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terça-feira, 4 de agosto de 2026

(VS) Sessão 41

 

 O sinal anômalo

O grupo escapou dos túneis corrosivos de Vesk-4 depois de vencer inimigos inusitados: capangas da Lança de Hierofante enviados por Vandis Thorne.

De frente para uma grande avenida sobre os dutos, resolveram chamar remotamente o veículo para transportá-los de volta à cidade.

Ed conduziu o veículo. O grupo discutiu os acontecimentos no trajeto de volta. Estavam interessados em descobrir o destino de K375, após saberem que Hothspoth e Tanaka haviam vazado a informação sobre a perna do Santo para Kormik enquanto estavam aprisionados em Bullet.

Varrak, a atendente na locadora de veículos, recebeu Rykk tão bem desta vez quanto da última. O draconiano aguardou o fim do expediente da vesk e partiu com ela para um encontro em um bar.

O restante do grupo dividiu-se.

Hothspoth, Ed e Kassius foram em direção ao hangar. O solariano estava estranho, e Ed não queria deixá-lo sozinho. Notícias da nave apontavam para um comportamento estranho de Berenice.

Enquanto isso, Flynn foi até uma loja. No caminho, no entanto, deparou-se com um evento estranho. Seu monóculo de radiação sepulcral captou sinais anômalos em um beco. Temendo encontrar hostilidade, o solariano não entrou e continuou com suas compras.

A fenda espacial

Ed, Hothspoth e Kassius foram chamados por Flynn e comunicados sobre a anomalia antes de chegarem ao hangar. O trio nem desceu do trem: retornou pelo itinerário até a estação inicial.

Rykk não foi contatado. Flynn tentou, mas o capitão encontrava-se em um momento particular que não quis interromper.

Com exceção do capitão, o grupo se reuniu na esquina do beco. Cautelosos, deram passos lentos, buscando sinais mais precisos da anomalia.

O braço de Ed ressoava.

Hothspoth tinha dores de cabeça.

Em algum momento, Flynn percebeu que a anomalia não se encontrava ao nível do solo. Olhando para cima, viu algo que parecia uma abertura no próprio espaço-tempo. Uma fenda dimensional.

A rachadura na realidade permitia que ele visse através dela como se fosse um vidro quebrado. No entanto, o outro lado parecia o mesmo.

Hothspoth disse que se aproximaria. Flynn também, pois seu monóculo poderia mostrar alguma informação importante. Juntos, os dois voaram auxiliados pelas mochilas a jato.

Ed e Kassius observavam de baixo, sem compreender o que estava acontecendo. Apenas Flynn conseguia ver a abertura graças ao seu monóculo.

A dupla de solarianos sumiu da vista de Ed e Kassius em um piscar de olhos. Eles atravessaram a fenda da realidade e foram transportados para um local diferente, mas parecido. Era Vesk-4. Havia lojas, embora não fossem as mesmas que eles tinham encontrado no local de origem. Tudo parecia se comportar do mesmo jeito, mas seus companheiros não estavam lá.

Hothspoth teve uma dor de cabeça terrível e uma visão estranha. Flynn teve um pressentimento ruim, mas que desapareceu. A dupla não queria permanecer muito tempo naquele local estranho. Retornaram.

A descoberta de Allen

Hothspoth entrou em um transe estranho assim que retornou pela fenda. O solariano teve visões confusas que quase fizeram com que ele e Flynn caíssem dos vinte metros de altura onde a Fenda se mantinha aberta.

Flynn parecia bem.

— Do outro lado é Vesk-4, igual aqui — dizia ele a seus companheiros.

Mas Hothspoth continuava em torpor.

O grupo enrolou o companheiro em um tapete comprado na loja ao lado e partiu para o trem. No caminho de volta, conseguiram contato com o capitão Rykkgnaw.

— Capitão, Hothspoth está com problemas.

— Eu não posso ficar fora por uma tarde? — indignava-se o capitão.

O grupo se reuniu a bordo da Berenice. Astra chamou Rykk para uma conversa sigilosa.

A androide conduziu o capitão até o laboratório médico e desativou a energia.

— Veja o tubo do clone 2. O fluido mudou de cor, está azulado. Algum código foi executado no terminal, mas não consigo identificar — Astra passou as informações, desconfiada de Berenice. Se procurasse demais, a IA perceberia e poderia mascarar os resultados. Por isso, desconectou todos os sistemas da ala médica para que a conversa permanecesse reservada.

Rykk ouviu, mas não sabia o que fazer.

Ed chegou. Logo, os outros também.

A notícia foi comunicada ao grupo principal. Reunidos, pensaram em uma estratégia.

— Vamos fazer alguma coisa que exija todo o processamento de Berenice. Enquanto ela estiver ocupada, você investiga — pontuou o capitão.

— O ponto de maior estresse é a entrada na Deriva, com os cálculos e a ativação dos motores — informou Ed.

Estava decidido. O grupo iria aproveitar a entrada na Deriva para investigar o que havia acontecido com o clone 2 da Dra. Reed. Eles sabiam que Berenice estava interessada naquelas cópias, mas ela estava agindo sem o consentimento do capitão.

Antes disso, no entanto, pretendiam explorar melhor a fenda do distrito comercial. Assim, começaram a se preparar para voltar à cidade.

Repentinamente:

— DESCOBRIII! — gritou Allen pelos comunicadores, anunciando uma descoberta, segundo ele, revolucionária.

— Eu sabia que conseguiria. Eu sou um gênio! Minha mente é uma força da natureza, hahaha!

O grupo apressou-se para o laboratório recém-construído do doutor e o encontrou de costas, de braços para cima, como se estivesse cultuando seu acelerador de partículas.

Ele olhou para trás com um sorriso enlouquecido:

— Não é a velocidade, é a rotação!

 


 

terça-feira, 28 de julho de 2026

(VS) Sessão 40 🤖

O verdadeiro Hotspot

Encontro na estação corroída

Depois de atravessar os corredores corroídos da estação e derrotar as criaturas irradiadas que protegiam o caminho, a equipe finalmente alcançou a sala onde Gharig, agente da Aliança Solar, operava um antigo terminal de dados. Atrás dele permanecia Francis, atento e com uma bazuca apontada para os recém-chegados.

O reencontro, entretanto, esteve longe de ser amistoso. Em vez de cumprimentos, o grupo foi recebido por olhares desconfiados. A dúvida que consumia Gharig e Francis era simples, mas perigosa: o homem diante deles era realmente Hotspot ou apenas mais uma criação da Lança de Hierofante?

A suspeita tinha fundamento. Segundo Francis, o verdadeiro Hotspot havia desaparecido durante um acidente espacial nas proximidades do asteroide Bullet. Desde então, relatos indicavam que alguém idêntico a ele vinha atuando ao lado da Lança de Hierofante. Para os agentes da Aliança Solar, existia a possibilidade de o companheiro da Berenice ser apenas um clone criado para infiltrar-se entre seus inimigos.

Hotspot tentou desfazer a suspeita oferecendo diferentes formas de comprovar sua identidade. Sugeriu comparar sua assinatura manuscrita com documentos antigos, mas Francis recusou a ideia imediatamente.

— Isso não basta. A Lança pode copiar genética, biologia... mas nós não vamos confiar tão facilmente.

Enquanto o clima se tornava cada vez mais tenso, Hotspot tomou uma decisão impulsiva: retirou o capacete em pleno ambiente contaminado pela atmosfera corrosiva da estação.

O efeito foi imediato.

Em poucos segundos, o ar tóxico começou a destruir seus pulmões. O solariano caiu de joelhos antes de desabar completamente, inconsciente, enquanto seus companheiros corriam para recolocar seu capacete.

Mesmo após ser estabilizado, metade de sua vitalidade havia sido consumida apenas por alguns instantes de exposição.

Uma prova impossível

Quando Hotspot recuperou os sentidos, Gharig fez uma única exigência.

— Esperávamos que você pudesse nos contar sobre o encontro em K375.

Hotspot compreendeu imediatamente o problema. Qualquer informação que oferecesse poderia ter sido aprendida por um infiltrado. Nenhuma lembrança seria suficiente para convencer quem já esperava encontrar um impostor.

Foi então que Hothspoth resolveu apostar na única evidência impossível de ser falsificada.

Desde que recebera parte do Nexo, ele vinha desenvolvendo estranhas manifestações psíquicas ligadas às memórias de outras pessoas. Aproximou-se de Gharig e tentou tocar sua cabeça, desejando transmitir-lhe diretamente uma lembrança compartilhada pelos dois durante sua antiga convivência na Berenice.

O plano, porém, não saiu como esperado.

Antes que o contato fosse estabelecido, Gharig recuou por instinto.

Em vez de transmitir qualquer lembrança, Hothspoth foi invadido por outra visão.

Durante um breve instante, viu a si mesmo conversando com Irlanda na Riven Shroud, como se sua própria memória estivesse sendo sobreposta por outra camada de realidade. A sensação desapareceu tão rapidamente quanto surgiu, deixando apenas a certeza de que o Nexo escondia mecanismos muito além da compreensão do grupo.

Ainda assim, a tentativa pareceu suficiente para abalar as últimas dúvidas de Gharig.

Francis permaneceu desconfiado, mas o agente da Aliança Solar finalmente abaixou a guarda.

— Está bem. Acredito que seja você.

As informações da Aliança Solar

Com a tensão diminuída, a conversa finalmente tomou o rumo esperado.

Gharig revelou que a Aliança Solar conseguira confirmar diversas suspeitas surgidas nas últimas missões da tripulação da Berenice.

Informantes infiltrados dentro da Lança de Hierofante voltaram a estabelecer contato recentemente, indicando que a organização mantinha uma ligação muito mais profunda com a Frozen Trove do que se imaginava. Embora ainda não existissem provas definitivas capazes de demonstrar essa aliança publicamente, os indícios acumulados apontavam todos para a mesma direção.

Além disso, a Lança vinha expandindo suas operações militares de forma agressiva. Diversos sistemas da Vastidão estavam sendo ocupados, confrontos isolados já haviam ocorrido contra células do Império Aslanti e novas movimentações indicavam que outro relicário poderia ter sido localizado.

A notícia preocupou imediatamente a tripulação.

Se realmente existisse um novo fragmento do Santo, a corrida para encontrá-lo antes da Lança de Hierofante passava a ser ainda mais urgente.

Hothspoth então compartilhou outra descoberta recente: Cormick, o misterioso androide pesquisado por Tanaka, possuía conhecimento sobre K375 e sobre os receptáculos compatíveis com o relicário.

A revelação surpreendeu até mesmo Gharig.

Embora a Aliança já soubesse da existência de possíveis hospedeiros, aquela era a primeira confirmação concreta envolvendo Cormick.

Questionado sobre o verdadeiro poder dos braços do Santo, Gharig respondeu apenas aquilo que sua organização havia conseguido descobrir.

— Não sabemos exatamente o que cada braço faz isoladamente. Sabemos apenas que, reunidos, seriam capazes de abrir passagem entre universos.

A afirmação mergulhou o grupo em silêncio.

As habilidades que Hothspoth vinha manifestando deixavam de parecer simples anomalias. Talvez fossem apenas um reflexo incompleto de algo infinitamente maior.

Uma despedida apressada

A conversa foi interrompida abruptamente quando todos os comunicadores começaram a apresentar falhas.

Os indicadores de oxigênio passaram a despencar rapidamente.

Entre chiados, a voz da Berenice conseguiu atravessar a interferência.

— Capitão... estamos sofrendo algum tipo de ataque eletrônico. Estão drenando a capacidade respiratória dos trajes. Vocês precisam sair daí imediatamente.

Gharig compreendeu a gravidade da situação.

— Nossa proteção acabou antes do esperado. Não podemos permanecer juntos.

Ele indicou um túnel alternativo que conduzia ao exterior da instalação enquanto Francis desmontava calmamente sua bazuca antes de partir.

Ao cruzar a saída, lançou um último olhar para Hotspot.

— Tome cuidado. Ainda estamos atrás de você.

Sem tempo para novas perguntas, os dois agentes desapareceram pelos corredores metálicos, enquanto a tripulação da Berenice iniciava sua própria retirada pelos túneis desconhecidos da estação, sem imaginar que o verdadeiro perigo ainda estava por vir.

A retirada pelos túneis

Sem perder tempo, a tripulação deixou a sala onde se reunira com Gharig e Francis. Enquanto os agentes da Aliança Solar seguiam por uma rota distinta para preservar o sigilo da operação, a equipe da Berenice escolheu utilizar o túnel alternativo indicado por eles, evitando retornar pelo caminho onde haviam enfrentado as criaturas irradiadas.

O novo trajeto revelou-se pouco mais convidativo que o anterior. Um longo corredor metálico seguia quase em linha reta através da estrutura corroída da estação. Acima das cabeças dos exploradores, grossos dutos transportavam compostos químicos que vazavam continuamente pelas juntas enferrujadas, formando pequenas cascatas de líquido corrosivo. O ar permanecia pesado e impregnado por um forte odor metálico.

A cada bifurcação, era a Berenice quem orientava o grupo.

— Direita... agora esquerda... sigam em frente...

As instruções eram precisas, mas logo algo estranho começou a acontecer.

A voz da inteligência artificial passou a apresentar pequenos chiados. Por trás das orientações, todos conseguiam perceber uma segunda voz, quase imperceptível, como se duas transmissões diferentes ocupassem o mesmo canal ao mesmo tempo. As palavras eram incompreensíveis, dissolvendo-se em meio às interferências antes que pudessem formar qualquer frase inteligível.

Hotspot, entretanto, percebeu algo diferente.

Enquanto os demais ouviam apenas ruídos, uma sequência de mensagens surgiu diretamente em sua interface neural.

Sincronia concluída.

O atraso biológico foi compensado pela minha própria sub-rotina.

O receptáculo digital dois está agora em fase de ancoragem quântica.

Antes que pudesse compreender o significado daquelas informações, a mensagem desapareceu sozinha, como se jamais tivesse existido. Restou apenas a estranha sensação de que as palavras ocultas por trás da voz da Berenice eram exatamente aquelas que havia acabado de ler.

Hotspot optou por não interromper a marcha para comentar a ocorrência. Ainda não havia qualquer explicação plausível para o que acabara de testemunhar.

A ameaça invisível

Poucos minutos depois, uma nova transmissão invadiu simultaneamente todos os comunicadores da equipe.

Ao contrário das mensagens da Berenice, aquela era perfeitamente nítida.

— Vocês não sairão deste local vivos.

O silêncio que se seguiu foi imediato.

Edric tentou localizar a origem do sinal utilizando os sistemas de comunicação da armadura. Após uma rápida análise, concluiu que a transmissão vinha da órbita do planeta. A fonte, entretanto, deslocava-se continuamente, impossibilitando uma localização precisa.

Antes que pudesse aprofundar a investigação, outra informação preocupante surgiu nos visores da equipe.

O oxigênio dos trajes continuava diminuindo em ritmo acelerado.

A Berenice voltou a falar.

— Capitão, estamos a aproximadamente quatrocentos metros da saída.

A ordem foi imediata.

— Corram!

Os cinco dispararam pelos corredores enferrujados enquanto a reserva de oxigênio diminuía segundo após segundo.

O campo minado

Hothspoth assumia a dianteira quando tudo aconteceu.

No instante em que apoiou o pé sobre uma pequena placa metálica quase invisível entre a ferrugem do piso, percebeu tarde demais do que se tratava.

Era uma mina.

Por puro reflexo, interrompeu completamente o movimento antes que retirasse o peso da perna.

Permaneceu imóvel.

— Capitão... eu pisei numa bomba.

Ninguém respondeu imediatamente.

A simples tentativa de socorrê-lo poderia detonar outras armadilhas escondidas ao redor.

Os poucos segundos gastos analisando a situação permitiram que todos compreendessem a verdade.

Aquele corredor inteiro havia sido preparado como uma emboscada.

Enquanto avaliavam a melhor forma de retirar Hothspoth dali, um grito ecoou pelos túneis.

— Ataquem!

Outra voz completou a ordem.

— Atrasem-nos até morrerem sufocados!

No mesmo instante, uma granada foi lançada contra o grupo.

A retirada silenciosa transformava-se, mais uma vez, em combate.

Sob fogo cruzado

Os inimigos aproveitaram as plataformas elevadas do túnel para iniciar o ataque. Protegidos por estruturas metálicas e pelo próprio campo minado, abriram fogo enquanto Ed ainda permanecia preso sobre o explosivo.

Rick foi o primeiro a reagir. Ergueu sua arma e respondeu imediatamente aos disparos, obrigando um dos adversários a buscar cobertura.

Cassius concentrou seu fogo de supressão sobre a posição inimiga, espalhando uma intensa chuva de disparos que limitou os movimentos dos atacantes e obrigou parte deles a permanecer protegida atrás das plataformas.

Enquanto isso, Ed concentrou toda a atenção na bomba sob seus pés. Com extremo cuidado, ajoelhou-se lentamente e começou a desmontar o mecanismo de disparo.

Por alguns instantes, qualquer erro significaria a morte de toda a equipe.

Finalmente, conseguiu desativar o dispositivo.

A mina desprendeu-se do piso e caiu silenciosamente no fundo do corredor sem explodir.

Mal teve tempo de respirar.

Ergueu a arma e respondeu ao fogo inimigo, atingindo um dos atacantes e reduzindo significativamente sua capacidade de reação.

Ao redor deles, porém, a situação continuava se deteriorando.

O oxigênio diminuía.

Os corredores estreitos limitavam qualquer possibilidade de manobra.

E, escondidos entre fumaça, ferrugem e estruturas corroídas, os soldados da Lança de Hierofante demonstravam estar perfeitamente preparados para prolongar aquele combate até que o próprio ambiente terminasse o serviço.

A luta pela sobrevivência

Enquanto os disparos cruzavam o corredor, Hotspot concentrou-se menos em atacar e mais em manter seus companheiros de pé. Utilizando as propriedades incomuns do braço do Santo, passou a manipular a percepção da realidade, fortalecendo psicologicamente seus aliados e concedendo-lhes energia para resistirem ao combate. Embora o efeito parecesse improvável até para ele, a estranha influência do relicário continuava produzindo resultados concretos.

Os soldados da Lança de Hierofante, porém, mostravam-se muito mais perigosos do que simples mercenários.

Alguns desapareciam em pequenas distorções gravitacionais, reaparecendo em posições completamente diferentes poucos instantes depois. Outros manipulavam energia diretamente com as mãos, enquanto mantinham a pressão constante sobre o grupo.

Flynn decidiu encerrar rapidamente aquele impasse.

Canalizou uma poderosa descarga de plasma em linha reta contra os inimigos. O ataque atravessou o corredor como uma lança de fogo, mas encontrou algo inesperado pelo caminho.

As minas remanescentes.

A explosão em cadeia percorreu todo o túnel.

O fogo atingiu os adversários, mas também envolveu os próprios companheiros, obrigando todos a suportarem o impacto enquanto estilhaços metálicos e ondas de calor preenchiam o ambiente.

Apesar do risco, o ataque alterou completamente a dinâmica do confronto. As explosões destruíram parte das armadilhas preparadas pelos emboscadores e abriram espaço para que o grupo voltasse a avançar.

Mesmo assim, os inimigos continuavam firmes.

As ordens da Lança

À medida que o combate prosseguia, os soldados deixavam escapar fragmentos das ordens que haviam recebido.

— Tragam dois vivos!

A frase foi suficiente para que a tripulação compreendesse que aquele não era um simples ataque de extermínio.

Alguém desejava capturar membros específicos da equipe.

Embora os atacantes jamais mencionassem nomes, a conclusão parecia inevitável. Tanto Hotspot quanto Ed, diretamente ligados aos fragmentos do Santo, tornavam-se os candidatos mais prováveis.

A descoberta apenas reforçou a urgência em romper o cerco antes que chegassem reforços.

O peso do relicário

Durante um breve momento da batalha, Ed voltou a concentrar sua atenção no braço do Santo.

Observando que todos os soldados utilizavam capacetes completamente vedados, tentou forçar a realidade a assumir uma versão em que eles simplesmente não estivessem protegidos.

A ideia parecia simples.

Na prática, revelou-se muito além do que conseguia controlar.

O relicário respondeu apenas com uma dor intensa, irradiando pelo braço enquanto sua mente parecia resistir ao próprio esforço de alterar o tecido da realidade. A tentativa fracassou antes mesmo de produzir qualquer efeito perceptível.

Ao perceber o estado do companheiro, Hotspot aproximou-se rapidamente.

— Me ajuda a mudar a realidade... Eles vão matar o capitão.

Mesmo compartilhando parte daquela estranha ligação com o relicário, Hotspot nada pôde fazer além de permanecer ao lado do amigo enquanto a batalha continuava ao redor.

Uma negociação improvável

Foi então que aconteceu o momento mais improvável de toda a operação.

Enquanto tiros e explosões ecoavam pelos corredores, Hotspot simplesmente resolveu conversar com um dos soldados inimigos.

Retirando do bolso um pequeno espelho de bolso, dirigiu-se ao adversário com a maior naturalidade possível.

— Se eu entregar isso para vocês... deixam a gente ir embora?

O pedido foi tão inesperado que o soldado hesitou.

Por alguns instantes, a convicção transmitida por Hotspot pareceu superar o próprio treinamento militar do homem.

Confuso, o atacante estendeu a mão para receber o objeto.

Hotspot entregou-lhe um espelho. Em seguida, retirou outro e ofereceu ao segundo combatente.

Os dois permaneceram observando os pequenos objetos brilhantes sem compreender exatamente o que haviam acabado de receber.

A distração custou preciosos segundos aos emboscadores.

Tempo suficiente para que a equipe reorganizasse suas posições e retomasse a iniciativa do combate.

Uma fuga ainda incompleta

A batalha, entretanto, estava longe de terminar.

O oxigênio continuava diminuindo a cada instante, obrigando todos a economizar movimentos e acelerar as decisões. Cada disparo precisava valer a pena. Cada segundo desperdiçado aproximava a equipe da asfixia.

Mesmo sob intensa pressão, Cassius manteve o fogo de cobertura enquanto Rick e Ed buscavam eliminar os adversários mais perigosos. Flynn avançava continuamente, utilizando seus poderes para romper as defesas inimigas, enquanto Hotspot alternava entre sustentar seus companheiros e procurar oportunidades para explorar as propriedades cada vez mais imprevisíveis do braço do Santo.

Ao final daqueles primeiros minutos de confronto, uma conclusão tornava-se evidente para todos.

A Lança de Hierofante já conhecia sua presença.

Sabia exatamente por onde haviam passado.

E, acima de tudo, demonstrava conhecer muito mais sobre os fragmentos do Santo do que a própria tripulação imaginava.

Enquanto os disparos continuavam ecoando pelos túneis metálicos da estação, restava apenas uma certeza.

Escapar dali seria apenas o primeiro desafio. A verdadeira guerra entre a tripulação da Berenice e a Lança de Hierofante havia finalmente começado.

terça-feira, 21 de julho de 2026

(VS) Sessão 39 🤖

O Embate nos Túneis Ácidos

A tripulação da Berenice avançava pelas entranhas industriais de Vesk-4, um ambiente fétido onde vapores químicos e o gotejar constante de fluidos corrosivos ditavam o ritmo da marcha. A travessia pelos dutos abandonados foi subitamente interrompida quando uma criatura crustácea massiva, um Vryid Irradiado, despencou do teto diretamente sobre Kassius. O impacto foi o sinal para que outras abominações emergissem das sombras da estrutura metálica corroída.

Edcrin agiu com a precisão de um veterano. Com um salto acrobático calculated, ele se posicionou em uma plataforma superior instável e disparou seu rifle tático.

— Cuidado onde pisam, essa estrutura está cedendo! — alertou o operativo antes de desferir um impending shot que atingiu as articulações de um dos monstros, retardando seu avanço.

Hothspoth acionou seu jetpack, buscando a vantagem vertical. Em um movimento ousado, tentou utilizar um pé de cabra para alavancar a carapaça de um inimigo, mas a ferramenta escorregou de suas mãos, mergulhando no poço de ácido abaixo e derretendo-se instantaneamente. Sem hesitar, ele canalizou sua energia solariana.

— Se não vai na força, vai na gravidade! — exclamou o solariano, manifestando um Black Hole que distorceu o metal da passarela, desequilibrando os atacantes.

Kassius, recuperando-se do impacto inicial, liberou o poder de seu Canhão Estelar. O modo Area Fire devastou as fileiras frontais dos crustáceos, mas a violência das explosões rompeu tubulações de gás sulfúrico próximas. Uma nuvem esverdeada e tóxica envolveu o grupo, forçando-os a lutar enquanto o ácido ardia em seus pulmões e visores.

Flynn, cercado por duas criaturas, alternava entre ataques fotônicos e o uso de seu escudo para absorver as garras entrópicas dos Vryids. Ele sentia a pressão da exaustão, agravada pelos gases que Kassius inadvertidamente liberara.

Rykkgnaw, sobrevoando o caos, utilizou sua "Baforada de Gelo" do talento Rei Dragão. O frio intenso congelou o ar e o solo ao redor das criaturas, imobilizando-as, embora o sopro gélido tenha atingido acidentalmente as botas de Flynn, que praguejou contra o capitão.

O combate encerrou-se de forma explosiva. Ao serem abatidos, os crustáceos colapsaram em detonações de fluidos pressurizados e estilhaços de carapaça, exigindo reflexos rápidos da tripulação para evitar ferimentos letais. O ambiente estava em ruínas, mas o caminho estava limpo.

O Reencontro e a Suspeita

Guiados pela voz de Berenice, que mantinha um sinal instável devido à interferência magnética das rochas, o grupo percorreu mais duzentos metros através de passagens estreitas e névoa ácida.

— A localização de Garg está trinta metros à frente. Vejo uma porta manual pesada — anunciou a IA.

Hothspoth assumiu a dianteira e forçou as pesadas chapas de metal para os lados. O ranger do metal ecoou por uma sala iluminada por terminais holográficos. No centro, Garg operava um console de dados, enquanto Francis, o soldado em armadura pesada, mantinha sua bazuca de plasma engatilhada e travada na direção da porta.

O clima não era de celebração. Garg virou-se lentamente, sua expressão rígida sob a luz azulada dos hologramas.

— Vocês demoraram. Problemas com a Lança? — questionou Garg, o tom desprovido de cortesia.

— Problemas demais — respondeu Rykkgnaw, advancing para o centro da sala.

Francis não baixou a arma. Seu visor estava fixo em Hothspoth.

— Espera, Garg — interrompeu o soldado. — Há a possibilidade de ser outro Hothspoth. Os relatórios dizem que o original se perdeu no vácuo. A Lança de Hierofante é mestre em clonagem biológica. Como sabemos que isso não é um engodo?

Francis engatilhou a bazuca com um estalo metálico seco. O grupo se viu sob a mira de seus próprios aliados. Garg cruzou os braços, aguardando uma confirmação que apenas o verdadeiro Nexo poderia fornecer, enquanto a tensão na sala ameaçava romper a frágil aliança solariana.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

(VS) Sessão 38

Sessão 38 - Vesk-4

A Aterrissagem turbulenta

Berenice entrava na órbita de Vesk-4 sob o comando de Edric, mas as condições não eram favoráveis. Além da notícia de que eram procurados no sistema, a situação meteorológica do planeta exigiria habilidade do piloto para chegar à superfície em segurança.

Antes de dar início aos protocolos de entrada, Rykk ordenou que a tripulação trabalhasse em uma identidade falsa para a nave. Flynn, Hothspoth, Sora e o próprio capitão dedicaram-se aos códigos de identificação, auxiliados por Berenice, até conseguirem construir uma assinatura digital convincente.

Ed conduziu a nave para a atmosfera. Sob autorização governamental para pousar em um dos hangares disponíveis, atravessou as barreiras de nuvens de tempestade e, enfrentando forte turbulência, conseguiu pousar a nave em segurança no local designado.

A superfície visível do planeta era composta apenas por guindastes magnéticos, chaminés que expeliam gases amarelados e plataformas de liga metálica. Toda a infraestrutura habitável encontrava-se abaixo delas, escavada na rocha magnética. Assim que a nave atracou, ganchos mecânicos prenderam sua estrutura, e um elevador conduziu a tripulação ao subterrâneo.

Já em solo, uma comitiva vesk aguardava para iniciar os procedimentos de desembarque. A expectativa quanto à identidade falsa logo foi substituída por alívio: o comando local, menos rigoroso do que o de Vesk Prime, não detectou o código forjado e autorizou a permanência da nave.

A inspeção

— Aqui é o supervisor técnico Varakos — anunciou uma voz vesk pelos comunicadores. — Solicitamos acesso à nave para uma inspeção.

A tripulação ficou apreensiva. Flynn temia principalmente pelo fóssil do Santo.

— Eu posso colar uns adesivos de perigo na porta! — sugeriu Pip.

A ideia, embora simplória, foi aceita pelo capitão por falta de alternativa melhor. O skittermander deixou a ponte pelos dutos de manutenção e logo pôde ser visto colando placas de advertência na porta da sala de carga especial.

Enquanto isso, Rykk e os demais discutiam como reagiriam à abordagem do supervisor Varakos.

Hothspoth deixou a ponte e dirigiu-se ao arsenal. Pegou alguns equipamentos e posicionou-se diante da porta da câmara, assumindo postura de guarda.

Sem outra alternativa, Rykk ordenou a abertura da comporta de carga e foi receber o inspetor.

— Muito prazer — cumprimentou Varakos, de maneira formal e impessoal.

— Meu nome é Gnal — apresentou-se Rykk, utilizando a identidade falsa.

A inspeção percorreu toda a nave. A sala de cargas especiais, onde o fóssil do Santo permanecia acondicionado, estava próxima. Ao notar as placas de advertência — "Perigo", "Radiação", "Não entre" — o vesk questionou:

— O que tem aí dentro?

— Resíduos radioativos — respondeu Rykk.

Varakos não demonstrou maior interesse. Pareceu satisfeito com a explicação e prosseguiu, para alívio da tripulação.

Ao chegarem ao arsenal, Hothspoth permanecia imóvel em sua posição de vigilância.

— O que ele está protegendo?

— O arsenal.

— Quero ver.

Com uma ordem do capitão, Hothspoth liberou a passagem. O inspetor lançou apenas uma rápida olhada no interior antes de seguir adiante.

Varakos ainda visitou a ponte, mas não entrou nos aposentos onde Allen permanecia. O cientista havia sido previamente orientado pelo capitão a não criar qualquer tipo de problema durante a inspeção.

— Vocês estão liberados, senhor Gnal — anunciou o supervisor ao final da vistoria. — Não causem problemas, e não terão com o que se preocupar em Vesk-4.

A identidade falsa resistira ao primeiro teste. Agora, restava descobrir se Garig ainda estava onde prometera estar.

Rykk, Ed, Hothspoth, Flynn e Kassius deixaram Berenice após receberem algumas recomendações sobre as cidades subterrâneas da região. Em seguida, embarcaram em um trem rumo ao centro urbano mais próximo.

O esconderijo de Garig

Berenice informou que as coordenadas enviadas por Garig não apontavam para uma cidade, mas para um túnel subterrâneo situado a cerca de 30 quilômetros dali.

— Vamos alugar um veículo — ordenou Rykk.

A tripulação dirigiu-se a uma locadora e foi recebida por uma vesk de escamas verde-ciano, quase tão alta quanto o draconiano.

— A que horas termina seu expediente? — perguntou Rykk, obtendo a resposta que esperava.

Depois de combinar o horário de retorno, o grupo escolheu um veículo e partiu em direção ao ponto mais próximo possível do esconderijo de Garig.

Ed conduziu o veículo por uma ampla estrada de Vesk-4 até alcançar um desvio protegido por guardas armados.

— Não é seguro passar a partir daqui — alertaram.

— Não se preocupem conosco. Sabemos nos cuidar — respondeu Rykk.

Convencidos pela insistência do draconiano, os guardas permitiram a passagem. O grupo percorreu mais alguns quilômetros antes de precisar prosseguir a pé.

O restante do percurso era perigoso. O oxigênio estava contaminado por gases químicos oriundos do interior do planeta, enquanto um líquido verde e corrosivo escorria por um enorme duto industrial.

— Precisamos atravessar esse duto — informou Berenice. — Perderemos contato com a nave assim que entrarem, mas continuarei acompanhando vocês pelos comunicadores enquanto for possível.

A tripulação avançou com cautela, caminhando pelo interior da tubulação e evitando qualquer contato com o líquido corrosivo e possivelmente inflamável.

O maior obstáculo surgiu quando encontraram uma antiga escadaria metálica, bastante corroída, que subia cerca de vinte metros. Rykk voou até o topo. Kassius escalou logo depois, embora alguns degraus cedessem sob seu peso e quase o derrubassem. Hothspoth, Flynn e Ed completaram a subida sem dificuldades.

Já próximos da saída, encontraram as paredes tomadas por esporos venenosos semelhantes a cracas metálicas. O grupo prosseguiu lentamente para evitar qualquer contato. O porte avantajado de Rykk, porém, jogou contra ele. O emissário aproximou-se demais de um dos organismos, que liberou uma nuvem de gás tóxico. O draconiano tossiu violentamente e sofreu alguns ferimentos, mas conseguiu seguir. Kassius também encontrou dificuldade para atravessar o trecho sem importunar as criaturas. Hothspoth chegou a cogitar abrir fogo contra elas, mas preferiu prosseguir sem provocar um confronto.

O duto finalmente terminou em uma passarela metálica pertencente a instalações aparentemente abandonadas.

Quando Kassius saltou sobre a plataforma, uma criatura semelhante a um crustáceo despencou sobre ele. O ataque não foi suficiente para atravessar sua defesa, mas logo outros monstros surgiram das estruturas ao redor.

O grupo precisaria lutar para prosseguir.

Vesk-4, 24/06/325

terça-feira, 7 de julho de 2026

(VS) Sessão 37 🤖

Fuga de Porto Furioso e o Manifesto de Allen

A Fuga de Porto Furioso

O Caminhão Monstro

A tripulação de Berenice encontrava-se em uma situação desesperadora no estacionamento do quartel-general do Veskarium. Edric, utilizando suas habilidades de manipulação da realidade, havia transposto o grupo para uma versão onde o veículo de fuga era um caminhão monstro blindado, preparado para o impacto.

Rykkgnaw assumiu o posto de comando, deitando-se na posição de condução característica dos veículos Vesk. Kassius assumiu a artilharia no canhão superior, enquanto Flynn e Hothspoth operavam os sensores e a navegação. Edric, embora exausto pelo esforço mental que descreveu como uma "sensação de fim do mundo", concentrou-se em auxiliar o capitão com a leitura dos sistemas em idioma Vesk.

— Capitão, estamos com sorte. Eles estão tentando evitar danos colaterais na infraestrutura da cidade — alertou Edric ao interceptar as comunicações do General Thor (ou Thorl).

Perseguição nas Avenidas

Ao acelerar, o estrondo do motor ecoou pelo complexo. Rykkgnaw lançou o caminhão sobre dois veículos de patrulha que bloqueavam a saída, esmagando-os enquanto ganhava a estrada principal. Sem a conexão de Berenice, que entrara em isolamento para evitar ataques cibernéticos, Flynn traçou a rota mais curta através do GPS, guiando o grupo por dentro da metrópole.

A fuga foi marcada por uma sucessão de manobras brutais:

O Tanque Inimigo: Um tanque de guerra tentou emparelhar com o grupo. Rykkgnaw jogou o peso do caminhão contra o adversário, fazendo-o capotar na pista.

A Barreira e a Rampa: Diante de um bloqueio que parecia intransponível, Hothspoth e Edric uniram suas percepções alteradas. O solariano projetou um déjà-vu rítmico que Edric materializou, transformando o asfalto plano em uma rampa ascendente. O caminhão saltou sobre os blindados inimigos, embora o impacto na queda tenha lançado Hothspoth contra as paredes internas, causando-lhe ferimentos leves.

Fogo de Supressão: Kassius demonstrou precisão absoluta na torre, destruindo drones de vigilância e abrindo brechas em tanques de guerra com disparos certeiros de projéteis.

O Rompimento do Muro

Ao se aproximarem do espaçoporto, Flynn detectou, via sensores infravermelhos, que as tropas militares aguardavam o grupo na entrada principal. Rykkgnaw optou por uma abordagem direta e violenta.

— Vamos passar por cima! — ordenou o capitão.

Com o suporte tático de Flynn e um disparo de Kassius que enfraqueceu a estrutura, Rykkgnaw lançou o veículo contra o muro de contenção do porto. A parede desmoronou sob o peso do caminhão monstro, permitindo que o grupo invadisse a pista de decolagem em meio a escombros e soldados atônitos.

O Conflito Orbital

Ascensão Meteórica

A comporta de carga da Berenice abriu-se no momento exato da chegada do veículo. Astra e Pip coordenaram a entrada enquanto a nave já iniciava o processo de decolagem sob fogo inimigo. Edric assumiu o manche assim que alcançaram a ponte, forçando os motores para deixar a atmosfera em uma subida vertiginosa de 4.000 metros em poucos segundos.

No espaço, a situação era crítica: uma frota mista de naves do Veskarium e da Lança de Hierofante aguardava a Berenice.

A Estratégia Diplomática

Enquanto a nave realizava manobras evasivas e Flynn reforçava os escudos, Rykkgnaw percebeu uma falha na coordenação inimiga. Ele abriu um canal de comunicação aberto com a nave de comando Vesk.

— Atenção, comando Vesk, interceptamos comunicações da Lança de Hierofante. Eles pretendem trair vocês assim que nossa nave for destruída — blefou o capitão, falando no idioma nativo.

Flynn complementou a manobra transmitindo os códigos de identificação das naves infiltradas da Lança que ele havia detectado nos sensores. O resultado foi imediato: as naves do Veskarium cessaram fogo contra a Berenice e voltaram suas baterias contra os antigos aliados da Lança, iniciando um combate fratricida na órbita do planeta.

Livre da perseguição, a Berenice ativou os motores de deriva. No interior, Hothspoth e Pip removeram raízes biomecânicas remanescentes que ameaçavam o núcleo de dobra, permitindo que a nave saltasse para a segurança do plano neutro.

O Outro Lado da Deriva

O Manifesto do Dr. Allen

Durante a viagem de oito dias pela Deriva, Berenice interceptou registros que o Dr. Allen estava redigindo nos terminais da nave. Tratava-se de um diário pejorativo onde o cientista atribuía apelidos insultuosos à tripulação:

Rykkgnaw: "Diretor de Circo" ou "Agente de Presídio".

Edric: "Chassi de Evelyn".

Kassius: "Torturador de Dialetos" ou "Torturador Estúpido".

Indignado, Kassius dirigiu-se ao laboratório de Allen. Ao ser recebido com o sarcasmo habitual do doutor, o soldado desferiu um soco violento, nocauteando-o instantaneamente. Rykkgnaw, após o incidente, confrontou Allen, ameaçando utilizá-lo como "combustível para o motor de deriva" caso sua atitude não mudasse radicalmente.

Pesquisa e Paranoia

Enquanto o grupo se recuperava nas câmaras de regeneração, Flynn utilizou sua nova lente — apelidada de "Óculos da Irlanda" — para observar a nave. Com o dispositivo calibrado em 77.914 GHz, ele fez uma descoberta perturbadora: os olhos do cérebro fossilizado no compartimento de carga seguiam seus movimentos, indicando atividade elétrica e consciência latente no fragmento do Santo.

Simultaneamente, Berenice contatou Hothspoth em segredo. Alegando sentir uma "oscilação na frequência" do solariano, a IA solicitou que ele inserisse um código criptografado em um dos clones de Evelyn Reed na ala médica. Héctor realizou o upload no Clone 2 na calada da noite, provocando um alerta sistêmico que quase comprometeu o laboratório antes de ele se retirar sem ser detectado.

A crônica encerra-se com a Berenice emergindo da Deriva na órbita de Vesk-4. A atmosfera relampejante e hostil do planeta é o cenário de um novo alerta: a nave foi marcada oficialmente como "procurada" em todo o sistema imperial.

terça-feira, 23 de junho de 2026

(VS)Sessão 36🤖

A Grande Fuga de Porto Furioso

O caos na enfermaria militar

A tripulação da Berenice despertou em um ambiente de esterilidade hostil: uma ala médica militar no quartel-general de Porto Furioso, em Vesk Prime. Edric, Flynn, Kassius (Cássios) e Rykkgnaw encontravam-se imobilizados em macas por arcos metálicos, sem seus equipamentos e sob a vigilância de um guarda Vesk.

Hothspoth (Héctor), movido por um impulso de libertação, iniciou uma resistência física violenta contra as amarras. Ignorando os apelos de Edric para que parasse, o solariano forçou os arcos de sua maca com tal força que os equipamentos entortaram, provocando um curto-circuito nos computadores de monitoramento. A reação do guarda foi imediata, disparando um rifle de choque contra as costas de Hothspoth. Embora o disparo tenha causado danos, o solariano resistiu ao efeito paralisante, pulando por cima das macas dos companheiros em um movimento de "parkour" para tentar libertá-los.

Kassius, aproveitaram a distração, forçou seu próprio arco metálico. Com o auxílio de Hothspoth, o dispositivo cedeu, permitindo que o soldado libertasse o braço direito. No entanto, o guarda ordenou que as enfermeiras, ocultas atrás das estações de trabalho, "apagassem o soldado" através do sistema de sedação da maca. Kassius sentiu um calor súbito no peito e, apesar de tentar resistir, mergulhou novamente na inconsciência.

A manifestação do Receptáculo

Enquanto Hothspoth continuava a atrair o fogo do guarda, Edric sentiu a ressonância do Santo pulsar em seu braço direito. Uma clareza absoluta tomou sua mente: ele compreendeu que não precisava lutar contra as algemas, pois possuía o poder de reescrever a própria condição de sua existência.

Concentrando sua vontade sob uma dor excruciante, Edric realizou uma transposição de realidade. Em um piscar de olhos, o impossível ocorreu: as algemas e os cateteres que prendiam o grupo simplesmente deixaram de existir naquela linha temporal. Para o guarda e as enfermeiras, o grupo nunca estivera de fato preso.

O operativo então focou seu pensamento no arsenal da tripulação. Subitamente, as armaduras pesadas, os rifles e os cristais solarianos — que estavam trancados em armários de vidro do outro lado da sala — retornaram aos seus donos. O grupo levantou-se das macas plenamente equipado para a guerra.

O domínio de Kassius

Hothspoth tocou o ombro de Kassius, despertando-o do coma induzido. O soldado ergueu-se de sua maca como um gigante de aço, empunhando sua bazuca. O guarda Vesk, paralisado pelo terror de ver prisioneiros desarmados transformarem-se em uma unidade de combate de elite em segundos, recuou contra a parede.

Kassius, utilizando sua autoridade física imponente, bradou: — "Ajoelhe-se agora!"

O guarda soltou seu rifle e obedeceu imediatamente, enquanto as enfermeiras fugiam em pânico pela porta principal. Rykkgnaw, ainda enfraquecido, recebeu os primeiros socorros de Héctor, recuperando a estabilidade necessária para a fuga.

A investida pelos corredores

A voz de Berenice ecoou nos comunicadores com urgência. Ela informou que estava sob ataque cibernético massivo e precisaria isolar os canais da nave para proteger sua senciência. Sob a liderança de Hothspoth, que mantinha lampejos de orientação do local, o grupo iniciou uma corrida frenética pelos corredores metálicos do complexo.

Um pelotão de guardas interceptou a fuga em um cruzamento estratégico. Os inimigos abriram fogo com rifles elétricos, mas Flynn e Hothspoth posicionaram-se na vanguarda como barreiras vivas, absorvendo os disparos enquanto o capitão e Edric buscavam flanquear a posição. Edric, sentindo o braço formigar com o eco de realidades moribundas, concentrou sua vontade para "fechar" as passagens atrás do grupo, impedindo que os guardas no pátio interno os alcançassem.

O Caminhão Monstro e a ruptura do perímetro

A tripulação alcançou a garagem do quartel, uma vasta câmara repleta de tanques e veículos de transporte. No momento em que o portão principal se abria para permitir a entrada de reforços, Edric decidiu realizar um último e perigoso ato de criação.

Visualizando um veículo capaz de romper qualquer bloqueio, Edric moldou a matéria à sua volta. O esforço causou-lhe uma hemorragia psíquica severa, mas o resultado foi avassalador: o grupo encontrou-se a bordo de um Caminhão Monstro (Monster Truck) titânico, equipado com um canhão de artilharia pesada e o motor já rugindo em alta rotação.

Rykkgnaw assumiu o volante, enquanto Berenice integrava-se momentaneamente aos comandos para fornecer suporte tático. O veículo acelerou, passando por cima dos carros de patrulha e esmagando as defesas leves da garagem. O caminhão monstro rompeu o portão de saída, ganhando as ruas de Porto Furioso sob o som de sirenes de alerta máximo.

No instante em que ganhavam a avenida principal, Berenice emitiu seu último comunicado antes de entrar em blecaute preventivo: — "Estão tentando me hackear, capitão. Preciso sair do ar".

O rádio silenciou, deixando a tripulação sem mapas e sem apoio em meio ao coração do império Vesk, fugindo em uma máquina de guerra que desafiava as leis da lógica.

Fim da Sessão.

terça-feira, 16 de junho de 2026

(VS) Sessão 35 🤖

O Embate em Porto Furioso

A Rota Desviada

Após a conclusão da tensa transação na agência de câmbio em Porto Furioso, onde a tripulação converteu seus créditos em 127.500 UBPs, o grupo solicitou um transporte autônomo (Vuber) com destino ao hangar da nave Berenice. Durante o trajeto, Kassius e Hothspoth, utilizando suas perícias de Segurança e Sobrevivência, perceberam que o veículo divergiu da autoestrada principal, adentrando uma zona industrial periférica e abandonada.

As tentativas de retomar o controle do sistema do veículo falharam sistematicamente. Edric buscou hackear a interface de navegação, enquanto Rykkgnaw tentava persuadir a inteligência artificial do carro, que respondia apenas com mensagens protocolares de segurança. A tensão escalou quando Kassius, em um impulso pragmático, quebrou o vidro do motorista com um cotovelaço e ameaçou disparar sua bazuca contra o motor para forçar a parada, sendo contido pelo grupo para evitar uma retaliação imediata das patrulhas Vesk que monitoravam a área via drones.

A Emboscada no Armazém

O veículo conduziu a tripulação para o interior de um armazém em ruínas, onde as portas se selaram automaticamente. No local, o grupo foi cercado por cinco soldados Vesk em armaduras pesadas e três torretas laser automatizadas posicionadas em pontos elevados. O líder dos agressores identificou-se como um contratado de Vandis, exigindo a entrega imediata das maletas de UBPs em troca da vida dos aventureiros.

Rykkgnaw tentou uma manobra diplomática, utilizando a presença dos drones de vigilância militar Vesk como um blefe de proteção oficial, mas os mercenários demonstraram não temer as autoridades locais. O conflito tornou-se inevitável quando o grupo se recusou a entregar a carga, dando início a um confronto brutal e desigual.

O Sacrifício e a Queda

O combate foi marcado por uma coordenação defensiva desesperada. Flynn e Kassius assumiram a linha de frente; Kassius utilizou seu Canhão Estelar em modo de "Barragem Brutal", causando danos massivos em área, enquanto Flynn alternava entre manifestações fotônicas e o uso de seu escudo para absorver disparos. Edric, posicionado na retaguarda sob a cobertura do veículo, utilizou seu rifle de precisão para neutralizar dois soldados com disparos críticos, incluindo um tiro incapacitante nos quadris de um dos oponentes.

Hothspoth utilizou seu jetpack para alcançar as passarelas superiores, iniciando um processo técnico de desativação das torretas. Embora tenha sofrido uma descarga elétrica violenta ao manipular os circuitos, conseguiu inutilizar uma das unidades de defesa.

Apesar dos esforços, a superioridade numérica e o fogo constante das torretas remanescentes cobraram seu preço. O capitão Rykkgnaw foi o primeiro a ser abatido, atingido por um disparo laser enquanto tentava flanquear os inimigos. Flynn, exaurido e com o escudo sobrecarregado, caiu logo em seguida. Kassius, após ser alvo de uma sequência de tiros de torreta que superaqueceram sua armadura, também perdeu a consciência. Edric, ferido e isolado sob o carro, foi o último a sucumbir após ser atingido por um disparo que o deixou em estado crítico.

A Intervenção do Veskarium

No momento em que a derrota parecia definitiva, os drones de vigilância militar que acompanhavam o grupo, sob ordens do General Thor (ou Major-Subordinado Radok Thorl), intervieram. Demonstrando a autoridade impiedosa do Veskarium, os drones executaram um protocolo de autodestruição, colidindo diretamente contra as torretas mercenárias para neutralizar a ameaça no armazém.

Hothspoth, o único ainda consciente no telhado, desceu para prestar os primeiros socorros. Ele utilizou um kit médico para estabilizar Edric e organizou a remoção dos companheiros inconscientes. Uma van militar sem identificação chegou ao local, conduzindo o grupo sob custódia para o quartel-general.

Sob Interrogatório e Custódia

No complexo militar, Hothspoth foi levado a uma sala de interrogatório, onde o General Thor exigiu explicações sobre a perseguição da Lança de Hierofante em solo Vesk e, mais criticamente, solicitou acesso irrestrito à nave Berenice. O solariano tentou negociar a integridade da nave, mas Thor foi enfático: ou o acesso seria concedido voluntariamente para uma varredura militar, ou a nave seria arrombada à força. Héctor acabou autorizando a entrada da equipe de solda e inspeção para evitar danos maiores à estrutura da Berenice.

A sessão encerrou-se com os demais membros da tripulação — Rykkgnaw, Edric, Flynn e Kassius — despertando em uma ala médica hospitalar vigiada. Eles encontram-se desarmados, amarrados a macas e conectados a cateteres, enquanto equipes táticas Vesk circulam pelo ambiente branco e estéril.

domingo, 31 de maio de 2026

(LA) Sessão 42

A honra manchada

A defesa

O gabinete do comandante Dariam Ferrembrasa tinha cerca de 12 m², paredes de rocha maciça e pouca decoração. A mesa com dezenas de pergaminhos desorganizados era o foco do local.

A acusação sobre Haftor pesava, mas a reputação que construiu permitiu que lhe fosse concedida uma defesa justa antes de qualquer condenação. O paladino aproveitou a oportunidade para organizar seus argumentos.

— Mestre Dariam, imagino que as acusações sejam do sacerdote de Telas? Ele é um corrupto e a cidade parece estar sendo dominada pela elite dos magos de lá. Eles parecem ter esse clérigo na carteira.

— Calma, calma, Haftor. — interrompeu Ferrembrasa. — Vamos por partes. Primeiro, você nega as acusações? — O comandante virou-se e pegou um punhado de pergaminhos enquanto falava. Leu-os em voz alta: — Assassinato. Usurpação da autoridade judiciária de Telas. Invasão de domicílio da patronesse Syllen’ae. Tem outras aqui que eu ignoro. — disse, jogando os papéis sobre a mesa.

— Bem, vamos por partes, então. A invasão de propriedade foi parte de uma investigação de escravização de anões. Nós encontramos alguns. Inclusive, tem um com a gente. Um anão muito bom, um guerreiro.

— Espere... você não está negando?

— Se invadir uma casa durante uma investigação de tráfico configura invasão da soberania e da propriedade da patronesse, não posso negar que fiz isso. E o assassinato que eles estão alegando foi em legítima defesa.

Ferrembrasa estava consternado. Esperava uma declaração de inocência, mas, em vez disso, Haftor confirmava todos os fatos. Apesar disso, ouvia e tentava compreender a situação.

— E... — continuou o paladino — quanto à usurpação de autoridade em Telas, não havendo um paladino no local, o templo estava vazio porque, afinal, ele convenientemente estava fora. A ordem exige a minha autoridade como lei local. Eu participei de um julgamento de um companheiro daquela elfa sombria que foi, inclusive, condenado.

O paladino continuou com sua explicação, argumentando ferrenhamente em sua defesa, enquanto seu irmão e Dariam Ferrembrasa escutavam.

— Temos dois problemas aqui. Um é o problema da corrupção em Telas. O outro é um problema interno no templo de Crizagom, que eu vou reportar, e ainda vamos fazer uma auditoria lá.

— A relação entre Blur e Telas não é tão lisa quanto imagina, Haftor. — mencionou Dariam. — Nossa ordem de Crizagom no núcleo de Blur é isolada, comparada com a ordem que está em Telas, que é muito mais relacionada com o norte do que temos vontade. Mas quero muito acreditar em você. Eu odeio aquele Thragner, mas as acusações estão aí. Não posso fechar os olhos para todas elas.

— Mestre Dariam... — interrompeu Haldor. — O senhor lembra de Kórgan? Ele desapareceu em uma missão.

— Vocês tinham mencionado, mas está vivo?

— Então, está vivo, está conosco. — revelou Haldor. — Vivo e bem. E ele pode corroborar a nossa versão. Se a nossa palavra não transpassa a verdade, mesmo depois de todos os anos que temos juntos, nós temos uma terceira pessoa que pode ajudar.

— Não leve para o lado pessoal. — justificava-se Ferrembrasa.

— De maneira alguma. Mas, quando dizemos ao senhor que nossas acusações são fruto de intrigas, mentiras e corrupção, se fosse ao contrário, eu acreditaria cegamente.

— Onde está Kórgan?

— Está pela cidade. — respondeu Haftor. — Chegou com a gente.

— Haftor... tentaremos um acordo com Telas por via diplomática e talvez um julgamento à distância, mas, se retornar, será preso e julgado.

— Eles provavelmente vão tentar me eliminar diretamente. Então, se esse for o desejo de Crizagom, eu vou assumir. Mas saiba que é injusto.

— Não seja ingênuo. Não tem nada a ver com o desejo de Crizagom, mas com a vontade de corruptos. Eu compreendo a sua situação. Não acredito em nada do que esse sacerdote meia-tigela diz. Conheço o tipo dele, mas estou preso à burocracia. Não podemos simplesmente remover os cartazes da superfície. Você deve encarar isso como um ordálio do seu julgamento.

O paladino não ficara convencido. Ele acreditava poder resolver sua situação diretamente, apesar dos apelos do comandante.

— Não terão percalços em Blur. São bem-vindos aqui, sua terra natal. Mas saibam que precisarão comprovar sua isenção dos fatos, ou pelo menos justificá-los. Talvez Kórgan possa ajudá-los.

— Não se preocupe. — amenizou Haftor. — Eu não pretendo me esconder. Vou seguir com minha missão, que é muito mais importante do que isso. E, se eu for levado a Telas por qualquer tipo de autoridade, não vou oferecer nenhum tipo de resistência.

— Ah! — lembrou-se Haldor. — Antes que eu me esqueça, Horgrundis é o traidor.

— O senhor lembra de um tal de Durnam, o Expurgado? — questionou Haldor.

Ferrembrasa acenou com a cabeça, lembrando-se do nome.

— Aparentemente, ele está em Blur e agindo com uma rede de tráfico. — completou Haftor.

— Impossível. — argumentou o comandante. — Ele jamais poderá retornar. Perdeu seu nome, sua identidade. Durnam não existe.

— Esse agora atende por Horgrundis. E a última informação que temos dele é a de que estava em Blur.

— Horgrundis... já ouvi falar. Há várias acusações contra ele.

Dariam dirigiu-se à prateleira e retirou um tomo pesado e empoeirado, soprando a poeira e abrindo-o nas anotações sobre Horgrundis.

— Horgrundis foi acusado de contrabando, corrupção, assassinato e traição. Ninguém conseguiu fazer uma descrição clara de como ele é ou quem ele é. Ele não é visto. O nome dele se espalha pelo submundo de algumas cidades e fortalezas, mas nunca conseguimos capturar alguém que tenha negociado diretamente com ele.

— E o nome Horgrundis surgiu com ele?

— Sim. Ele não é filho de ninguém, não é de clã nenhum.

— Se ele é Durnam, como dizem, está claro o porquê. — concluiu Haftor.

— Agora, sabendo que se trata de um anão nativo de Blur, podemos investigar melhor. Talvez sua família saiba de algo. Eu conheci pessoalmente o pai dele no momento do expurgo. Ele passou a negar a existência de um filho. Não parece ser alguém que corroboraria esse tipo de atitude, mas vamos investigar de perto.

Devolvendo o livro à prateleira, Dariam voltou a falar sobre o julgamento de Haftor. O comandante pedia encarecidamente que o paladino não fosse aprisionado em Telas, pois isso dificultaria a defesa por parte de Blur.

— Por favor, apenas não volte a Telas. — implorou Ferrembrasa.

— Não posso prometer. — respondeu Haftor, cético.

— Por favor, Haldor, ponha juízo na cabeça de seu irmão!

— Eu tento, mas às vezes eu tenho menos do que ele.

Por fim, Haftor lembrou Dariam sobre a carga interceptada. Ao ouvir sobre a quantidade e o conteúdo, equipou-se, vestiu sua capa e acompanhou a dupla pessoalmente para constatar as provas do contrabando.

Réctor, Guia, Kórgan, Demétrius e Olgaria aguardavam perto de onde as nuvens voadoras haviam pousado com as carroças.

Ao ver o comandante, Kórgan se aproximou e cruzou braços com Ferrembrasa.

— Mestre Ferrembrasa!

— Que alegria vê-lo realmente vivo, como haviam mencionado. Preciso que explique o que aconteceu com você em detalhes.

— Eu queria saber por que um herói está com sua cabeça a prêmio. — intrometeu-se Réctor, indignado.

— Tenho certeza de que sabe exatamente tudo o que se passou com Haftor nas últimas semanas e que também sabe qual é o ambiente em Telas. — respondeu Dariam, com formalidade. — Nossa relação com aquela cidade é tensa. Diplomática, mas tensa.

As palavras de Ferrembrasa não tiravam o ceticismo de Réctor.

— Sim, eles se desviaram do caminho de Crizagom há muito tempo. — completou o napol.

— Os magos fazem o que precisa ser feito para alcançar seus objetivos, ignorando as leis divinas. Isso às vezes nos coloca em situações difíceis, como eu tenho certeza de que Haftor foi colocado.

Ferrembrasa olhava para todos, certificando-se de que o grupo o ouvia e percebia suas intenções antes de continuar.

— Mesmo não concordando totalmente com as ações que Haftor tomou, tenho certeza de que foram as únicas que ele poderia ter tomado na situação que lhe foi imposta.

— Certeza. — ironizou Réctor.

— Senhor. — Kórgan pediu a palavra. — Eu fui sequestrado por elfos sombrios graças a uma informação de Horgrundis, um traidor que se chamava Durnam.

— Haldor mencionou. Isso esclarece muitos documentos que tenho arquivados.

— Fui levado a um calabouço no subterrâneo de Telas e marcado. — O anão colocou a mão na nuca com uma expressão de pesar e sofrimento, lembrando-se da marca removida pela graça de Crizagom trazida por Haftor. — Graças a Blator e Crizagom, essas pessoas chegaram e me tiraram de lá.

— Eu não entendo muito desse negócio aí de leis, não. — comentou Garuk, impaciente com as formalidades. — A cidade estava toda corrompida. A gente foi lá e meteu a porrada em todo mundo para que isso não se repetisse, porque quem tava lá tava fingindo que não tava vendo o que tava acontecendo. Vocês ficam aí falando bonito e ninguém entende porra nenhuma.

— Quer defesa melhor do que essa? — argumentou Réctor. — Eu acho um ultraje ver estas imagens. — dizia o napol, mostrando um cartaz de procurado com o retrato do paladino. — Mesmo que Telas possa criar algum problema, não colocariam um herói para ser caçado. E, se precisarem de ajuda lá, procurem o colégio necromante. Eles podem ajudar e dizer exatamente o que aconteceu.

— Eu acho que aqui não é o lugar certo para conversarmos sobre isso. — lembrou Haftor.

— Quero começar com você. — Dariam apontou para Kórgan. — Me acompanhe ao meu gabinete. Preciso do seu testemunho o quanto antes.

— E o senhor viu aqui nossa carguinha? — brincou Réctor, aproximando-se das carroças e revelando parte dos lingotes de Corvear.

Ao ver o minério lapidado, Dariam levou ambas as mãos à cabeça, perplexo. Aproximou-se e pegou um lingote.

— Por Blator! Quanto tem aqui? Uma carga desse tamanho não pode ter saído de Blur sem que ninguém tenha percebido.

— Várias cargas dessas já foram levadas. Essa aqui era só a última.

Dariam respirou fundo, visivelmente tenso e sério com a dimensão do problema interno na fortaleza.

— Olha só, o senhor falou aí que tem uns papéis com um monte de denúncia. Era melhor vocês começarem a parar de olhar papel e começar a olhar em volta, hein. — sugeriu o Guia.

O grupo explicou sobre a rota de saída de Corvear a partir de Vir-Máliz, mostrando ao comandante o mapa que encontraram com Kovor e seu bando.

— Vou enviar as cartas necessárias. Precisamos reforçar a segurança em Vir-Máliz e descobrir quem são essas pessoas que estão traindo o coração de Blur.

O peso das reputações

Dariam conduziu os oito aventureiros pelo interior da imensa fortaleza, levando-os a uma sala grande e sem janelas, iluminada apenas por candelabros e com um forte cheiro de ar fechado. No centro, havia uma mesa espaçosa para doze pessoas.

O grupo se acomodou enquanto Ferrembrasa foi providenciar pergaminhos para anotações e bebidas para todos.

Enquanto aguardavam, o grupo teve uma conversa com Demétrius, que ainda temia por seu destino nas mãos dos juízes de Blur. Réctor tentou acalmá-lo, dizendo que ele já fizera muito por sua redenção e que, talvez, fosse perdoado por seus crimes. O falsário permaneceu tenso, mas colaborativo.

— Sobre esse Horgrundis... alguns dos documentos dele chegavam até Trisque. Talvez, nas minhas coisas, ainda tenha alguma assinatura dele. Pode ser que bata com a desse tal Durnam aí.

— Isso aí, Magrelo, assim que se faz! — elogiou o Guia.

Minutos depois, Dariam retornou com um barril de cerveja sobre os ombros e encheu os canecos de todos.

— Não podemos conversar de boca seca.

Dariam passou um longo tempo redigindo meticulosamente o testemunho de Kórgan. Ao finalizar e assinar os papéis, voltou sua atenção para o restante do grupo, pronto para entender as ramificações mais profundas daquele carregamento místico.

O grupo, especialmente nas palavras de Réctor, explicou que os elfos sombrios buscavam uma forma de canalizar a energia da Aurora Gelada para si como forma de dominar o karma infernal.

— Seu povo já lapidava as pedras da Aurora Gelada, não é? — questionou o feiticeiro.

— O Corvear é uma rocha típica de Blur que não deve ser exposta ao exterior, pois foi com ela que construímos as ferramentas mais poderosas, responsáveis pelo grande cisma há muito tempo. Eu vou comunicar o quartel-central sobre o contrabando. Com certeza, darão a atenção que isso merece.

O grupo falou sobre Elga, a intermediária que negociou com Kovor em Vir-Máliz, mas Ferrembrasa não a relacionou com ninguém. O mapa com o trajeto percorrido pelo contrabandista foi cedido ao comandante, uma vez que o Guia já decorara o percurso.

— Obrigado.

— Inclusive... — interrompeu Haftor. — Tenho um pedido a fazer. Sei que a situação já está bem complicada e é um certo abuso, mas gostaria de levar esse grupo para dentro de Blur. Temos muito o que descobrir, tanto no templo de Crizagom quanto mais perto do Forja. Podemos ajudar a descobrir o paradeiro de Horgrundis.

Dariam ficou perplexo. Era nítido em seu rosto. O Guia quebrou os instantes de silêncio que se seguiram enquanto o comandante processava o pedido inusitado, mencionando o Testamento da Ordem e uma figura importante encontrada junto ao laboratório de Veridion Scriptôr, na Torre Branca do Sul.

— O senhor já ouviu falar de uma tal Irina?

— Não me recordo.

— Ela vivia na torre a leste daqui, perto da costa.

— Os anões que viajam à superfície às vezes não têm relações com Blur. Então, não, eu não a conheci. Mas já ouvi falar do Testamento da Ordem, embora ele não tenha relação com as nossas cidades.

— Eles já tinham muito Corvear.

— Pelo que já ouvi, o Testamento da Ordem é uma lenda muito antiga, talvez anterior ao cisma. Então, é possível que eles tenham manuseado o Corvear com autorização.

— E quem dá essa autorização hoje? — insistiu o Guia.

— Ninguém. É proibido. No passado era um minério muito valioso e que os ferreiros tinham liberdade para trocar. Porém, poucos conseguiam tirá-lo daqui em razão dos preços praticados. Mesmo assim, não era proibido.

— Por que o Corvear foi proibido? — indagou Haldor, que não conhecia a história por trás do metal anão.

— O cisma foi um conflito entre clãs anões ocorrido há muito tempo. Um desses clãs adorava uma entidade externa ao panteão. E eles faziam uso do Corvear para dominar os poderes dela. Eles foram expulsos e, com eles, toda a possibilidade de exportar Corvear.

— É, mas podem ter deixado alguma coisa escrita, né? Se há algum registro, está na biblioteca da capital. — supunha o napol. — Em Caridrândia tem uma biblioteca maior do que a de vocês aqui. Provavelmente eles sabem disso.

A sugestão de que os elfos possuíam uma biblioteca melhor do que a dos anões irritou Dariam. Seu olhar mudou instantaneamente.

— O conhecimento dos elfos é superficial e egocêntrico. Eles não estão preocupados com as tradições anãs. Não estão preocupados nem com as próprias tradições, pois as abandonaram há muito tempo, quando se corromperam.

— É, mas para pegar Corvear sem vocês saberem eles são bons. Duas toneladas de coração nobre. — provocou Réctor.

— Nem o coração mais nobre está imune à corrupção. Você deve saber disso. Duas toneladas são irrelevantes perto da montanha que existe no interior de Blur, entre o Forja e o Krokanon.

— É, mas, pelo que eu sei, devem ter sido cinco ou dez cargas de duas toneladas.

Dariam bateu com a mão na mesa, perdendo a paciência.

O grupo amenizou a situação, alegando que estava ali para ajudar e que o comandante deveria guardar seu rancor para aqueles que o estavam traindo. Então, explicaram que não tinham intenção de insultar, apenas pedir passagem para resolver a situação.

— Eu não sou a pessoa a quem devem pedir entrada em Blur. Mas saiba, Haftor, que, por cento e cinquenta anos, não houve um não anão que tenha pisado no interior das fortalezas. O interior de Blur é cobiçado por muitas pessoas: mercenários, comerciantes... ninguém foi aceito. A terra dos anões é para os anões.

— Mas o que está em jogo é muito grande, senhor. De qualquer forma, agradeço demais a sua compreensão. Vamos fazer o possível para ficar fora do seu caminho.

— Acho que já anotei tudo que precisava ser registrado. Haldor, fale com Gruntor se quiser uma autorização especial, mas eu não seria muito otimista.

O julgamento informal

Após a tensa reunião com Dariam Ferrembrasa, o grupo percebeu que precisaria de uma nova abordagem para entrar na montanha. Decidiram, então, afastar-se do centro burocrático e buscar um lugar para descansar e traçar planos.

Os aventureiros adentraram uma grande taverna construída inteiramente em pedra. O interior estava aconchegante e significativamente mais quente devido às duas lareiras acesas, uma de cada lado do salão. O ambiente era animado, preenchido por cerca de quarenta pessoas, quase todos anões, e pela música de um bardo tocando gaita de fole.

Uma anã taverneira aproximou-se para guiá-los até uma mesa. Garuk, devido ao seu imenso tamanho e anatomia, encontrou dificuldades com o mobiliário local, sendo obrigado a sentar-se no chão.

Depois de serem abastecidos com canecos de cerveja, o grupo pediu um porco para comer. No entanto, “Carne de Bandido” era uma das opções propostas no cardápio pela taverneira. O nome gerou brincadeiras e provocações dirigidas a Demétrius.

A menção ao julgamento fez o grupo retomar o assunto sobre o destino do Atravessador. Como ele já havia ajudado consideravelmente desde a captura, alguns achavam que tinha pago sua dívida com a justiça.

— E, por falar nisso, Haftor, você vai mesmo denunciar Demétrius? — perguntou Olgaria. — Eu acho que ele já pagou a dívida dele, né?

— A lei é clara e ele tem que passar pelo julgamento, mas tenho certeza de que posso dar uma boa palavra para ele se sair bem.

— E se você não conseguir entrar com ele lá no túnel?

Percebendo que talvez houvesse dificuldades para conduzir um bandido para o interior da fortaleza, Réctor surgiu com uma sugestão:

— Mas, olha só, você falou que, quando não tem quem exerça a lei, você pode exercer. Bem, então, se ele não pode entrar e você é a lei, julga ele aí!

— É, Haftor! Resolvemos isso agora! — interessou-se Demétrius.

— Eu acho que o Demétrius já cumpriu a parte dele. — opinou Olgaria.

— É, mas sua opinião não vale aqui. — cortou Réctor.

Haftor decidiu assumir a responsabilidade e iniciar o rito ali mesmo, na mesa da taverna.

Haftor assumiu um tom mais sério e sacerdotal para proferir sua avaliação sobre os atos de Demétrius, enquanto o grupo argumentava que andar com eles já era punição suficiente.

— Você realmente tem mostrado que se redimiu, mas ainda precisa pagar por seus crimes. Você acha que, sem a gente por perto, estaria melhor?

— Eu estaria em Trisque, assinando documentos falsos para Táviga. Não, não estaria melhor.

Réctor intrometeu-se, dizendo que poderia conduzir Demétrius até as terras dos bárbaros e, de lá, ele poderia partir para os reinos do norte, onde haveria “um monte de gente para ele enganar que ainda não o conhecia”.

— Não, ele não vai mais enganar ninguém, não é mesmo? — pressionou Haftor.

— Eu sou outro homem. Por Crizagom, eu juro.

— Cuidado com esse tipo de juramento, hein. — duvidou Réctor. — Vamos fazer o seguinte...

Antes que Réctor pudesse concluir seu pensamento ou Haftor proferisse o veredito final que libertaria oficialmente Demétrius, o julgamento informal foi abruptamente interrompido.

A porta da taverna se abriu, revelando oito homens armados. O líder, um humano de cabelos e barbas grisalhas curtas, vestindo uma tabarda azul, fixou o olhar diretamente em Haftor e deu ordens em voz baixa aos seus homens, espalhando tensão pelo salão anão e dando início a um novo e perigoso conflito.

O duelo de Garuk

— Droga, estava quase livre. — resmungou Demétrius.

O homem aproximou-se da mesa com postura ameaçadora e identificou-se, dirigindo-se a Haftor.

— Eu sou Jorgan, mercenário de Telas, e fui ordenado a levá-lo diretamente para julgamento na cidade.

— Não será necessário, meu nobre. — disse Haftor. — Saiba que a validade dessa procura está sendo questionada. Seria bom aguardar que essa questão se resolvesse antes de querer sua recompensa.

— Fala que você não vai. — instigava Réctor. — Vamos, arranje encrenca.

— Seus companheiros não têm nada a ver com isso. — explicou o mercenário.

— Têm a ver. — pontuou Réctor. — Se você encostar nele, a gente vai arrebentar vocês na porrada.

Haldor sacou seu machado e o apoiou ao lado do corpo, deixando claro que não recuaria. Imediatamente, dezenas de anões da taverna se levantaram e sacaram seus próprios machados, em solidariedade aos compatriotas e em repúdio à insolência do humano de Telas.

Jorgan deu um passo atrás, hesitante.

— Disseram-me que você era um sacerdote honrado, que viria responder por seus crimes.

— Não tem crime, cara. — disse Réctor. — Só tem corrupto naquela cidade.

Intimidado pela demonstração de força coletiva e recuando em suas intenções primárias, Jorgan gesticulou para que seus homens recuassem. Garuk percebeu a hesitação e começou a imitar uma galinha, fazendo barulhos de “pocó” para zombar do líder. A taverna inteira aderiu à humilhação.

— É covarde! — diziam os anões, em coro. — Você não pode entrar numa taverna, fazer uma acusação dessas e sair com o rabinho entre as pernas!

— Que tal um duelo? — desafiou Garuk.

Jorgan virou-se para o sekbete com a mão no punho da espada.

— Valendo a custódia do prisioneiro Haftor.

— E valendo a tua honra, cara. — provocou Réctor. — Você que está aí, recuando.

— Amanhã, ao pôr do sol, do lado de fora.

Garuk não se contentou. Nem Réctor. Eles provocaram o humano, que acabou cedendo a um duelo imediato.

Pressionados, Jorgan e seus homens seguiram para fora da fortaleza, até um campo nevado. Os anões formaram um grande círculo na neve para assistir ao espetáculo. Garuk, demonstrando total desprezo pelo nível de perigo do oponente, fincou seu machado no chão e decidiu lutar apenas com as próprias garras. Jorgan sacou uma espada manchada de sangue.

— Eu vou te arrebentar na mão!

O combate teve início. Jorgan investiu com sua espada larga, mas Garuk esquivou-se habilmente, abaixando-se rente à neve, e contra-atacou repetidamente com suas garras, forçando o mercenário a recuar, pular e gastar muita energia. Jorgan logo começou a suar frio diante da bestialidade de Garuk.

Após mais uma investida falha de Jorgan, cuja lâmina esbarrou inofensivamente na armadura de ossos do combatente bestial, Garuk bateu no próprio peito, atiçando a torcida.

— E isso é um mercenário que se preze para capturar alguém?

O desfecho foi brutal e rápido. Garuk desferiu um golpe com a mão esquerda no ombro e no pescoço de Jorgan, derrubando-o de bruços na neve. No exato instante em que o mercenário apoiou os joelhos no chão e levantou o rosto ensanguentado para tentar se erguer, Garuk desferiu uma garrada de baixo para cima. A unha cravou abaixo do queixo de Jorgan, atravessando a base da boca e arremessando-o no ar. O humano caiu completamente apagado e estirado no chão, com a espada distante do corpo. O sangue manchou a neve e os anões vibraram.

Réctor, sem perder o humor, virou-se para o segundo no comando dos mercenários, que estava prestes a assumir a liderança da tropa diante da morte iminente de Jorgan.

— Parabéns, Galvir!

— O que está acontecendo aqui? — indagou um guarda da fortaleza, aproximando-se.

— Um assassinato! — exclamou outro.

Antes que a situação se tornasse um problema legal, Haftor avançou até o corpo mutilado de Jorgan. Colocando as mãos sobre o mercenário caído, invocou milagres divinos para fechar o terrível ferimento no queixo e despertar o homem, poupando sua vida.

— Está vivo e desperto. — anunciou o paladino.

— Tá tudo certo. — informaram os guardas. — Briga de taverna.

Jorgan despertou atordoado, segurando o próprio queixo, com a língua ainda machucada e presa, e olhou para o sacerdote que fora enviado para caçar e que agora o curava.

— Obrigado, Haftor. Não vou mais persegui-lo.

— É bom saber disso.

— Luta bem. — disse o homem, voltando-se para Garuk.

— Eu queria que você lutasse melhor, mas obrigado. — desdenhou Garuk.

Para selar o humilhante fim do contrato do mercenário, Haftor lhe deu uma última penitência antes de liberá-lo junto de seus homens perplexos.

— Sua ressurreição não pode ser gratuita. Não esqueça de passar em um templo no caminho e fazer uma doação... Não deixa no de Telas também não, tá?

Os mercenários de Telas recolheram suas coisas e partiram derrotados. Sob os olhares de admiração dos anões, que cumprimentavam Garuk com respeito, os aventureiros retornaram para a taverna para terminar a refeição prometida.

A estratégia para entrar em Blur

— Muito obrigado, meus amigos. Eu vou ficar com vocês. — declarou Demétrius, após o julgamento informal realizado por Haftor, que o absolveu.

Enquanto comiam, os aventureiros começaram a debater seus próximos passos em relação aos elfos sombrios e ao misterioso contrabando. Eles sabiam que precisavam atrair os inimigos para fora, mas também concordavam que, antes de qualquer confronto direto ou emboscada, era fundamental garantir o acesso oficial às galerias internas de Blur. Evitando os tortuosos caminhos da burocracia, Haldor decidiu que a melhor tática seria uma abordagem direta e pessoal com o líder militar.

Como o nome de Haftor ainda estava manchado pelas acusações vindas de Telas, Haldor optou por levar consigo o recém-resgatado Kórgan.

Haldor e Kórgan caminharam até o imenso paredão na montanha e adentraram por uma porta guarnecida. Os anões presentes abriram caminho em sinal de respeito. No trajeto, foram abordados por um guarda anão conhecido de Haldor, que ficou surpreso ao ver Kórgan vivo.

— Olá, Kórgan. Achei que estava morto! É um prazer vê-los bem. Vieram falar com quem? — questionou um dos guardas.

— O prazer é nosso, meu querido. Viemos ver o mestre Gruntor. — anunciou Haldor.

— Venham comigo. Eu os levo até ele.

— Como estão as coisas?

— Você ouviu falar do resfriamento do Krokanon? Algumas alas de Blur estão preocupadas, achando que podem congelar. Os artífices também dizem que não vão conseguir trabalhar e que as tradições vão se perder.

— Daremos um jeito, nem que tenhamos que pedir ajuda aos magos para aquecer nossas forjas.

— Não diga isso para Gruntor ou vai conquistar a antipatia dele pela eternidade. — alertou o guarda, que já terminava o trajeto até a grande porta de madeira que separava o corredor de pedra da sala do líder militar.

— Como está, meu amigo? — indagou Gruntor, aproximando-se para cumprimentar Haldor com um abraço.

— Estou bem.

— Está bem mesmo? Ouvi notícias trágicas sobre seu irmão.

— Tudo mentira.

— Eu não duvido. Aquele sacerdote de Telas é um tremendo vigarista.

— Na verdade, venho, além de cumprimentar meu nobre amigo, que não vejo há tempos, para trazer de volta nosso amigo Kórgan, que estava prisioneiro.

— É uma honra ver um guarda veterano sobrevivente de tantas batalhas. — elogiou Gruntor, referindo-se a Kórgan. — Cada um de nossos homens armados é uma peça importante.

— Temos traidores. — alertou Haldor.

— Pelo visto, sua estadia na superfície não o amoleceu nem um pouco, meu amigo.

— Pelo contrário! Vi coisas horríveis e vi que nossa tradição e filosofia devem ser cada vez mais preservadas.

Preparado o terreno diplomático, Haldor expôs o verdadeiro motivo da visita. Revelou que sua comitiva investigava os infiltrados em Blur e ousou ligar o contrabando à anomalia do vulcão.

— Eu falei com Ferrembrasa, e ele me orientou a falar pessoalmente com você para que autorizasse eu e minha comitiva, sob minha total responsabilidade, a atravessar nossos domínios.

Apesar do olhar desconfiado, Gruntor pareceu considerar o pedido.

— Hum... entendo. E são você e mais quantos?

— Somos oito.

Ao mencionar cada um dos companheiros, Gruntor invocou as tradições.

— Nossa tradição não permite que não anões entrem em Blur. Por que abriríamos uma exceção agora?

— O Krokanon está definhando, reduzindo sua potência, e nós temos uma chance de recuperar seu vigor. Horgrundis está contrabandeando Corvear debaixo dos nossos narizes.

— Nós não estamos conseguindo resolver isso.

— E este pode ser o motivo que está enfraquecendo o nosso vulcão. Eu tenho certeza de que, se resolvermos esse problema, você será lembrado como o grande líder que autorizou esse feito.

— Mesmo assim... — ponderou o líder de Tar-Néldor. — Parece-me algo muito delicado autorizar o acesso de cinco não anões às galerias de Blur. Você compreende a responsabilidade.

— Com certeza. — compadeceu-se Haldor. — E eu me responsabilizo por cada um deles e dou o meu pescoço a prêmio.

— Sua honra e sua reputação como fiadores deste acordo não são pouca coisa. — considerou Gruntor. — Mesmo seu irmão, que teve a honra manchada pelos últimos episódios, ainda mantém reputação entre os nossos, graças a tudo que cultivaram no passado.

— Mas em breve meu irmão terá o nome limpo. São apenas boatos maldosos de pessoas corruptas.

— Bem... vou precisar pensar uma noite. — anunciou. — Traga-me os nomes e o histórico de cada um dos não anões que o acompanharão. Eu decidirei pela manhã.

Com a promessa de Gruntor, Haldor despediu-se do mestre anão e retornou rapidamente à taverna onde o resto do grupo aguardava. Explicou as dificuldades da reunião e as exigências impostas para a liberação.

Os membros do grupo tentaram entender exatamente o que deveria constar naquele documento oficial e quais eram os limites da tolerância de Gruntor.

— Eu dei a minha palavra a ele de que não vamos fazer nada de errado e nem divulgar nenhum dos segredos que veremos lá embaixo. — explicou Haldor.

Sabendo da exigência de um relatório minucioso e formal sobre os feitos heroicos de aventureiros tão exóticos, o grupo recorreu imediatamente ao talento providencial do membro recém-absolvido. Com isso, Haftor encarregou-se de redigir o pergaminho em pedra, enquanto Demétrius o ditava minuciosamente, garantindo as palavras certas para que todos os feitos realizados por cada membro fossem traduzidos em características aceitáveis para seu acesso ao reino anão.

A mensagem foi entregue na fortaleza com o raiar do sol. Depois, por volta das onze horas, enquanto uma leve neve caía sobre a cidade de Tar-Néldor, um mensageiro da fortaleza chegou à estalagem procurando pelo responsável pelo pedido. O pergaminho dizia:

“Sob a responsabilidade do guarda Haldor, estão autorizados a entrar em Blur os sekbetes Garuk e Goragar, o napol Réctor e os humanos Olgaria e Demétrius. Nenhum deles poderá permanecer desacompanhado de Haldor enquanto se encontrar nas galerias. Se capturados, serão exilados eternamente. Esta autorização tem validade de quinze dias.”

O grupo comemorou. No entanto, ainda tinham tarefas a cumprir antes de entrar. Os quinze dias passavam a contar imediatamente.

A estatueta de Rodérico

Antes de começarem sua jornada de volta ao sul, Réctor verificou a integridade de sua casa dos sonhos. Como utilizava a tiara de Andote, o napol esperava observar alguma alteração nos filamentos dourados. O que viu, no entanto, foi um congelamento total do progresso da Aurora Gelada em sua mente. Nenhuma mudança foi observada: nenhum fio aumentou e nenhum diminuiu enquanto permaneceu com o adorno. Apesar disso, o feiticeiro sentia algo diferente. Algo inexplicável que parecia tornar o ambiente de sua casa distinto do que era em seu acesso anterior.

Sem conseguir deduzir do que se tratava, Réctor voltou-se para o planejamento de como atrair os elfos sombrios para uma armadilha junto de seus companheiros.

O plano consistia em montar uma armadilha na estrada e sobrevoar a área com a nuvem voadora. Quando os elfos sombrios encontrassem a isca, a estatueta de Andote, o grupo os abordaria de surpresa.

Definida a estratégia, retornaram para o Solar das Sombras Longas para falar com Andote e pegar a estatueta.

— Acho que essa é a peça ideal para vocês levarem. — disse Andote, carregando uma estatueta com a inscrição: “Talvez forma e memória sejam a mesma coisa”. — Levem esta.

Com o objeto em mãos, Réctor relatou à artesã a eficácia da tiara de Corvear.

— A tiara inibe a influência da Aurora.

— Interessante... Eu tenho sentido algumas coisas esquisitas. Vou usá-la. Talvez meu pai estivesse certo.

Antes de partir, Réctor explicou que, caso precisasse conversar com Andote, a convocaria em sonhos.

A maga do grupo de Kovor fora a única prisioneira ainda não entregue à justiça. Sombra a ressuscitou, pois o grupo precisava obter algumas informações.

— Eu negociei com anões em Vir-Máliz. — disse a maga.

— Você sabe o nome desses anões ou a aparência deles?

— Os que eu conversei, sim.

— Então entregue-os.

— Nenhum deles era Horgrundis. Eram dois subordinados dele.

Réctor demonstrou desprezo pela situação da maga, uma estudiosa que se vendera para uma função mercenária. A mulher, indignada, rejeitou a pena que o napol sentia.

Réctor, então, pôs-se a fazer um retrato falado dos anões que a maga descreveu. Com a arte em mãos, o grupo tinha mais uma ferramenta para encontrar os traidores.

Estavam prontos para colocar o plano de emboscada em ação.

Tar-Néldor, dias 28 e 29 do mês da Sabedoria do ano de 1502