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terça-feira, 28 de abril de 2026

(VS) Sessão 31

O reencontro em Vesk Prime

Sobrecarregando a ala médica

Edric descobriu muitas informações sobre si nos registros do laboratório secreto da Dr.ª Reed, mas os computadores não pareciam conter mais dados úteis.

Os equipamentos do laboratório e os clones encontrados estavam sendo mantidos vivos pela energia obtida do próprio planetoide, embora não estivesse evidente a origem dessa energia.

— Quem sabe não levamos um desses clones? Talvez possamos fazer a Berenice voltar para o corpo… para um corpo de Evelyn Reed — sugeriu Rykk.

— Não consigo imaginar o que eu mesma faria — questionou-se a IA, em crise de identidade.

Ed, que operava os computadores, alertou que os tanques estavam energizados e que removê-los dali poderia provocar a morte dos clones.

— Dá para a gente preservar e levar? Ou conectar uma fonte secundária de energia enquanto transportamos? — insistiu Rykk.

Em grupo, os aventureiros descobriram uma forma de transportar os clones com vida por até dez horas. Após esse período, os corpos perderiam suas funções orgânicas sem uma fonte de energia ativa e o protocolo de simulação biológica.

Diante da necessidade de sintetizar nutrientes e estabilizar o fluido em que os clones estavam, Ed copiou os programas pertinentes dos computadores do laboratório após uma busca nos terminais que havia desbloqueado.

— Temos todo o necessário na nave — relatou Kassius, assim que viu a lista de insumos médicos necessários para a síntese.

O próprio Kassius decidiu transportar os tanques manualmente. Os robôs, que haviam sido hackeados e seriam levados pelo grupo, não possuíam mãos adequadas para manipulá-los com segurança.

— O que está fazendo com esse tanque? — surpreendeu-se Astra ao ver o soldado retornar para a Berenice com o enorme dispositivo nas costas, carregando um clone.

— Ah, isso aqui é… vamos tentar fazer uma consciência.

— E onde vamos colocar isso? — indignava-se a androide, que havia acabado de organizar a ala médica com os novos equipamentos adquiridos em Absalom para permitir a cirurgia em Vexia.

Ainda assim, o grupo encontrou uma forma de instalar os tanques.

As quatro máquinas de guerra hackeadas também foram levadas para a nave, sob total controle do grupo. Pip, solicitando alguns UBPs, fabricou dois pares de mãos para dois robôs, permitindo que auxiliassem na manutenção pesada da nave.

O problemático Allen

O grupo estava pronto para seguir viagem rumo a Vesk Prime. Porém, Allen mantinha a pressão por seu laboratório.

B9i, o Benólio, como Ed o chamava, trouxe suas reclamações:

— Dr. Allen segue insistindo que eu ainda não o ajudei. Está insistindo tanto que estou cogitando dar início à construção do seu laboratório, mas não sei onde fazer.

— Perfeito — respondeu Ed — vamos falar com o capitão. Ele vai saber onde montar o laboratório do Allen.

Ao solicitarem o apoio de Rykk, ouviram que a decisão já estava tomada:

— Já estava definido onde seria… na sala de reuniões. Vamos usar a sala que nunca usamos.

— Ô, Benólio, mas o Pip está trabalhando lá — esclareceu Ed — precisamos limpar a nave antes. Tem que explicar isso para ele.

— Eu já comuniquei. Ele respondeu que eu sou lento e incompetente.

Franzindo a testa draconiana, o capitão ordenou que Kassius trouxesse Allen até a ponte.

Depois de uma condução silenciosa pelo soldado, Allen finalmente chegou, demonstrando seu egocentrismo habitual.

— Eu sabia que precisariam da minha genialidade em algum momento.

— Bem, Allen, aqui será seu laboratório — disse Rykk, apontando para os monitores.

— Ah! — interrompeu Allen, tirando um papel manuscrito do bolso — eu preparei uma lista de materiais necessários.

A lista era extensa. Incluía computadores, terminais, 700 metros de dutos, entre outras ferramentas. Apesar disso, a maioria poderia ser construída na própria nave, com a formatadora de UBPs.

— Podemos fabricar tudo com 500 UBPs — informou Berenice — no entanto, a fabricação é lenta. Levará pelo menos uma semana para concluir os materiais mais delicados, dependendo da precisão exigida.

— Mais uma semana?? — indignou-se Allen.

No entanto, não havia alternativa. O cientista retornou para seu quarto, acompanhando o progresso do protocolo de construção de seu laboratório.

Mudando de assunto, o capitão voltou ao quarto de Allen para interrogá-lo. Mostrando a imagem de Lucilda Crey, a comandante da Lança de Hierofante que tentou destruí-los na fuga de Absalom, iniciou:

— Allen, você conhece essa mulher aqui?

— Sim, conheço. Lucilda Crey.

— Amiga sua?

— Eu a conheci há muito tempo. Fizemos algumas cadeiras juntos na faculdade.

— Estudou marcenaria?

— Lucilda é uma boa mulher — respondeu com seriedade — mas endureceu com o exército, com a carreira militar. Perdemos contato. Já faz mais de um ano que não a vejo.

A recepção na Memória de Shilos

Após a explosão na porta do hangar de Bullet, Héctor carregou o Dr. Kenji Tanaka para dentro da Memória de Shilos. O capitão Signus, um verthani, o conduziu até uma sala de reuniões com uma mesa hexagonal e um holograma central.

O capitão sentou-se de maneira relaxada, apoiando os pés sobre a mesa antes de iniciar a conversa.

— Quer beber alguma coisa? — Não, obrigado — respondeu Hothspoth prontamente.

— Tem certeza de que não quer beber alguma coisa? Não vai falar nada?

— Não, não. Já tomei muito soro da verdade esta semana.

Percebendo que o solariano não estava disposto a relaxar, o verthani abandonou a abordagem leve e foi direto ao ponto.

— Você sabe o que eu quero de você?

— Não, mas você vai me dizer, não vai?

— Claro. Só estou testando. Você sabe que eu faço grandes negócios com a Lança de Hierofante, não sabe?

— Sei. Você tem um acesso alto.

— Exato. Mas tenho notado algumas coisas estranhas. Minha nave é rastreada, e fiquei sabendo que você conhece a localização de uma nave que não pode ser encontrada por eles. Preciso fazer alguns negócios com essa nave.

Hothspoth confirmou a situação única da Berenice, e Signus passou a pressionar pela localização do grupo. Não foi necessário muito esforço para fazê-lo falar: — Estarão em Vesk Prime.

Imediatamente, Signus pressionou um botão sobre a mesa: — Já temos a localização desses infelizes, Tralon. Trace rota para Vesk Prime. Já temos o que precisávamos.

Antes de encerrar a reunião, Hothspoth mostrou o dispositivo que havia obtido em Castrovel, capaz de emitir a frequência do Eco Sepulcral.

— Se importa se eu testar este rádio por aqui?

— O que é isso?

— Eu procuro por pessoas que reagem à frequência que ele emite.

— Nunca vi nada parecido. Você construiu isso naquela nave?

— Não. Encontrei em Castrovel.

— Cuidado. Aqueles lashunta não sabem fazer nada direito.

Com o dispositivo ativado, Hothspoth passou a percorrer a nave.

Ele cruzou o compartimento de carga, onde encontrou tripulantes transportando grande quantidade de armamento pessoal. Observou o movimento por alguns instantes, atento a qualquer reação fora do comum — mas nada ocorreu além da leve vibração causada pela frequência.

Na ala médica, reencontrou Sora e o Dr. Kenji Tanaka, agora recuperado e sentado em uma maca.

— Já falei com o capitão. Estamos rumando para Vesk Prime — anunciou o solariano.

— O que vamos fazer em Vesk? — questionou Tanaka — embora seja um bom lugar para desaparecer.

— Nós vamos encontrar os outros.

Em tom confidencial, Tanaka aproximou-se de Hothspoth, ainda mancando: — As ampolas estão comigo. Se precisar delas, me avisa.

Hothspoth deixou a ala médica acompanhado de Sora. Ambos seguiram para a oficina, onde reencontraram o mecânico Talos, o mesmo que os havia salvado ao disparar um foguete contra os soldados da Lança de Hierofante.

Ele coordenava um grupo de cinco tripulantes que realizavam a manutenção de uma armadura energizável.

Hothspoth ativou novamente o dispositivo e observou o ambiente. Parafusos e pequenos objetos metálicos chegaram a vibrar e cair de uma bancada, mas ninguém apresentou qualquer reação física relevante, especialmente nada semelhante à dor intensa sentida por Ed.

— Você quer que eu conserte isso? — indagou Talos, ao notar o dispositivo nas mãos de Hothspoth — Onde você achou isso?

— Encontrei com uns elfos em Castrovel.

— Parece um equipamento sofisticado — disse ele, analisando-o com as mãos — apesar de inútil.

Após a inspeção, Héctor Hothspoth foi designado a um quarto compartilhado com Tanaka e Sora, enquanto a nave iniciava o salto de dias pela Deriva rumo ao sistema de Vesk.

A rachadura antes de encontro

Edric sentia uma dor incessante em seu braço direito. Inicialmente discreta, ela aumentava de forma dramática com o tempo.

A situação tornou-se crítica quando Flynn, ao inspecionar o cérebro e os olhos do Santo, constatou uma rachadura no âmbar.

O solariano chamou Ed para verificar a situação. Ao se aproximar, o piloto sentiu a dor lancinante característica de quando entrava em contato com fragmentos do Santo. Ainda assim, avançou.

— Melhor arrancar o vidro antes — sugeriu Flynn.

Quando o vidro de proteção foi removido, a dor se intensificou imediatamente.

— Aaah… tá doendo mais ainda! Kassius, me ajuda aqui!

Com a proteção removida, Ed, superando a dor atordoante, tocou o material. Um choque atravessou seu corpo. A dor veio acompanhada de uma visão. Um ritual. Um heptagrama. No centro… ele. E, depois, Kormiik. A imagem não era estática. Era um processo, uma substituição, um ciclo.

A rachadura no âmbar começou a se expandir.

— O cérebro e os olhos são a parte mais poderosa do Santo — informou Berenice — sozinhos, já foram capazes de provocar a Síndrome da Marcha Definhante.

A fissura crescia rapidamente, ameaçando um colapso completo do âmbar — e, possivelmente, um novo incidente semelhante ao de Riven Shroud dentro da nave.

Ed desmaiou.

Flynn e Kassius recolocaram o vidro de proteção, enquanto Pip foi chamado às pressas para avaliar o dano.

O mecânico analisou a estrutura. — Eu consigo construir um material novo… mas a solda… isso não é engenharia comum.

O grupo precisava arriscar. Pip construiu uma nova abóboda e preparou o material sintético necessário para conter a fissura. Flynn assumiu a tarefa. Sob risco de uma nova catástrofe, canalizou seus poderes fotônicos para realizar a soldagem. A luz se intensificou. Por um instante, parecia que o âmbar iria ceder. Mas não cedeu.

A solda foi concluída. O selamento foi imediato. A dor de Ed cessou no mesmo instante. O grupo isolou o cérebro em sua sala. A crise havia passado.

O reencontro em Vesk Prime

A Berenice saiu da Deriva nos arredores de Vesk Prime. O grupo ainda processava os acontecimentos recentes quando o capitão tomou a decisão: — Aportaremos no porto espacial mais próximo de nosso destino.

A nave aproximou-se de Porto Furioso, uma metrópole colossal que dominava a paisagem do planeta. Ainda em órbita, a tripulação pôde observar diversas naves de grande porte que permaneciam no espaço, incapazes de pousar na atmosfera densa.

A comunicação com as autoridades vesk foi estabelecida. — Estamos aqui para visitar um amigo — respondeu Rykk aos protocolos de acesso.

Para surpresa do grupo, a justificativa foi aceita sem resistência. Um hangar específico foi designado para a aterrissagem. Edric assumiu o controle manual e conduziu a nave com precisão sob as rígidas normas locais.

Assim que pousaram, mecânicos vesk iniciaram imediatamente os procedimentos de fixação magnética da nave, seguindo os protocolos de segurança do porto.

— Aterrissamos, capitão. Creio que poderei manter contato com a nave durante todo o tempo que permanecerem na cidade. A rede de infodados de Vesk Prime é muito avançada — informou Berenice.

— Ótimo — respondeu Rykk.

— Temperatura externa: 33 °C. Umidade: 93%. Tempo ensolarado — completou a IA.

Rykkgnaw, Edric, Flynn e Kassius desembarcaram, deixando Astra, Pip e os demais na nave para continuar os reparos e manter vigilância.

O ponto de encontro marcado por Garig era um pub pequeno, porém movimentado, localizado na região central da cidade.

— A que distância estamos do local? — perguntou Rykk.

— 12 quilômetros — respondeu Berenice.

— Vamos de carro.

O grupo contratou um serviço de transporte e seguiu pelas vias urbanas, cercadas pela arquitetura maciça e fortemente vigiada dos vesk, em direção ao ponto de encontro.

O outro lado do encontro

Enquanto isso, a Memória de Shilos chegava à órbita de Vesk Prime. Diferente da abordagem da Berenice, o capitão Signus optou por uma ancoragem clandestina, discreta e fora dos protocolos oficiais.

Hothspoth, acompanhado por Signus, o Dr. Tanaka e Sora, deixou o porto secundário em uma van conduzida por um subordinado do verthani. Percorreram cerca de vinte quilômetros até uma região central de Porto Furioso, marcada por uma avenida larga, de cinco faixas em sentido único e intenso fluxo de veículos.

A van estacionou no meio da quadra, em frente a um estabelecimento de grande porte, com capacidade para aproximadamente cem pessoas e vidros opacos que impediam a visualização do interior.

Ao perceber que Hothspoth se preparava para desembarcar, Signus interveio imediatamente: — Não, não, não… fica aqui. Calma. Toma isso.

Ele entregou um binóculo ao solariano e rapidamente explicou seu funcionamento. — Vamos observar daqui.

Hothspoth ativou o sensor térmico e passou a observar o interior do estabelecimento através dos vidros opacos.

As assinaturas térmicas revelaram duas figuras conhecidas: Garig e o soldado Francis aguardavam no local. Ainda não havia sinal do restante do grupo.

Enquanto aguardavam, Signus começou a se preparar para um possível confronto. Retirou seu arsenal e passou a organizá-lo dentro da van, demonstrando ansiedade crescente.

— Cadê o Ed? — perguntou, impaciente.

Hothspoth manteve o olhar fixo na rua. Pouco depois, um veículo elétrico se aproximou e estacionou em frente ao estabelecimento. Era o transporte utilizado pela tripulação da Berenice.

No mesmo instante, pelos comunicadores, a IA alertou: — Hothspoth está aqui. O Hothspoth que vocês conhecem.

— Olha lá… com o draconiano — disse Hothspoth, observando.

— Aquele ali? — respondeu Signus, já recolhendo o armamento e abrindo a porta da van — então não tem erro.

Ele sorriu, com um entusiasmo perigoso. — Vai dar briga. E não tem como errar um draconiano.

domingo, 26 de abril de 2026

(LA) Sessão 37

O alquimista sombrio

O confronto no moinho

“E será a última coisa que verão.”

As palavras ecoaram na escuridão quando o grupo foi surpreendido após descobrir um moinho de mortalos.

Imediatamente, Réctor conjurou uma fonte de luz, dispersando a escuridão mágica invocada sobre o grupo. Monstros feitos de sombra estavam à espreita. No entanto, os inimigos reais estavam em uma área elevada: um mezanino sobre a área de moenda.

Haldor avançou contra uma das criaturas. Seu machado atravessou o corpo do monstro. O encantamento de sua arma brilhou, e a criatura sofreu.

— Volte para a escuridão de onde veio — bravejou o anão, ao ver que a criatura se reformava à sua frente e outras já o cercavam, obrigando-o a se defender.

Garuk também avançou, mas seus ataques com garras não surtiam efeito contra as criações do inimigo.

— Tem gente lá em cima — alertou o Guia, mirando seu arco.

Haftor convocou um milagre de velocidade. Rapidamente, subiu ao mezanino e avançou sobre o feiticeiro sombrio.

— Ah, eu deveria agradecê-lo, paladino… mas vou matá-los! Não deveriam se meter onde não são chamados. Já atrapalharam demais nossos interesses.

— Pelo jeito você não conhece bem a gente — respondeu Haftor, brandindo seu martelo. O inimigo se esquivou, mas logo se viu encurralado contra a parede.

Invocando poderes sombrios, o feiticeiro criou tentáculos mágicos sobre o grupo. Embora a maioria tenha conseguido evitar o pior, Garuk se viu preso, enroscado. O encantamento afetou sua mente e, em instantes, ele caiu inconsciente.

— Vão morrer aqui, eu disse!

— Geralmente, quando conta vantagem antes da hora… — provocou o Guia — a gente só precisa matar você, cara.

Haftor, Olgaria e Sombra cercaram o elfo sombrio no mezanino.

— Saiam! Ataquem minhas feras! — gritava o elfo, em vão. Ele estava cercado e sob forte pressão dos aventureiros.

Os dois guardas que o protegiam nada podiam fazer. O grupo focava seus ataques no líder e apenas se defendia dos dois, impotentes diante da ferocidade dos aventureiros.

— Seus inúteis! Vou deixá-los aqui — bradou o feiticeiro, antes de desaparecer em um passe de mágica.

Suas criações sombrias, que ainda lutavam contra Haldor e Demétrius no andar de baixo, dissiparam-se imediatamente.

Frustrados com a fuga do vilão, os aventureiros voltaram-se para Garuk. O encantamento o atingira em cheio, e he não acordaria facilmente. Haftor usou um milagre de regeneração, garantindo que ele ficaria bem e despertaria o mais rápido possível.

— Eu sei para onde ele foi — anunciou o Guia, que continuava a rastrear os sinais do inimigo. — Ele se teletransportou para fora. Depois, para a cidade.

A evolução dos poderes do sekbete agora lhe permitia sentir o rastro energético de sua presa. O feiticeiro não escaparia tão facilmente.

— Ok, vamos atrás dele. Temos que pegá-lo! — completou Haftor.

Os dois guardas deixados para trás se renderam sem resistência. Foram amarrados junto à coluna do mezanino. Olgaria e Demétrius ficaram com eles, aguardando o despertar de Garuk, enquanto Haftor, Haldor, Réctor e o Guia saíram em perseguição.

O Guia correu por terra, com seus movimentos ampliados por magia. Haftor veio logo atrás. Réctor voou em direção à cidade, seus olhos atentos a qualquer anomalia. Haldor seguiu seus companheiros de longe.

O rastro levou o grupo até a mansão de Syllen’ae, agora vazia.

O Guia ordenou a seu morcego sombrio que ficasse de prontidão sobre a mansão, enquanto Réctor preparava a convocação os demais.

— Ele não vai longe — disse o Guia. — Rápido.

Enquanto isso, no moinho, Garuk despertou com a visão de Demétrius ao lado dos dois elfos sombrios amarrados. Ao saber que os prisioneiros não colaboravam, resolveu agir.

— Sim ou não? — perguntou Garuk ao prisioneiro, sem qualquer contextualização.

O elfo acenou positivamente com a cabeça.

Sem dizer mais nada, Garuk jogou água em seu rosto e, em seguida, pisou com violência em seu pé, quebrando os ossos com um estalo seco.

Demétrius recuou, assustado com a ação repentina: — Só para saber… se ele tivesse dito “não”, você faria o quê?

Antes que concluísse, Réctor surgiu em um portal.

— Venham. Tragam os prisioneiros.

A morte de Gol-Mir-Huan

A mansão estava quase vazia, mas alguns guardas elfos sombrios ainda faziam a vigilância. No entanto, ao verem os aventureiros avançando impetuosamente, recuaram e trancaram as portas.

— Pé na porta! — ordenou Haftor.

Garuk brandiu seu machado e atacou com ferocidade. A lâmina atravessou a porta e, ao ser puxada de volta, arrancou toda a folha de madeira consigo.

— Com licença, posso entrar? — disse o sekbete, avançando.

Os guardas correram para as alas internas, apavorados.

— Como ousam vir até aqui? — disse o feiticeiro sombrio, Gol-Mir-Huan, do alto da escadaria. — Este local é protegido por leis!

— Ah, cala a boca — retrucou o Guia.

— Eu sou a lei! — anunciou Haftor.

— Eu só quero que você cumpra sua palavra de nos matar — provocou o Guia.

Sem disposição para sustentar o confronto, o feiticeiro desapareceu novamente em meio a flechas e magias disparadas pelos aventureiros. Ainda assim, o Guia continuava a sentir sua energia. O rastro do teleporte o levou para o fundo da mansão. O grupo sabia onde encontrá-lo.

Mais uma vez, os aventureiros partiram em perseguição, correndo pelos corredores estreitos. Poucos segundos depois, Réctor chegou à porta do cômodo indicado pelo Guia. Ao abri-la, encontraram Gol-Mir-Huan abrindo um portal mágico.

Ele olhou para os aventureiros com uma expressão mista de pavor e ira.

Haldor, que vinha correndo desde a floresta, aproximava-se da mansão. Próximo dali, avistou alguns guardas de Telas. Sabia que, se o grupo fosse encontrado dentro da mansão dos elfos sombrios, haveria problemas. Assim, entrou para alertar seus companheiros.

Flechas começaram a chover perto do feiticeiro, que se abaixou, apavorado. Uma delas atingiu seu cajado, arrancando a caveira de sekbete que adornava sua extremidade.

Gol-Mir-Huan ergueu-se, tentando dar um passo em direção ao portal.

Nesse momento, uma flecha do Guia atravessou seu peito.

O elfo caiu instantaneamente, metade para fora, metade para dentro do portal.

Haftor puxou o corpo antes que o portal se fechasse. O inimigo estava morto, com o coração perfurado.

— Elfo sombrio é tudo mentiroso mesmo. Não cumpre nenhuma promessa — disse o Guia.

— Os guardas estão chegando, temos que acelerar — alertou Haldor, ao alcançar o grupo.

O anão fora ágil o suficiente para não ser visto, mas a porta destruída chamava atenção.

Sem perder tempo, Réctor conjurou um feitiço para levar o grupo de volta ao beco onde Demétrius e Olgaria mantinham os prisioneiros e, depois, ao moinho, onde Lismara ainda aguardava.

Para não deixar rastros imediatos, o napol ordenou que levassem todos os itens encontrados.

O segredo dos Mortalos

Com o feiticeiro fora de combate, o grupo voltou sua atenção aos prisioneiros.

— O que vocês estavam fazendo aqui? Por quê? E para quem? — exigiu o Guia. — Já viu que a gente não está com paciência, né?

— Eu não sei direito de nada… — respondeu o elfo sombrio de pé quebrado. — Só protegemos a fábrica de mortalos.

— Cadê o produto?

— Está lá fora, no armazém. É um orvalho… Orvalho de Nosrog.

— E quem é esse inútil aqui? — questionou o Guia, apontando para o cadáver do feiticeiro.

— É um dos alquimistas… Não sei exatamente a quem servia. Talvez Minoliz. Syllen’ae vivia na cidade e transmitia as ordens.

Enquanto o Guia interrogava, Réctor analisava os itens trazidos da mansão e do moinho. Encontrou um mapa, um pergaminho técnico, moedas de ouro e uma chave no corpo do feiticeiro.

O pergaminho continha uma receita alquímica manuscrita: “O Refino da Sombra — Mortalos Purificado”, dizia no cabeçalho.

— “Apresento o registro encontrado nas anotações do mestre alquimista Aroin Beor…” — lia Réctor. — “Destinatária: Ilustríssima Alcormi Minoliz, Cidadela de Icumus, procedente do moinho de Vir-Maliz, nas escavações de Telas.”

— Icumus? Esse nome aí é o quê? — perguntou o Guia, ao reconhecer o termo.

— “O chorume resultante deve ser lavado nas águas que vertem da estátua da Dama…” — continuou Réctor. — “Esta água, por sua natureza divina de repelir o mal, atuará como filtro de ordens superiores, deixando apenas a essência limpa e estável da sombra.”

Em outras palavras, os elfos sombrios estavam utilizando a água da Dama e o pó de mortalos para purificar karma infernal. No entanto, a própria água era contaminada no processo.

— “Este pó, quando ungido sobre ferramentas de corvear…” — seguiu a leitura — “permite que o mestre entalhe o recipiente sem que a fúria da entidade entrelace a mente do artífice.”

Os aventureiros discutiram as implicações do que haviam descoberto. Intrigaram-se com o fato de a água contaminada estar gotejando exatamente sobre a estátua, questionando se aquilo era intencional ou acidental.

— Como funciona esse sistema aqui? — perguntou o Guia ao prisioneiro. — Onde vocês guardam o Orvalho?

— Eu não sei… eu só guardo a porta… — respondeu o elfo ferido, em pânico. — A carga está lá fora… por favor, meu pé…

— Ele não vai falar nada útil — disse Haftor.

Nesse momento, percebendo que o grupo negociava, e não torturava, o segundo elfo sombrio falou pela primeira vez, em élfico:

— Deixe-o. Ele é apenas um recruta. Não sabe a fórmula. Eu posso lhes dizer o que querem saber… sem que precisem recorrer a mais dessa brutalidade.

O prisioneiro ferido reagiu com desprezo, cuspindo na direção do companheiro enquanto era libertado para interrogatório.

O elfo sombrio conduziu o grupo até o armazém. Ao abrir um baú, um gás roxo exalou. Ele mergulhou a mão no conteúdo e retirou um pó fino, que escorreu por seus dedos. O cheiro pútrido de mortalos era inconfundível. A sensação era de um peso místico, perceptível mesmo à distância.

Buscando demonstrar generosidade diante de Lismara, Réctor decidiu libertar o prisioneiro sobrevivente, apesar dos protestos de Garuk e Olgaria.

— Não podemos deixar ninguém para trás — disse Olgaria. — Eles vão voltar para nos atacar!

— Você ainda vai se arrepender dessa generosidade — alertou Garuk.

— Lismara está apavorada com a gente. Eu sou um gentleman. Quero que ela veja que não somos monstros.

— E quem disse que eu quero que ela pense isso? — retrucou Garuk.

A decisão de Réctor prevaleceu.

Antes de libertá-lo, porém, Garuk arranhou o braço do elfo com sua garra. Deixou o sangue escorrer, colheu um pouco e farejou. Em seguida, passou ao Guia, deixando claro que o rastro poderia ser seguido.

O elfo partiu sem dar as costas ao grupo, até sair do armazém. Depois, correu em direção à floresta.

— Quanto ao outro?

— Esse não tem salvação — respondeu Réctor.

Olgaria foi a carrasca. Com um golpe preciso de machado, decapitou o prisioneiro ferido.

Do lado de fora, Lismara e Demétrius conversavam. A arqueóloga mantinha uma expressão severa, talvez de tristeza, talvez de preocupação.

— Viu? — disse Réctor. — Se as pessoas falarem e fizerem o que pedimos, depois de atacarem a gente, saem livres.

A mulher desviou o olhar.

— Não se preocupe comigo — confortou Demétrius, colocando a mão sobre o ombro da amiga.

Após uma breve discussão sobre o destino dos objetos encontrados, Réctor ordenou que Sombra chamasse Móros. A necromante chegou rapidamente por um portal.

— Toma, Móros. Pode ficar com isso — disse Réctor, entregando o pergaminho e indicando os barris.

— Posso ficar com isso? — perguntou ela, surpresa. — Vou trazer alguns serviçais para carregar tudo.

Com um estalar de dedos, quatro esqueletos atravessaram o portal e começaram a transportar os barris para o colégio necromante.

— Vai guardar ou destruir? — questionaram.

— Estudar. Terá o destino adequado. Os elfos sombrios nunca mais verão isso.

— Isso permite usar a energia da Aurora — alertou Réctor. — Mas eu não sei a que custo. Então, cuidado.

— Teremos o cuidado necessário.

O fio dourado dos sonhos

— Ô, magrelo… quanto de moeda tem aí? — perguntou o Guia a Demétrius, arremessando o saco.

— Hum… 57 moedas de ouro e 112 de prata.

— Vamos fazer o seguinte: você fica responsável pelos pagamentos até o fim da nossa jornada. E faça recibo de tudo!

— Eu faço — respondeu Demétrius, com uma risadinha.

— Quando eu precisar de alguma coisa, você compra, entendeu? E sempre tem que ter o dinheiro. A menos que você gaste demais… aí já não é problema meu.

Com isso, o grupo começou a se dispersar para descansar.

Haldor e Haftor foram para a taverna. Ainda no início da noite, receberam um mensageiro.

— O sacerdote Thragnar retornou ao templo de Crizagom. Ele deseja falar com o senhor Haftor. Aguarda-o amanhã pela manhã.

— Não pode ser à tarde? — indagou Haldor.

— Vamos pela manhã — respondeu Haftor.

Réctor passou o restante do dia preparando o ritual para abrir sua casa dos sonhos permanente. A porta ficaria a alguns metros do mausoléu de Vandril Kel, conforme orientação de Móros.

O feiticeiro forjou dez chaves. Além disso, criou “habitantes” para seu mundo onírico. Os moldou como versões alteradas de pessoas que conhecera em suas aventuras. Um Silvan serviçal, um Asdrúbal reclamão, entre outros.

O ritual foi concluído com a criação das chaves, materializadas a partir de sua própria mente. Após entregar uma delas a Móros, Réctor abriu a porta para contemplar sua nova criação.

Em sua mente, o centro do local era ocupado por uma árvore colossal. Ilhas flutuavam ao redor, formando ambientes distintos. Era um espaço moldado por sua vontade.

Mas algo estava diferente.

Um fio dourado envolvia a árvore, apertando-a e se espalhando por seus ramos. Por onde passava, novos galhos surgiam, com folhas vibrantes e cores intensas.

A aura do ambiente não era apenas dele.

Não apenas pela influência do Domo, visível como já ocorrera em sua criação anterior, mas por aquela presença estranha — algo que não lhe pertencia.

Telas, dia 14 do mês da Sabedoria do ano de 1502

terça-feira, 21 de abril de 2026

(VS) Sessão 30

O mistério de Reed e a fuga de Bullet

A Fuga

Hothspoth continuava em sua rotina desorientadora de dopagem e despertar, enquanto Tanaka planejava o melhor momento para escapar.

Em algum momento anterior, Sora entrou sozinha no laboratório, carregando uma bandeja com equipamentos médicos, e dirigiu-se a Hothspoth. Ela o encarou fixamente por alguns instantes antes de falar. Após perguntar se ele estava bem, aproximou-se e continuou, em voz baixa:

— Como você se sente ao saber que é um clone?

Hothspoth assentiu, como se não se importasse.

— Este lugar é assustador. As coisas que Kormiik faz aqui são repugnantes. Ele não é confiável, embora muitos não percebam. Eu preciso ir embora.

A mulher parecia buscar algum sinal de confiança. Ao sair, deixou implícito que acreditava que Hothspoth poderia ajudá-la a deixar o asteroide.

Alguns dias depois, Hothspoth despertou com Tanaka e Sora entrando discretamente no laboratório. O cientista carregava uma caixa, enquanto Sora permanecia na porta, armada, vigiando o corredor.

— Kormiik não está. Foi atrás da coordenada da perna. Temos tempo — disse Tanaka, nervoso.

Ele abriu a caixa, retirou duas pistolas, libertou Hothspoth e lhe entregou uma delas.

— A nave de Signus chegou. Está na hora.

O trio saiu do laboratório em direção ao hangar de naves grandes. Não encontraram ninguém nas áreas de pesquisa, mas o ambiente mudou ao se aproximarem da ala residencial.

No corredor que dividia as alas, viram um grupo de soldados conversando próximo aos alojamentos.

— Não chamem atenção — alertou Tanaka.

Hothspoth manteve o ritmo com diligência. Ainda assim, um dos guardas desconfiou e passou a segui-los. No meio do corredor, chamou por Tanaka, mas o cientista seguiu andando sem reagir.

Sora liderava o caminho. Ao se aproximar de uma porta metálica, ela se abriu automaticamente. Hothspoth entrou em seguida e se deparou com uma área de segurança, detecção e purificação de radiação. Dois operadores armados, um em cada extremidade da sala, monitoravam os computadores que analisavam quem passava pelo centro do corredor.

Alguns instantes depois, Tanaka conseguiu despistar o guarda e entrou na sala.

Sora atravessou a área sem problemas. Hothspoth veio logo atrás. Quando passou pelo centro, um alerta foi disparado. Um dos operadores se levantou:

— Parado!

Hothspoth não hesitou. Avançou e disparou seu raio solar, neutralizando o operador junto aos terminais. O alarme soou imediatamente.

Tanaka correu até alcançá-los, enquanto o segundo operador abriu fogo. Os disparos foram imprecisos, mas um atingiu o cientista de raspão.

O trio escapou da área de segurança e avançou até o hangar. Quando a porta automática se abriu, encontraram quatro guardas armados em posição de emboscada.

— Rendam-se! — ordenou um deles.

Sora, Tanaka e Hothspoth ergueram as mãos. Porém, quando um dos guardas se aproximou, o solariano reagiu rapidamente: desarmou o inimigo, fez dele refém e sacou a pistola recebida de Tanaka, abrindo fogo contra os demais.

O hangar foi tomado por disparos elétricos, enquanto a porta de carga da nave de Signus se abria. O som das armas era abafado pelo alarme incessante.

O refém de Hothspoth foi atingido por armas incapacitantes, e a descarga elétrica se propagou para o solariano, que o soltou. O guarda tentou reagir no chão, mas um chute preciso o lançou contra o piso rochoso.

Tanaka foi alvejado e caiu inconsciente. Sora também foi atingida, mas resistiu.

Enfrentando os três soldados restantes, Hothspoth disparou sua arma laser até ela travar. Sem hesitar, descartou-a e passou a usar seu poder solar, ferindo um dos inimigos.

O som da porta da área de segurança se abrindo indicava reforços chegando. Hothspoth avançou e liberou sua aura solar, mas apenas um dos soldados caiu.

Foi então que, da nave, surgiu uma silhueta armada com uma bazuca. No momento em que a porta do hangar se abriu para revelar dezenas de reforços, um míssil foi disparado, destruindo a entrada e bloqueando o avanço inimigo.

— Corram! — gritou a voz vinda da nave.

Hothspoth agarrou Tanaka pelo colarinho e o arrastou consigo. Carregando o cientista, atravessou o campo de batalha enquanto os inimigos, atônitos, não reagiam a tempo. Sora o seguiu.

Em poucos segundos, estavam dentro da nave de Signus. Os disparos inimigos atingiam o casco e os escudos sem efeito.

Hothspoth havia escapado.

O coração metálico

A coordenada apontada como destino do corpo da Dra. Reed levava a um planetoide à deriva. Pequeno, metálico, deserto e sem atmosfera, o local não representava obstáculo para pouso.

— A coordenada aponta para o subterrâneo — informou Berenice. — As características do planetoide indicam que perderemos contato com a nave assim que descermos.

— Há indícios de SMD no núcleo — afirmou Flynn, analisando os sinais complexos dos sensores.

— Vamos descer — ordenou o capitão.

O grupo desembarcou com equipamentos apropriados para baixa gravidade e ausência de atmosfera. Caminharam algumas dezenas de metros até uma estrutura semelhante a um alçapão. Ao abri-lo, o ar interno escapou rapidamente para o vazio. Abaixo, uma escada descendente revelava o único caminho.

A escadaria metálica era longa. Enquanto desciam, o alçapão se fechou, e o ambiente começou a ser pressurizado.

Ao final da descida, encontraram uma cortina metálica que levava a um corredor extenso. O sinal da nave já havia sido perdido, e Berenice permanecia acessível apenas pelos comunicadores.

O ar que preenchia o ambiente carregava um cheiro ácido de metal antigo e corrosão. A atmosfera era densa e desconfortável.

Após uma curva, um ruído mecânico os colocou em alerta. Um robô humanoide surgiu adiante e, sem qualquer aviso, abriu fogo contra o grupo.

O confronto foi inevitável. Flynn assumiu a linha de frente, alternando entre seus poderes fotônicos e gravitônicos. Kassius posicionou-se logo atrás, protegendo Rykk e Edric na retaguarda.

As máquinas não economizavam munição: metralhadoras giratórias varriam o corredor enquanto uma delas disparou um foguete que explodiu contra a estrutura metálica, sacudindo o ambiente. Ainda assim, os aventureiros estavam preparados. Já não eram iniciantes. Em poucos minutos, destruíram as duas primeiras unidades. Em seguida, mais duas que surgiram pelos corredores metálicos pouco iluminados.

A estase de Evelyn Reed

O fim dos corredores metálicos conduziu o grupo até uma porta destrancada. Apesar de pesada e enferrujada, abri-la não foi um desafio.

Do outro lado, depararam-se com dois tanques de incubação. Dentro deles, imersas em um fluido esverdeado, espesso e opaco, podiam ser vistas as silhuetas de corpos femininos adultos em formação.

Na mesma sala, do outro lado, havia terminais, consoles, uma maca e uma câmara de armazenamento criogênico.

— Está vazia — avisou Flynn, ao se aproximar da câmara. — Evelyn não está aqui.

Edric dirigiu-se aos consoles. Com habilidade, burlou os sistemas de segurança e acessou registros de um projeto já conhecido: o Projeto Receptáculo.

“O hospedeiro Edcrin teve 97,5% de aprovação”, dizia um dos trechos.

“Kormiik e Ed são dois dos três receptáculos mais prováveis para hospedar o Santo”, apontava outro.

“Kormiik hospeda o braço esquerdo do Santo.”

As informações eram numerosas… e perigosas. Os dados ocuparam rapidamente toda a capacidade disponível nos dispositivos do grupo, impedindo Berenice de processar novos conteúdos em tempo real.

Entre os registros, um novo projeto chamou atenção: o Projeto Receptáculo Digital. Tratava-se de uma tentativa de digitalizar completamente uma mente humana e, posteriormente, restaurá-la em um cérebro físico.

Evelyn Reed figurava como responsável.

Seu nome aparecia repetidamente nos registros daquele local. Os arquivos indicavam que suas pesquisas haviam começado há cerca de dois anos e seguido de forma intensa e contínua até seis meses atrás.

Então, abruptamente, cessaram.

Sem conclusão ou registros finais.

Projetos interrompidos. Estudos incompletos.

Algo havia acontecido com a cientista.

domingo, 19 de abril de 2026

(LA) Sessão 36

Sessão 36 - O artefato tindaeli

Os plantores amaldiçoados

Um senso de corrupção familiar era sentido por Haldor. O anão, recém-descobrira seus dons sensitivos, mas já era capaz de perceber que o monstro que atacava seu companheiro estava sob algum efeito maligno.

Do outro lado dos escombros, Garuk escutou os gritos de Réctor e Haldor e foi até o monte de pedras que os separava. Com as próprias mãos, potencializadas por seu rito berserker, o sekbete começou a remover pedra sobre pedra a fim de abrir caminho até seus companheiros em apuros.

Réctor havia desviado de um golpe repentino de tacape. Sombra surgiu para protegê-lo, cuspindo chamas contra o inimigo, que se defendeu sacrificando o escudo que carregava.

O feiticeiro lançou disparos de vácuo contra o monstro vegetal. A magia rompeu sua casca, revelando veios sombrios e cogumelos mortalos crescendo em seu interior.

— Ela está corrompida! — percebeu Réctor. — Essas criaturas não costumam ser malignas — completou o feiticeiro, lembrando que se tratavam de plantores, criaturas vegetais em harmonia com a natureza.

A criatura ainda não havia se recomposto de sua investida quando Haldor se aproximou com seu machado em prontidão. O golpe do anão partiu o monstro vegetal em dois. Um vapor escuro e ácido exalou do corpo destruído, penetrando suas vias respiratórias e fazendo-o tossir. Não fosse sua resistência inabalável, algo pior poderia ter ocorrido.

Garuk, auxiliado por Demétrius, conseguiu abrir a passagem alguns minutos depois. Réctor, Haldor, Lismara e Olgaria aguardaram antes de prosseguirem pelos corredores escuros.

— Essas criaturas… eu não sabia que elas estavam aqui — revelou Lismara.

A corrupção era forte no local. Mortalos cresciam junto às paredes, e uma sensação pesada assolava os sensitivos.

— Guia, talvez o seu pingente consiga purificar esse lugar, né? — sugeriu Haldor. — Ou talvez a água que vocês pegaram na nascente.

Mas o sekbete não arriscou descarregar seu artefato naquele momento. Os aventureiros exploraram a caverna por mais algumas dezenas de metros e, em uma área mais ampla, depararam-se com outra estátua, desta vez muito maior.

— Tem outra estátua aqui — avisou Réctor, enquanto coordenava seus companheiros para deixarem os corredores estreitos.

A estátua, com cerca de quatro metros de altura, erguia-se próxima à parede da caverna, sobre uma base alta e larga. Era de bronze e representava uma mulher apoiada em um cajado fincado no chão, cuja extremidade superior sustentava um cristal azulado. Mortalos cresciam na base, e veios sombrios pareciam se espalhar por algumas juntas.

Um som agudo e distante ecoou nos ouvidos de Haftor. Ao mesmo tempo, uma vibração em sua bolsa chamou sua atenção — mas o anão ignorou a sensação momentaneamente.

O Guia experimentou borrifar um pouco da Água Fria da Dama sobre a estátua de bronze. Sacou seu cantil e posicionou o Coração d’Aurora no caminho do fluxo. A água escorria pelo artefato antes de alcançar a estátua.

O efeito foi imediato: os mortalos atingidos murcharam e ressecaram.

Ágil, o sekbete escalou a estátua até sua cabeça. De lá, coletou mais água de seus companheiros e repetiu o processo, fazendo o líquido escorrer por toda a estrutura.

A água limpava o bronze, mas também revelava veios escuros de corvear. A estátua não era feita de uma liga, mas sim composta por dois metais distintos: bronze na forma e corvear em veios que se espalhavam por todo o corpo.

No entanto, o Guia percebeu um gotejamento vindo de uma estalactite. A água pingava sobre a estátua e, por onde passava, restaurava a aura contaminada. Para impedir isso, ele improvisou uma corda para desviar o fluxo até a parede.

A tentativa de purificação despertou mais plantores.

As criaturas avançaram sobre o grupo, que se dividiu para enfrentá-las enquanto o Guia mantinha seu experimento.

Um dos plantores posicionou-se no centro do salão. Um brilho mágico surgiu ao seu redor, e os aventureiros sentiram a temperatura subir drasticamente. Réctor e Olgaria foram os mais afetados. O napol caiu de joelhos, ofegante. Olgaria sofreu um choque térmico e desmaiou em meio à batalha.

O paladino correu para acudir a companheira. Com um milagre de regeneração, ela voltou a si, enquanto Garuk e Haldor continuavam a enfrentar os plantores.

— Que dor de cabeça… — resmungou a zumi ao se reerguer.

Garuk e Haldor garantiram a vitória contra as criaturas. No entanto, ambos pisaram inadvertidamente em poças de água contaminada.

As botas de Haldor impediram o contato direto com a pele, mas ele viu mortalos crescendo sobre elas. Já Garuk percebeu suas escamas enegrecerem e perderem a sensibilidade.

Ainda assim, ambos resistiram aos efeitos venenosos aos quais haviam sido expostos.

O enigma da chama e do fio

Com a área livre de inimigos, o grupo voltou sua atenção ao artefato preso ao cajado da estátua.

Réctor aproximou-se voando para observar o pedestal. Enquanto isso, a água despejada pelo Guia escorria até a base da estátua e revelava um texto antes oculto. O idioma era humano, mas ancestral.

— Nossa… parece uma inscrição tindaeli — surpreendeu-se Lismara. — Talvez eu consiga traduzir. Só preciso me concentrar…

Enquanto ela estudava a base, o Guia e Réctor analisavam o objeto esférico transparente encaixado no bojo do cajado.

O feiticeiro desenroscou a estrutura externa e revelou, em seu interior, uma esfera semitransparente. Pequenas luzes brilhavam como estrelas, e um disco luminoso agitava-se suavemente com o movimento.

Após alguns minutos de análise, a arqueóloga conseguiu traduzir o primeiro trecho:

— “A chama da Geleira protege o fio e germina o futuro.”

— Eu acho que isso aí é a tal da chama — supôs Réctor, apontando para a esfera no cajado. — O fio deve estar aí dentro.

— E aí, diz o que é essa tal de chama, dona? — questionou o Guia. — Essa pedra aqui?

Réctor removeu o objeto esférico do cajado. As luzes em seu interior pareciam apontar sempre para o mesmo lugar, independentemente da posição da esfera. As orbes funcionavam como níveis, mantendo sua orientação apesar do movimento.

O artefato repousava sobre uma base de corvear. Abaixo dela, uma nova inscrição em tindaeli foi traduzida por Lismara:

— “Onde o olho falha na brancura, o compasso revela o fio. O que foi espelhado em Tindael, só a vontade pode atravessar.”

— Estranho… o que isso remete? Tindael? — indagou o feiticeiro.

— Tindael foi uma civilização muito antiga, que ocupou todo o sul das Terras Selvagens — explicou Lismara. — Hoje, a região é inabitável. Dizem que há um deserto de cristais por lá.

Percebendo a semelhança e a ressonância entre o objeto encontrado e o artefato anão carregado por Haftor, o grupo decidiu testar uma interação entre eles.

Quando Réctor colocou o artefato anão sobre a base e o fechou dentro do bojo, um brilho azul intenso foi emitido — o mesmo que haviam percebido ao entrar na área. A reação parecia idêntica.

O napol removeu o artefato anão e o devolveu a Haftor. O brilho cessou, embora a sensação de ressonância entre os objetos permanecesse.

Voltando sua atenção para a esfera humana, Haftor recordou-se de algo:

— Essa esfera lembra um pouco aquela serviçal que seu mestre sonhou… a Jardineira, como ele chamava. Aquelas luzes ali parecem aqueles vagalumes batendo contra a superfície.

O cofre de corvear

As investigações do Guia, Haftor e Réctor começavam a entediar Garuk. O berserker olhou ao redor e percebeu que a estátua não era a única construção incomum naquele ambiente. Havia duas tumbas com pesadas tampas de pedra, uma de cada lado do grande salão natural.

O sekbete avançou até uma delas e apoiou suas garras na tampa. Lismara, assustada, tentou intervir:

— Para, para, Garuk! Pare, por favor! É um objeto arqueológico, você pode destruí-lo!

— Não. Eu faço com cuidado.

Movendo seus músculos poderosos, o sekbete ergueu a tampa, que acabou se partindo sob o próprio peso. Ele arremessou o fragmento que permanecia em sua mão para o centro do salão, vendo-o se estilhaçar em inúmeros pedaços.

A arqueóloga levou as mãos à cabeça e olhou para Réctor.

— Não posso fazer nada — esquivou-se o napol.

Dentro da tumba destruída, Garuk encontrou um esqueleto humano envolto em um tecido azul com bordados dourados. Os restos mortais carregavam um jarro feito de corvear.

A descoberta não agradou o sekbete, que esperava encontrar armas ou armaduras dignas de um guerreiro.

Réctor voltou sua atenção ao jarro. Uma rolha o vedava e foi facilmente removida. No interior, encontrou um escopro. O cabo, feito de madeira nobre, era ornamentado com runas anãs, e a lâmina permanecia em perfeito estado de conservação. Provavelmente fora a ferramenta utilizada na construção da estátua.

Com novos pedidos de cautela por parte de Lismara, Garuk dirigiu-se à segunda tumba. Desta vez, com mais cuidado, moveu a tampa para o lado e conseguiu abri-la sem destruir a estrutura.

— Esses esqueletos tão tudo carregando jarro — resmungou o berserker ao ver outro esqueleto, agora anão, envolto em tecido cinza com bordados em prata.

O Guia pegou o jarro e imediatamente analisou seu conteúdo. Dentro, encontrou uma pequena roca de fiar, acompanhada de um novelo de fios dourados.

Réctor recolheu os objetos e os entregou a Sombra. Já os jarros chamaram mais a atenção do Guia.

— Garuk, me empresta seu prisma aí. Vou botar dentro do vaso. Verifica aí, Haftor, se vai aumentar o brilho ou diminuir.

O teste foi bem-sucedido.

Haftor percebeu que seu artefato deixou de reagir ao prisma de Garuk — comportamento que normalmente ocorreria — assim que ele foi colocado dentro do jarro de corvear.

— Aqui, ó! É isso que eu tava falando. A gente pode ficar mais difícil de ser detectado. Achamos o nosso “cofre” — empolgou-se o Guia.

Lismara, já mais recomposta, analisava a tampa intacta da segunda tumba. Em sua face interna, encontrou outra inscrição em tindaeli:

— “Onde o corvear silencia, meu martelo selou o destino. Que o sangue de Blur sustente o bronze para que o fio nunca se parta sob o peso da sombra.” Assinado: Torgan, o escultor. Parece um epitáfio.

O grupo decidiu levar todos os artefato encontrados. A arqueóloga protestou, mas eles prometeram devolvê-los após investigá-los com os anões.

Antes de partirem, Réctor decidiu fazer uma sondagem da superfície para tentar identificar a origem do gotejamento sobre a estátua.

Ao sair das escavações e alçar voo, o napol percebeu que a caverna se situava sob uma densa área florestal. Em uma clareira próxima, avistou um moinho de vento e um armazém. Pelos seus cálculos, a estrutura estava posicionada exatamente sobre a caverna onde se encontrava a estátua.

— Avise o restante do grupo — disse Réctor a Sombra, antes de abrir um portal que ligava a caverna às proximidades do moinho.

A construção de madeira não parecia abandonada. Pilhas de palha estavam organizadas, e ferramentas, limpas. Ainda assim, não havia sinais claros de atividade.

— Você já tinha visto isso aqui, Lismara? — perguntou Réctor.

— Tá nos nossos mapas, eu acho… mas nunca investigamos.

— Então vamos investigar — disse o Guia. — Porque parece que a água vem daqui. Você viu alguém lá de cima?

— Não vi ninguém.

Antes de entrarem, o Guia analisou o ambiente ao redor e identificou sinais de movimentação recente.

— Parece que algumas pessoas passaram por aqui. É bem recente.

O grupo entrou no armazém com cautela. O interior era organizado: pilhas de favos de grama seca, ferramentas e utensílios de corte estavam espalhados pelo local.

Ao fundo, encontraram uma porta. Do outro lado, o som de rochas se chocando era claramente audível.

— Será que são os cogumelos sendo esmagados? — supôs Réctor.

— Vamos descobrir, né? — respondeu Garuk, chutando a porta e arrombando-a.

A passagem revelou um moinho em funcionamento, onde cogumelos mortalos eram triturados. O processo exalava um odor nauseante e produzia um líquido viscoso que escorria para um poço. A massa restante acumulava-se ao final do trilho.

Os cogumelos eram transportados até o mecanismo por uma esteira automatizada. Diversos barris estavam posicionados entre os aventureiros e a entrada do sistema.

— Achamos — concluiu Réctor. — Foram os sombrios que colocaram esse troço.

O grupo avançou para dentro da área de produção.

Subitamente, um domo de escuridão envolveu o ambiente, cegando todos os aventureiros.

— E será a última coisa que verão — anunciou uma voz aguda, porém masculina.

Telas, dia 14 do mês da Sabedoria do ano de 1502

domingo, 12 de abril de 2026

(LA) Sessão 35

Os interesses necromânticos

O Tomo das Sete Faces

Enquanto o julgamento de Volrath atraía uma multidão no pátio do Colégio do Conhecimento, o Guia e Dorian permaneceram na biblioteca. O ambiente, inicialmente silencioso, logo foi contaminado pelos sons externos da multidão.

— O que exatamente está acontecendo? — indagou Dorian.

— Ah, você não é daqui, né? — lembrou-se o Guia. — Então, teve um cara que passou uma rasteira em uma mulher. Aí, ela falou com a gente, a gente invadiu a casa dele e descobriu que ele tava mancomunado com os elfos sombrios. Ele tinha um esquema de tráfico de escravos anões e humanos. Aí a gente passou o machado em todo mundo lá, trouxe uns papéis como prova e agora vamos machucar o cara — resumiu o sekbete.

Enquanto conversavam, a dupla não interrompeu a busca pelos tomos que Dorian sabia ter lido sobre os objetos de interesse do Guia. Com esforço, encontraram um manuscrito de capa de couro vermelho. Ao abri-lo, o Guia viu desenhos que lembravam os Corações d’Aurora que possuíam.

— Aqui, ó! Achei!

— Calma. As informações podem estar dispersas. Precisamos analisar com atenção para confirmar.

Ao examinarem o livro juntos, não encontraram o termo exato “Coração d’Aurora”, mas referências a “gemas ancestrais”, “pedras antigas” e “fontes do éter”.

— Quem é esse tal de éter? Foi ele que fez essa pedra?

— Ah, esqueça isso, é só teoria — desconversou Dorian, sem tempo para uma explicação mais profunda. — É só a forma como funciona.

— Veja, este é o Tomo das Sete Faces — apontou Dorian, referindo-se ao manuscrito.

A dupla seguiu buscando relações entre os textos e os objetos que conheciam. O Guia encontrou referências à pedra que carregava.

— Esta pedra da renovação… — Dorian iniciou a leitura na página onde encontrou o desenho do artefato — …é capaz de restaurar a energia mística da criação. É uma das pedras com maior poder entre as conhecidas… — o mago hesitou. O idioma arcaico dificultava a compreensão. — Nem tudo está traduzido.

Dorian ofereceu o tomo para que o Guia o levasse. O conteúdo era extenso, mas talvez Haftor e Réctor pudessem ajudar a compreendê-lo.

— Não vai dar problema para você, não?

— Não vai. Tome cuidado, isso não parece ser um objeto qualquer.

— Com certeza não é. E você tá bem com seus estudos?

— Sim. Ainda estou me adaptando ao colégio.

— Você tá de parabéns, hein. Normalmente, os engomadinhos que nem você que eu guio pra cá não duram nem uma semana — “elogiou” o sekbete, antes de se despedir e partir ao encontro do restante do grupo, que já havia encerrado sua participação no julgamento de Volrath.

A abordagem do conhecimento e da necromancia

Silvan abordou o grupo assim que o julgamento terminou. Com um sorriso incomum, o mago parabenizou os aventureiros pelo desempenho.

— Parabéns, Haftor. Parabéns para você também, Réctor. Suas intervenções foram bastante úteis e civilizadas.

— Eu sou civilizado — respondeu o napol, em tom provocativo, mas logo mudando de assunto. — Posso te pedir um favor? Tem como eu fazer uma porta para a minha casa aqui dentro?

— Do colégio? Impossível. Jamais vão autorizar algo assim. Você não é membro!

— Cadê Elara? Cadê a mulher que manda de verdade?

Apesar da provocação, Silvan chamou Elara, que ainda se dispersava da multidão.

— Posso te pedir um favor? — disse Réctor, direto ao ponto. — Eu poderia criar uma porta da minha casa aqui dentro do colégio, para mantê-la protegida? Eu deixo uma chave com vocês, assim podem entrar e sair quando quiserem.

— Preciso entender melhor esse seu feitiço — afirmou a maga, curiosa.

O feiticeiro então criou uma porta temporária para seu plano místico, impressionando Elara. Silvan ofereceu uma explicação técnica, tentando minimizar o feito, mas a chefe do conselho manteve o interesse. Fez perguntas detalhadas sobre o funcionamento da magia e, por fim, autorizou — com ressalvas.

— Isso pode representar um risco para o colégio. Posso autorizar, mas você terá que assinar um termo. Se necessário, poderemos desmanchá-la.

— Tá bom, ótimo — assentiu o napol, firme, embora visivelmente apreensivo com as condições.

O grupo se despediu dos magos do conhecimento e seguiu para discutir seus assuntos nas ruas de Telas.

— Vamos ao colégio necromântico — lembrou Haftor.

Atravessaram a cidade até o imponente edifício, adornado por gárgulas que despejavam água em canais laterais. A enorme porta de madeira possuía um batedor em forma de argola.

— Sejam bem-vindos. Vocês são aguardados — disse um acólito ao recebê-los.

O homem encapuzado, cujo rosto permanecia oculto nas sombras, conduziu os aventureiros por um corredor subterrâneo impregnado com cheiro de formol. Ao descerem a escada, encontraram um rosto conhecido.

— Mestra Móros — surpreendeu-se o acólito.

— Quero falar com eles também. Você está dispensado — ordenou a necromante.

Réctor apresentou-se com um cumprimento exagerado, mas Móros respondeu com simplicidade.

— Não precisa disso. Já nos encontramos no julgamento. Fiquei curiosa quando soube que Kel queria falar com vocês.

— Achei que vocês estavam juntos nessa questão — comentou Haftor.

— Kel tem interesses que vão além dos do conselho. Mas, às vezes, eles convergem. E este caso… me interessa.

Móros guiou o grupo pelo corredor. O silêncio era tão profundo que o som das armaduras ecoava como um trovão.

— Os sombrios têm causado problemas sérios não apenas para nós, necromantes, mas para toda Telas — disse ela, quebrando o silêncio. — Temos lidado com isso da forma menos prejudicial possível, mas não tem sido fácil. Foi bom que vocês agiram contra Volrath. Isso elimina um peão importante.

— Vocês sabiam o que acontecia lá? — perguntou Haftor.

— Tínhamos indícios, mas nada preciso. Syllen’ae não fazia questão de esconder que tentava corromper.

— Então ela tava tentando me corromper, é? — comentou o Guia, em tom irônico.

Vandril Kel

Móros abriu a grade de um mausoléu com o nome “Vandril Kel” gravado. O grupo entrou em uma sala ampla, decorada com tumbas e grades, onde um homem pálido, portando um cajado de ossos, os aguardava em um trono de pedra.

— Sejam bem-vindos ao meu repouso.

— Obrigado por nos receber — respondeu Haftor, com formalidade. O paladino avaliava se aquele diante dele era um morto-vivo, mas manteve a etiqueta.

— Não há de quê. Eu sou Vandril Kel. É um prazer conhecê-los, especialmente após saber que realizaram uma façanha diante dos conselheiros da justiça de Telas. Driblar um ilusionista não é para todos.

Levantando-se, o homem pálido aproximou-se do grupo. Suas feições rígidas reforçavam a suspeita de Haftor.

— Volrath, a quem derrubaram, era um homem útil. Um excelente “laranja” para as ambições de Caridrândia. Mas vocês encontraram sua ruína, feriram a rede de Minoliz e, com isso, acredito que já saibam: atraíram novamente o olhar de Ghevra.

— Acho que ele nunca deixou de olhar para nós — ponderou Haftor.

— Minoliz havia proposto um acordo a vocês, não havia?

— Sim. E você já sabe disso, não é?

— Soube no momento em que foi feito. Me surpreende que não tenham aceitado.

— Não é do meu feitio me envolver com eles.

— Pois bem. Eu os trouxe aqui por uma razão. Preciso compreender de que lado estão.

— Embora eu não aprove seus métodos, não o vejo como inimigo.

— E eu tô sempre do lado contrário dos sombrios — acrescentou o Guia.

— Este é um bom começo — afirmou Kel, sem alterar sua expressão. — Suas ações contra a rede sombria indicam que poderei confiar em vocês para alguns arranjos futuros.

Corações e segredos

O grupo passou a questionar o necromante sobre os interesses dos sombrios. Réctor buscava entender as diferenças entre as facções, e Kel respondeu à maioria das perguntas com precisão.

— Caridrândia busca o Corvear, os Corações d’Aurora, para alimentar um rito de fúria. Os necromantes de Telas buscam estabilidade. Somos os vigiadores do silêncio do Domo. Queremos mantê-lo como está. Não buscamos adoração, nem o terror de Shalash. Queremos apenas que o Domo de Arminus permaneça como sempre foi: uma tumba lacrada para o que veio antes.

— E vocês veem esse objetivo ameaçado?

— Sim. Os elfos sombrios têm avançado rapidamente. Os dois alcormis com quem vocês lidaram, Aymon e Minoliz, estão entre os que mais progrediram em seus estudos sobre aquilo que desperta.

— Eles pretendem usar essa fúria como arma — completou Móros.

— E me diga uma coisa — provocou Réctor — qual é a visão de vocês sobre o despertar da Aurora?

— Não esperamos bem ou mal de uma entidade ancestral — respondeu Kel. — Ela existe. E demanda. Se é boa ou má, só poderemos julgar depois de seu despertar.

— Mas ela vai despertar de qualquer jeito? — perguntou o Guia.

— Claro — respondeu Garuk. — Esqueceu que fomos escolhidos para isso?

“Desta vez, não haverá pausa”, recordou Réctor.

A conversa seguiu para a ameaça dos orcos no norte.

— O orco das Geleiras, Shalash — disse o Guia — vocês sabem algo? Ele tem relação com isso?

— Shalash reage à energia da entidade. Um efeito colateral, talvez.

— Ele menciona esse despertar em suas profecias — acrescentou Móros. — Está reunindo orcos. Há uma migração em massa.

— Todos os orcos — afirmou Kel.

— Nem todos — contrapôs Haftor.

— Guzur — disse Garuk.

Kel voltou-se para Móros, desconfiado.

— Conhecem Guzur?

— Ele carrega um poder único: um fragmento da própria entidade.

— Eu quero duelar com ele — disse Garuk.

— Se eliminarem Guzur, eliminam a única resistência a Shalash. Ele ainda não está completo.

O grupo compreendeu: Shalash precisa unir os orcos das Terras Selvagens, e Guzur é o obstáculo.

A conversa se prolongou. Kel tinha muito a dizer — e o grupo, muito a perguntar.

— Há um sombrio que já matamos, mas que retorna como sombra — disse Haftor. — Há algo que possa detê-lo?

— Falam do estrígio de Aymon Ghevra.

— Parece ter uma vendeta contra o Guia.

— Não — interrompeu Kel. Voltando-se para ele: — O coração que você carrega, Goragar, é o que Margoth busca. O “fio”.

— O que é esse fio?

— Algo que perdi há séculos. Ainda assim, persisto sem ele. O fio é o rastro da vida da Aurora Gelada — o vínculo que a mantém neste mundo. É isso que eles perseguem. Se Margoth o obtiver, poderá recuperar seu corpo.

— Só isso? A gente mata ele de novo! — disse o Guia.

— Vejo que você não compreende o que significa se livrar da maldição que os assola.

— E esse prisma? — perguntou Réctor, exibindo o artefato.

— O seu é apenas uma ressonância — explicou Móros. — Uma pedra ligada ao fio da Aurora. Não foi lapidada nem transformada em um Coração. Não possui seu poder pleno, mas pode se sintonizar com ele.

Voltando-se a Haftor, completou:

— O conhecimento para criá-los se perdeu. Dizem que os anões foram os últimos a dominá-lo.

O grupo deixou os aposentos de Kel. Móros fechou o pesado portão de grade e guiou os aventureiros de volta pelos corredores silenciosos.

Ainda curiosos, perguntaram à necromante se o colégio mantinha mortos-vivos. Antes de se despedir, ela os conduziu a uma sala de estudos, onde esqueletos eram mantidos sob controle.

Surpreso com a receptividade dos necromantes, Réctor teve uma ideia.

— Posso fazer a porta para minha casa aqui?

A mestra Móros respondeu sem rodeios, cláusulas ou ameaças:

— Você poderá fazê-la no corredor do mausoléu de Kel, mas não hoje.

Sombras e ruínas

O grupo deixou o colégio necromântico com muitas informações para processar. No caminho de volta ao refúgio na cidade, decidiram passar em frente à mansão onde haviam conversado com a poderosa elfa sombria, Syllen’ae.

Era noite fechada. O jardim mantinha o movimento habitual — alguns transeuntes, casais e bêbados. A mansão ficava a poucos metros dali. No entanto, algo havia mudado: uma carruagem luxuosa e três carroças estavam sendo carregadas às pressas.

— E aí, vamos dar oi? — provocou o Guia.

— Será que ela está indo embora? — questionou Réctor.

O sekbete avançou até uma das carroças. Logo, um elfo sombrio, com a mão no punho da espada, aproximou-se. O Guia se antecipou:

— Sua chefe já meteu o pé ou ainda está por aqui?

— A mestra Syllen’ae foi convocada de volta à Caridrândia. A negócios.

— Não. Meteu o pé. Enfiou o rabinho entre as pernas — provocou o rastreador.

— Veja como fala, lagarto.

— Só diz para ela que ainda vamos nos encontrar.

— Se quiser marcar um duelo — completou Garuk.

Sem prolongar o confronto, o grupo seguiu para o refúgio na ruína no meio da cidade.

Descansaram na Casa dos Sonhos de Réctor e se prepararam para, no dia seguinte, seguir até a escavação protegida por Lismara.

Chegaram ao acampamento sob um clima chuvoso e ventoso. Lá, encontraram Olgaria e Demétrius, que haviam passado a noite protegendo a arqueóloga.

— Olá, pessoal. Como foi ontem?

— Foi muito bom, Olgaria — respondeu Réctor. — Digamos que foi… revelador.

— Olgaria, eu vi um morto-vivo ontem! — contou o Guia, empolgado. — A mulher lá tinha uma varinha que fazia ele montar e desmontar.

Haldor e Haftor dirigiram-se à barraca dos prisioneiros em busca de Córgan.

— Você acha que essas pessoas precisariam de quanto para voltar para casa? — perguntou Haftor. — Para se manter por um mês?

— Acho que umas dez moedas de ouro seriam suficientes para todos.

O paladino, então, entregou uma moeda de ouro a cada prisioneiro.

— Não é muito, mas é o que eu tenho — disse Haftor, enquanto distribuía o restante do tesouro. Ao entregar a moeda à ladra que havia tentado rouá-lo, não perdeu a oportunidade:

— Não roube.

— Prontos, então? — perguntou Lismara, após reunir o grupo. A arqueóloga demonstrava ânimo renovado após sua reabilitação política no dia anterior. — Quero cumprir minha parte agora que vocês cumpriram a de vocês.

O grupo seguiu para o oeste de Telas. Embora a curta distância, atravessaram uma área florestal, cruzaram um túnel subterrâneo e retornaram à superfície. Em uma colina, avistaram uma abertura que lembrava a entrada de uma caverna.

— Estas são as escavações — anunciou Lismara.

Dentro da caverna, encontraram uma estátua de bronze representando uma mulher empunhando um bastão de duas lâminas, cercada por quatro pilares.

— Estas paredes datam de pelo menos dezoito séculos. A arquitetura é típica de Telas e parece ter pertencido a algum tipo de calabouço — explicava Lismara, enquanto os aventureiros se espalhavam para investigar.

A estátua apresentava vestígios de um revestimento branco já desgastado. Próximo a ela, havia um poço de água pura, extremamente fria.

Com um simples “licença”, o Guia encheu seu cantil e, em seguida, mergulhou o pingente.

O Coração d’Aurora brilhou intensamente. A água ao redor também se iluminou com o halo místico do artefato. De repente, o brilho cessou e a emanação do pingente tornou-se mais concentrada, mais intensa.

“Está carregado”, pensou o Guia, guardando o objeto.

Os túneis eram interrompidos por trechos desmoronados. Com um feitiço, Réctor atravessou um dos bloqueios, levando consigo Lismara, Olgaria e Haldor.

Ao investigar o que parecia ser uma árvore encravada na parede, percebeu tarde demais que se tratava de uma criatura.

— Essa árvore se moveu! — alertou Réctor, recuando rapidamente, enquanto a criatura o atacava com um pesado tacape.

— Cuidado! — gritou Haldor, erguendo o machado e preparando-se para o combate.