Campanhas

Menu de Campanhas

domingo, 17 de maio de 2026

(LA) Sessão 40

Sinais do traídor

Os sangares no Solar

— Você já viu o que aconteceu, Sonhador. — intimou a velha senhora da tribo.

— Tenho tantas dúvidas. — admitiu Réctor. — Se você conseguisse me esclarecer, seria ótimo.

As palavras da anciã ecoavam profundamente, como se carregassem uma verdade palpável, mas indistinguível. Andote, trêmula e tensa diante da grande comitiva parada logo atrás das grades, interpelou com desconfiança:

— Isara, desta vez você trouxe toda a sua tribo? Isso parece uma ameaça.

— Sentimos o fio sendo puxado. — rebateu Isara com serenidade, balançando o cajado em gestos contidos. — Precisávamos vir. O despertar é iminente.

— Mas você… — interveio Réctor, dirigindo-se a Isara ao perceber o nervosismo de Andote, que buscava palavras enquanto suava frio. — Vocês vieram com atitudes hostis? Vão criar problemas aqui?

— Não temos a intenção de provocar o mal. Apenas queremos impedir que o despertar seja barrado outra vez.

— A Aurora Gelada me disse que, assim que tudo se iniciar, não terá mais como parar. Não se preocupe, acho que vai dar certo. O tempo…

— … o tempo corre diferente do nosso. — interrompeu Isara. — O despertar ocorrerá no momento propício. Isso pode levar gerações. Eras.

— Eu acho que não vai, não. Acho que está para acontecer.

— O que as obras e meu pai têm a ver com algo tão grandioso? — questionou Andote, ainda nervosa. — Mesmo que signifique alguma coisa, elas são apenas… apenas um sinal. Por que vêm até aqui como se estivessem tão obcecados quanto ele?

Isara apontou o cajado para a tiara de Andote.

— Tire sua tiara, Andote. Veja com seus próprios olhos aquilo que seu pai via. Abrace o despertar.

— Viu? Não falei que era só um bloqueador? — vangloriou-se Réctor.

Andote recuou assustada e levou a mão à tiara, sem removê-la.

Haftor e Haldor chegavam da patrulha nos muros. O paladino apresentou-se diretamente:

— Eu sou Haftor, campeão de Crizagom, e gostaria de entender melhor a sua cultura, se possível. Seu povo tem relações diferentes com o despertar. O que é o despertar para vocês?

— A restauração do ciclo como o mundo deveria ser.

— E qual benefício isso vai trazer?

Baixando a cabeça e apoiando o peso do corpo no cajado, a anciã permaneceu alguns segundos em silêncio, formulando uma resposta.

— Diga-me: qual o benefício da paralisia do mundo em que vivemos hoje? A Aurora Gelada está acordando não para cobrir o mundo de gelo, mas para fazer o tempo voltar a correr, sacerdote. Ela trará um inverno verdadeiro, um inverno que mata a terra, mas que permite que a primavera também nasça. Sem ela, continuaremos sendo essa carcaça congelada para sempre.

— Entendo. Então vocês almejam o despertar da Aurora para conseguir a primavera.

— Você e outros homens da cidade olham para nós, para o sul, e veem apenas um deserto de neve eterna. Mas o frio que racha os ossos não é o desenho dos deuses; é uma ferida. Uma ferida que nunca foi fechada. As geleiras são o tempo parado, um cadáver. Vivemos sobre o corpo de um cadáver apodrecido.

— E o que é essa sombra… — questionou o feiticeiro, apontando para as estátuas que brilhavam em azul. — … que dizem poder desfazer o despertar? O “Mal Sob o Gelo” me parece um antagonista dela, não é?

— Todas as lendas sangares convergem para o mesmo mal, e todas representam o mesmo despertar. Onde o sangue da aurora pinga, a terra responde.

Isara apontou o cajado para a base de uma estátua que brilhava em azul. Réctor e Garuk acompanharam o gesto e testemunharam uma mudança drástica em relação ao que haviam presenciado minutos antes. Onde uma flor desabrochara aos olhos de Réctor, agora erguia-se um pequeno mortalo.

— Você sonha com brotos verdes, vales quentes e o abraço de Maira. Mas eu caminhei pelas franjas de Telas. Vi vinhas escuras que se alimentam do chorume de mortalos.

— Talvez o despertar dela dependa de nós… de mi, de você… Eu não sei. — refletiu Réctor.

Enquanto Olgaria juntava-se à reunião no pátio, Isara continuava a conversa com o feiticeiro:

— Qual é o verdadeiro rosto da dama, Sonhador?

O napol sacou o artefato tindadeli de seus pertences e o estendeu a Isara.

— Não tem rosto. Ela parecia isso: o escuro, pontos luminosos… Parecia um céu estrelado.

Maravilhada com a revelação e com a esfera cósmica, Isara ergueu o cajado para observar o objeto com atenção.

— Minhas visões silenciaram antes dessa revelação. Não sei se ela trará o jardim que cura ou a floresta de ossos que se levanta da terra.

— Eu acredito que seja o jardim que cura. — respondeu o feiticeiro. — Pelo menos, até agora, é o que tenho visto. Os elfos sombrios têm tentado fazer com que a energia dela sirva a eles. Mas o que você veio fazer aqui?

— Fomos atraídos pela mácula no éter. Sentimos a podridão. Prevíamos que suas obras, Andote, manifestariam esse presságio. E talvez tenhamos chegado no momento certo, e nosso encontro seja o verdadeiro presságio.

— E o que deseja fazer agora que está aqui? — indagou Haftor.

— Deixe-nos entrar. Deixe-nos observar suas estátuas, as obras de seu pai, o canto que elas executam.

— Andote — iniciou Réctor — você teme que eles façam alguma coisa com as obras de seu pai?

Após alguns segundos de reflexão, a herdeira quebrou o silêncio com a voz embargada, olhando para a multidão silenciosa além dos portões:

— Eles falam como meu pai.

— Isso talvez não seja um grande problema. Talvez eles tragam respostas que seu pai não te deu. Porque, pelo que entendi — disse o feiticeiro, apontando para a tiara — seu pai te protegeu todo esse tempo. E ele recebeu toda essa carga, a mesma que eu tenho recebido, mas tenho conseguido controlar.

Andote pôs a mão na testa e tocou a joia recebida do pai. Sua expressão ainda demonstrava receio, mas sua compostura já havia retornado diante da chegada de Isara.

— Talvez seja o momento de você realmente tirar essa tiara e tentar entender um pouco do que seu pai passou. — continuou Réctor. — Às vezes é mais fácil compreender alguém passando pelos mesmos problemas. Talvez assim você entenda seu pai.

— Eu tenho uma sugestão. — interveio Haftor, preocupado que a remoção súbita do artefato pudesse causar um colapso na artesã. — Sugiro que esperemos até ela tirar a tiara, sentir o que tiver de sentir e, depois, decidimos se abrimos o portão ou não.

Andote, no entanto, respirou fundo e tomou sua decisão final, inspirada pelo feiticeiro.

— Eu não preciso temer essas pessoas.

Enquanto isso, o Guia infiltrava-se entre os sangares através de sua sombra projetada. O rastreador buscava sinais de algum elfo sombrio infiltrado, mas percebeu que o grupo era formado apenas por humanos. Eles eram quem diziam ser.

— Não traremos nada que já não exista aqui, Andote. — apelou Isara. — Sua oficina está sendo invadida por raízes sombrias. Se você não terminar o que seu pai começou, as sombras terminarão por você.

— Que seja, então. Guardas, abram os portões para o povo sangar!

Os guardas do solar hesitaram, trêmulos, recuando diante do portão de ferro. Ao notar o princípio de insubordinação decorrente do medo, Haldor deu um passo à frente e soltou um forte brado militar para reerguer a moral dos homens.

— Vamos, homens! Não esmoreçam! Ordens são ordens!

As grades abriram-se por completo, e o povo sangar iniciou sua entrada solene no solar, marchando em filas de três. Cada nativo trazia consigo uma pequena lanterna azulada que emitia um brilho idêntico ao das estátuas.

Ignorando Isara, Andote ou os aventureiros, os homens e mulheres da tribo espalharam-se imediatamente pelos jardins, ajoelhando-se individualmente aos pés de cada escultura de pedra e iniciando sussurros e mantras ritualísticos em um idioma incompreensível, consolidando a ocupação pacífica do Solar das Sombras Longas.

Enquanto isso, Réctor chamou Isara para sua casa dos sonhos. O feiticeiro mostrou como os fios dourados expandiam-se de forma desordenada, enredando-se no cerne de seu éter. Ele colocou a roca nas mãos da anciã, que fiou com o objeto mágico e viu o filamento dourado regredir.

— Esse fio… — iniciou Réctor. — Tem se enrolado cada vez mais na minha árvore central. Cada vez que você usa a roca, eles recuam um pouco.

— Eu nunca havia visitado uma casa onírica como esta. — revelou a sangar, devolvendo a roca ao anfitrião. — Seus poderes são incríveis, mas sua relação com a entidade é ainda mais impressionante. Nunca imaginei que o domínio que ela exerce sobre nós pudesse ser tão… tangível.

— Eu estive na presença dela duas vezes. Em uma delas havia um arauto, “Aquele que Vela o Instante”. É a voz dele que você escuta nas estátuas.

Enquanto os dois conversavam, Haftor observou um detalhe crucial na cintura da anciã: uma sutil pulsação luminosa azulada no exato momento em que ela manuseou a roca. O paladino guardou a informação para si, mas deduziu que Isara possuía um fragmento do Sangue da Aurora.

— Convivo com profecias e lembranças do despertar desde muito jovem, mas jamais o senti tão perto, tão iminente. Ver esses fios espalhando-se em sua mente é como a comprovação de que minhas visões não são delírios, como os homens da cidade costumam dizer. A Dama do Ciclo talvez esteja, de fato, quase entre nós. Infelizmente, não posso lhe dizer muito, pois minhas visões cessaram há alguns meses.

Simultaneamente, o Guia permanecia na guarita de vigia. Depois de confirmar a legitimidade do povo tribal, manteve os olhos concentrados na floresta ao redor do Solar.

Com a visão aprimorada por seus sortilégios sombrios, o rastreador percebeu, na escuridão além das luzes do Solar, um corvo sombrio batendo em retirada assim que Réctor e Haftor entraram no ambiente onírico. Imediatamente, Petisco emitiu dois pios, indicando perigo.

“Siga-a”, ordenou mentalmente o Guia.

Depois, avisou Olgaria sobre o ocorrido. A zumi entrou na casa dos sonhos e alertou o feiticeiro e o paladino:

— Réctor, estávamos sendo vigiados! O Guia quer falar conosco.

— Quem estava nos vigiando? Os sombrios? Talvez Vaela?

Isara esboçou uma reação familiar ao ouvir o nome da elfa. O feiticeiro percebeu e perguntou se a conhecia.

— Eu já estive com ela. Ela se proclama uma pesquisadora dos elfos sombrios, alguém com sabedoria e conhecimento acima de todos os outros, de todos os sangares.

O grupo retornou ao solar. Discretamente, Haftor revelou a informação ao feiticeiro:

— Ela tem uma das pedras!

— Onde estão os outros? Estamos sendo observados. — interrompeu o Guia.

— Eu não vi nada. — avisou Olgaria.

— Era um corvo sombrio. Assim que vocês entraram na casa dos sonhos, ele se afastou para oeste.

— Será que eram os elfos?

— Bem provável. Petisco foi atrás deles, mas eu queria rastreá-los. Pode ser a oportunidade de pegá-los.

— Será que dá tempo? — indagou o feiticeiro.

— Sempre dá. — insistiu o Guia, com um sorriso.

— É melhor irmos rápido. — sugeriu Haftor. — Só tenho uma preocupação: pode ser um engodo.

— Pode ser. — ponderou o feiticeiro.

Isara aproximou-se do círculo dos aventureiros com passos lentos e firmes. Tendo escutado os fragmentos finais da conversa, interpelou-os com seriedade:

— Qual acordo vocês possuem com os elfos sombrios?

— Nenhum, senhora. — respondeu o Guia prontamente. — Matar todos. Todos!

— As intenções deles com a Dama do Ciclo são diferentes das nossas. — explicou Réctor. — Eles buscam construir, ou reconstruir, a própria Dama à vontade deles. Querem purificar sua essência de alguma forma.

— Pelo que me disseram, eles querem apenas potencializá-la, remover os riscos. Dizem que encontraram a fonte perfeita de poder. — esclareceu a anciã.

— Ô, dona velha, posso fazer uma pergunta? Quem foi que impediu a dama da outra vez? Deve ter sido alguém muito poderoso, já que ela é tão forte assim.

Isara franziu o cenho e permaneceu alguns instantes encarando o horizonte sombrio antes de responder:

— Eu não sei essa resposta. Nunca chegou até mim. — Então voltou-se para Réctor.

— Um de nossos rastreadores sabe o local onde os elfos sombrios mantêm um acampamento. Eles vão lá com frequência. Talvez Vaela também visite o lugar.

— E fica em que direção? — perguntou o Guia. — Cadê esse sujeito?

Isara procurou entre os membros de sua tribo, que entoavam mantras no pátio, e apontou para um guerreiro esguio de feições firmes que orava próximo a uma escultura cuja tonalidade azul começava a minguar.

— A anciã falou que você sabe onde fica o acampamento dos sombrios.

Vailór, o rastreador, apontou para oeste enquanto respondia ao sekbete:

— No desfiladeiro da Garganta Seca, perto da montanha além da primeira colina, antes da próxima montanha.

— Você sabe quantos são?

— É um agrupamento grande. A última vez que estive lá trocando peles, deveriam ser cerca de cinquenta.

— Eles têm corvos?

— Sim. São seus animais de criação preferidos.

O Guia sentiu a direção para a qual Petisco voava e confirmou que o animal seguia as orientações do rastreador. Depois, ouviu as explicações detalhadas de Vailór. O trajeto levaria cerca de dezoito horas de marcha acelerada, o equivalente a dois dias e meio de deslocamento normal para uma caravana comum através da neve profunda das Terras Selvagens do sul.

— Olha, não é um grupo pequeno, não. — informou o Guia aos companheiros. — O cara falou que deve ter umas cinquenta cabeças. Tem fortificação de madeira. É um posto comercial. Vai levar uns dois dias até lá.

— Talvez seja melhor seguir o plano inicial e atraí-los para um lugar neutro. — sugeriu Haftor.

Enquanto discutiam, o Guia foi acometido por um choque e uma dor aguda e lancinante. O elo místico com Petisco havia sido quebrado: o animal fora abatido.

— Pelo menos agora eles sabem que a gente também está observando. — amenizou Réctor.

A coruja havia partido há quase quatro horas. Pelos cálculos do Guia, deveria estar próxima do acampamento inimigo. O forte talvez já estivesse em alerta máximo.

— Ele foi muito corajoso. — encorajou Haldor. — Teve uma morte digna. Foi um bom companheiro.

Os negócios do acampamento sombrio

A tensão era palpável. Repentinamente, a morte de Petisco fez o grupo sentir a presença dos elfos sombrios tão próxima quanto em Telas. O perigo era real.

Nesse ambiente de urgência, a jovem herdeira de Rodérico tomou sua decisão. Os pesados portões da mansão se abriram, e a mulher surgiu sem sua tiara de corvear.

— Resolvi tirar. — explicou de forma simples e humilde.

— Logo verá o que seu pai via. — profetizou Isara. — E ouvirá e compreenderá o destino do mundo.

— Quando você se sentir ameaçada por esses pensamentos, coloque a tiara de novo. Talvez seja como o meu tear. Talvez rebobine um pouco o fio.

Vailór aproximou-se do círculo e postou-se ao lado da anciã.

— Não sei como seu pai forjou aquele objeto que apenas os anões possuem. Mas também não entendo por que ele queria isolá-la do contato com a Dama do Ciclo. Será bom para você ver tudo.

— Ele ficou maluco, né? — explicou Réctor. — De repente, queria poupar ela.

A reflexão do feiticeiro o fez cogitar se a tiara de Andote não poderia produzir o mesmo efeito da roca em sua mente. O grupo questionava se o corvear realmente seria capaz de impedir esse fenômeno. Ao escutar o nome do metal, Vailór interveio:

— Corvear? Já ouvi esse nome. É como se chama a sua tiara?

— Onde você ouviu isso? — interrompeu Réctor.

— Os elfos do acampamento estão esperando um carregamento que virá de um anão.

— Ih! E quando foi isso?

— Agora a gente vai ter que visitar a cidade. — complementou o Guia.

— Faz alguns dias. — continuou o rastreador sangar. — A última vez que estivemos lá… — o homem lançou um olhar pensativo para sua anciã antes de completar: — Uma semana, no máximo.

— Ô, Haftor, qual era o nome daquele anão traidor?

— Horgrundis.

— Isso, exatamente isso. — concordou Vailór.

Com a nova informação, o grupo começou a traçar um novo plano. O acampamento sombrio parecia grande demais para uma abordagem direta. No entanto, interceptar o carregamento de corvear poderia representar um golpe poderoso contra os inimigos.

— De onde viria essa carga? — questionou o paladino ao sangar.

— Os elfos não disseram, mas vem dos anões. Deve vir dos montes. Não há muitas rotas comerciais. Se não vier pelas rotas secretas de Blur, só pode ter vindo pela mesma estrada que vocês utilizaram.

As perguntas sobre o corvear continuaram. Pelas informações de Vailór, aquele não seria o primeiro carregamento recebido pelo acampamento.

Com o fim das discussões e dos brilhos azuis nas estátuas, os sangares retiraram-se para acampar no limite da Floresta de Obriana. O grupo recolheu-se aos aposentos designados: a maioria foi para os quartos, mas o Guia permaneceu em vigília na torre.

Réctor recolheu-se à casa dos sonhos e colocou seu experimento em prática. Com a tiara de Andote, que pedira emprestada, observou os filamentos para verificar o que aconteceria. A regressão dos fios, como esperava, não ocorreu. No entanto, percebeu que eles pararam completamente de oscilar e vibrar, permanecendo congelados e inertes. Todavia, o bloqueio foi tão severo que impediu o feiticeiro de girar e operar a roca do tear dourado.

Pela manhã, o grupo que pernoitou na mansão despertou com um fenômeno psicológico perturbador: uma melodia masculina, grave, rítmica e sem letra ecoava simultaneamente na mente de todos, como um cantarolar persistente que parecia impregnado em suas memórias havia dias. Os guardas do Solar e a própria Andote, visivelmente assustada durante o café da manhã, também repetiam o som para si mesmos. A artesã confessou que a melodia se assemelhava ao misterioso assobio do vento que costumava ouvir quando portava a joia.

Réctor devolveu a tiara a Andote e explicou as conclusões que havia tirado. Depois, reuniu-se com o grupo para planejar o próximo passo.

Decididos a agir antes que a última remessa de corvear entrasse no território dos elfos sombrios, os aventureiros solicitaram os mapas da região. Andote forneceu uma carta comercial que detalhava apenas a estrada oficial de Telas. No entanto, Demétrios interveio à mesa, utilizando carvão para traçar três rotas comerciais alternativas, menos populares e mais próximas das franjas montanhosas, por onde contrabandistas anões perseguidos criminalmente por Blur fatalmente optariam por trafegar.

Os contrabandistas de corvear

Havia muitos caminhos possíveis, mas o grupo agora dispunha de novas ferramentas.

Réctor revelou aos companheiros que havia aprimorado sua nuvem voadora. O napol gabou-se de que o feitiço seria capaz de transportar toda a carga necessária. Assim, conjurou nos jardins uma imensa massa de fumaça cinza-azulada.

Sólida e fofa, a nuvem mística era capaz de erguer cavalos, anões e até Garuk a mais de cem metros de altura para iniciar a varredura aérea em busca dos contrabandistas.

À medida que avançavam sobre a tundra ártica, o relevo montanhoso começou a subir acentuadamente, forçando Réctor a coordenar a altitude da nuvem para evitar colisões com os acidentes geográficos. Com a subida, as condições climáticas tornaram-se severas e punitivas. O vento gerado pelo deslocamento a cerca de quarenta quilômetros por hora, combinado à temperatura ambiente que despencara para quase trinta graus negativos nas proximidades das geleiras, criou um cenário extremo de sobrevivência.

Haftor agiu rapidamente para mitigar o frio, conjurando sua magia de resistência para proteger a si mesmo e alguns companheiros. Garuk ativou seu próprio poder de resguardo, enquanto Kórgan e Haldor reforçaram os agasalhos. Todavia, a fisiologia de Garuk reagiu de forma alarmante: por ser um homem-crocodilo de sangue frio, a ausência total de calor ambiental fez seus músculos enrijecerem e seus olhos permanecerem fixos, paralisando-o quase por completo e dando início a um processo biológico de hibernação forçada na retaguarda da nuvem.

— Acho que o Garuk tá com frio, hein.

— Não… não… tô… bem. — resmungou o sekbete.

Vendo a situação preocupante do companheiro, Réctor conjurou uma barreira mágica. Trazendo-a de sua própria imaginação, o feiticeiro envolveu o sekbete em uma cápsula sólida capaz de barrar o vento ártico, mitigando a perda de calor do companheiro. Com isso, o encantamento de resistência lançado sobre si mesmo tornou-se suficiente para mantê-lo aquecido.

Enquanto a nuvem avançava protegida, o Guia postou-se na borda frontal da plataforma para monitorar o solo. Valendo-se de sua habilidade de visão animal, vasculhou a estrada de terra batida que cortava a tundra abaixo. O rastreador detectou a passagem de duas caravanas distintas: a primeira pertencia a uma tribo local de sangares em migração rústica; a segunda continha uma escolta armada de elfos sombrios deslocando-se para o norte, possivelmente retornando de Caridrândia rumo ao acampamento principal. O grupo optou por ignorar ambas para não comprometer a missão.

Cerca de uma hora e meia após o início do voo, o Guia avistou um terceiro comboio deslocando-se de norte a sul. Tratava-se de uma carruagem grande, pesada e totalmente fechada por painéis de madeira, escoltada por cavaleiros armados. A contagem aérea inicial indicava dez indivíduos na estrada, incluindo humanos, dois guerreiros anões e um sekbete.

Réctor reduziu a velocidade da nuvem e pairou invisível no céu, permitindo que Sombra, sua aliada imaginária, descesse para inspecionar o interior do veículo em movimento.

Ao atravessar a parede de madeira da carruagem, Sombra encontrou uma mulher vestindo calças largas, túnica fechada e uma pesada capa de peles, sentada em silêncio com um cajado apoiado entre as pernas: uma maga de escolta. O interior do veículo também abrigava três grandes pilhas de caixas de madeira lacradas. Movendo-se furtivamente, a criatura localizou uma sacola de couro amarrada ao lado da mulher.

Ativando o poder da gema dimensional fixada na testa, Sombra fez a sacola, que continha seis chaves metálicas quadradas de confecção tipicamente anã, desmaterializar-se e ser armazenada em seu bolso interdimensional. No entanto, a sutil flutuação mágica despertou a feiticeira.

A maga acendeu a extremidade do cajado, iluminando o interior do veículo e forçando Sombra a recuar e subir de volta para a nuvem. O grupo pfirmou que o comboio transportava uma carga protegida por engenharia anã e escoltada por forças místicas.

Réctor traçou um plano tático imediato: utilizou a velocidade da nuvem para ultrapassar o comboio em linha reta, pousando o grupo de forma oculta na vegetação rasteira à beira da estrada, cerca de quinhentos metros à frente da rota do veículo.

Os aventureiros desembarcaram, desembainharam as armas e postaram-se diretamente no meio da estrada para interceptar a marcha, simulando uma barreira de patrulha. Assim que a carruagem e seus cavaleiros contornaram a curva e avistaram o grupo fortemente armado bloqueando a passagem, o líder da escolta humana ergueu a mão e ordenou a parada imediata do comboio.

Haftor deu um passo à frente, iniciando o tenso confronto verbal na estrada deserta:

— De onde vêm, parceiros? E tão levando o quê aí?

— Isso é um assalto? — indagou o líder, analisando as armas, armaduras e a presença intimidadora do grupo.

— Não. É uma pergunta.

— Então prefiro não responder.

— É polido responder quando alguém te pergunta.

— Não numa estrada vazia, contra pessoas armadas. Não somos indefesos. É melhor saírem do caminho.

Enquanto Haftor mantinha o líder e os cavaleiros ocupados com a discussão na frente do comboio, um dos guardas humanos cavalgou até a lateral da carruagem, abriu uma fresta da cortina e alertou a feiticeira em sussurros:

— Estamos sendo abordados. Se prepara, tá?

A maga levantou-se irritada e exclamou para si mesma dentro do veículo:

— Eu sabia! Tem alguma coisa aqui!

Aproveitando a comoção e a distração causada pela barreira improvisada de Haftor, Réctor enviou novamente sua companheira invisível para a traseira da carruagem.

A feiticeira ergueu o cajado e conjurou um feitiço de ocultamento em massa, tornando a si mesma e as caixas completamente invisíveis para proteger a carga de uma inspeção visual. Contudo, Sombra já possuía a memória espacial e a posição exata das caixas. Tateando o espaço às cegas através da invisibilidade, inseriu uma das chaves anãs roubadas no trinco do baú principal, destrancou a fechadura de ferro e puxou para dentro da bolsa dimensional o primeiro objeto pesado que conseguiu alcançar, batendo em retirada logo em seguida.

Réctor deu o sinal místico de sucesso para o grupo na estrada, permitindo que Haftor encerrasse a falsa blitz alfandegária.

— O senhor sabe que transportar ilícitos é uma falta grave por aqui. O senhor é algum guarda ou coisa parecida? Eu sigo a lei de Crizagom.

— Pois eu não! Agora saiam do caminho, todos vocês!

— Tudo bem, peço desculpas. — respondeu Haftor ao perceber o sinal de Réctor.

O líder exibiu uma expressão de confusão e desconfiança diante da mudança súbita de postura do paladino de Crizagom, mas não iniciou hostilidades. Os cavaleiros e os guardas da escolta mantiveram as armas empunhadas, passando lentamente e de forma tensa pelos aventureiros enquanto a carruagem fechada cruzava o bloqueio.

Assim que o comboio desapareceu atrás das colinas rasteiras da tundra, Réctor abriu um portal no solo, transportando todos os heróis e seus equipamentos de volta à segurança da plataforma aérea da nuvem voadora.

No alto do céu, Réctor acessou a bolsa dimensional e retirou o artefato extraído do baú invisível: tratava-se de uma barra maciça e pesada de minério puro de corvear. O bloco trazia profundas gravações em relevo confeccionadas com runas anãs tradicionais, identificando a marca de forja e a assinatura metalúrgica de Orvek.

O nome não era estranho para os anões. Orvek era um dos mais renomados, tradicionais e respeitados mestres-ferreiros da ala norte das profundezas de Blur, famoso por forjar metais raros utilizando o calor dos vulcões subterrâneos.

— Espero que ele esteja sendo roubado. — afirmou Kórgan sobriamente. — Pro bem dele.

domingo, 10 de maio de 2026

(LA) Sessão 39

Sessão 39 - A filha de Rodérico

Caça ou caçadores?

Garuk estava de braços erguidos, sustentando o tronco que obstruía a estrada, quando foi alvejado por uma flecha. O projétil, porém, apenas raspou nos ossos de sua armadura.

Uma névoa densa começou a se erguer ao redor do grupo enquanto Réctor, responsável pelo feitiço, alçava voo para enxergar melhor os emboscadores.

— O que vocês querem? — perguntou o napol, sacando uma flecha do alforje.

— Deixem suas coisas e partam! — gritou uma figura oculta atrás de uma rocha, do outro lado do campo de batalha.

— Você sabe que isso não é possível — retrucou Réctor.

— Então matem todos!

— Vocês terão uma última chance de desistir e se render — recomendou Haftor, defendendo-se da espada de um inimigo com o escudo.

Réctor concentrou seus ataques à distância na líder inimiga. Haldor, Haftor, Garuk e Olgaria continham os assaltantes, que pareciam focados na carroça guiada por Demétrius. O Guia orientava o cocheiro para mantê-lo longe do confronto.

— Demétrius, leve os cavalos para longe. O mestre quer matá-los — ordenou o rastreador, enquanto disparava flechas contra os bandidos.

O feiticeiro lançou chamas contra a líder inimiga. A magia incendiou a grama ao redor dela, mas não a feriu. Sombra acompanhou seu mestre e concentrou os ataques na meio-orca.

Olgaria avançou de forma sobrenatural para trás de um dos bandidos que ameaçava o desprevenido Garuk. Com um golpe preciso de machado, a zumi matou o inimigo imediatamente.

— Está bem, Garuk?

— Melhor agora — respondeu o sekbete, recompondo-se antes de usar sua força bruta para lançar o enorme tronco contra dois adversários. Ambos conseguiram se esquivar, mas a demonstração de força os deixou visivelmente abalados.

Percebendo que os viajantes não eram vítimas indefesas, a líder inimiga mudou de estratégia:

— Não deixem eles escaparem! Peguem o que puderem e saiam!

Porém, o grupo queria respostas. Agora, eram eles os caçadores.

O avanço dos aventureiros sobre os inimigos foi implacável. Mesmo após o brado aterrorizante de Garuk ecoar pelo campo e lançar medo nos corações dos assaltantes, o grupo não recuou. Eles perseguiram os sobreviventes que conseguiram encontrar, e Olgaria acabou rendendo a líder meio-orca, que revelou chamar-se Vôlga.

Enquanto parte do grupo caçava os fugitivos pela mata, o Guia encontrou materiais inflamáveis montados na copa de uma árvore, preparados para incendiar a estrada com uma única flecha. O plano dos bandidos tornou-se evidente: encurralar as vítimas entre o tronco caído e uma parede de fogo.

O rastreador recolheu tudo o que poderia reaproveitar e reuniu-se aos demais, que conduziam Vôlga até uma cabana nos arredores.

Ao abrirem a porta do simples chalé de madeira, um som abafado vindo do canto do cômodo chamou a atenção de Haftor e Olgaria, que carregavam a prisioneira. Sob um tapete de pele de urso, encontraram um homem completamente amarrado e amordaçado. Vestindo uma cota de malha e aparentando ser um guerreiro ferido, ele foi rapidamente libertado.

— Quem é você? — perguntou Olgaria.

— Eu sou Alvor, guarda do Solar.

— Foram eles que prenderam você aí? — indagou Haftor.

— Sim. Ela é Vôlga, uma bandida da região que causa problemas há bastante tempo.

— É, mas parece que ela veio atrás da gente. Então vamos descobrir quem a enviou.

A meio-orca permaneceu caída no chão, fingindo-se de morta, mesmo depois de Haftor utilizar milagres para regenerar seus ferimentos mais graves. Olgaria, percebendo a encenação, sentou-se à mesa rústica e encarou a prisioneira com desdém.

— Mexe na ferida dela que você vai ver se ela tá viva ou não — sugeriu o paladino.

— Huunf — resmungou Vôlga, desistindo da atuação.

Nesse momento, a porta da cabana se escancarou violentamente. Garuk surgiu da floresta em velocidade sobrenatural, carregando um prisioneiro abatido. Com um movimento brusco, lançou o homem ao chão, perto de Vôlga.

— Hora de falar o que a gente quer saber — disse o sekbete.

Enquanto a meio-orca reorganizava os pensamentos e preparava-se para falar, Olgaria investigava os pertences dos assaltantes.

— Ei… essa adaga aqui não é de elfos sombrios? — perguntou a zumi, encontrando uma arma com inscrições élficas.

— Onde você conseguiu isso? — perguntou Haftor.

— Eu comprei.

— Comprou onde? Sombrios não costumam vender essas coisas.

— Trocamos por objetos que pegamos de alguns comerciantes.

Volga calou-se imediatamente, recusando-se a dar mais detalhes sobre o contato com os elfos. O Guia entrou na cabana trazendo os cavalos e a carroça para perto da entrada, juntando-se ao restante do grupo. Hector também entrou. Garuk aproximou-se da prisioneira com uma postura ameaçadora.

— E onde estão os comerciantes?

— Demos um sepultamento digno para os que morreram. Os outros fugiram.

— E quando foi isso? — atravessou-se o Guia.

— Há uma semana.

O Guia perguntou a Alvor si os fugitivos haviam retornado ao Solar. O guarda confirmou que sim, mas explicou que estava nos arredores procurando os pertences dos mortos, já que os objetos haviam sido adquiridos no Solar das Sombras Longas.

— Ah, entendi. Onde vocês encontraram esses sombrios aí, ô dona orca?

— A oeste daqui, perto das montanhas. Uns dois dias de jornada. Depois de atacar os guardas, nos escondemos numa montanha mais adiante — explicou a prisioneira, gesticulando para oeste — e os sombrios apareceram do nada, dizendo que queriam os objetos e ofereceriam várias coisas em troca.

— E como eles acharam vocês?

— Sei lá. Magia. Dizem que são bruxos talentosos. Não perguntei. Fiquei com medo.

— Que objetos eles queriam trocar? — perguntou Réctor.

— Umas estátuas horrorosas de umas pessoas sem forma.

— Como ousa falar assim das obras de arte do mestre Rodérico?! — indignou-se Alvor.

Réctor e Haftor trocaram olhares significativos ao ouvirem a menção às estátuas disformes do escultor. O feiticeiro suspeitou que os sombrios poderiam estar utilizando as bússolas de rastreamento dos prismas da Aurora para localizar as esculturas.

O grupo continuou buscando provas de que os bandidos realmente os aguardavam na estrada. Haftor removeu o tapete de pele de urso e encontrou, escondido sob o assoalho, um mapa detalhado em pergaminho.

O Guia analisou o documento. Tratava-se de um mapa conceitual representando o vilarejo que haviam cruzado, o Solar e o ponto da Floresta de Obriana onde estavam, marcado com um X. Nas margens, uma caligrafia fina e estranha trazia pequenas anotações:

— “Observar Andote”… “quem entra?”… “pedras que cantam”… “o escultor”.

— E de quem é essa cabana aqui, ô dona? — perguntou o Guia, apontando para a marcação do Solar das Sombras Longas.

— É da mulher que se acha artista.

— Quem é essa aí?

— Mestra Andote — interrompeu Alvor. — Uma artista talentosa. Herdeira do senhor Rodérico.

— E isso aqui? — a garra afiada do Guia apontava para as anotações sem rasgar o pergaminho delicado. — São instruções? Quero saber o que significa isso aqui.

— É para observar a mansão. Os elfos me entregaram isso. Disseram para eu prestar atenção no Solar e tentar conseguir mais estátuas de Rodérico.

— O que são essas “pedras que cantam”? São as estátuas? — perguntou Haftor.

— Isso eu não sei. Não entendo dessas coisas.

— Entende, sim — contrariou Haftor, em tom ameaçador.

— São as obras do falecido mestre Rodérico — esclareceu Alvor. — Dizem que inspiravam, cantavam… que eram místicas. Deve ser isso que os elfos queriam dizer. Eles tentaram comprar algumas esculturas há algum tempo, mas a mestra Andote recusou.

— E tinha Corvear nessas coisas aí?

— Tinha o quê? — confundiu-se Alvor.

— Deixa pra lá.

— Eles me entregaram esse mapa e tiveram que explicar tudo. Eu não entendi direito também. Só disseram para eu observar a mansão e pegar mais objetos de Rodérico. As obras de Andote não interessavam a eles. Em troca, manteriam meu grupo alimentado e armado.

— Boa, dona. Agora a senhora chegou onde eu queria. Entregar quando e onde?

— Eles disseram que nos encontrariam.

— E como fariam isso?

— Eu não perguntei! Eles apareceram do nada naquela montanha. Achei que iam encontrar a gente de novo.

Irritado com as respostas evasivas e desconfiando de que Vôlga ainda escondia informações, Garuk resolveu intervir à sua maneira. Erguendo o prisioneiro que havia trazido da floresta por uma das pernas, encarou-o brutalmente.

— Você ainda pode viver. Ou eu posso comer uma parte sua… ou uma parte dela. A escolha é sua. O que ela tá falando é verdade ou tá escondendo mais alguma coisa?

— Eu vi os elfos!

— Onde?

Antes que o homem pudesse responder claramente, Garuk abriu a bocarra e, num movimento bárbaro, arrancou o pé do assaltante com uma mordida violenta, mastigando-o diante de todos. O homem soltou um grito agudo de pura agonia. Volga rangeu os dentes e estremeceu contra a parede, tomada pelo pânico.

Garuk limpou o sangue dos lábios e encarou a líder meio-orca.

— Bem… ele pode ser curado. Então é ela que vai ser minha janta de hoje — disse, atirando o mutilado na direção de Haftor. — Já que você não quis falar.

O sekbete avançou lentamente com um sorriso de crocodilo.

— EU FALEI TUDO QUE EU SABIA! — gritou Volga em desespero. — DEIXA EU IR! DEIXA EU IR!

Haftor ergueu a mão para conter o companheiro, encerrando a barbárie. Em seguida, aproximou-se de Réctor e falou em voz baixa:

— Talvez deixar ela ir seja uma boa ideia. Se esses elfos aparecerem, a gente pega eles.

— É… talvez. Acho que concordo. Tem como você colocar uma marca nela, né? — perguntou ao Guia.

O rastreador aproximou-se da prisioneira, que permanecia encolhida ao lado da cama, coberta de suor frio. Aproximando o focinho do corpo dela, aspirou profundamente, memorizando seu odor místico.

— Acho que consigo encontrar ela depois. Ou pelo menos seguir o rastro.

— Então vocês vão libertá-la? — perguntou Haftor.

— Deixa ela ir — decidiu Réctor. — Ela cooperou. Só deixa todas as armas e todo o dinheiro.

Sem hesitar, Volga abandonou as armas e as moedas no chão e avançou rapidamente para a porta. A voz de Réctor ainda a fez congelar de medo por um instante. O napol queria perguntar sobre algum artífice da região, mas a meio-orca estava apavorada demais para responder coerentemente. Percebendo o estado dela, Réctor a dispensou.

Volga recolheu o subordinado mutilado e mancou para fora da cabana. Enquanto se afastava pela mata, o Guia testou sua percepção sobrenatural para garantir que conseguiria rastreá-la no futuro.

Com a partida da prisioneira, Haftor terminou de tratar os ferimentos de Alvor. Em seguida, o grupo retomou a viagem rumo ao Solar das Sombras Longas. O guarda foi acomodado na carroça guiada por Demétrius, e a jornada prosseguiu pela estrada fria da floresta.

O Solar das Sombras Longas

A estrada até a residência de Rodérico era simples, mas aparentava receber manutenção frequente.

Réctor abriu a porta de sua Casa dos Sonhos para que o grupo pudesse descansar durante a noite. Ao entrar, percebeu que os fios dourados haviam avançado um pouco desde o dia anterior e assumiu novamente seu posto na roca mística para conter o avanço da contaminação.

Na manhã seguinte, após poucas horas de caminhada por uma estrada sinuosa que cortava as colinas em meio à mata densa, Alvor apontou para a encosta.

— Estamos quase no Solar das Sombras Longas. Vou na frente para que os guardas não se alarmem. Posso ir acompanhado do seu companheiro, se ele quiser. Só preciso chegar antes.

O Guia acompanhou o guarda até a revelação do cenário. Incrustada na pedra escura da colina, erguia-se uma mansão colossal protegida por um muro de quase três metros de altura. Acima da muralha, destacavam-se dezenas de estátuas esguias representando figuras femininas semelhantes entre si.

Apesar do frio intenso da região, os últimos quinhentos metros da estrada estavam completamente limpos de neve e iluminados por tochas acesas, criando uma tênue zona de calor.

— Eles me salvaram de Vôlga Quebra-Ossos — explicava Alvor aos guardas do portão. — Me ajudaram bastante e descobriram algumas coisas sobre ela também.

— Obrigado pelo que fizeram — respondeu um dos soldados ao Guia. — Avisaremos a mestra Andote sobre o favor que prestaram ao Solar.

O grupo pediu para falar com a herdeira e foi prontamente conduzido ao interior da propriedade.

Enquanto atravessavam o jardim impecavelmente cuidado, passando entre estátuas monumentais de quase quatro metros de altura, os aventureiros perceberam que as feições das esculturas lembravam diretamente a estátua da Dama encontrada em Telas. Além disso, cerca de um quarto das obras reagia à presença do grupo — ou talvez aos objetos da Aurora que carregavam — emitindo um tênue brilho vermelho pulsante.

Garuk sacou o prisma ao sentir pulsações dentro da bolsa.

— Não chega perto dessas pedras com isso aí, Garuk — recomendou Réctor.

— Olha isso aqui, gente — impressionou-se o sekbete ao perceber que o prisma também reagia à proximidade das esculturas brilhantes.

As estátuas pareciam ter sido esculpidas de um único bloco, sem emendas ou junções. Tratava-se do mesmo mineral exótico que compunha o prisma de Garuk e o hectaedro de Réctor: a substância chamada por Kétil Monda de “Sangue da Aurora”.

Alvor retornou da entrada principal da mansão.

— O brilho dessas estátuas começou há pouco tempo.

— Como assim? — surpreendeu-se Réctor. — Então elas brilham em outras ocasiões também? Outras pessoas vieram aqui e elas reagiram?

— Sim. Às vezes brilham durante a noite. O mestre Rodérico dizia que elas até cantavam.

— Eu não duvido.

— Venham. Vou levá-los até a mansão.

Enquanto caminhavam em direção à entrada principal, Hector examinou as esculturas tentando encontrar referências aos pingentes que haviam descoberto durante a jornada, mas não encontrou símbolos semelhantes. Aproveitando o percurso, Alvor explicou a origem da fortuna do Solar.

— O mestre Rodérico era um artesão talentoso. Quando jovem, vendeu obras até para o norte, e muitas esculturas acabaram nas hands de nobres em Telas. Depois, quando envelheceu, ficou obcecado por esses minerais. Dizia que eram místicos… que cantavam para ele. Nessa época ele já tinha dinheiro suficiente para construir este lugar.

— Ele morreu de quê? De vinho? — perguntou Garuk.

— De velhice, eu acho. Tinha mais de setenta anos. Mas passou os últimos anos muito isolado. Nem a própria filha conseguia falar com ele direito. As esculturas ficavam cada vez mais estranhas. Essas aqui do jardim foram feitas no começo da obsessão.

“Será que ele também estava puxando o fio?”, pensou Réctor, lembrando-se das palavras de Kétil Monda sobre a dominação da Aurora Gelada.

Uma mulher vestida como serviçal aguardava o grupo na entrada da mansão.

— Olá, senhores. Sou Nara. Obrigada, Alvor. A partir daqui eu os acompanho.

— Foi um prazer conhecê-los — despediu-se o guarda. — Se precisarem de mim, estarei no quartel. Somos uns vinte guardas por aqui. Estamos bem protegidos.

Os corredores da mansão eram decorados com pinturas e pequenas esculturas. Conforme avançavam, algumas das estatuetas também pulsavam em vermelho. Diferentemente das obras monumentais do jardim, essas peças menores possuíam feições grotescas e disformes, com braços longos demais e rostos desprovidos de qualquer harmonia humana.

Após cruzarem uma calçada de paralelepípedos no jardim interno, Nara abriu uma pesada porta de madeira. Um som áspero e contínuo de ferramentas raspando pedra ecoou do interior.

— Podem entrar. Há um guarda protegendo a senhora. Eu ficarei aqui.

A oficina estava repleta de esculturas inacabadas de granito e basalto, a maioria representando guerreiros. No centro do recinto, uma mulher afastou-se de uma obra ainda incompleta, limpou as mãos e virou-se para recebê-los. Seus olhos percorreram rapidamente as roupas manchadas de sangue seco que os aventureiros ainda vestiam após o confronto com o bando de Vôlga.

— Sou Andote, herdeira do Solar. Nara disse que vocês viriam. — A jovem aproximou-se e fez uma reverência formal com a capa. — Vieram comprar alguma obra ou objeto?

— Talvez estejamos aqui para tirar algumas dúvidas e entender um pouco mais sobre seu pai — respondeu Réctor.

— Claro. Os guardas me disseram que salvaram Alvor. São bem-vindos ao Solar. Imagino que tenham tido problemas para enfrentar Vôlga. Estão feridos? Como recompensa, podem permanecer aqui alguns dias até se recuperarem.

— Obrigado.

Decidido a abandonar formalidades e demonstrar imediatamente a gravidade da situação, Hector sacou sua chave mística, aproximou-se de uma das paredes de pedra bruta da oficina e inseriu o artefato diretamente na rocha. Diante do olhar atônito de Andote e do guarda que a escoltava, a parede se deformou lentamente, abrindo um portal para a dimensão da Casa dos Sonhos de Hector.

— Poderia nos acompanhar?

— Mestra Andote! — alertou o guarda, levando a mão ao cabo da espada. — Não sabemos o que existe do outro lado. Pode ser uma armadilha.

— Pela honra de Crizagom, vocês estarão seguros — garantiu Haftor.

— A senhora acha mesmo que esse guarda aí conseguiria impedir alguma coisa, se a gente quisesse? — insinuou Garuk.

Réctor interrompeu rapidamente o companheiro antes que provocasse um incidente.

— Eu garanto que nada acontecerá com você lá dentro. Precisamos conversar sobre a Aurora Gelada.

Andote hesitou por alguns instantes antes de assentir.

— Está bem. Eu entrarei.

A herdeira sinalizou para que o guarda relaxasse a postura e atravessou o limiar acompanhada do escolta. Ambos ficaram maravilhados e assustados diante da vastidão da dimensão onírica, da vegetação mística e da gigantesca árvore envolta pelos filamentos dourados da Aurora Gelada.

As obras de Rodérico

Réctor conduziu os convidados até a base da árvore colossal para mostrar de perto os fios dourados que emanavam da fogueira mística. Movida pela curiosidade, Andote estendeu a mão na tentativa de tocar um dos filamentos que flutuavam no ar, mas seus dedos atravessaram o brilho sem encontrar qualquer resistência física.

Diante do silêncio perplexo da herdeira e de seu guarda, Hector tomou a palavra para explicar a ligação entre Rodérico e aquele fenômeno.

— Sabemos que seu pai trabalhava muito com esse material — começou o napol.

Réctor apontou para o octaedro e para a esfera trazidos das geleiras do norte.

— Foi você quem esculpiu isso? — perguntou Andote, observando o objeto.

O feiticeiro explicou a formação espontânea do artefato na Torre de Gelo Quebrada, descrevendo o gigante golpeando inconscientemente os cristais até que o hectaedro assumisse a forma atual.

Em seguida, detalhou a descoberta dos quatro pingentes antigos mencionados em um livro ancestral encontrado em Telas. O Guia abriu o tomo diante de Andote, exibindo as páginas ilustradas com os desenhos dos colares, enquanto Réctor mostrava a amostra da água mística e relatava a descoberta da escultura metálica de Corvear encontrada na cidade. O napol enfatizou que os elfos sombrios perseguiam aqueles artefatos a qualquer custo e explicou que os filamentos dourados na árvore eram evidências de que a Aurora Gelada tentava dominar sua mente.

— O que me intriga é que, pelo que ouvi, no fim seu pai estava um pouco…

— Perturbado — completou Andote.

— Acho que consigo mostrar exatamente isso aqui dentro. Como essa coisa tem dominado minha mente.

— Vocês deveriam se manter afastados disso.

— Pois é, mas não podemos. Precisamos chegar ao fundo dessa história.

— Por quê? Meu pai foi consumido por essa obsessão durante anos. Eu mal o reconhecia no final. Fui a última filha que restou a ele, e minha mãe morreu logo depois. Meu pai praticamente deixou de falar comigo quando eu ainda era criança, completamente obcecado por essas pedras. Até hoje pessoas vêm ao Solar procurando as “pedras que cantam” de Rodérico. Vocês não são diferentes. Estão atrás das mesmas coisas.

— Talvez não pelas mesmas razões. Os elfos sombrios querem transformar a energia da Aurora em uma ferramenta. Não podemos permitir isso. Provavelmente pretendem usá-la para algo terrível.

— E é você quem decide o que é terrível?

Andote aproximou-se da fogueira onírica e observou ao redor, contemplando a vegetação impossível daquele lugar. Após alguns segundos em silêncio, voltou-se para os aventureiros e começou a falar sobre as lembranças do pai.

— Eu nunca compreendi Rodérico. Ele era um estranho para mim. Conversava sozinho com as estátuas. Dizia que elas eram esculpidas conforme pediam. Dizia muitas coisas… Morreu acreditando que suas esculturas eram portas para aproximá-lo de alguma coisa enterrada há muito tempo. Tudo aquilo era incompreensível.

— Talvez ele estivesse certo — respondeu Réctor.

— Ele falava sobre um fio, dona? — perguntou o Guia.

— Sim. Dizia existir um “fio” guiando sua vida e suas esculturas.

— Provavelmente é a mesma coisa que está acontecendo comigo — concluía o feiticeiro. — E aqui você consegue ver isso.

Réctor mostrou os fios dourados e as mudanças provocadas pela Aurora na Casa dos Sonhos, explicando que aquele reino onírico deveria refletir apenas sua própria mente, mas estava sendo lentamente contaminado pela vontade da entidade.

— Não me parece um bom destino, considerando como seu pai terminou — admitiu.

Garuk mostrou o prisma, e Réctor apresentou o mineral como o “Sangue da Aurora”, nome atribuído por Kétil Monda.

— Eu entendo como você vê as pessoas que vêm até aqui. Todos querem as mesmas coisas. Mas acho que ninguém antes chegou ao Solar com a intenção de fazer algo maior. Queremos ajudar a Aurora Gelada. Ela pode salvar o nosso world e trazer de volta o calor que perdemos.

— E essa mesma Aurora enlouqueceu meu pai.

Réctor explicou que a entidade não parecia possuir discernimento sobre o próprio despertar. Algumas facções — como os elfos sombrios — desejavam apenas controlar esse poder latente e transformá-lo em arma. O feiticeiro insistiu que as intenções do grupo eram diferentes.

— Acho que entendo o que você quer dizer, Réctor. Mas ainda não compreendo o que esperam de mim.

— Eu queria entender como seu pai encontrava essas pedras. Quando encontrei esta aqui — disse, erguendo o hectaedro — tive uma visão de uma batalha antiga envolvendo um grande guerreiro. Talvez, se eu encontrar pedras maiores, consiga compreender melhor sua essência.

— Meu pai extraía essas pedras das geleiras. Ele tinha mapas, embora eu não saiba onde estejam guardados. Dizia sempre que o “fio” o guiava. Nunca vi nenhum instrumento ajudando na busca. Ele simplesmente partia por semanas, levando duas carroças e alguns guardas rumo ao norte, e retornava carregado de matéria-prima suficiente para esculpir várias estátuas. Com o tempo, as obras ficaram menores… e mais estranhas. As piores estão escondidas.

— Eu gostaria de vê-las.

— Posso mostrar.

— Então… — começou Garuk — ainda existe alguém daquela época? Das caravanas?

— Alvor participou de algumas viagens. Talvez consiga ajudá-los, se ainda lembrar de alguma coisa. Faz muitos anos.

Garuk então mostrou a Andote o mapa encontrado com Vôlga.

— Estão espionando a senhora! — alarmou-se o guarda.

— Isso não me surpreende — respondeu Andote, séria. — Há algumas semanas recusei uma proposta agressiva de compradores anônimos. Queriam adquirir meu estoque secreto. Eu neguei.

— Então vou direto ao ponto, dona — disse o Guia. — A senhora está na mira dos sombrios. Eles querem tudo isso que a senhora esconde aqui. Aquelas estátuas que vendeu pros comerciantes roubados? Estão com os elfos agora. E se Vôlga saiu do esquema, eles vão encontrar outro jeito de chegar até a senhora.

— Precisamos de mais homens, senhorita — sugeriu o guarda.

— Não tenho recursos para manter um contingente maior — respondeu Andote. Então voltou-se para o Guia: — Seu plano talvez funcione.

Antes de deixarem a Casa dos Sonhos, Réctor mostrou as ilustrações dos Corações d’Aurora presentes no livro do Guia. Explicou que o grupo já possuía dois dos sete artefatos e apresentou os exemplares pertencentes a ele e a Olgaria.

— Isso tem relação com as pedras do meu pai?

— Ainda não sabemos.

— Nunca vi esses objetos… — respondeu Andote, hesitante. Então reconsiderou: — Não. Talvez eu tenha visto algo parecido.

— Seu pai possuía um deles?

— Não exatamente. Mas algumas das últimas estatuetas dele carregavam objetos semelhantes.

— Podemos vê-las?

Andote conduziu o grupo pelos corredores internos da mansão. Subiram diversos lances de escada até alcançarem o terceiro andar de uma torre isolada. Diante deles havia uma gigantesca porta de madeira reforçada, com quase três metros de altura, protegida por duas fechaduras maciças.

A herdeira pediu as chaves ao guarda. Cada uma delas possuía o tamanho de uma mão humana.

Quando a pesada porta foi aberta, revelou-se um recinto mergulhado na completa escuridão. Andote acendeu uma pequena vela e atravessou o limiar, mas Réctor rapidamente conjurou globos de luz que iluminaram todo o ambiente.

Três longas fileiras de mesas ocupavam a sala, repletas de pequenas estatuetas empilhadas.

Garuk avançou com o prisma em mãos para testar a ressonância.

— Essas estátuas que a senhora vendeu também brilhavam?

— O brilho começou há pouco tempo, mas sim. Elas também reagiam.

— E brilhavam de que cor?

— Normalmente vermelho. Às vezes azul.

O cômodo apresentava sinais claros de pouco uso.

— Aqui estão as obras mais estranhas de meu pai — explicou Andote. — Ele deixou anotações em quase todas.

À medida que Garuk caminhava pelos estreitos corredores entre as mesas, o prisma reagia intensamente. As estatuetas grotescas começavam a pulsar em vermelho conforme ele passava, apagando-se logo depois.

Enquanto isso, Haftor examinava atentamente a estrutura da torre. O anão descobriu algo fascinante: embutidas nas paredes de pedra comum havia colunas verticais de Corvear puro, medindo exatamente 2,73 metros de altura e espaçadas de maneira perfeitamente regular. As estruturas formavam uma malha geométrica precisa ao redor de toda a sala.

Haftor compreendeu imediatamente sua função.

— Quem construiu este lugar?

— Foi antes do meu nascimento — respondeu Andote.

— Todo mundo conhece esta sala?

— Não. Apenas eu, Nara e Alvor.

— Então é por isso que os sombrios ainda não atacaram. Eles não conseguem detectar as pedras aqui dentro.

— Meu pai desenhou pessoalmente essa sala. Foi a primeira coisa que fez antes de guardar as estatuetas aqui.

O grupo passou a discutir se Rodérico realmente compreendia o que estava acontecendo consigo mesmo ou se era apenas conduzido pela influência da Aurora.

— Acho que ele sabia — disse Andote.

— Eu não tenho tanta certeza — respondeu Réctor. — Se tivesse entendido completamente, talvez não tivesse ido tão longe.

— Você mesmo já cogitou deixar o fio tomar conta da sua mente — observou Haftor.

Andote caminhou até uma das mesas e pegou uma pequena estatueta representando uma criatura marinha semelhante a uma sereia. Virou a base da peça e mostrou a inscrição para Hector.

— Esta sempre foi a minha favorita.

Na base estava escrito:

“Talvez forma e memória sejam a mesma coisa.”

Réctor continuou lendo outras inscrições deixadas por Rodérico:

— “A voz não usa palavras o tempo todo”… “Andote disse que ouviu vento. Não havia vento”… “As pedras do norte ressoam mais profundamente que as de Telas”.

O feiticeiro então percebeu a tiara ornamentada que Andote usava na testa.

— Essa pedra aí… do que é feita?

— Foi um presente dele.

A escultora retirou a tiara e entregou-a para análise. Réctor imediatamente percebeu que a pedra estava protegida por um invólucro de Corvear puro.

Ele devolveu o objeto lentamente.

— Talvez isso tenha protegido sua mente. Acho que seu pai não sabia explicar o que sentia, mas ainda tentou cuidar de você.

Andote sorriu discretamente antes de recolocar a tiara.

— Você se lembra de ter dito algo sobre vento para ele? — perguntou o Guia.

— Não. O vento sempre me assustou muito. Aqui ele nunca para. Meu pai dizia que não era o vento… eram as estátuas.

— Talvez você não quisesse ouvir da mesma forma que ele ouvia.

Ao fim da conversa, o Guia perguntou qual das esculturas serviria de isca para atrair os sombrios.

— Passem a noite aqui — respondeu Andote. — Descansem. Amanhã decidiremos o que vocês levarão.

Em seguida, chamou Nara e ordenou que fosse preparado um grande banquete para receber os aventureiros.

A marcha Sangar

Após deixarem a ala secreta da torre protegida por Corvear, os aventureiros atravessaram os longos corredores do casarão e seguiram até o quartel do Solar, uma construção ampla situada do outro lado do jardim. Próximo à entrada, encontraram Alvor, um soldado experiente de cerca de cinquenta anos, sentado em um banco rústico enquanto conversava com outro guarda.

Ao avistar o grupo, Alvor levantou-se para cumprimentá-los e aceitou o convite para uma conversa mais reservada. Caminharam até uma área isolada do jardim, afastada da maioria das esculturas monumentais, onde Garuk e Hector passaram a questioná-lo sobre as antigas expedições realizadas ao norte ao lado do falecido Rodérico.

Alvor contou que participou de duas grandes incursões até a cadeia mais externa de montanhas que cercava as geleiras. Explicou que apenas Rodérico conhecia verdadeiramente aquelas rotas, mas revelou um detalhe importante: nos trechos mais perigosos, o escultor contratava um rastreador elfo chamado Ialas.

Quando Hector perguntou como Rodérico conseguia se orientar com tanta precisão, Alvor relembrou as reações do próprio Ialas diante da habilidade quase sobrenatural do escultor.

— O elfo vivia intrigado com aquilo. Mas Rodérico só apontava pra própria cabeça e dizia que “o fio guiava sua mente”.

Antes de se despedir, o guarda revelou que Ialas provavelmente ainda vivia ao norte do grande lago. Bastaria atravessar as águas e caminhar um dia inteiro rumo ao oeste até encontrar uma imensa árvore congelada. O Guia marcou cuidadosamente a localização aproximada da cabana do elfo em seu mapa.

Com o cair da noite, Andote reuniu todos no salão principal para o banquete prometido. Duas serviçais, acompanhadas de Nara e da própria herdeira do Solar, serviram pratos fartos de carne de javali e vinhos finos.

Após a refeição, os aventureiros foram conduzidos aos aposentos distribuídos ao longo de um extenso corredor voltado para a fachada principal do casarão. Contudo, o mistério envolvendo as “pedras que cantavam” impediu qualquer descanso verdadeiro.

Determinados a testemunhar as manifestações noturnas descritas por Andote, os aventureiros dividiram-se em vigília pelos pontos estratégicos da propriedade.

O Guia deslocou-se silenciosamente até o topo de uma das torres de vigia da muralha principal. Lá encontrou dois soldados humanos fazendo sentinela, ambos previamente instruídos por Andote a permitir livre acesso ao grupo.

— A casa estava sendo observada há alguns dias. Vocês perceberam alguma coisa? — perguntou o rastreador.

— Não. Ninguém apareceu pelos arredores.

— Não que vocês tenham visto, né?

— Só se foram discretos demais.

Com seus poderes sombrios, o Guia manteve os olhos fixos na floresta além do alcance das tochas.

Enquanto isso, Haldor realizou uma longa patrulha pelo alto dos muros, conversando com outros sentinelas para entender melhor a rotina do Solar. Os guardas confirmaram que a região costumava ser relativamente pacífica, embora pequenos bandos de criminosos ocasionalmente cruzassem as redondezas, normalmente evitando o Solar devido às muralhas elevadas e ao contingente de cerca de vinte soldados.

Ao perguntar quais rotas eram mais vulneráveis a ataques, os guardas apontaram para a trilha principal que levava à entrada da propriedade.

Enquanto isso, Réctor recolheu sua esfera de constelação e caminhou em silêncio até o pátio frontal ajardinado. No instante em que entrou entre as estátuas carregando os artefatos, os objetos começaram a emitir pulsações diferentes, reagindo intensamente à presença das esculturas monumentais.

Garuk desceu logo atrás para lhe dar cobertura.

À medida que caminhavam pelos corredores de pedra, Réctor percebeu um som sutil atravessando o silêncio da madrugada. Não era o vento comum das montanhas, mas um cantarolar agudo, estranho e efervescente. A melodia parecia vir diretamente do interior de uma das estátuas que brilhava em vermelho.

Tentando localizar a origem do som, o feiticeiro aproximou-se da escultura. Porém, no instante em que chegou perto o suficiente para tocá-la, teve a nítida impressão de que o canto havia migrado para outra estátua mais distante.

Conforme insistia em seguir aquela melodia errante, a esfera em suas mãos começou a vibrar violentamente, sacudindo seus braços a ponto de quase escapar de seu controle.

Garuk correu até ele ao perceber o tremor.

No momento em que o sekbete segurou a esfera junto com Hector, uma onda mística atravessou sua mente, projetando um breve vislumbre psíquico em seus pensamentos.

Assim que Garuk soltou o objeto, o tremor cessou abruptamente e o brilho diminuiu.

Réctor, porém, compreendeu imediatamente o que havia escutado.

Aquela era a mesma voz grave e ecoante de “Aquele que Vela o Instante”, a entidade cósmica que já surgira em seus sonhos para apresentar a Aurora Gelada.

Guiados pela sensação sobrenatural, os dois passaram a examinar a base das esculturas. Onde antes havia apenas vegetação rasteira, pequenas flores começaram a brotar e florescer instantaneamente por onde Hector caminhava, aceleradas pela presença dos artefatos da Aurora.

Os aventureiros cogitaram se aquele mesmo princípio de crescimento acelerado não estaria relacionado aos experimentos dos elfos sombrios com os “mortalos”.

Então, sem qualquer aviso, todas as dezenas de estátuas do pátio começaram a brilhar simultaneamente.

O vermelho desapareceu.

As esculturas passaram a irradiar uma luz azulada, gélida e ressonante.

No mesmo instante, nuvens densas encobriram completamente a lua, mergulhando o Solar na escuridão. Apenas o brilho azul das estátuas permanecia iluminando o pátio.

Do alto da torre, o Guia arregalou os olhos ao perceber a mudança de cor.

— Ficou azul… Alguma coisa está acontecendo.

— Bonito, né? — respondeu Réctor, fascinado.

Mantendo os olhos fixos além do alcance das tochas graças à sua visão sobrenatural, o Guia percebeu algo alarmante em meio à mata: dezenas de pequenos pontos luminosos avançavam pela escuridão de forma coordenada.

— Fiquem atentos!

O rastreador apoiou-se contra a muralha e entrou em profunda concentração, conjurando a magia “Olho das Sombras”. Suas pupilas tornaram-se completamente negras enquanto sua consciência projetava-se para o interior da floresta.

A cerca de cem metros das muralhas, ele avistou uma marcha silenciosa composta por algo entre vinte e trinta pessoas.

Vestiam trajes tribais adornados com ossos e madeira entalhada, carregando bastões, tacapes e lanternas. Com base em seus conhecimentos das Terras Selvagens, o Guia reconheceu imediatamente o povo: eram Sangares.

Os nativos avançavam sem qualquer tentativa de ocultação, guiados de maneira quase hipnótica pela ressonância azul emanada pelo Solar.

Quando a marcha aproximou-se dos portões, os dois guardas que vigiavam o lado externo bateram em retirada tomados pelo medo. As pesadas folhas de madeira foram fechadas com violência, ecoando por todo o pátio.

— Chamem a mestra! Chamem a mestra! — gritava um dos sentinelas.

— O que aconteceu? — perguntou Garuk.

— A… a tribo está lá fora. Quer falar com a mestra Andote.

— Será que eles estão amaldiçoados ou alguma coisa? — perguntou Réctor.

A agitação fez as portas principais do Solar se abrirem. Andote surgiu nos degraus acompanhada de Alvor e de sua escolta pessoal.

Ao ouvir os golpes ritmados vindos do portão, tomou uma decisão imediata.

— Deixem entrar.

Os guardas abriram apenas uma estreita passagem, permitindo a entrada de uma única figura: uma mulher idosa de cerca de sessenta anos. Os outros guerreiros permaneceram imóveis e silenciosos do lado de fora das muralhas.

A anciã caminhou lentamente pelo pátio iluminado pelo brilho azul das esculturas.

Seu nome era Isara.

Inicialmente, ela ignorou completamente Andote. Seus olhos enrugados fixaram-se diretamente em Hector.

— O Sonhador ouviu o chamado desta vez…

Só então voltou-se para a herdeira do Solar.

— Sua casa voltou a cantar, mestra Andote. Está mais perto do que deveria… mais perto do que seu pai chegou. Deixe-nos ajudá-la. Deixe-nos ajudá-la a trazê-la de volta.

Isara ajoelhou-se solenemente sobre o gramado iluminado pelas esculturas.

— Nós sentimos o despertar nas montanhas — declarou a anciã. Então, ainda curvada, voltou-se novamente para Hector: — Você já viu o que quase aconteceu, Sonhador.

Terras Selvagens, dias 26 a 27 do mês da Sabedoria do ano de 1502.

terça-feira, 5 de maio de 2026

(VS) Sessão 32

Sessão 32 - A proposta por Berenice

O reencontro e o despiste

— Hothspoth está aqui. O Hothspoth que vocês conhecem — anunciava Berenice nos comunicadores do grupo.

Enquanto isso, o solariano, acompanhado de Tanaka, Sora, Signus e o motorista da van, atravessava as cinco faixas movimentadas da avenida de Porto Furioso para encontrar os viajantes.

— Tomem cuidado com essa pessoa — transmitia Hothspoth em segredo para seus ex-companheiros.

O clima era de hostilidade e desconfiança. O sinalizador deixado por Hothspoth causara uma má impressão sobre o solariano. Ao mesmo tempo, Signus e sua companhia também não pareciam amigáveis.

O Dr. Kenji Tanaka encarava Edric. O operativo notou, com desconforto e desconfiança, o olhar indiscreto, mas não reconheceu aquele homem.

— Faça as apresentações — pediu Signus ao encontrar os aventureiros.

Hothspoth apresentou aqueles que o acompanhavam — Tanaka, Sora e Signus — e depois apresentou cada um dos tripulantes de Berenice. Rykk, no entanto, permanecia desconfiado e pediu para conversar com ele em particular.

O draconiano conduziu o solariano para trás de uma parada de ônibus. Não era longe, mas o som intenso da avenida movimentada impediria qualquer tentativa de escuta à distância.

Enquanto isso, Tanaka dirigiu-se a Ed:

— Você deve ser o Ed…

O cientista demonstrava empolgação em conhecer um de seus primeiros objetos de pesquisa. O piloto, porém, não compartilhava do sentimento e, ao contrário, parecia confuso.

Rykk ignorou as formalidades.

— Hothspoth, o que aconteceu?

— Eu morri.

— É, a gente viu. E por que diabos a Lança está buscando a gente?

— Ah, isso foi por causa do fragmento do Santo.

— E o que era aquele transponder dentro do seu quarto? Ele revelou a nossa posição para a galáxia inteira!

— Aquele foi o que a gente comprou lá na feira do rolo, nos asteroides… para eu achar vocês. Eu não imaginei que a Lança encontraria vocês. Minha intenção era chegar primeiro.

— O Ed passou por muitas emoções nos últimos dias, sabia?

— Eu sei que o braço esquerdo do Santo está com Kormiik. Aliás, eu sei muita coisa agora.

Enquanto a conversa acontecia, Signus quebrava o gelo com o restante do grupo.

— Eu sou Signus, capitão da Memória de Shilos, e estou aqui porque gostaria de falar com vocês.

— Olá. Eu sou Edric Sarvin, o vice-capitão interino, enquanto o capitão está ali conversando com Hothspoth.

— Excelente — disse ele, apertando a mão de Edric in cumprimento. — Eu sabia que tinha estudado os costumes humanos. Precisamos conversar em particular. Temos assuntos e negócios de mútuo interesse.

— Não podemos conversar agora. Precisamos falar em um lugar mais reservado.

O capitão e o solariano retornaram da conversa particular. Hothspoth iniciou falando sobre suas descobertas no cativeiro:

— O braço esquerdo do Santo está com Kormiik. Ele abre fendas para outras dimensões. E ele sabe a localização de K375.

— E como será que ele descobriu isso, hein? — indagou Rykk.

Em seguida, o capitão voltou-se para Signus.

— Olá, eu sou Rykkgnaw.

— Aha! O influente emissário triaxiano. Ouvi falar também de você. Ouvi dizer que vocês têm talento para escapar. Isso é valioso. Gostaria de falar com o capitão da nave… Berenice, não é?

— Sim. Sou eu.

— Tenho assuntos e negócios que podem render créditos valiosos.

— Bom, nós temos um compromisso agora. Se quiser, podemos nos encontrar mais tarde.

Signus aceitou esperar, aliviando parcialmente a tensão que ainda pairava no ar. Assim que ele partiu com a van e o motorista, o grupo se organizou para entrar no pub e encontrar-se com Garig e Francis. Hothspoth, porém, decidiu permanecer do lado de fora, aguardando junto de Sora e Tanaka.

Alguns degraus separavam a porta do pub do passeio público onde Hothspoth aguardaria. Rykk, Ed, Flynn e Kassius entraram no local movimentado, impregnado pelo odor de álcool e tomado por dezenas de vesks espalhados pelo salão, muitos deles armados. Porém, não viram Garig ou Francis.

Ed sentiu uma dor intensa no braço direito imediatamente ao entrar. Berenice informou que se tratava de uma reação ao Eco Sepulcral.

O grupo dirigiu-se até uma mesa vazia no canto do estabelecimento e se acomodou. Um garçom vesk, esguio, alto e com rosto semelhante ao de uma iguana, veio atendê-los.

— Os senhores beberão algo?

— Sim — respondeu o capitão em nome do grupo.

Rykk, Ed e Kassius sentaram-se de frente para a entrada, enquanto Flynn ficou de costas para o salão. O capitão e Ed buscavam incessantemente por sinais de Garig, mas o androide não estava no estabelecimento. Kassius, porém, notou o bartender lhe sinalizando algo.

— Espero que seja tão discreto quanto seu companheiro — disse o bartender quando Kassius se aproximou do balcão.

— Discrição não é bem o nosso forte, mas prossiga.

— De graça?

— Bota uma bebida para mim aí. E coloca o valor da informação nela.

— Duzentos créditos pagam esta bebida.

O bartender colocou uma garrafa no balcão e a inclinou levemente, revelando um microchip oculto no fundo.

— Seu outro amigo humano, bem armado, deixou isto aqui para você.

Kassius retornou à mesa com o objeto. Através do comunicador do soldado, Berenice acessou os dados e começou a traduzir a mensagem criptografada por Garig.

— Status do local: área comprometida — leu Berenice.

A mensagem detalhava alguns pontos estratégicos:

A aproximação da van de Signus fora detectada junto de assinaturas térmicas da Lança de Hierofante. A presença de Hothspoth revelou que o grupo fora rastreado voluntariamente.

A Aliança Solariana já iniciara o plano de realocação dos 13 milhões de karuum do planeta K375 para evitar a destruição total após a futura retirada da Âncora.

Um novo contato seria restabelecido na frequência 77.17.7. Eles deveriam aguardar um sinal na órbita de Vesk-4 dentro de 72 horas.

O contrabandista verthani opera com tecnologia de rastreio da Lança de Hierofante integrada ao próprio corpo e aos equipamentos. A ordem era clara: não permitam que ele se aproxime de Berenice ou do Dr. Tanaka.

— Ih, capitão… fodeu — desanimou-se Ed.

Diante do risco, o grupo deixou o pub para se reorganizar em outro local.

Informações cruzadas

Rykk ordenou que o grupo buscasse um local mais discreto para realizar uma varredura em busca de grampos e dispositivos localizadores. O capitão convocou Astra para trazer os equipamentos necessários enquanto escolhiam um beco próximo, sem movimento ou vigilância intensa.

Astra iniciou o escaneamento biológico e tecnológico em Tanaka.

— Não há nenhum grampo no corpo dele, mas o datapad está comprometido.

— Não pode ser. Ele nem está conectado!

Astra pegou o datapad por orientação de Rykk.

— Não quebra, por favor.

— Vou isolá-lo em uma caixa de areia — sugeriu Berenice. — Isso impedirá que seja detectado, mas ele ficará inutilizável até a limpeza.

Hothspoth também foi escaneado.

— O comunicador dele já está comprometido — informou a androide.

Irritado, Rykk ordenou que o solariano não utilizasse mais o equipamento.

Sora estava limpa, sem qualquer sinal de rastreador.

Durante o isolamento no beco, o Dr. Tanaka tentou estabelecer uma conexão emocional com Edric, tratando-o como o maior feito de sua carreira científica. A ideia, porém, gerou desconforto no piloto.

— Eu não estou interessado em relacionamentos afetivos — esquivou-se Ed.

— Ed, desculpe. Eu só gostaria de vê-lo. Você foi o ápice da minha carreira. Um milagre da ciência!

— Um milagre do quê?

— Um milagre da ciência. Kormiik e você foram os únicos que conseguiram. Você é perfeito.

Tanaka estava emocionado; o piloto, desconcertado. Mesmo assim, Ed pediu para tocar o corpo do cientista, esperando obter algum vislumbre sobrenatural do passado.

A visão surgiu repentinamente, mas era nítida.

Ed observou a si mesmo aos quatorze ou quinze anos, preso a uma mesa circular de metal, suspenso pelos braços e pernas enquanto cientistas inseriam uma agulha em seu abdômen sob o brilho do braço direito.

Apesar da clareza da visão em terceira pessoa, Ed não se lembrava de nada daquilo.

— Só um segundo… vocês me amarraram em uma mesa circular e enfiaram uma agulha no meu abdômen, seus malditos!

— Isso é passado, e foi para um bem maior. Veja você agora.

— Sim. Caçado pela galáxia.

— O Projeto Receptáculo teve o maior sucesso em você, muito mais do que em Kormiik. Mesmo que você ainda não tenha despertado seu grande poder, você é o receptáculo perfeito — dizia Tanaka, justificando-se e esclarecendo. — Kormiik tem a capacidade de abrir fendas nas dimensões. Eu acredito que você possa fechar essas passagens, porque o Santo era canhoto e Ed é destro.

Lembrando-se dos dados encontrados no planetoide da Deriva, Ed perguntou sobre o terceiro possível hospedeiro, surpreendendo Tanaka.

— É quase certo que exista um terceiro compatível. Estávamos quase chegando lá. Tudo indica que é uma mulher que vive em Absalom.

— Absalom… — interrompeu Rykk — onde nós somos procurados.

Berenice interrompeu as discussões para alertar que Signus estava chegando. Embora o verthani tivesse tentado marcar o encontro em um local conhecido por ele, Rykk insistira no beco.

— Vocês estão grampeados? — iniciou Rykk.

— É óbvio que eu tô — revelou Signus, sem se opor à varredura.

— É verdade, capitão — confirmou Astra enquanto escaneava o contrabandista.

— Eu não posso me desfazer desses grampos. É um acordo comercial.

— No brinco, na arma e no comunicador — destacou a androide.

— Algum deles transmite? — indagou Rykk.

— Todos transmitem localização. Voz, não. Foi difícil colocar isso no contrato, mas eu consegui.

Signus queria a tecnologia de Berenice para escapar da localização da Lança de Hierofante. Segundo ele, a vigilância constante prejudicava seus negócios. Tinha créditos a oferecer e garantia que o grupo ficaria rico em troca da tecnologia.

— Deixa eu te explicar uma coisa. Você, com todos esses rastreadores, não vai chegar a dez quilometves de Berenice — ameaçou Rykk.

— Você acha que eu não sei onde vocês estão aportados? — provocou Signus em resposta.

— Eu sei que você sabe onde estamos, mas você também sabe que, se chegar perto dela, fica bem mais difícil o vestidinho dela funcionar — respondeu Rykk, usando metáforas para despistar possíveis ouvintes.

— Eu não vim lá da Diáspora para ouvir um não. Eu preciso estudar essa capacidade. Isso pode mudar completamente a forma como faço negócios. A Lança de Hierofante está me sufocando. Não vou sair daqui de mãos vazias.

— Certo. Vou dar um jeito para você. Me dá um dia que eu resolvo isso.

Mesmo com um olhar de desaprovação, Signus selou o acordo com um aperto de mão.

— Estarei de olho em vocês — alertou o capitão da Shilos antes de deixar o beco com seu motorista.

Coordenadas multiversais

O plano de Rykk não envolvia entregar Berenice. Na verdade, o capitão pretendia encontrar uma nave da mesma geração para servir de engodo na venda da falsa tecnologia de invisibilidade.

Orientados pela IA, o grupo chegou a um depósito de naves usadas em Porto Furioso. Uma vesk chamada Tilarim os recebeu.

— Estamos procurando uma nave. Uma corveta tipo C2 — disse Rykk.

— Eu não consigo armazenar corvetas aqui. Elas são desmontadas para reaproveitamento. Temos apenas naves menores. Talvez vocês encontrem uma no estaleiro — informou Tilarim, passando as coordenadas do novo local comandado pelo engenheiro Orion.

A vendedora guiou o grupo até uma cargueira leve em manutenção.

— Carrega até seis pessoas. Custa setecentos mil créditos.

— Vamos ver as outras opções. Se não rolar, eu volto aqui — respondeu Rykk.

Durante o deslocamento para o litoral, Flynn deparou-se com um outdoor familiar. Uma antiga lembrança de uma propaganda que vira antes de se mudar para Rive Shroud veio à mente. O cartaz estava desgastado e envelhecido, compatível com o tempo que deveria ter.

O trajeto levou alguns minutos, e o destino foi um estaleiro massivo em uma área menos movimentada do porto.

Enquanto caminhavam em busca do engenheiro, Hothspoth foi atingido por uma visão do Nexo, desencadeada por uma aplicação do soro de Tanaka.

Na visão, viu-se naquele mesmo estaleiro, mas em uma realidade onde era supervisor autoritário da corporação Frozen Trove, intimidando trabalhadores locais.

— A Frozen Trove vai pagar quando achar necessário — dizia uma versão dele mesmo para um trabalhador rebelde.

Enquanto isso, Rykk encontrou-se com Orion.

— Soube que o senhor trabalha com vendas de naves, vamos dizer… clássicas.

— Sim, sim. Todas as que ainda voam, nós melhoramos e vendemos. Temos uma corveta no pátio que ainda não passou pelo serviço.

A nave era uma C24, quase idêntica à Berenice, embora mais armada e sem a pintura característica.

— Quatrocentos mil créditos. Tem capacidade para trinta e cinco tripulantes.

Rykk vistoriava a nave procurando defeitos, tentando depreciar o máximo possível o valor da compra.

— …esse trem de pouso ainda parece meio frouxo. E se eu pagar trezentos e vinte mil créditos?

— É, está bom. Porque eu gostei de você. Veio de tão longe e parece conhecer o negócio.

— Vou chamar meu associado para fechar com você.

Com o acordo verbal selado, Rykk e o grupo deixaram o estaleiro discutindo o plano: apresentar a nave análoga para Signus e convencê-lo de que a tecnologia estava nela.

Porém, quando Rykk se preparava para contatar Signus, acreditando ter encontrado a solução para o impasse, foi interrompido por Berenice.

— Capitão, aquela nave também é rastreável.

— Por quê?

— Creio que ela tenha vindo de outra realidade.

— A nave? A nossa nave?

— Sim.

— Eu desbloqueei uma memória estranha… não tenho certeza de que as informações estejam completamente compiladas, mas talvez seja prudente levar Hothspoth de volta à nave.

— Interessante… — ponderou Rykk.