A honra manchada
A defesa
O gabinete do comandante Dariam Ferrembrasa tinha cerca de 12 m², paredes de rocha maciça e pouca decoração. A mesa com dezenas de pergaminhos desorganizados era o foco do local.
A acusação sobre Haftor pesava, mas a reputação que construiu permitiu que lhe fosse concedida uma defesa justa antes de qualquer condenação. O paladino aproveitou a oportunidade para organizar seus argumentos.
— Mestre Dariam, imagino que as acusações sejam do sacerdote de Telas? Ele é um corrupto e a cidade parece estar sendo dominada pela elite dos magos de lá. Eles parecem ter esse clérigo na carteira.
— Calma, calma, Haftor. — interrompeu Ferrembrasa. — Vamos por partes. Primeiro, você nega as acusações? — O comandante virou-se e pegou um punhado de pergaminhos enquanto falava. Leu-os em voz alta: — Assassinato. Usurpação da autoridade judiciária de Telas. Invasão de domicílio da patronesse Syllen’ae. Tem outras aqui que eu ignoro. — disse, jogando os papéis sobre a mesa.
— Bem, vamos por partes, então. A invasão de propriedade foi parte de uma investigação de escravização de anões. Nós encontramos alguns. Inclusive, tem um com a gente. Um anão muito bom, um guerreiro.
— Espere... você não está negando?
— Se invadir uma casa durante uma investigação de tráfico configura invasão da soberania e da propriedade da patronesse, não posso negar que fiz isso. E o assassinato que eles estão alegando foi em legítima defesa.
Ferrembrasa estava consternado. Esperava uma declaração de inocência, mas, em vez disso, Haftor confirmava todos os fatos. Apesar disso, ouvia e tentava compreender a situação.
— E... — continuou o paladino — quanto à usurpação de autoridade em Telas, não havendo um paladino no local, o templo estava vazio porque, afinal, ele convenientemente estava fora. A ordem exige a minha autoridade como lei local. Eu participei de um julgamento de um companheiro daquela elfa sombria que foi, inclusive, condenado.
O paladino continuou com sua explicação, argumentando ferrenhamente em sua defesa, enquanto seu irmão e Dariam Ferrembrasa escutavam.
— Temos dois problemas aqui. Um é o problema da corrupção em Telas. O outro é um problema interno no templo de Crizagom, que eu vou reportar, e ainda vamos fazer uma auditoria lá.
— A relação entre Blur e Telas não é tão lisa quanto imagina, Haftor. — mencionou Dariam. — Nossa ordem de Crizagom no núcleo de Blur é isolada, comparada com a ordem que está em Telas, que é muito mais relacionada com o norte do que temos vontade. Mas quero muito acreditar em você. Eu odeio aquele Thragner, mas as acusações estão aí. Não posso fechar os olhos para todas elas.
— Mestre Dariam... — interrompeu Haldor. — O senhor lembra de Kórgan? Ele desapareceu em uma missão.
— Vocês tinham mencionado, mas está vivo?
— Então, está vivo, está conosco. — revelou Haldor. — Vivo e bem. E ele pode corroborar a nossa versão. Se a nossa palavra não transpassa a verdade, mesmo depois de todos os anos que temos juntos, nós temos uma terceira pessoa que pode ajudar.
— Não leve para o lado pessoal. — justificava-se Ferrembrasa.
— De maneira alguma. Mas, quando dizemos ao senhor que nossas acusações são fruto de intrigas, mentiras e corrupção, se fosse ao contrário, eu acreditaria cegamente.
— Onde está Kórgan?
— Está pela cidade. — respondeu Haftor. — Chegou com a gente.
— Haftor... tentaremos um acordo com Telas por via diplomática e talvez um julgamento à distância, mas, se retornar, será preso e julgado.
— Eles provavelmente vão tentar me eliminar diretamente. Então, se esse for o desejo de Crizagom, eu vou assumir. Mas saiba que é injusto.
— Não seja ingênuo. Não tem nada a ver com o desejo de Crizagom, mas com a vontade de corruptos. Eu compreendo a sua situação. Não acredito em nada do que esse sacerdote meia-tigela diz. Conheço o tipo dele, mas estou preso à burocracia. Não podemos simplesmente remover os cartazes da superfície. Você deve encarar isso como um ordálio do seu julgamento.
O paladino não ficara convencido. Ele acreditava poder resolver sua situação diretamente, apesar dos apelos do comandante.
— Não terão percalços em Blur. São bem-vindos aqui, sua terra natal. Mas saibam que precisarão comprovar sua isenção dos fatos, ou pelo menos justificá-los. Talvez Kórgan possa ajudá-los.
— Não se preocupe. — amenizou Haftor. — Eu não pretendo me esconder. Vou seguir com minha missão, que é muito mais importante do que isso. E, se eu for levado a Telas por qualquer tipo de autoridade, não vou oferecer nenhum tipo de resistência.
— Ah! — lembrou-se Haldor. — Antes que eu me esqueça, Horgrundis é o traidor.
— O senhor lembra de um tal de Durnam, o Expurgado? — questionou Haldor.
Ferrembrasa acenou com a cabeça, lembrando-se do nome.
— Aparentemente, ele está em Blur e agindo com uma rede de tráfico. — completou Haftor.
— Impossível. — argumentou o comandante. — Ele jamais poderá retornar. Perdeu seu nome, sua identidade. Durnam não existe.
— Esse agora atende por Horgrundis. E a última informação que temos dele é a de que estava em Blur.
— Horgrundis... já ouvi falar. Há várias acusações contra ele.
Dariam dirigiu-se à prateleira e retirou um tomo pesado e empoeirado, soprando a poeira e abrindo-o nas anotações sobre Horgrundis.
— Horgrundis foi acusado de contrabando, corrupção, assassinato e traição. Ninguém conseguiu fazer uma descrição clara de como ele é ou quem ele é. Ele não é visto. O nome dele se espalha pelo submundo de algumas cidades e fortalezas, mas nunca conseguimos capturar alguém que tenha negociado diretamente com ele.
— E o nome Horgrundis surgiu com ele?
— Sim. Ele não é filho de ninguém, não é de clã nenhum.
— Se ele é Durnam, como dizem, está claro o porquê. — concluiu Haftor.
— Agora, sabendo que se trata de um anão nativo de Blur, podemos investigar melhor. Talvez sua família saiba de algo. Eu conheci pessoalmente o pai dele no momento do expurgo. Ele passou a negar a existência de um filho. Não parece ser alguém que corroboraria esse tipo de atitude, mas vamos investigar de perto.
Devolvendo o livro à prateleira, Dariam voltou a falar sobre o julgamento de Haftor. O comandante pedia encarecidamente que o paladino não fosse aprisionado em Telas, pois isso dificultaria a defesa por parte de Blur.
— Por favor, apenas não volte a Telas. — implorou Ferrembrasa.
— Não posso prometer. — respondeu Haftor, cético.
— Por favor, Haldor, ponha juízo na cabeça de seu irmão!
— Eu tento, mas às vezes eu tenho menos do que ele.
Por fim, Haftor lembrou Dariam sobre a carga interceptada. Ao ouvir sobre a quantidade e o conteúdo, equipou-se, vestiu sua capa e acompanhou a dupla pessoalmente para constatar as provas do contrabando.
Réctor, Guia, Kórgan, Demétrius e Olgaria aguardavam perto de onde as nuvens voadoras haviam pousado com as carroças.
Ao ver o comandante, Kórgan se aproximou e cruzou braços com Ferrembrasa.
— Mestre Ferrembrasa!
— Que alegria vê-lo realmente vivo, como haviam mencionado. Preciso que explique o que aconteceu com você em detalhes.
— Eu queria saber por que um herói está com sua cabeça a prêmio. — intrometeu-se Réctor, indignado.
— Tenho certeza de que sabe exatamente tudo o que se passou com Haftor nas últimas semanas e que também sabe qual é o ambiente em Telas. — respondeu Dariam, com formalidade. — Nossa relação com aquela cidade é tensa. Diplomática, mas tensa.
As palavras de Ferrembrasa não tiravam o ceticismo de Réctor.
— Sim, eles se desviaram do caminho de Crizagom há muito tempo. — completou o napol.
— Os magos fazem o que precisa ser feito para alcançar seus objetivos, ignorando as leis divinas. Isso às vezes nos coloca em situações difíceis, como eu tenho certeza de que Haftor foi colocado.
Ferrembrasa olhava para todos, certificando-se de que o grupo o ouvia e percebia suas intenções antes de continuar.
— Mesmo não concordando totalmente com as ações que Haftor tomou, tenho certeza de que foram as únicas que ele poderia ter tomado na situação que lhe foi imposta.
— Certeza. — ironizou Réctor.
— Senhor. — Kórgan pediu a palavra. — Eu fui sequestrado por elfos sombrios graças a uma informação de Horgrundis, um traidor que se chamava Durnam.
— Haldor mencionou. Isso esclarece muitos documentos que tenho arquivados.
— Fui levado a um calabouço no subterrâneo de Telas e marcado. — O anão colocou a mão na nuca com uma expressão de pesar e sofrimento, lembrando-se da marca removida pela graça de Crizagom trazida por Haftor. — Graças a Blator e Crizagom, essas pessoas chegaram e me tiraram de lá.
— Eu não entendo muito desse negócio aí de leis, não. — comentou Garuk, impaciente com as formalidades. — A cidade estava toda corrompida. A gente foi lá e meteu a porrada em todo mundo para que isso não se repetisse, porque quem tava lá tava fingindo que não tava vendo o que tava acontecendo. Vocês ficam aí falando bonito e ninguém entende porra nenhuma.
— Quer defesa melhor do que essa? — argumentou Réctor. — Eu acho um ultraje ver estas imagens. — dizia o napol, mostrando um cartaz de procurado com o retrato do paladino. — Mesmo que Telas possa criar algum problema, não colocariam um herói para ser caçado. E, se precisarem de ajuda lá, procurem o colégio necromante. Eles podem ajudar e dizer exatamente o que aconteceu.
— Eu acho que aqui não é o lugar certo para conversarmos sobre isso. — lembrou Haftor.
— Quero começar com você. — Dariam apontou para Kórgan. — Me acompanhe ao meu gabinete. Preciso do seu testemunho o quanto antes.
— E o senhor viu aqui nossa carguinha? — brincou Réctor, aproximando-se das carroças e revelando parte dos lingotes de Corvear.
Ao ver o minério lapidado, Dariam levou ambas as mãos à cabeça, perplexo. Aproximou-se e pegou um lingote.
— Por Blator! Quanto tem aqui? Uma carga desse tamanho não pode ter saído de Blur sem que ninguém tenha percebido.
— Várias cargas dessas já foram levadas. Essa aqui era só a última.
Dariam respirou fundo, visivelmente tenso e sério com a dimensão do problema interno na fortaleza.
— Olha só, o senhor falou aí que tem uns papéis com um monte de denúncia. Era melhor vocês começarem a parar de olhar papel e começar a olhar em volta, hein. — sugeriu o Guia.
O grupo explicou sobre a rota de saída de Corvear a partir de Vir-Máliz, mostrando ao comandante o mapa que encontraram com Kovor e seu bando.
— Vou enviar as cartas necessárias. Precisamos reforçar a segurança em Vir-Máliz e descobrir quem são essas pessoas que estão traindo o coração de Blur.
O peso das reputações
Dariam conduziu os oito aventureiros pelo interior da imensa fortaleza, levando-os a uma sala grande e sem janelas, iluminada apenas por candelabros e com um forte cheiro de ar fechado. No centro, havia uma mesa espaçosa para doze pessoas.
O grupo se acomodou enquanto Ferrembrasa foi providenciar pergaminhos para anotações e bebidas para todos.
Enquanto aguardavam, o grupo teve uma conversa com Demétrius, que ainda temia por seu destino nas mãos dos juízes de Blur. Réctor tentou acalmá-lo, dizendo que ele já fizera muito por sua redenção e que, talvez, fosse perdoado por seus crimes. O falsário permaneceu tenso, mas colaborativo.
— Sobre esse Horgrundis... alguns dos documentos dele chegavam até Trisque. Talvez, nas minhas coisas, ainda tenha alguma assinatura dele. Pode ser que bata com a desse tal Durnam aí.
— Isso aí, Magrelo, assim que se faz! — elogiou o Guia.
Minutos depois, Dariam retornou com um barril de cerveja sobre os ombros e encheu os canecos de todos.
— Não podemos conversar de boca seca.
Dariam passou um longo tempo redigindo meticulosamente o testemunho de Kórgan. Ao finalizar e assinar os papéis, voltou sua atenção para o restante do grupo, pronto para entender as ramificações mais profundas daquele carregamento místico.
O grupo, especialmente nas palavras de Réctor, explicou que os elfos sombrios buscavam uma forma de canalizar a energia da Aurora Gelada para si como forma de dominar o karma infernal.
— Seu povo já lapidava as pedras da Aurora Gelada, não é? — questionou o feiticeiro.
— O Corvear é uma rocha típica de Blur que não deve ser exposta ao exterior, pois foi com ela que construímos as ferramentas mais poderosas, responsáveis pelo grande cisma há muito tempo. Eu vou comunicar o quartel-central sobre o contrabando. Com certeza, darão a atenção que isso merece.
O grupo falou sobre Elga, a intermediária que negociou com Kovor em Vir-Máliz, mas Ferrembrasa não a relacionou com ninguém. O mapa com o trajeto percorrido pelo contrabandista foi cedido ao comandante, uma vez que o Guia já decorara o percurso.
— Obrigado.
— Inclusive... — interrompeu Haftor. — Tenho um pedido a fazer. Sei que a situação já está bem complicada e é um certo abuso, mas gostaria de levar esse grupo para dentro de Blur. Temos muito o que descobrir, tanto no templo de Crizagom quanto mais perto do Forja. Podemos ajudar a descobrir o paradeiro de Horgrundis.
Dariam ficou perplexo. Era nítido em seu rosto. O Guia quebrou os instantes de silêncio que se seguiram enquanto o comandante processava o pedido inusitado, mencionando o Testamento da Ordem e uma figura importante encontrada junto ao laboratório de Veridion Scriptôr, na Torre Branca do Sul.
— O senhor já ouviu falar de uma tal Irina?
— Não me recordo.
— Ela vivia na torre a leste daqui, perto da costa.
— Os anões que viajam à superfície às vezes não têm relações com Blur. Então, não, eu não a conheci. Mas já ouvi falar do Testamento da Ordem, embora ele não tenha relação com as nossas cidades.
— Eles já tinham muito Corvear.
— Pelo que já ouvi, o Testamento da Ordem é uma lenda muito antiga, talvez anterior ao cisma. Então, é possível que eles tenham manuseado o Corvear com autorização.
— E quem dá essa autorização hoje? — insistiu o Guia.
— Ninguém. É proibido. No passado era um minério muito valioso e que os ferreiros tinham liberdade para trocar. Porém, poucos conseguiam tirá-lo daqui em razão dos preços praticados. Mesmo assim, não era proibido.
— Por que o Corvear foi proibido? — indagou Haldor, que não conhecia a história por trás do metal anão.
— O cisma foi um conflito entre clãs anões ocorrido há muito tempo. Um desses clãs adorava uma entidade externa ao panteão. E eles faziam uso do Corvear para dominar os poderes dela. Eles foram expulsos e, com eles, toda a possibilidade de exportar Corvear.
— É, mas podem ter deixado alguma coisa escrita, né? Se há algum registro, está na biblioteca da capital. — supunha o napol. — Em Caridrândia tem uma biblioteca maior do que a de vocês aqui. Provavelmente eles sabem disso.
A sugestão de que os elfos possuíam uma biblioteca melhor do que a dos anões irritou Dariam. Seu olhar mudou instantaneamente.
— O conhecimento dos elfos é superficial e egocêntrico. Eles não estão preocupados com as tradições anãs. Não estão preocupados nem com as próprias tradições, pois as abandonaram há muito tempo, quando se corromperam.
— É, mas para pegar Corvear sem vocês saberem eles são bons. Duas toneladas de coração nobre. — provocou Réctor.
— Nem o coração mais nobre está imune à corrupção. Você deve saber disso. Duas toneladas são irrelevantes perto da montanha que existe no interior de Blur, entre o Forja e o Krokanon.
— É, mas, pelo que eu sei, devem ter sido cinco ou dez cargas de duas toneladas.
Dariam bateu com a mão na mesa, perdendo a paciência.
O grupo amenizou a situação, alegando que estava ali para ajudar e que o comandante deveria guardar seu rancor para aqueles que o estavam traindo. Então, explicaram que não tinham intenção de insultar, apenas pedir passagem para resolver a situação.
— Eu não sou a pessoa a quem devem pedir entrada em Blur. Mas saiba, Haftor, que, por cento e cinquenta anos, não houve um não anão que tenha pisado no interior das fortalezas. O interior de Blur é cobiçado por muitas pessoas: mercenários, comerciantes... ninguém foi aceito. A terra dos anões é para os anões.
— Mas o que está em jogo é muito grande, senhor. De qualquer forma, agradeço demais a sua compreensão. Vamos fazer o possível para ficar fora do seu caminho.
— Acho que já anotei tudo que precisava ser registrado. Haldor, fale com Gruntor se quiser uma autorização especial, mas eu não seria muito otimista.
O julgamento informal
Após a tensa reunião com Dariam Ferrembrasa, o grupo percebeu que precisaria de uma nova abordagem para entrar na montanha. Decidiram, então, afastar-se do centro burocrático e buscar um lugar para descansar e traçar planos.
Os aventureiros adentraram uma grande taverna construída inteiramente em pedra. O interior estava aconchegante e significativamente mais quente devido às duas lareiras acesas, uma de cada lado do salão. O ambiente era animado, preenchido por cerca de quarenta pessoas, quase todos anões, e pela música de um bardo tocando gaita de fole.
Uma anã taverneira aproximou-se para guiá-los até uma mesa. Garuk, devido ao seu imenso tamanho e anatomia, encontrou dificuldades com o mobiliário local, sendo obrigado a sentar-se no chão.
Depois de serem abastecidos com canecos de cerveja, o grupo pediu um porco para comer. No entanto, “Carne de Bandido” era uma das opções propostas no cardápio pela taverneira. O nome gerou brincadeiras e provocações dirigidas a Demétrius.
A menção ao julgamento fez o grupo retomar o assunto sobre o destino do Atravessador. Como ele já havia ajudado consideravelmente desde a captura, alguns achavam que tinha pago sua dívida com a justiça.
— E, por falar nisso, Haftor, você vai mesmo denunciar Demétrius? — perguntou Olgaria. — Eu acho que ele já pagou a dívida dele, né?
— A lei é clara e ele tem que passar pelo julgamento, mas tenho certeza de que posso dar uma boa palavra para ele se sair bem.
— E se você não conseguir entrar com ele lá no túnel?
Percebendo que talvez houvesse dificuldades para conduzir um bandido para o interior da fortaleza, Réctor surgiu com uma sugestão:
— Mas, olha só, você falou que, quando não tem quem exerça a lei, você pode exercer. Bem, então, se ele não pode entrar e você é a lei, julga ele aí!
— É, Haftor! Resolvemos isso agora! — interessou-se Demétrius.
— Eu acho que o Demétrius já cumpriu a parte dele. — opinou Olgaria.
— É, mas sua opinião não vale aqui. — cortou Réctor.
Haftor decidiu assumir a responsabilidade e iniciar o rito ali mesmo, na mesa da taverna.
Haftor assumiu um tom mais sério e sacerdotal para proferir sua avaliação sobre os atos de Demétrius, enquanto o grupo argumentava que andar com eles já era punição suficiente.
— Você realmente tem mostrado que se redimiu, mas ainda precisa pagar por seus crimes. Você acha que, sem a gente por perto, estaria melhor?
— Eu estaria em Trisque, assinando documentos falsos para Táviga. Não, não estaria melhor.
Réctor intrometeu-se, dizendo que poderia conduzir Demétrius até as terras dos bárbaros e, de lá, ele poderia partir para os reinos do norte, onde haveria “um monte de gente para ele enganar que ainda não o conhecia”.
— Não, ele não vai mais enganar ninguém, não é mesmo? — pressionou Haftor.
— Eu sou outro homem. Por Crizagom, eu juro.
— Cuidado com esse tipo de juramento, hein. — duvidou Réctor. — Vamos fazer o seguinte...
Antes que Réctor pudesse concluir seu pensamento ou Haftor proferisse o veredito final que libertaria oficialmente Demétrius, o julgamento informal foi abruptamente interrompido.
A porta da taverna se abriu, revelando oito homens armados. O líder, um humano de cabelos e barbas grisalhas curtas, vestindo uma tabarda azul, fixou o olhar diretamente em Haftor e deu ordens em voz baixa aos seus homens, espalhando tensão pelo salão anão e dando início a um novo e perigoso conflito.
O duelo de Garuk
— Droga, estava quase livre. — resmungou Demétrius.
O homem aproximou-se da mesa com postura ameaçadora e identificou-se, dirigindo-se a Haftor.
— Eu sou Jorgan, mercenário de Telas, e fui ordenado a levá-lo diretamente para julgamento na cidade.
— Não será necessário, meu nobre. — disse Haftor. — Saiba que a validade dessa procura está sendo questionada. Seria bom aguardar que essa questão se resolvesse antes de querer sua recompensa.
— Fala que você não vai. — instigava Réctor. — Vamos, arranje encrenca.
— Seus companheiros não têm nada a ver com isso. — explicou o mercenário.
— Têm a ver. — pontuou Réctor. — Se você encostar nele, a gente vai arrebentar vocês na porrada.
Haldor sacou seu machado e o apoiou ao lado do corpo, deixando claro que não recuaria. Imediatamente, dezenas de anões da taverna se levantaram e sacaram seus próprios machados, em solidariedade aos compatriotas e em repúdio à insolência do humano de Telas.
Jorgan deu um passo atrás, hesitante.
— Disseram-me que você era um sacerdote honrado, que viria responder por seus crimes.
— Não tem crime, cara. — disse Réctor. — Só tem corrupto naquela cidade.
Intimidado pela demonstração de força coletiva e recuando em suas intenções primárias, Jorgan gesticulou para que seus homens recuassem. Garuk percebeu a hesitação e começou a imitar uma galinha, fazendo barulhos de “pocó” para zombar do líder. A taverna inteira aderiu à humilhação.
— É covarde! — diziam os anões, em coro. — Você não pode entrar numa taverna, fazer uma acusação dessas e sair com o rabinho entre as pernas!
— Que tal um duelo? — desafiou Garuk.
Jorgan virou-se para o sekbete com a mão no punho da espada.
— Valendo a custódia do prisioneiro Haftor.
— E valendo a tua honra, cara. — provocou Réctor. — Você que está aí, recuando.
— Amanhã, ao pôr do sol, do lado de fora.
Garuk não se contentou. Nem Réctor. Eles provocaram o humano, que acabou cedendo a um duelo imediato.
Pressionados, Jorgan e seus homens seguiram para fora da fortaleza, até um campo nevado. Os anões formaram um grande círculo na neve para assistir ao espetáculo. Garuk, demonstrando total desprezo pelo nível de perigo do oponente, fincou seu machado no chão e decidiu lutar apenas com as próprias garras. Jorgan sacou uma espada manchada de sangue.
— Eu vou te arrebentar na mão!
O combate teve início. Jorgan investiu com sua espada larga, mas Garuk esquivou-se habilmente, abaixando-se rente à neve, e contra-atacou repetidamente com suas garras, forçando o mercenário a recuar, pular e gastar muita energia. Jorgan logo começou a suar frio diante da bestialidade de Garuk.
Após mais uma investida falha de Jorgan, cuja lâmina esbarrou inofensivamente na armadura de ossos do combatente bestial, Garuk bateu no próprio peito, atiçando a torcida.
— E isso é um mercenário que se preze para capturar alguém?
O desfecho foi brutal e rápido. Garuk desferiu um golpe com a mão esquerda no ombro e no pescoço de Jorgan, derrubando-o de bruços na neve. No exato instante em que o mercenário apoiou os joelhos no chão e levantou o rosto ensanguentado para tentar se erguer, Garuk desferiu uma garrada de baixo para cima. A unha cravou abaixo do queixo de Jorgan, atravessando a base da boca e arremessando-o no ar. O humano caiu completamente apagado e estirado no chão, com a espada distante do corpo. O sangue manchou a neve e os anões vibraram.
Réctor, sem perder o humor, virou-se para o segundo no comando dos mercenários, que estava prestes a assumir a liderança da tropa diante da morte iminente de Jorgan.
— Parabéns, Galvir!
— O que está acontecendo aqui? — indagou um guarda da fortaleza, aproximando-se.
— Um assassinato! — exclamou outro.
Antes que a situação se tornasse um problema legal, Haftor avançou até o corpo mutilado de Jorgan. Colocando as mãos sobre o mercenário caído, invocou milagres divinos para fechar o terrível ferimento no queixo e despertar o homem, poupando sua vida.
— Está vivo e desperto. — anunciou o paladino.
— Tá tudo certo. — informaram os guardas. — Briga de taverna.
Jorgan despertou atordoado, segurando o próprio queixo, com a língua ainda machucada e presa, e olhou para o sacerdote que fora enviado para caçar e que agora o curava.
— Obrigado, Haftor. Não vou mais persegui-lo.
— É bom saber disso.
— Luta bem. — disse o homem, voltando-se para Garuk.
— Eu queria que você lutasse melhor, mas obrigado. — desdenhou Garuk.
Para selar o humilhante fim do contrato do mercenário, Haftor lhe deu uma última penitência antes de liberá-lo junto de seus homens perplexos.
— Sua ressurreição não pode ser gratuita. Não esqueça de passar em um templo no caminho e fazer uma doação... Não deixa no de Telas também não, tá?
Os mercenários de Telas recolheram suas coisas e partiram derrotados. Sob os olhares de admiração dos anões, que cumprimentavam Garuk com respeito, os aventureiros retornaram para a taverna para terminar a refeição prometida.
A estratégia para entrar em Blur
— Muito obrigado, meus amigos. Eu vou ficar com vocês. — declarou Demétrius, após o julgamento informal realizado por Haftor, que o absolveu.
Enquanto comiam, os aventureiros começaram a debater seus próximos passos em relação aos elfos sombrios e ao misterioso contrabando. Eles sabiam que precisavam atrair os inimigos para fora, mas também concordavam que, antes de qualquer confronto direto ou emboscada, era fundamental garantir o acesso oficial às galerias internas de Blur. Evitando os tortuosos caminhos da burocracia, Haldor decidiu que a melhor tática seria uma abordagem direta e pessoal com o líder militar.
Como o nome de Haftor ainda estava manchado pelas acusações vindas de Telas, Haldor optou por levar consigo o recém-resgatado Kórgan.
Haldor e Kórgan caminharam até o imenso paredão na montanha e adentraram por uma porta guarnecida. Os anões presentes abriram caminho em sinal de respeito. No trajeto, foram abordados por um guarda anão conhecido de Haldor, que ficou surpreso ao ver Kórgan vivo.
— Olá, Kórgan. Achei que estava morto! É um prazer vê-los bem. Vieram falar com quem? — questionou um dos guardas.
— O prazer é nosso, meu querido. Viemos ver o mestre Gruntor. — anunciou Haldor.
— Venham comigo. Eu os levo até ele.
— Como estão as coisas?
— Você ouviu falar do resfriamento do Krokanon? Algumas alas de Blur estão preocupadas, achando que podem congelar. Os artífices também dizem que não vão conseguir trabalhar e que as tradições vão se perder.
— Daremos um jeito, nem que tenhamos que pedir ajuda aos magos para aquecer nossas forjas.
— Não diga isso para Gruntor ou vai conquistar a antipatia dele pela eternidade. — alertou o guarda, que já terminava o trajeto até a grande porta de madeira que separava o corredor de pedra da sala do líder militar.
— Como está, meu amigo? — indagou Gruntor, aproximando-se para cumprimentar Haldor com um abraço.
— Estou bem.
— Está bem mesmo? Ouvi notícias trágicas sobre seu irmão.
— Tudo mentira.
— Eu não duvido. Aquele sacerdote de Telas é um tremendo vigarista.
— Na verdade, venho, além de cumprimentar meu nobre amigo, que não vejo há tempos, para trazer de volta nosso amigo Kórgan, que estava prisioneiro.
— É uma honra ver um guarda veterano sobrevivente de tantas batalhas. — elogiou Gruntor, referindo-se a Kórgan. — Cada um de nossos homens armados é uma peça importante.
— Temos traidores. — alertou Haldor.
— Pelo visto, sua estadia na superfície não o amoleceu nem um pouco, meu amigo.
— Pelo contrário! Vi coisas horríveis e vi que nossa tradição e filosofia devem ser cada vez mais preservadas.
Preparado o terreno diplomático, Haldor expôs o verdadeiro motivo da visita. Revelou que sua comitiva investigava os infiltrados em Blur e ousou ligar o contrabando à anomalia do vulcão.
— Eu falei com Ferrembrasa, e ele me orientou a falar pessoalmente com você para que autorizasse eu e minha comitiva, sob minha total responsabilidade, a atravessar nossos domínios.
Apesar do olhar desconfiado, Gruntor pareceu considerar o pedido.
— Hum... entendo. E são você e mais quantos?
— Somos oito.
Ao mencionar cada um dos companheiros, Gruntor invocou as tradições.
— Nossa tradição não permite que não anões entrem em Blur. Por que abriríamos uma exceção agora?
— O Krokanon está definhando, reduzindo sua potência, e nós temos uma chance de recuperar seu vigor. Horgrundis está contrabandeando Corvear debaixo dos nossos narizes.
— Nós não estamos conseguindo resolver isso.
— E este pode ser o motivo que está enfraquecendo o nosso vulcão. Eu tenho certeza de que, se resolvermos esse problema, você será lembrado como o grande líder que autorizou esse feito.
— Mesmo assim... — ponderou o líder de Tar-Néldor. — Parece-me algo muito delicado autorizar o acesso de cinco não anões às galerias de Blur. Você compreende a responsabilidade.
— Com certeza. — compadeceu-se Haldor. — E eu me responsabilizo por cada um deles e dou o meu pescoço a prêmio.
— Sua honra e sua reputação como fiadores deste acordo não são pouca coisa. — considerou Gruntor. — Mesmo seu irmão, que teve a honra manchada pelos últimos episódios, ainda mantém reputação entre os nossos, graças a tudo que cultivaram no passado.
— Mas em breve meu irmão terá o nome limpo. São apenas boatos maldosos de pessoas corruptas.
— Bem... vou precisar pensar uma noite. — anunciou. — Traga-me os nomes e o histórico de cada um dos não anões que o acompanharão. Eu decidirei pela manhã.
Com a promessa de Gruntor, Haldor despediu-se do mestre anão e retornou rapidamente à taverna onde o resto do grupo aguardava. Explicou as dificuldades da reunião e as exigências impostas para a liberação.
Os membros do grupo tentaram entender exatamente o que deveria constar naquele documento oficial e quais eram os limites da tolerância de Gruntor.
— Eu dei a minha palavra a ele de que não vamos fazer nada de errado e nem divulgar nenhum dos segredos que veremos lá embaixo. — explicou Haldor.
Sabendo da exigência de um relatório minucioso e formal sobre os feitos heroicos de aventureiros tão exóticos, o grupo recorreu imediatamente ao talento providencial do membro recém-absolvido. Com isso, Haftor encarregou-se de redigir o pergaminho em pedra, enquanto Demétrius o ditava minuciosamente, garantindo as palavras certas para que todos os feitos realizados por cada membro fossem traduzidos em características aceitáveis para seu acesso ao reino anão.
A mensagem foi entregue na fortaleza com o raiar do sol. Depois, por volta das onze horas, enquanto uma leve neve caía sobre a cidade de Tar-Néldor, um mensageiro da fortaleza chegou à estalagem procurando pelo responsável pelo pedido. O pergaminho dizia:
“Sob a responsabilidade do guarda Haldor, estão autorizados a entrar em Blur os sekbetes Garuk e Goragar, o napol Réctor e os humanos Olgaria e Demétrius. Nenhum deles poderá permanecer desacompanhado de Haldor enquanto se encontrar nas galerias. Se capturados, serão exilados eternamente. Esta autorização tem validade de quinze dias.”
O grupo comemorou. No entanto, ainda tinham tarefas a cumprir antes de entrar. Os quinze dias passavam a contar imediatamente.
A estatueta de Rodérico
Antes de começarem sua jornada de volta ao sul, Réctor verificou a integridade de sua casa dos sonhos. Como utilizava a tiara de Andote, o napol esperava observar alguma alteração nos filamentos dourados. O que viu, no entanto, foi um congelamento total do progresso da Aurora Gelada em sua mente. Nenhuma mudança foi observada: nenhum fio aumentou e nenhum diminuiu enquanto permaneceu com o adorno. Apesar disso, o feiticeiro sentia algo diferente. Algo inexplicável que parecia tornar o ambiente de sua casa distinto do que era em seu acesso anterior.
Sem conseguir deduzir do que se tratava, Réctor voltou-se para o planejamento de como atrair os elfos sombrios para uma armadilha junto de seus companheiros.
O plano consistia em montar uma armadilha na estrada e sobrevoar a área com a nuvem voadora. Quando os elfos sombrios encontrassem a isca, a estatueta de Andote, o grupo os abordaria de surpresa.
Definida a estratégia, retornaram para o Solar das Sombras Longas para falar com Andote e pegar a estatueta.
— Acho que essa é a peça ideal para vocês levarem. — disse Andote, carregando uma estatueta com a inscrição: “Talvez forma e memória sejam a mesma coisa”. — Levem esta.
Com o objeto em mãos, Réctor relatou à artesã a eficácia da tiara de Corvear.
— A tiara inibe a influência da Aurora.
— Interessante... Eu tenho sentido algumas coisas esquisitas. Vou usá-la. Talvez meu pai estivesse certo.
Antes de partir, Réctor explicou que, caso precisasse conversar com Andote, a convocaria em sonhos.
A maga do grupo de Kovor fora a única prisioneira ainda não entregue à justiça. Sombra a ressuscitou, pois o grupo precisava obter algumas informações.
— Eu negociei com anões em Vir-Máliz. — disse a maga.
— Você sabe o nome desses anões ou a aparência deles?
— Os que eu conversei, sim.
— Então entregue-os.
— Nenhum deles era Horgrundis. Eram dois subordinados dele.
Réctor demonstrou desprezo pela situação da maga, uma estudiosa que se vendera para uma função mercenária. A mulher, indignada, rejeitou a pena que o napol sentia.
Réctor, então, pôs-se a fazer um retrato falado dos anões que a maga descreveu. Com a arte em mãos, o grupo tinha mais uma ferramenta para encontrar os traidores.
Estavam prontos para colocar o plano de emboscada em ação.
Tar-Néldor, dias 28 e 29 do mês da Sabedoria do ano de 1502



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