebeu que Horgrundis havia criado uma rede muito maior do que imaginavam. Seus tentáculos permaneciam em Blur, e ele os utilizava para extrair corvear e profanar o metal raro das montanhas em colaboração com os inimigos sombrios.

Emquanto o interrogatório continuava, o restante do grupo revistava a carruagem e os corpos caídos. Durante as buscas, encontraram documentos: um mapa que conectava a fortaleza de Vir-Máliz ao acampamento élfico, evitando todas as fortalezas anãs e outros agrupamentos sombrios.

— E para quem vocês entregariam essa carga? — continuou Réctor.

— Fomos encarregados de entregar ao líder do acampamento élfico, Vorgon, o Dilacerador.

Com as informações reunidas, os prisioneiros imobilizados e a carga segura, Réctor criou três nuvens voadoras para transportar todos até a fortaleza anã de Tar-Néldor. O grupo pretendia entregar os prisioneiros às autoridades antes de prosseguir com o plano de enfrentar os elfos sombrios. Os cavalos seriam transportados para o plano onírico do feiticeiro.

Com tudo definido, o grupo seguiu viagem pela nuvem voadora, percorrendo o longo caminho sem precisar enfrentar o terreno difícil. Assim, chegaram à fortaleza no início da noite.

O procurado

A aproximação com a estrada que conectava Telas à fortaleza anã de Tar-Néldor era marcada por um aumento na quantidade de tropas circulando. O Guia, que se mantinha atento à superfície, comunicava ao grupo todas as alterações.

— Eu acho melhor descermos um pouco antes, porque não vai ser muito legal chegar à fortaleza anã em uma nuvem — concluiu Réctor.

A decisão se mostrou acertada. As balestras da cidadela já apontavam para os aventureiros quando eles desembarcaram perto dos muros. A nevasca e a noite obstruíam uma visão clara, dificultando sua identificação, mas, ao mesmo tempo, impedindo que fossem alvos fáceis.

Os anões lideraram a comitiva. O grupo atravessou os portões e logo se encontrou no centro do distrito comercial, o setor superficial da fortaleza.

— O comandante quer conversar com você. — disse um guarda a Haftor, que conduzia a diplomacia. — Depois de deixar os prisioneiros, peço que vá ao quartel.

Haftor estranhou a recepção, mas Haldor logo percebeu a razão. Estampado em uma das paredes, um cartaz de procurado exibia o rosto de Haftor e uma recompensa de 70 moedas de ouro.

— Aí, mano, vou ganhar uma recompensa! — brincou Haldor, apesar da gravidade da situação.

O cartaz denunciava Haftor por traição em Telas, por descumprimento de leis e por traição à Ordem de Crizagom.

Indignado, o paladino recolheu o cartaz e o guardou consigo. Ele e seu irmão marcharam em direção ao quartel, carregando os prisioneiros para a reunião com o comandante da fortaleza.

A dupla percebeu olhares estranhos dirigidos a Haftor enquanto caminhava. Apesar disso, ninguém abordou o anão. Ao que tudo indicava, os habitantes da fortaleza ignoravam a ordem emitida pelo sacerdote de Telas.

— Senhor Haldor! — cumprimentou um dos guardas, reconhecendo o compatriota.

— E o senhor, como está? — perguntou outro, dirigindo-se a Haftor. Sua expressão era de pesar. — Lamento pela sua situação e pela situação em Telas. Espero que possa resolver tudo.

— Fique tranquilo. Não estou nem um pouco preocupado. É tudo mentira.

Após tranquilizarem os guardas, os dois foram guiados para o interior da fortaleza, até o gabinete do comandante.

Atrás de uma mesa repleta de documentos, assinando pergaminhos com uma enorme pena tinteiro, o comandante calvo ergueu a cabeça alguns instantes após autorizar a entrada dos irmãos. Levantou-se, contornou a mesa e, com um sorriso, começou:

— Se não é Haftor, o paladino renegado!

— Gostaria de saber: renegado por quem?

Mantendo a postura firme, mas retirando o sorriso do rosto, Dariam Ferrembrasa, o comandante, apontou para a quantidade de problemas burocráticos que estava resolvendo.

— Tem uma pilha de papéis aqui para assinar. Muitos deles dizem respeito ao senhor. Precisamos conversar.

Apesar da entrada tensa, Dariam logo quebrou o clima. Ao perceber Haldor, estendeu a mão para cumprimentar o velho conhecido.

— É bom revê-lo, Haldor.

— É igualmente bom estar em casa.

— Sentem-se. Nossa conversa precisa ser produtiva.

Tar-Néldor, dias 28 e 29 do mês da Sabedoria do ano de 1502.