Sinais do traídor
Os sangares no Solar
— Você já viu o que aconteceu, Sonhador. — intimou a velha senhora da tribo.
— Tenho tantas dúvidas. — admitiu Réctor. — Se você conseguisse me esclarecer, seria ótimo.
As palavras da anciã ecoavam profundamente, como se carregassem uma verdade palpável, mas indistinguível. Andote, trêmula e tensa diante da grande comitiva parada logo atrás das grades, interpelou com desconfiança:
— Isara, desta vez você trouxe toda a sua tribo? Isso parece uma ameaça.
— Sentimos o fio sendo puxado. — rebateu Isara com serenidade, balançando o cajado em gestos contidos. — Precisávamos vir. O despertar é iminente.
— Mas você… — interveio Réctor, dirigindo-se a Isara ao perceber o nervosismo de Andote, que buscava palavras enquanto suava frio. — Vocês vieram com atitudes hostis? Vão criar problemas aqui?
— Não temos a intenção de provocar o mal. Apenas queremos impedir que o despertar seja barrado outra vez.
— A Aurora Gelada me disse que, assim que tudo se iniciar, não terá mais como parar. Não se preocupe, acho que vai dar certo. O tempo…
— … o tempo corre diferente do nosso. — interrompeu Isara. — O despertar ocorrerá no momento propício. Isso pode levar gerações. Eras.
— Eu acho que não vai, não. Acho que está para acontecer.
— O que as obras e meu pai têm a ver com algo tão grandioso? — questionou Andote, ainda nervosa. — Mesmo que signifique alguma coisa, elas são apenas… apenas um sinal. Por que vêm até aqui como se estivessem tão obcecados quanto ele?
Isara apontou o cajado para a tiara de Andote.
— Tire sua tiara, Andote. Veja com seus próprios olhos aquilo que seu pai via. Abrace o despertar.
— Viu? Não falei que era só um bloqueador? — vangloriou-se Réctor.
Andote recuou assustada e levou a mão à tiara, sem removê-la.
Haftor e Haldor chegavam da patrulha nos muros. O paladino apresentou-se diretamente:
— Eu sou Haftor, campeão de Crizagom, e gostaria de entender melhor a sua cultura, se possível. Seu povo tem relações diferentes com o despertar. O que é o despertar para vocês?
— A restauração do ciclo como o mundo deveria ser.
— E qual benefício isso vai trazer?
Baixando a cabeça e apoiando o peso do corpo no cajado, a anciã permaneceu alguns segundos em silêncio, formulando uma resposta.
— Diga-me: qual o benefício da paralisia do mundo em que vivemos hoje? A Aurora Gelada está acordando não para cobrir o mundo de gelo, mas para fazer o tempo voltar a correr, sacerdote. Ela trará um inverno verdadeiro, um inverno que mata a terra, mas que permite que a primavera também nasça. Sem ela, continuaremos sendo essa carcaça congelada para sempre.
— Entendo. Então vocês almejam o despertar da Aurora para conseguir a primavera.
— Você e outros homens da cidade olham para nós, para o sul, e veem apenas um deserto de neve eterna. Mas o frio que racha os ossos não é o desenho dos deuses; é uma ferida. Uma ferida que nunca foi fechada. As geleiras são o tempo parado, um cadáver. Vivemos sobre o corpo de um cadáver apodrecido.
— E o que é essa sombra… — questionou o feiticeiro, apontando para as estátuas que brilhavam em azul. — … que dizem poder desfazer o despertar? O “Mal Sob o Gelo” me parece um antagonista dela, não é?
— Todas as lendas sangares convergem para o mesmo mal, e todas representam o mesmo despertar. Onde o sangue da aurora pinga, a terra responde.
Isara apontou o cajado para a base de uma estátua que brilhava em azul. Réctor e Garuk acompanharam o gesto e testemunharam uma mudança drástica em relação ao que haviam presenciado minutos antes. Onde uma flor desabrochara aos olhos de Réctor, agora erguia-se um pequeno mortalo.
— Você sonha com brotos verdes, vales quentes e o abraço de Maira. Mas eu caminhei pelas franjas de Telas. Vi vinhas escuras que se alimentam do chorume de mortalos.
— Talvez o despertar dela dependa de nós… de mi, de você… Eu não sei. — refletiu Réctor.
Enquanto Olgaria juntava-se à reunião no pátio, Isara continuava a conversa com o feiticeiro:
— Qual é o verdadeiro rosto da dama, Sonhador?
O napol sacou o artefato tindadeli de seus pertences e o estendeu a Isara.
— Não tem rosto. Ela parecia isso: o escuro, pontos luminosos… Parecia um céu estrelado.
Maravilhada com a revelação e com a esfera cósmica, Isara ergueu o cajado para observar o objeto com atenção.
— Minhas visões silenciaram antes dessa revelação. Não sei se ela trará o jardim que cura ou a floresta de ossos que se levanta da terra.
— Eu acredito que seja o jardim que cura. — respondeu o feiticeiro. — Pelo menos, até agora, é o que tenho visto. Os elfos sombrios têm tentado fazer com que a energia dela sirva a eles. Mas o que você veio fazer aqui?
— Fomos atraídos pela mácula no éter. Sentimos a podridão. Prevíamos que suas obras, Andote, manifestariam esse presságio. E talvez tenhamos chegado no momento certo, e nosso encontro seja o verdadeiro presságio.
— E o que deseja fazer agora que está aqui? — indagou Haftor.
— Deixe-nos entrar. Deixe-nos observar suas estátuas, as obras de seu pai, o canto que elas executam.
— Andote — iniciou Réctor — você teme que eles façam alguma coisa com as obras de seu pai?
Após alguns segundos de reflexão, a herdeira quebrou o silêncio com a voz embargada, olhando para a multidão silenciosa além dos portões:
— Eles falam como meu pai.
— Isso talvez não seja um grande problema. Talvez eles tragam respostas que seu pai não te deu. Porque, pelo que entendi — disse o feiticeiro, apontando para a tiara — seu pai te protegeu todo esse tempo. E ele recebeu toda essa carga, a mesma que eu tenho recebido, mas tenho conseguido controlar.
Andote pôs a mão na testa e tocou a joia recebida do pai. Sua expressão ainda demonstrava receio, mas sua compostura já havia retornado diante da chegada de Isara.
— Talvez seja o momento de você realmente tirar essa tiara e tentar entender um pouco do que seu pai passou. — continuou Réctor. — Às vezes é mais fácil compreender alguém passando pelos mesmos problemas. Talvez assim você entenda seu pai.
— Eu tenho uma sugestão. — interveio Haftor, preocupado que a remoção súbita do artefato pudesse causar um colapso na artesã. — Sugiro que esperemos até ela tirar a tiara, sentir o que tiver de sentir e, depois, decidimos se abrimos o portão ou não.
Andote, no entanto, respirou fundo e tomou sua decisão final, inspirada pelo feiticeiro.
— Eu não preciso temer essas pessoas.
Enquanto isso, o Guia infiltrava-se entre os sangares através de sua sombra projetada. O rastreador buscava sinais de algum elfo sombrio infiltrado, mas percebeu que o grupo era formado apenas por humanos. Eles eram quem diziam ser.
— Não traremos nada que já não exista aqui, Andote. — apelou Isara. — Sua oficina está sendo invadida por raízes sombrias. Se você não terminar o que seu pai começou, as sombras terminarão por você.
— Que seja, então. Guardas, abram os portões para o povo sangar!
Os guardas do solar hesitaram, trêmulos, recuando diante do portão de ferro. Ao notar o princípio de insubordinação decorrente do medo, Haldor deu um passo à frente e soltou um forte brado militar para reerguer a moral dos homens.
— Vamos, homens! Não esmoreçam! Ordens são ordens!
As grades abriram-se por completo, e o povo sangar iniciou sua entrada solene no solar, marchando em filas de três. Cada nativo trazia consigo uma pequena lanterna azulada que emitia um brilho idêntico ao das estátuas.
Ignorando Isara, Andote ou os aventureiros, os homens e mulheres da tribo espalharam-se imediatamente pelos jardins, ajoelhando-se individualmente aos pés de cada escultura de pedra e iniciando sussurros e mantras ritualísticos em um idioma incompreensível, consolidando a ocupação pacífica do Solar das Sombras Longas.
Enquanto isso, Réctor chamou Isara para sua casa dos sonhos. O feiticeiro mostrou como os fios dourados expandiam-se de forma desordenada, enredando-se no cerne de seu éter. Ele colocou a roca nas mãos da anciã, que fiou com o objeto mágico e viu o filamento dourado regredir.
— Esse fio… — iniciou Réctor. — Tem se enrolado cada vez mais na minha árvore central. Cada vez que você usa a roca, eles recuam um pouco.
— Eu nunca havia visitado uma casa onírica como esta. — revelou a sangar, devolvendo a roca ao anfitrião. — Seus poderes são incríveis, mas sua relação com a entidade é ainda mais impressionante. Nunca imaginei que o domínio que ela exerce sobre nós pudesse ser tão… tangível.
— Eu estive na presença dela duas vezes. Em uma delas havia um arauto, “Aquele que Vela o Instante”. É a voz dele que você escuta nas estátuas.
Enquanto os dois conversavam, Haftor observou um detalhe crucial na cintura da anciã: uma sutil pulsação luminosa azulada no exato momento em que ela manuseou a roca. O paladino guardou a informação para si, mas deduziu que Isara possuía um fragmento do Sangue da Aurora.
— Convivo com profecias e lembranças do despertar desde muito jovem, mas jamais o senti tão perto, tão iminente. Ver esses fios espalhando-se em sua mente é como a comprovação de que minhas visões não são delírios, como os homens da cidade costumam dizer. A Dama do Ciclo talvez esteja, de fato, quase entre nós. Infelizmente, não posso lhe dizer muito, pois minhas visões cessaram há alguns meses.
Simultaneamente, o Guia permanecia na guarita de vigia. Depois de confirmar a legitimidade do povo tribal, manteve os olhos concentrados na floresta ao redor do Solar.
Com a visão aprimorada por seus sortilégios sombrios, o rastreador percebeu, na escuridão além das luzes do Solar, um corvo sombrio batendo em retirada assim que Réctor e Haftor entraram no ambiente onírico. Imediatamente, Petisco emitiu dois pios, indicando perigo.
“Siga-a”, ordenou mentalmente o Guia.
Depois, avisou Olgaria sobre o ocorrido. A zumi entrou na casa dos sonhos e alertou o feiticeiro e o paladino:
— Réctor, estávamos sendo vigiados! O Guia quer falar conosco.
— Quem estava nos vigiando? Os sombrios? Talvez Vaela?
Isara esboçou uma reação familiar ao ouvir o nome da elfa. O feiticeiro percebeu e perguntou se a conhecia.
— Eu já estive com ela. Ela se proclama uma pesquisadora dos elfos sombrios, alguém com sabedoria e conhecimento acima de todos os outros, de todos os sangares.
O grupo retornou ao solar. Discretamente, Haftor revelou a informação ao feiticeiro:
— Ela tem uma das pedras!
— Onde estão os outros? Estamos sendo observados. — interrompeu o Guia.
— Eu não vi nada. — avisou Olgaria.
— Era um corvo sombrio. Assim que vocês entraram na casa dos sonhos, ele se afastou para oeste.
— Será que eram os elfos?
— Bem provável. Petisco foi atrás deles, mas eu queria rastreá-los. Pode ser a oportunidade de pegá-los.
— Será que dá tempo? — indagou o feiticeiro.
— Sempre dá. — insistiu o Guia, com um sorriso.
— É melhor irmos rápido. — sugeriu Haftor. — Só tenho uma preocupação: pode ser um engodo.
— Pode ser. — ponderou o feiticeiro.
Isara aproximou-se do círculo dos aventureiros com passos lentos e firmes. Tendo escutado os fragmentos finais da conversa, interpelou-os com seriedade:
— Qual acordo vocês possuem com os elfos sombrios?
— Nenhum, senhora. — respondeu o Guia prontamente. — Matar todos. Todos!
— As intenções deles com a Dama do Ciclo são diferentes das nossas. — explicou Réctor. — Eles buscam construir, ou reconstruir, a própria Dama à vontade deles. Querem purificar sua essência de alguma forma.
— Pelo que me disseram, eles querem apenas potencializá-la, remover os riscos. Dizem que encontraram a fonte perfeita de poder. — esclareceu a anciã.
— Ô, dona velha, posso fazer uma pergunta? Quem foi que impediu a dama da outra vez? Deve ter sido alguém muito poderoso, já que ela é tão forte assim.
Isara franziu o cenho e permaneceu alguns instantes encarando o horizonte sombrio antes de responder:
— Eu não sei essa resposta. Nunca chegou até mim. — Então voltou-se para Réctor.
— Um de nossos rastreadores sabe o local onde os elfos sombrios mantêm um acampamento. Eles vão lá com frequência. Talvez Vaela também visite o lugar.
— E fica em que direção? — perguntou o Guia. — Cadê esse sujeito?
Isara procurou entre os membros de sua tribo, que entoavam mantras no pátio, e apontou para um guerreiro esguio de feições firmes que orava próximo a uma escultura cuja tonalidade azul começava a minguar.
— A anciã falou que você sabe onde fica o acampamento dos sombrios.
Vailór, o rastreador, apontou para oeste enquanto respondia ao sekbete:
— No desfiladeiro da Garganta Seca, perto da montanha além da primeira colina, antes da próxima montanha.
— Você sabe quantos são?
— É um agrupamento grande. A última vez que estive lá trocando peles, deveriam ser cerca de cinquenta.
— Eles têm corvos?
— Sim. São seus animais de criação preferidos.
O Guia sentiu a direção para a qual Petisco voava e confirmou que o animal seguia as orientações do rastreador. Depois, ouviu as explicações detalhadas de Vailór. O trajeto levaria cerca de dezoito horas de marcha acelerada, o equivalente a dois dias e meio de deslocamento normal para uma caravana comum através da neve profunda das Terras Selvagens do sul.
— Olha, não é um grupo pequeno, não. — informou o Guia aos companheiros. — O cara falou que deve ter umas cinquenta cabeças. Tem fortificação de madeira. É um posto comercial. Vai levar uns dois dias até lá.
— Talvez seja melhor seguir o plano inicial e atraí-los para um lugar neutro. — sugeriu Haftor.
Enquanto discutiam, o Guia foi acometido por um choque e uma dor aguda e lancinante. O elo místico com Petisco havia sido quebrado: o animal fora abatido.
— Pelo menos agora eles sabem que a gente também está observando. — amenizou Réctor.
A coruja havia partido há quase quatro horas. Pelos cálculos do Guia, deveria estar próxima do acampamento inimigo. O forte talvez já estivesse em alerta máximo.
— Ele foi muito corajoso. — encorajou Haldor. — Teve uma morte digna. Foi um bom companheiro.
Os negócios do acampamento sombrio
A tensão era palpável. Repentinamente, a morte de Petisco fez o grupo sentir a presença dos elfos sombrios tão próxima quanto em Telas. O perigo era real.
Nesse ambiente de urgência, a jovem herdeira de Rodérico tomou sua decisão. Os pesados portões da mansão se abriram, e a mulher surgiu sem sua tiara de corvear.
— Resolvi tirar. — explicou de forma simples e humilde.
— Logo verá o que seu pai via. — profetizou Isara. — E ouvirá e compreenderá o destino do mundo.
— Quando você se sentir ameaçada por esses pensamentos, coloque a tiara de novo. Talvez seja como o meu tear. Talvez rebobine um pouco o fio.
Vailór aproximou-se do círculo e postou-se ao lado da anciã.
— Não sei como seu pai forjou aquele objeto que apenas os anões possuem. Mas também não entendo por que ele queria isolá-la do contato com a Dama do Ciclo. Será bom para você ver tudo.
— Ele ficou maluco, né? — explicou Réctor. — De repente, queria poupar ela.
A reflexão do feiticeiro o fez cogitar se a tiara de Andote não poderia produzir o mesmo efeito da roca em sua mente. O grupo questionava se o corvear realmente seria capaz de impedir esse fenômeno. Ao escutar o nome do metal, Vailór interveio:
— Corvear? Já ouvi esse nome. É como se chama a sua tiara?
— Onde você ouviu isso? — interrompeu Réctor.
— Os elfos do acampamento estão esperando um carregamento que virá de um anão.
— Ih! E quando foi isso?
— Agora a gente vai ter que visitar a cidade. — complementou o Guia.
— Faz alguns dias. — continuou o rastreador sangar. — A última vez que estivemos lá… — o homem lançou um olhar pensativo para sua anciã antes de completar: — Uma semana, no máximo.
— Ô, Haftor, qual era o nome daquele anão traidor?
— Horgrundis.
— Isso, exatamente isso. — concordou Vailór.
Com a nova informação, o grupo começou a traçar um novo plano. O acampamento sombrio parecia grande demais para uma abordagem direta. No entanto, interceptar o carregamento de corvear poderia representar um golpe poderoso contra os inimigos.
— De onde viria essa carga? — questionou o paladino ao sangar.
— Os elfos não disseram, mas vem dos anões. Deve vir dos montes. Não há muitas rotas comerciais. Se não vier pelas rotas secretas de Blur, só pode ter vindo pela mesma estrada que vocês utilizaram.
As perguntas sobre o corvear continuaram. Pelas informações de Vailór, aquele não seria o primeiro carregamento recebido pelo acampamento.
Com o fim das discussões e dos brilhos azuis nas estátuas, os sangares retiraram-se para acampar no limite da Floresta de Obriana. O grupo recolheu-se aos aposentos designados: a maioria foi para os quartos, mas o Guia permaneceu em vigília na torre.
Réctor recolheu-se à casa dos sonhos e colocou seu experimento em prática. Com a tiara de Andote, que pedira emprestada, observou os filamentos para verificar o que aconteceria. A regressão dos fios, como esperava, não ocorreu. No entanto, percebeu que eles pararam completamente de oscilar e vibrar, permanecendo congelados e inertes. Todavia, o bloqueio foi tão severo que impediu o feiticeiro de girar e operar a roca do tear dourado.
Pela manhã, o grupo que pernoitou na mansão despertou com um fenômeno psicológico perturbador: uma melodia masculina, grave, rítmica e sem letra ecoava simultaneamente na mente de todos, como um cantarolar persistente que parecia impregnado em suas memórias havia dias. Os guardas do Solar e a própria Andote, visivelmente assustada durante o café da manhã, também repetiam o som para si mesmos. A artesã confessou que a melodia se assemelhava ao misterioso assobio do vento que costumava ouvir quando portava a joia.
Réctor devolveu a tiara a Andote e explicou as conclusões que havia tirado. Depois, reuniu-se com o grupo para planejar o próximo passo.
Decididos a agir antes que a última remessa de corvear entrasse no território dos elfos sombrios, os aventureiros solicitaram os mapas da região. Andote forneceu uma carta comercial que detalhava apenas a estrada oficial de Telas. No entanto, Demétrios interveio à mesa, utilizando carvão para traçar três rotas comerciais alternativas, menos populares e mais próximas das franjas montanhosas, por onde contrabandistas anões perseguidos criminalmente por Blur fatalmente optariam por trafegar.
Os contrabandistas de corvear
Havia muitos caminhos possíveis, mas o grupo agora dispunha de novas ferramentas.
Réctor revelou aos companheiros que havia aprimorado sua nuvem voadora. O napol gabou-se de que o feitiço seria capaz de transportar toda a carga necessária. Assim, conjurou nos jardins uma imensa massa de fumaça cinza-azulada.
Sólida e fofa, a nuvem mística era capaz de erguer cavalos, anões e até Garuk a mais de cem metros de altura para iniciar a varredura aérea em busca dos contrabandistas.
À medida que avançavam sobre a tundra ártica, o relevo montanhoso começou a subir acentuadamente, forçando Réctor a coordenar a altitude da nuvem para evitar colisões com os acidentes geográficos. Com a subida, as condições climáticas tornaram-se severas e punitivas. O vento gerado pelo deslocamento a cerca de quarenta quilômetros por hora, combinado à temperatura ambiente que despencara para quase trinta graus negativos nas proximidades das geleiras, criou um cenário extremo de sobrevivência.
Haftor agiu rapidamente para mitigar o frio, conjurando sua magia de resistência para proteger a si mesmo e alguns companheiros. Garuk ativou seu próprio poder de resguardo, enquanto Kórgan e Haldor reforçaram os agasalhos. Todavia, a fisiologia de Garuk reagiu de forma alarmante: por ser um homem-crocodilo de sangue frio, a ausência total de calor ambiental fez seus músculos enrijecerem e seus olhos permanecerem fixos, paralisando-o quase por completo e dando início a um processo biológico de hibernação forçada na retaguarda da nuvem.
— Acho que o Garuk tá com frio, hein.
— Não… não… tô… bem. — resmungou o sekbete.
Vendo a situação preocupante do companheiro, Réctor conjurou uma barreira mágica. Trazendo-a de sua própria imaginação, o feiticeiro envolveu o sekbete em uma cápsula sólida capaz de barrar o vento ártico, mitigando a perda de calor do companheiro. Com isso, o encantamento de resistência lançado sobre si mesmo tornou-se suficiente para mantê-lo aquecido.
Enquanto a nuvem avançava protegida, o Guia postou-se na borda frontal da plataforma para monitorar o solo. Valendo-se de sua habilidade de visão animal, vasculhou a estrada de terra batida que cortava a tundra abaixo. O rastreador detectou a passagem de duas caravanas distintas: a primeira pertencia a uma tribo local de sangares em migração rústica; a segunda continha uma escolta armada de elfos sombrios deslocando-se para o norte, possivelmente retornando de Caridrândia rumo ao acampamento principal. O grupo optou por ignorar ambas para não comprometer a missão.
Cerca de uma hora e meia após o início do voo, o Guia avistou um terceiro comboio deslocando-se de norte a sul. Tratava-se de uma carruagem grande, pesada e totalmente fechada por painéis de madeira, escoltada por cavaleiros armados. A contagem aérea inicial indicava dez indivíduos na estrada, incluindo humanos, dois guerreiros anões e um sekbete.
Réctor reduziu a velocidade da nuvem e pairou invisível no céu, permitindo que Sombra, sua aliada imaginária, descesse para inspecionar o interior do veículo em movimento.
Ao atravessar a parede de madeira da carruagem, Sombra encontrou uma mulher vestindo calças largas, túnica fechada e uma pesada capa de peles, sentada em silêncio com um cajado apoiado entre as pernas: uma maga de escolta. O interior do veículo também abrigava três grandes pilhas de caixas de madeira lacradas. Movendo-se furtivamente, a criatura localizou uma sacola de couro amarrada ao lado da mulher.
Ativando o poder da gema dimensional fixada na testa, Sombra fez a sacola, que continha seis chaves metálicas quadradas de confecção tipicamente anã, desmaterializar-se e ser armazenada em seu bolso interdimensional. No entanto, a sutil flutuação mágica despertou a feiticeira.
A maga acendeu a extremidade do cajado, iluminando o interior do veículo e forçando Sombra a recuar e subir de volta para a nuvem. O grupo pfirmou que o comboio transportava uma carga protegida por engenharia anã e escoltada por forças místicas.
Réctor traçou um plano tático imediato: utilizou a velocidade da nuvem para ultrapassar o comboio em linha reta, pousando o grupo de forma oculta na vegetação rasteira à beira da estrada, cerca de quinhentos metros à frente da rota do veículo.
Os aventureiros desembarcaram, desembainharam as armas e postaram-se diretamente no meio da estrada para interceptar a marcha, simulando uma barreira de patrulha. Assim que a carruagem e seus cavaleiros contornaram a curva e avistaram o grupo fortemente armado bloqueando a passagem, o líder da escolta humana ergueu a mão e ordenou a parada imediata do comboio.
Haftor deu um passo à frente, iniciando o tenso confronto verbal na estrada deserta:
— De onde vêm, parceiros? E tão levando o quê aí?
— Isso é um assalto? — indagou o líder, analisando as armas, armaduras e a presença intimidadora do grupo.
— Não. É uma pergunta.
— Então prefiro não responder.
— É polido responder quando alguém te pergunta.
— Não numa estrada vazia, contra pessoas armadas. Não somos indefesos. É melhor saírem do caminho.
Enquanto Haftor mantinha o líder e os cavaleiros ocupados com a discussão na frente do comboio, um dos guardas humanos cavalgou até a lateral da carruagem, abriu uma fresta da cortina e alertou a feiticeira em sussurros:
— Estamos sendo abordados. Se prepara, tá?
A maga levantou-se irritada e exclamou para si mesma dentro do veículo:
— Eu sabia! Tem alguma coisa aqui!
Aproveitando a comoção e a distração causada pela barreira improvisada de Haftor, Réctor enviou novamente sua companheira invisível para a traseira da carruagem.
A feiticeira ergueu o cajado e conjurou um feitiço de ocultamento em massa, tornando a si mesma e as caixas completamente invisíveis para proteger a carga de uma inspeção visual. Contudo, Sombra já possuía a memória espacial e a posição exata das caixas. Tateando o espaço às cegas através da invisibilidade, inseriu uma das chaves anãs roubadas no trinco do baú principal, destrancou a fechadura de ferro e puxou para dentro da bolsa dimensional o primeiro objeto pesado que conseguiu alcançar, batendo em retirada logo em seguida.
Réctor deu o sinal místico de sucesso para o grupo na estrada, permitindo que Haftor encerrasse a falsa blitz alfandegária.
— O senhor sabe que transportar ilícitos é uma falta grave por aqui. O senhor é algum guarda ou coisa parecida? Eu sigo a lei de Crizagom.
— Pois eu não! Agora saiam do caminho, todos vocês!
— Tudo bem, peço desculpas. — respondeu Haftor ao perceber o sinal de Réctor.
O líder exibiu uma expressão de confusão e desconfiança diante da mudança súbita de postura do paladino de Crizagom, mas não iniciou hostilidades. Os cavaleiros e os guardas da escolta mantiveram as armas empunhadas, passando lentamente e de forma tensa pelos aventureiros enquanto a carruagem fechada cruzava o bloqueio.
Assim que o comboio desapareceu atrás das colinas rasteiras da tundra, Réctor abriu um portal no solo, transportando todos os heróis e seus equipamentos de volta à segurança da plataforma aérea da nuvem voadora.
No alto do céu, Réctor acessou a bolsa dimensional e retirou o artefato extraído do baú invisível: tratava-se de uma barra maciça e pesada de minério puro de corvear. O bloco trazia profundas gravações em relevo confeccionadas com runas anãs tradicionais, identificando a marca de forja e a assinatura metalúrgica de Orvek.
O nome não era estranho para os anões. Orvek era um dos mais renomados, tradicionais e respeitados mestres-ferreiros da ala norte das profundezas de Blur, famoso por forjar metais raros utilizando o calor dos vulcões subterrâneos.
— Espero que ele esteja sendo roubado. — afirmou Kórgan sobriamente. — Pro bem dele.



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