Sessão 39 - A filha de Rodérico
Caça ou caçadores?
Garuk estava de braços erguidos, sustentando o tronco que obstruía a estrada, quando foi alvejado por uma flecha. O projétil, porém, apenas raspou nos ossos de sua armadura.
Uma névoa densa começou a se erguer ao redor do grupo enquanto Réctor, responsável pelo feitiço, alçava voo para enxergar melhor os emboscadores.
— O que vocês querem? — perguntou o napol, sacando uma flecha do alforje.
— Deixem suas coisas e partam! — gritou uma figura oculta atrás de uma rocha, do outro lado do campo de batalha.
— Você sabe que isso não é possível — retrucou Réctor.
— Então matem todos!
— Vocês terão uma última chance de desistir e se render — recomendou Haftor, defendendo-se da espada de um inimigo com o escudo.
Réctor concentrou seus ataques à distância na líder inimiga. Haldor, Haftor, Garuk e Olgaria continham os assaltantes, que pareciam focados na carroça guiada por Demétrius. O Guia orientava o cocheiro para mantê-lo longe do confronto.
— Demétrius, leve os cavalos para longe. O mestre quer matá-los — ordenou o rastreador, enquanto disparava flechas contra os bandidos.
O feiticeiro lançou chamas contra a líder inimiga. A magia incendiou a grama ao redor dela, mas não a feriu. Sombra acompanhou seu mestre e concentrou os ataques na meio-orca.
Olgaria avançou de forma sobrenatural para trás de um dos bandidos que ameaçava o desprevenido Garuk. Com um golpe preciso de machado, a zumi matou o inimigo imediatamente.
— Está bem, Garuk?
— Melhor agora — respondeu o sekbete, recompondo-se antes de usar sua força bruta para lançar o enorme tronco contra dois adversários. Ambos conseguiram se esquivar, mas a demonstração de força os deixou visivelmente abalados.
Percebendo que os viajantes não eram vítimas indefesas, a líder inimiga mudou de estratégia:
— Não deixem eles escaparem! Peguem o que puderem e saiam!
Porém, o grupo queria respostas. Agora, eram eles os caçadores.
O avanço dos aventureiros sobre os inimigos foi implacável. Mesmo após o brado aterrorizante de Garuk ecoar pelo campo e lançar medo nos corações dos assaltantes, o grupo não recuou. Eles perseguiram os sobreviventes que conseguiram encontrar, e Olgaria acabou rendendo a líder meio-orca, que revelou chamar-se Vôlga.
Enquanto parte do grupo caçava os fugitivos pela mata, o Guia encontrou materiais inflamáveis montados na copa de uma árvore, preparados para incendiar a estrada com uma única flecha. O plano dos bandidos tornou-se evidente: encurralar as vítimas entre o tronco caído e uma parede de fogo.
O rastreador recolheu tudo o que poderia reaproveitar e reuniu-se aos demais, que conduziam Vôlga até uma cabana nos arredores.
Ao abrirem a porta do simples chalé de madeira, um som abafado vindo do canto do cômodo chamou a atenção de Haftor e Olgaria, que carregavam a prisioneira. Sob um tapete de pele de urso, encontraram um homem completamente amarrado e amordaçado. Vestindo uma cota de malha e aparentando ser um guerreiro ferido, ele foi rapidamente libertado.
— Quem é você? — perguntou Olgaria.
— Eu sou Alvor, guarda do Solar.
— Foram eles que prenderam você aí? — indagou Haftor.
— Sim. Ela é Vôlga, uma bandida da região que causa problemas há bastante tempo.
— É, mas parece que ela veio atrás da gente. Então vamos descobrir quem a enviou.
A meio-orca permaneceu caída no chão, fingindo-se de morta, mesmo depois de Haftor utilizar milagres para regenerar seus ferimentos mais graves. Olgaria, percebendo a encenação, sentou-se à mesa rústica e encarou a prisioneira com desdém.
— Mexe na ferida dela que você vai ver se ela tá viva ou não — sugeriu o paladino.
— Huunf — resmungou Vôlga, desistindo da atuação.
Nesse momento, a porta da cabana se escancarou violentamente. Garuk surgiu da floresta em velocidade sobrenatural, carregando um prisioneiro abatido. Com um movimento brusco, lançou o homem ao chão, perto de Vôlga.
— Hora de falar o que a gente quer saber — disse o sekbete.
Enquanto a meio-orca reorganizava os pensamentos e preparava-se para falar, Olgaria investigava os pertences dos assaltantes.
— Ei… essa adaga aqui não é de elfos sombrios? — perguntou a zumi, encontrando uma arma com inscrições élficas.
— Onde você conseguiu isso? — perguntou Haftor.
— Eu comprei.
— Comprou onde? Sombrios não costumam vender essas coisas.
— Trocamos por objetos que pegamos de alguns comerciantes.
Volga calou-se imediatamente, recusando-se a dar mais detalhes sobre o contato com os elfos. O Guia entrou na cabana trazendo os cavalos e a carroça para perto da entrada, juntando-se ao restante do grupo. Hector também entrou. Garuk aproximou-se da prisioneira com uma postura ameaçadora.
— E onde estão os comerciantes?
— Demos um sepultamento digno para os que morreram. Os outros fugiram.
— E quando foi isso? — atravessou-se o Guia.
— Há uma semana.
O Guia perguntou a Alvor si os fugitivos haviam retornado ao Solar. O guarda confirmou que sim, mas explicou que estava nos arredores procurando os pertences dos mortos, já que os objetos haviam sido adquiridos no Solar das Sombras Longas.
— Ah, entendi. Onde vocês encontraram esses sombrios aí, ô dona orca?
— A oeste daqui, perto das montanhas. Uns dois dias de jornada. Depois de atacar os guardas, nos escondemos numa montanha mais adiante — explicou a prisioneira, gesticulando para oeste — e os sombrios apareceram do nada, dizendo que queriam os objetos e ofereceriam várias coisas em troca.
— E como eles acharam vocês?
— Sei lá. Magia. Dizem que são bruxos talentosos. Não perguntei. Fiquei com medo.
— Que objetos eles queriam trocar? — perguntou Réctor.
— Umas estátuas horrorosas de umas pessoas sem forma.
— Como ousa falar assim das obras de arte do mestre Rodérico?! — indignou-se Alvor.
Réctor e Haftor trocaram olhares significativos ao ouvirem a menção às estátuas disformes do escultor. O feiticeiro suspeitou que os sombrios poderiam estar utilizando as bússolas de rastreamento dos prismas da Aurora para localizar as esculturas.
O grupo continuou buscando provas de que os bandidos realmente os aguardavam na estrada. Haftor removeu o tapete de pele de urso e encontrou, escondido sob o assoalho, um mapa detalhado em pergaminho.
O Guia analisou o documento. Tratava-se de um mapa conceitual representando o vilarejo que haviam cruzado, o Solar e o ponto da Floresta de Obriana onde estavam, marcado com um X. Nas margens, uma caligrafia fina e estranha trazia pequenas anotações:
— “Observar Andote”… “quem entra?”… “pedras que cantam”… “o escultor”.
— E de quem é essa cabana aqui, ô dona? — perguntou o Guia, apontando para a marcação do Solar das Sombras Longas.
— É da mulher que se acha artista.
— Quem é essa aí?
— Mestra Andote — interrompeu Alvor. — Uma artista talentosa. Herdeira do senhor Rodérico.
— E isso aqui? — a garra afiada do Guia apontava para as anotações sem rasgar o pergaminho delicado. — São instruções? Quero saber o que significa isso aqui.
— É para observar a mansão. Os elfos me entregaram isso. Disseram para eu prestar atenção no Solar e tentar conseguir mais estátuas de Rodérico.
— O que são essas “pedras que cantam”? São as estátuas? — perguntou Haftor.
— Isso eu não sei. Não entendo dessas coisas.
— Entende, sim — contrariou Haftor, em tom ameaçador.
— São as obras do falecido mestre Rodérico — esclareceu Alvor. — Dizem que inspiravam, cantavam… que eram místicas. Deve ser isso que os elfos queriam dizer. Eles tentaram comprar algumas esculturas há algum tempo, mas a mestra Andote recusou.
— E tinha Corvear nessas coisas aí?
— Tinha o quê? — confundiu-se Alvor.
— Deixa pra lá.
— Eles me entregaram esse mapa e tiveram que explicar tudo. Eu não entendi direito também. Só disseram para eu observar a mansão e pegar mais objetos de Rodérico. As obras de Andote não interessavam a eles. Em troca, manteriam meu grupo alimentado e armado.
— Boa, dona. Agora a senhora chegou onde eu queria. Entregar quando e onde?
— Eles disseram que nos encontrariam.
— E como fariam isso?
— Eu não perguntei! Eles apareceram do nada naquela montanha. Achei que iam encontrar a gente de novo.
Irritado com as respostas evasivas e desconfiando de que Vôlga ainda escondia informações, Garuk resolveu intervir à sua maneira. Erguendo o prisioneiro que havia trazido da floresta por uma das pernas, encarou-o brutalmente.
— Você ainda pode viver. Ou eu posso comer uma parte sua… ou uma parte dela. A escolha é sua. O que ela tá falando é verdade ou tá escondendo mais alguma coisa?
— Eu vi os elfos!
— Onde?
Antes que o homem pudesse responder claramente, Garuk abriu a bocarra e, num movimento bárbaro, arrancou o pé do assaltante com uma mordida violenta, mastigando-o diante de todos. O homem soltou um grito agudo de pura agonia. Volga rangeu os dentes e estremeceu contra a parede, tomada pelo pânico.
Garuk limpou o sangue dos lábios e encarou a líder meio-orca.
— Bem… ele pode ser curado. Então é ela que vai ser minha janta de hoje — disse, atirando o mutilado na direção de Haftor. — Já que você não quis falar.
O sekbete avançou lentamente com um sorriso de crocodilo.
— EU FALEI TUDO QUE EU SABIA! — gritou Volga em desespero. — DEIXA EU IR! DEIXA EU IR!
Haftor ergueu a mão para conter o companheiro, encerrando a barbárie. Em seguida, aproximou-se de Réctor e falou em voz baixa:
— Talvez deixar ela ir seja uma boa ideia. Se esses elfos aparecerem, a gente pega eles.
— É… talvez. Acho que concordo. Tem como você colocar uma marca nela, né? — perguntou ao Guia.
O rastreador aproximou-se da prisioneira, que permanecia encolhida ao lado da cama, coberta de suor frio. Aproximando o focinho do corpo dela, aspirou profundamente, memorizando seu odor místico.
— Acho que consigo encontrar ela depois. Ou pelo menos seguir o rastro.
— Então vocês vão libertá-la? — perguntou Haftor.
— Deixa ela ir — decidiu Réctor. — Ela cooperou. Só deixa todas as armas e todo o dinheiro.
Sem hesitar, Volga abandonou as armas e as moedas no chão e avançou rapidamente para a porta. A voz de Réctor ainda a fez congelar de medo por um instante. O napol queria perguntar sobre algum artífice da região, mas a meio-orca estava apavorada demais para responder coerentemente. Percebendo o estado dela, Réctor a dispensou.
Volga recolheu o subordinado mutilado e mancou para fora da cabana. Enquanto se afastava pela mata, o Guia testou sua percepção sobrenatural para garantir que conseguiria rastreá-la no futuro.
Com a partida da prisioneira, Haftor terminou de tratar os ferimentos de Alvor. Em seguida, o grupo retomou a viagem rumo ao Solar das Sombras Longas. O guarda foi acomodado na carroça guiada por Demétrius, e a jornada prosseguiu pela estrada fria da floresta.
O Solar das Sombras Longas
A estrada até a residência de Rodérico era simples, mas aparentava receber manutenção frequente.
Réctor abriu a porta de sua Casa dos Sonhos para que o grupo pudesse descansar durante a noite. Ao entrar, percebeu que os fios dourados haviam avançado um pouco desde o dia anterior e assumiu novamente seu posto na roca mística para conter o avanço da contaminação.
Na manhã seguinte, após poucas horas de caminhada por uma estrada sinuosa que cortava as colinas em meio à mata densa, Alvor apontou para a encosta.
— Estamos quase no Solar das Sombras Longas. Vou na frente para que os guardas não se alarmem. Posso ir acompanhado do seu companheiro, se ele quiser. Só preciso chegar antes.
O Guia acompanhou o guarda até a revelação do cenário. Incrustada na pedra escura da colina, erguia-se uma mansão colossal protegida por um muro de quase três metros de altura. Acima da muralha, destacavam-se dezenas de estátuas esguias representando figuras femininas semelhantes entre si.
Apesar do frio intenso da região, os últimos quinhentos metros da estrada estavam completamente limpos de neve e iluminados por tochas acesas, criando uma tênue zona de calor.
— Eles me salvaram de Vôlga Quebra-Ossos — explicava Alvor aos guardas do portão. — Me ajudaram bastante e descobriram algumas coisas sobre ela também.
— Obrigado pelo que fizeram — respondeu um dos soldados ao Guia. — Avisaremos a mestra Andote sobre o favor que prestaram ao Solar.
O grupo pediu para falar com a herdeira e foi prontamente conduzido ao interior da propriedade.
Enquanto atravessavam o jardim impecavelmente cuidado, passando entre estátuas monumentais de quase quatro metros de altura, os aventureiros perceberam que as feições das esculturas lembravam diretamente a estátua da Dama encontrada em Telas. Além disso, cerca de um quarto das obras reagia à presença do grupo — ou talvez aos objetos da Aurora que carregavam — emitindo um tênue brilho vermelho pulsante.
Garuk sacou o prisma ao sentir pulsações dentro da bolsa.
— Não chega perto dessas pedras com isso aí, Garuk — recomendou Réctor.
— Olha isso aqui, gente — impressionou-se o sekbete ao perceber que o prisma também reagia à proximidade das esculturas brilhantes.
As estátuas pareciam ter sido esculpidas de um único bloco, sem emendas ou junções. Tratava-se do mesmo mineral exótico que compunha o prisma de Garuk e o hectaedro de Réctor: a substância chamada por Kétil Monda de “Sangue da Aurora”.
Alvor retornou da entrada principal da mansão.
— O brilho dessas estátuas começou há pouco tempo.
— Como assim? — surpreendeu-se Réctor. — Então elas brilham em outras ocasiões também? Outras pessoas vieram aqui e elas reagiram?
— Sim. Às vezes brilham durante a noite. O mestre Rodérico dizia que elas até cantavam.
— Eu não duvido.
— Venham. Vou levá-los até a mansão.
Enquanto caminhavam em direção à entrada principal, Hector examinou as esculturas tentando encontrar referências aos pingentes que haviam descoberto durante a jornada, mas não encontrou símbolos semelhantes. Aproveitando o percurso, Alvor explicou a origem da fortuna do Solar.
— O mestre Rodérico era um artesão talentoso. Quando jovem, vendeu obras até para o norte, e muitas esculturas acabaram nas hands de nobres em Telas. Depois, quando envelheceu, ficou obcecado por esses minerais. Dizia que eram místicos… que cantavam para ele. Nessa época ele já tinha dinheiro suficiente para construir este lugar.
— Ele morreu de quê? De vinho? — perguntou Garuk.
— De velhice, eu acho. Tinha mais de setenta anos. Mas passou os últimos anos muito isolado. Nem a própria filha conseguia falar com ele direito. As esculturas ficavam cada vez mais estranhas. Essas aqui do jardim foram feitas no começo da obsessão.
“Será que ele também estava puxando o fio?”, pensou Réctor, lembrando-se das palavras de Kétil Monda sobre a dominação da Aurora Gelada.
Uma mulher vestida como serviçal aguardava o grupo na entrada da mansão.
— Olá, senhores. Sou Nara. Obrigada, Alvor. A partir daqui eu os acompanho.
— Foi um prazer conhecê-los — despediu-se o guarda. — Se precisarem de mim, estarei no quartel. Somos uns vinte guardas por aqui. Estamos bem protegidos.
Os corredores da mansão eram decorados com pinturas e pequenas esculturas. Conforme avançavam, algumas das estatuetas também pulsavam em vermelho. Diferentemente das obras monumentais do jardim, essas peças menores possuíam feições grotescas e disformes, com braços longos demais e rostos desprovidos de qualquer harmonia humana.
Após cruzarem uma calçada de paralelepípedos no jardim interno, Nara abriu uma pesada porta de madeira. Um som áspero e contínuo de ferramentas raspando pedra ecoou do interior.
— Podem entrar. Há um guarda protegendo a senhora. Eu ficarei aqui.
A oficina estava repleta de esculturas inacabadas de granito e basalto, a maioria representando guerreiros. No centro do recinto, uma mulher afastou-se de uma obra ainda incompleta, limpou as mãos e virou-se para recebê-los. Seus olhos percorreram rapidamente as roupas manchadas de sangue seco que os aventureiros ainda vestiam após o confronto com o bando de Vôlga.
— Sou Andote, herdeira do Solar. Nara disse que vocês viriam. — A jovem aproximou-se e fez uma reverência formal com a capa. — Vieram comprar alguma obra ou objeto?
— Talvez estejamos aqui para tirar algumas dúvidas e entender um pouco mais sobre seu pai — respondeu Réctor.
— Claro. Os guardas me disseram que salvaram Alvor. São bem-vindos ao Solar. Imagino que tenham tido problemas para enfrentar Vôlga. Estão feridos? Como recompensa, podem permanecer aqui alguns dias até se recuperarem.
— Obrigado.
Decidido a abandonar formalidades e demonstrar imediatamente a gravidade da situação, Hector sacou sua chave mística, aproximou-se de uma das paredes de pedra bruta da oficina e inseriu o artefato diretamente na rocha. Diante do olhar atônito de Andote e do guarda que a escoltava, a parede se deformou lentamente, abrindo um portal para a dimensão da Casa dos Sonhos de Hector.
— Poderia nos acompanhar?
— Mestra Andote! — alertou o guarda, levando a mão ao cabo da espada. — Não sabemos o que existe do outro lado. Pode ser uma armadilha.
— Pela honra de Crizagom, vocês estarão seguros — garantiu Haftor.
— A senhora acha mesmo que esse guarda aí conseguiria impedir alguma coisa, se a gente quisesse? — insinuou Garuk.
Réctor interrompeu rapidamente o companheiro antes que provocasse um incidente.
— Eu garanto que nada acontecerá com você lá dentro. Precisamos conversar sobre a Aurora Gelada.
Andote hesitou por alguns instantes antes de assentir.
— Está bem. Eu entrarei.
A herdeira sinalizou para que o guarda relaxasse a postura e atravessou o limiar acompanhada do escolta. Ambos ficaram maravilhados e assustados diante da vastidão da dimensão onírica, da vegetação mística e da gigantesca árvore envolta pelos filamentos dourados da Aurora Gelada.
As obras de Rodérico
Réctor conduziu os convidados até a base da árvore colossal para mostrar de perto os fios dourados que emanavam da fogueira mística. Movida pela curiosidade, Andote estendeu a mão na tentativa de tocar um dos filamentos que flutuavam no ar, mas seus dedos atravessaram o brilho sem encontrar qualquer resistência física.
Diante do silêncio perplexo da herdeira e de seu guarda, Hector tomou a palavra para explicar a ligação entre Rodérico e aquele fenômeno.
— Sabemos que seu pai trabalhava muito com esse material — começou o napol.
Réctor apontou para o octaedro e para a esfera trazidos das geleiras do norte.
— Foi você quem esculpiu isso? — perguntou Andote, observando o objeto.
O feiticeiro explicou a formação espontânea do artefato na Torre de Gelo Quebrada, descrevendo o gigante golpeando inconscientemente os cristais até que o hectaedro assumisse a forma atual.
Em seguida, detalhou a descoberta dos quatro pingentes antigos mencionados em um livro ancestral encontrado em Telas. O Guia abriu o tomo diante de Andote, exibindo as páginas ilustradas com os desenhos dos colares, enquanto Réctor mostrava a amostra da água mística e relatava a descoberta da escultura metálica de Corvear encontrada na cidade. O napol enfatizou que os elfos sombrios perseguiam aqueles artefatos a qualquer custo e explicou que os filamentos dourados na árvore eram evidências de que a Aurora Gelada tentava dominar sua mente.
— O que me intriga é que, pelo que ouvi, no fim seu pai estava um pouco…
— Perturbado — completou Andote.
— Acho que consigo mostrar exatamente isso aqui dentro. Como essa coisa tem dominado minha mente.
— Vocês deveriam se manter afastados disso.
— Pois é, mas não podemos. Precisamos chegar ao fundo dessa história.
— Por quê? Meu pai foi consumido por essa obsessão durante anos. Eu mal o reconhecia no final. Fui a última filha que restou a ele, e minha mãe morreu logo depois. Meu pai praticamente deixou de falar comigo quando eu ainda era criança, completamente obcecado por essas pedras. Até hoje pessoas vêm ao Solar procurando as “pedras que cantam” de Rodérico. Vocês não são diferentes. Estão atrás das mesmas coisas.
— Talvez não pelas mesmas razões. Os elfos sombrios querem transformar a energia da Aurora em uma ferramenta. Não podemos permitir isso. Provavelmente pretendem usá-la para algo terrível.
— E é você quem decide o que é terrível?
Andote aproximou-se da fogueira onírica e observou ao redor, contemplando a vegetação impossível daquele lugar. Após alguns segundos em silêncio, voltou-se para os aventureiros e começou a falar sobre as lembranças do pai.
— Eu nunca compreendi Rodérico. Ele era um estranho para mim. Conversava sozinho com as estátuas. Dizia que elas eram esculpidas conforme pediam. Dizia muitas coisas… Morreu acreditando que suas esculturas eram portas para aproximá-lo de alguma coisa enterrada há muito tempo. Tudo aquilo era incompreensível.
— Talvez ele estivesse certo — respondeu Réctor.
— Ele falava sobre um fio, dona? — perguntou o Guia.
— Sim. Dizia existir um “fio” guiando sua vida e suas esculturas.
— Provavelmente é a mesma coisa que está acontecendo comigo — concluía o feiticeiro. — E aqui você consegue ver isso.
Réctor mostrou os fios dourados e as mudanças provocadas pela Aurora na Casa dos Sonhos, explicando que aquele reino onírico deveria refletir apenas sua própria mente, mas estava sendo lentamente contaminado pela vontade da entidade.
— Não me parece um bom destino, considerando como seu pai terminou — admitiu.
Garuk mostrou o prisma, e Réctor apresentou o mineral como o “Sangue da Aurora”, nome atribuído por Kétil Monda.
— Eu entendo como você vê as pessoas que vêm até aqui. Todos querem as mesmas coisas. Mas acho que ninguém antes chegou ao Solar com a intenção de fazer algo maior. Queremos ajudar a Aurora Gelada. Ela pode salvar o nosso world e trazer de volta o calor que perdemos.
— E essa mesma Aurora enlouqueceu meu pai.
Réctor explicou que a entidade não parecia possuir discernimento sobre o próprio despertar. Algumas facções — como os elfos sombrios — desejavam apenas controlar esse poder latente e transformá-lo em arma. O feiticeiro insistiu que as intenções do grupo eram diferentes.
— Acho que entendo o que você quer dizer, Réctor. Mas ainda não compreendo o que esperam de mim.
— Eu queria entender como seu pai encontrava essas pedras. Quando encontrei esta aqui — disse, erguendo o hectaedro — tive uma visão de uma batalha antiga envolvendo um grande guerreiro. Talvez, se eu encontrar pedras maiores, consiga compreender melhor sua essência.
— Meu pai extraía essas pedras das geleiras. Ele tinha mapas, embora eu não saiba onde estejam guardados. Dizia sempre que o “fio” o guiava. Nunca vi nenhum instrumento ajudando na busca. Ele simplesmente partia por semanas, levando duas carroças e alguns guardas rumo ao norte, e retornava carregado de matéria-prima suficiente para esculpir várias estátuas. Com o tempo, as obras ficaram menores… e mais estranhas. As piores estão escondidas.
— Eu gostaria de vê-las.
— Posso mostrar.
— Então… — começou Garuk — ainda existe alguém daquela época? Das caravanas?
— Alvor participou de algumas viagens. Talvez consiga ajudá-los, se ainda lembrar de alguma coisa. Faz muitos anos.
Garuk então mostrou a Andote o mapa encontrado com Vôlga.
— Estão espionando a senhora! — alarmou-se o guarda.
— Isso não me surpreende — respondeu Andote, séria. — Há algumas semanas recusei uma proposta agressiva de compradores anônimos. Queriam adquirir meu estoque secreto. Eu neguei.
— Então vou direto ao ponto, dona — disse o Guia. — A senhora está na mira dos sombrios. Eles querem tudo isso que a senhora esconde aqui. Aquelas estátuas que vendeu pros comerciantes roubados? Estão com os elfos agora. E se Vôlga saiu do esquema, eles vão encontrar outro jeito de chegar até a senhora.
— Precisamos de mais homens, senhorita — sugeriu o guarda.
— Não tenho recursos para manter um contingente maior — respondeu Andote. Então voltou-se para o Guia: — Seu plano talvez funcione.
Antes de deixarem a Casa dos Sonhos, Réctor mostrou as ilustrações dos Corações d’Aurora presentes no livro do Guia. Explicou que o grupo já possuía dois dos sete artefatos e apresentou os exemplares pertencentes a ele e a Olgaria.
— Isso tem relação com as pedras do meu pai?
— Ainda não sabemos.
— Nunca vi esses objetos… — respondeu Andote, hesitante. Então reconsiderou: — Não. Talvez eu tenha visto algo parecido.
— Seu pai possuía um deles?
— Não exatamente. Mas algumas das últimas estatuetas dele carregavam objetos semelhantes.
— Podemos vê-las?
Andote conduziu o grupo pelos corredores internos da mansão. Subiram diversos lances de escada até alcançarem o terceiro andar de uma torre isolada. Diante deles havia uma gigantesca porta de madeira reforçada, com quase três metros de altura, protegida por duas fechaduras maciças.
A herdeira pediu as chaves ao guarda. Cada uma delas possuía o tamanho de uma mão humana.
Quando a pesada porta foi aberta, revelou-se um recinto mergulhado na completa escuridão. Andote acendeu uma pequena vela e atravessou o limiar, mas Réctor rapidamente conjurou globos de luz que iluminaram todo o ambiente.
Três longas fileiras de mesas ocupavam a sala, repletas de pequenas estatuetas empilhadas.
Garuk avançou com o prisma em mãos para testar a ressonância.
— Essas estátuas que a senhora vendeu também brilhavam?
— O brilho começou há pouco tempo, mas sim. Elas também reagiam.
— E brilhavam de que cor?
— Normalmente vermelho. Às vezes azul.
O cômodo apresentava sinais claros de pouco uso.
— Aqui estão as obras mais estranhas de meu pai — explicou Andote. — Ele deixou anotações em quase todas.
À medida que Garuk caminhava pelos estreitos corredores entre as mesas, o prisma reagia intensamente. As estatuetas grotescas começavam a pulsar em vermelho conforme ele passava, apagando-se logo depois.
Enquanto isso, Haftor examinava atentamente a estrutura da torre. O anão descobriu algo fascinante: embutidas nas paredes de pedra comum havia colunas verticais de Corvear puro, medindo exatamente 2,73 metros de altura e espaçadas de maneira perfeitamente regular. As estruturas formavam uma malha geométrica precisa ao redor de toda a sala.
Haftor compreendeu imediatamente sua função.
— Quem construiu este lugar?
— Foi antes do meu nascimento — respondeu Andote.
— Todo mundo conhece esta sala?
— Não. Apenas eu, Nara e Alvor.
— Então é por isso que os sombrios ainda não atacaram. Eles não conseguem detectar as pedras aqui dentro.
— Meu pai desenhou pessoalmente essa sala. Foi a primeira coisa que fez antes de guardar as estatuetas aqui.
O grupo passou a discutir se Rodérico realmente compreendia o que estava acontecendo consigo mesmo ou se era apenas conduzido pela influência da Aurora.
— Acho que ele sabia — disse Andote.
— Eu não tenho tanta certeza — respondeu Réctor. — Se tivesse entendido completamente, talvez não tivesse ido tão longe.
— Você mesmo já cogitou deixar o fio tomar conta da sua mente — observou Haftor.
Andote caminhou até uma das mesas e pegou uma pequena estatueta representando uma criatura marinha semelhante a uma sereia. Virou a base da peça e mostrou a inscrição para Hector.
— Esta sempre foi a minha favorita.
Na base estava escrito:
“Talvez forma e memória sejam a mesma coisa.”
Réctor continuou lendo outras inscrições deixadas por Rodérico:
— “A voz não usa palavras o tempo todo”… “Andote disse que ouviu vento. Não havia vento”… “As pedras do norte ressoam mais profundamente que as de Telas”.
O feiticeiro então percebeu a tiara ornamentada que Andote usava na testa.
— Essa pedra aí… do que é feita?
— Foi um presente dele.
A escultora retirou a tiara e entregou-a para análise. Réctor imediatamente percebeu que a pedra estava protegida por um invólucro de Corvear puro.
Ele devolveu o objeto lentamente.
— Talvez isso tenha protegido sua mente. Acho que seu pai não sabia explicar o que sentia, mas ainda tentou cuidar de você.
Andote sorriu discretamente antes de recolocar a tiara.
— Você se lembra de ter dito algo sobre vento para ele? — perguntou o Guia.
— Não. O vento sempre me assustou muito. Aqui ele nunca para. Meu pai dizia que não era o vento… eram as estátuas.
— Talvez você não quisesse ouvir da mesma forma que ele ouvia.
Ao fim da conversa, o Guia perguntou qual das esculturas serviria de isca para atrair os sombrios.
— Passem a noite aqui — respondeu Andote. — Descansem. Amanhã decidiremos o que vocês levarão.
Em seguida, chamou Nara e ordenou que fosse preparado um grande banquete para receber os aventureiros.
A marcha Sangar
Após deixarem a ala secreta da torre protegida por Corvear, os aventureiros atravessaram os longos corredores do casarão e seguiram até o quartel do Solar, uma construção ampla situada do outro lado do jardim. Próximo à entrada, encontraram Alvor, um soldado experiente de cerca de cinquenta anos, sentado em um banco rústico enquanto conversava com outro guarda.
Ao avistar o grupo, Alvor levantou-se para cumprimentá-los e aceitou o convite para uma conversa mais reservada. Caminharam até uma área isolada do jardim, afastada da maioria das esculturas monumentais, onde Garuk e Hector passaram a questioná-lo sobre as antigas expedições realizadas ao norte ao lado do falecido Rodérico.
Alvor contou que participou de duas grandes incursões até a cadeia mais externa de montanhas que cercava as geleiras. Explicou que apenas Rodérico conhecia verdadeiramente aquelas rotas, mas revelou um detalhe importante: nos trechos mais perigosos, o escultor contratava um rastreador elfo chamado Ialas.
Quando Hector perguntou como Rodérico conseguia se orientar com tanta precisão, Alvor relembrou as reações do próprio Ialas diante da habilidade quase sobrenatural do escultor.
— O elfo vivia intrigado com aquilo. Mas Rodérico só apontava pra própria cabeça e dizia que “o fio guiava sua mente”.
Antes de se despedir, o guarda revelou que Ialas provavelmente ainda vivia ao norte do grande lago. Bastaria atravessar as águas e caminhar um dia inteiro rumo ao oeste até encontrar uma imensa árvore congelada. O Guia marcou cuidadosamente a localização aproximada da cabana do elfo em seu mapa.
Com o cair da noite, Andote reuniu todos no salão principal para o banquete prometido. Duas serviçais, acompanhadas de Nara e da própria herdeira do Solar, serviram pratos fartos de carne de javali e vinhos finos.
Após a refeição, os aventureiros foram conduzidos aos aposentos distribuídos ao longo de um extenso corredor voltado para a fachada principal do casarão. Contudo, o mistério envolvendo as “pedras que cantavam” impediu qualquer descanso verdadeiro.
Determinados a testemunhar as manifestações noturnas descritas por Andote, os aventureiros dividiram-se em vigília pelos pontos estratégicos da propriedade.
O Guia deslocou-se silenciosamente até o topo de uma das torres de vigia da muralha principal. Lá encontrou dois soldados humanos fazendo sentinela, ambos previamente instruídos por Andote a permitir livre acesso ao grupo.
— A casa estava sendo observada há alguns dias. Vocês perceberam alguma coisa? — perguntou o rastreador.
— Não. Ninguém apareceu pelos arredores.
— Não que vocês tenham visto, né?
— Só se foram discretos demais.
Com seus poderes sombrios, o Guia manteve os olhos fixos na floresta além do alcance das tochas.
Enquanto isso, Haldor realizou uma longa patrulha pelo alto dos muros, conversando com outros sentinelas para entender melhor a rotina do Solar. Os guardas confirmaram que a região costumava ser relativamente pacífica, embora pequenos bandos de criminosos ocasionalmente cruzassem as redondezas, normalmente evitando o Solar devido às muralhas elevadas e ao contingente de cerca de vinte soldados.
Ao perguntar quais rotas eram mais vulneráveis a ataques, os guardas apontaram para a trilha principal que levava à entrada da propriedade.
Enquanto isso, Réctor recolheu sua esfera de constelação e caminhou em silêncio até o pátio frontal ajardinado. No instante em que entrou entre as estátuas carregando os artefatos, os objetos começaram a emitir pulsações diferentes, reagindo intensamente à presença das esculturas monumentais.
Garuk desceu logo atrás para lhe dar cobertura.
À medida que caminhavam pelos corredores de pedra, Réctor percebeu um som sutil atravessando o silêncio da madrugada. Não era o vento comum das montanhas, mas um cantarolar agudo, estranho e efervescente. A melodia parecia vir diretamente do interior de uma das estátuas que brilhava em vermelho.
Tentando localizar a origem do som, o feiticeiro aproximou-se da escultura. Porém, no instante em que chegou perto o suficiente para tocá-la, teve a nítida impressão de que o canto havia migrado para outra estátua mais distante.
Conforme insistia em seguir aquela melodia errante, a esfera em suas mãos começou a vibrar violentamente, sacudindo seus braços a ponto de quase escapar de seu controle.
Garuk correu até ele ao perceber o tremor.
No momento em que o sekbete segurou a esfera junto com Hector, uma onda mística atravessou sua mente, projetando um breve vislumbre psíquico em seus pensamentos.
Assim que Garuk soltou o objeto, o tremor cessou abruptamente e o brilho diminuiu.
Réctor, porém, compreendeu imediatamente o que havia escutado.
Aquela era a mesma voz grave e ecoante de “Aquele que Vela o Instante”, a entidade cósmica que já surgira em seus sonhos para apresentar a Aurora Gelada.
Guiados pela sensação sobrenatural, os dois passaram a examinar a base das esculturas. Onde antes havia apenas vegetação rasteira, pequenas flores começaram a brotar e florescer instantaneamente por onde Hector caminhava, aceleradas pela presença dos artefatos da Aurora.
Os aventureiros cogitaram se aquele mesmo princípio de crescimento acelerado não estaria relacionado aos experimentos dos elfos sombrios com os “mortalos”.
Então, sem qualquer aviso, todas as dezenas de estátuas do pátio começaram a brilhar simultaneamente.
O vermelho desapareceu.
As esculturas passaram a irradiar uma luz azulada, gélida e ressonante.
No mesmo instante, nuvens densas encobriram completamente a lua, mergulhando o Solar na escuridão. Apenas o brilho azul das estátuas permanecia iluminando o pátio.
Do alto da torre, o Guia arregalou os olhos ao perceber a mudança de cor.
— Ficou azul… Alguma coisa está acontecendo.
— Bonito, né? — respondeu Réctor, fascinado.
Mantendo os olhos fixos além do alcance das tochas graças à sua visão sobrenatural, o Guia percebeu algo alarmante em meio à mata: dezenas de pequenos pontos luminosos avançavam pela escuridão de forma coordenada.
— Fiquem atentos!
O rastreador apoiou-se contra a muralha e entrou em profunda concentração, conjurando a magia “Olho das Sombras”. Suas pupilas tornaram-se completamente negras enquanto sua consciência projetava-se para o interior da floresta.
A cerca de cem metros das muralhas, ele avistou uma marcha silenciosa composta por algo entre vinte e trinta pessoas.
Vestiam trajes tribais adornados com ossos e madeira entalhada, carregando bastões, tacapes e lanternas. Com base em seus conhecimentos das Terras Selvagens, o Guia reconheceu imediatamente o povo: eram Sangares.
Os nativos avançavam sem qualquer tentativa de ocultação, guiados de maneira quase hipnótica pela ressonância azul emanada pelo Solar.
Quando a marcha aproximou-se dos portões, os dois guardas que vigiavam o lado externo bateram em retirada tomados pelo medo. As pesadas folhas de madeira foram fechadas com violência, ecoando por todo o pátio.
— Chamem a mestra! Chamem a mestra! — gritava um dos sentinelas.
— O que aconteceu? — perguntou Garuk.
— A… a tribo está lá fora. Quer falar com a mestra Andote.
— Será que eles estão amaldiçoados ou alguma coisa? — perguntou Réctor.
A agitação fez as portas principais do Solar se abrirem. Andote surgiu nos degraus acompanhada de Alvor e de sua escolta pessoal.
Ao ouvir os golpes ritmados vindos do portão, tomou uma decisão imediata.
— Deixem entrar.
Os guardas abriram apenas uma estreita passagem, permitindo a entrada de uma única figura: uma mulher idosa de cerca de sessenta anos. Os outros guerreiros permaneceram imóveis e silenciosos do lado de fora das muralhas.
A anciã caminhou lentamente pelo pátio iluminado pelo brilho azul das esculturas.
Seu nome era Isara.
Inicialmente, ela ignorou completamente Andote. Seus olhos enrugados fixaram-se diretamente em Hector.
— O Sonhador ouviu o chamado desta vez…
Só então voltou-se para a herdeira do Solar.
— Sua casa voltou a cantar, mestra Andote. Está mais perto do que deveria… mais perto do que seu pai chegou. Deixe-nos ajudá-la. Deixe-nos ajudá-la a trazê-la de volta.
Isara ajoelhou-se solenemente sobre o gramado iluminado pelas esculturas.
— Nós sentimos o despertar nas montanhas — declarou a anciã. Então, ainda curvada, voltou-se novamente para Hector: — Você já viu o que quase aconteceu, Sonhador.
Terras Selvagens, dias 26 a 27 do mês da Sabedoria do ano de 1502.






Nenhum comentário:
Postar um comentário