Sessão 41 - A abordagem dos contrabandistas
A batalha sangrenta
O grupo já possuía a informação sobre a carga: corvear contrabandeado.
Decididos a atacar, os aventureiros planejaram como fariam isso. Réctor conduziria sua nuvem até a superfície, e o grupo investiria rapidamente para aproveitar a vantagem da iniciativa. A maga era a prioridade.
Os aventureiros prepararam suas armas e encantamentos antes de emboscar o inimigo. Garuk saltou de quase cinco metros de altura sobre um inimigo, que o percebeu pela sombra e se esquivou no último instante. O peso do sekbete o fez afundar na neve e criou uma pequena distração. O restante do grupo o seguiu.
No entanto, o inimigo estava em alerta, e apenas Garuk teve a vantagem da surpresa.
Olgaria, Réctor, Guia e todos os outros saltaram da nuvem e atacaram os inimigos à sua maneira. Enquanto a zumi e os anões avançavam a pé, o napol e o Guia preferiam lutar à distância.
— Protejam a carga! — gritou o chefe da caravana, enquanto se preparava para o combate.
Sombra foi quem iniciou o confronto com o alvo prioritário. Invadindo a carroça com a carga de corvear, a amiga imaginária de Réctor farejou a mística invisível e lançou sua baforada de chamas. O calor não a revelou, mas a presença da inimiga era certa.
— Eu sei que você está aqui. Eu vi você. — pronunciou a amiga de Réctor com sua voz espectral.
O Guia seguiu a aliada. Abandonando o arco, o rastreador lançou marteladas às cegas dentro da carruagem, guiado apenas pelo faro da humana.
— Afaste-se, besta! — gritou a maga, enquanto seu corpo surgia no vazio. Ao tentar conjurar um feitiço sobre o Guia, ela quebrou a regra de sua própria invisibilidade.
O receio que o Guia sentiu ao ver o cajado da inimiga, no entanto, logo se dissipou. O encantamento lançado contra ele falhara e, agora, a inimiga estava ao alcance do martelo.
Enquanto isso, Haftor, Haldor e Kórgan digladiavam-se contra os soldados da caravana do lado de fora da carruagem. Os mercenários retribuíam com uma saraivada de flechas e golpes de espada, tentando manter a formação.
Porém, a formação bem posicionada dos inimigos era tudo de que Garuk precisava. Embrenhando-se no meio do campo de batalha, o sekbete lançou seu rugido aterrorizante, um rito berserker capaz de quebrar a confiança até mesmo do mais corajoso inimigo.
A maior parte dos inimigos se apavorou. Alguns poucos, no entanto, resistiram.
O rugido do sekbete não apenas aterrorizava, mas também distraía. Uma das protetoras da caravana que não demonstrou medo se despreviniu. Olgaria aproveitou. Quando a mulher se virou para a zumi, a lâmina do machado já visava seu pescoço em um golpe brutal e fatal.
Réctor ampliou o pavor sobre seus inimigos enquanto sobrevoava o campo de batalha. Um feitiço assustador passou a sufocá-los. Aqueles que já estavam com medo correram apavorados, caindo pelo campo em agonia. Os que ainda mantinham a compostura conseguiram segurar a respiração para permanecer, ao menos, preparados para se defender.
A maga, sem conseguir respirar e vendo seus companheiros sufocarem até a morte, cambaleou para fora da carroça. Desesperada, clamou por um dos soldados próximos, mas já era tarde.
O Guia e Kórgan a perseguiram. Uma marretada do rastreador a lançou ao chão. O machado de Kórgan a feriu gravemente. Demétrius, oportunamente, desferiu o golpe final em suas costas.
Com a principal ameaça eliminada, a carnificina continuou ao redor. Vários mercenários pereceram sufocados na neve, enquanto outros tombavam sob os ataques de Haftor, Sombra e Haldor.
— Nós nos rendemos! — gritou Kovor, mantendo a posição defensiva enquanto os sobreviventes se agrupavam ao seu redor. — Apenas nos deixem ir e levem a carga que quiserem.
— Vamos duelar só nós dois, e quem perder, perde tudo. — sugeriu Garuk.
O berserker pressionou o comandante inimigo, que não teve opção senão defender-se.
— Eu me rendo! — esbravejava o inimigo, em pânico, mas Garuk persistia.
— Solte sua arma! — ordenou Haftor.
Após um segundo reunindo coragem para largar sua única arma diante do enorme Garuk brandindo um machado à sua frente, o guerreiro resolveu render-se completamente.
— Covarde! — bufou Garuk, desapontado.
Os poucos guardas sobreviventes fizeram o mesmo. O grupo reuniu cordas, amarrou-os e os colocou de joelhos.
A rota dos contrabandistas
Os prisioneiros foram agrupados no campo nevado para serem interrogados. Garuk permaneceu por perto, enquanto Réctor ditava o ritmo.
— O que vocês estão fazendo com esse material, e quem o forneceu para vocês?
— Estamos apenas transportando para o acampamento élfico.
Percebendo a dificuldade que teria para obter informações, o napol ameaçou os prisioneiros com a irracionalidade de Garuk. “Ele é instável”, “ele gosta muito de pés” e “o Garuk é sanguinário” foram alguns dos argumentos utilizados pelo feiticeiro.
— Nós trouxemos o corvear de uma fortaleza ao norte. — Kovor começou a revelar, hesitante.
— Com quem vocês conseguiram?
— Peguei com um intermediário, mas a carga pertencia a alguém chamado Horgrundis.
— Isso eu vi, está escrito na carga. Eu quero saber quem é o intermediário.
— É uma anã. Elga. Foi como ela se apresentou para mim.
O nome não era familiar nem para Haldor nem para Haftor.
— Quanto material há na carga? — continuou Réctor.
— Umas duas toneladas — revelou Kovor. — Disseram-me que seria um serviço fácil, rápido e limpo.
— Como você se sente por ter roubado um metal tão precioso?
— Eu não roubei — insistiu o contrabandista.
O grupo percebeu que Horgrundis havia criado uma rede muito maior do que imaginavam. Seus tentáculos permaneciam em Blur, e ele os utilizava para extrair corvear e profanar o metal raro das montanhas em colaboração com os inimigos sombrios.
Emquanto o interrogatório continuava, o restante do grupo revistava a carruagem e os corpos caídos. Durante as buscas, encontraram documentos: um mapa que conectava a fortaleza de Vir-Máliz ao acampamento élfico, evitando todas as fortalezas anãs e outros agrupamentos sombrios.
— E para quem vocês entregariam essa carga? — continuou Réctor.
— Fomos encarregados de entregar ao líder do acampamento élfico, Vorgon, o Dilacerador.
Com as informações reunidas, os prisioneiros imobilizados e a carga segura, Réctor criou três nuvens voadoras para transportar todos até a fortaleza anã de Tar-Néldor. O grupo pretendia entregar os prisioneiros às autoridades antes de prosseguir com o plano de enfrentar os elfos sombrios. Os cavalos seriam transportados para o plano onírico do feiticeiro.
Com tudo definido, o grupo seguiu viagem pela nuvem voadora, percorrendo o longo caminho sem precisar enfrentar o terreno difícil. Assim, chegaram à fortaleza no início da noite.
O procurado
A aproximação com a estrada que conectava Telas à fortaleza anã de Tar-Néldor era marcada por um aumento na quantidade de tropas circulando. O Guia, que se mantinha atento à superfície, comunicava ao grupo todas as alterações.
— Eu acho melhor descermos um pouco antes, porque não vai ser muito legal chegar à fortaleza anã em uma nuvem — concluiu Réctor.
A decisão se mostrou acertada. As balestras da cidadela já apontavam para os aventureiros quando eles desembarcaram perto dos muros. A nevasca e a noite obstruíam uma visão clara, dificultando sua identificação, mas, ao mesmo tempo, impedindo que fossem alvos fáceis.
Os anões lideraram a comitiva. O grupo atravessou os portões e logo se encontrou no centro do distrito comercial, o setor superficial da fortaleza.
— O comandante quer conversar com você. — disse um guarda a Haftor, que conduzia a diplomacia. — Depois de deixar os prisioneiros, peço que vá ao quartel.
Haftor estranhou a recepção, mas Haldor logo percebeu a razão. Estampado em uma das paredes, um cartaz de procurado exibia o rosto de Haftor e uma recompensa de 70 moedas de ouro.
— Aí, mano, vou ganhar uma recompensa! — brincou Haldor, apesar da gravidade da situação.
O cartaz denunciava Haftor por traição em Telas, por descumprimento de leis e por traição à Ordem de Crizagom.
Indignado, o paladino recolheu o cartaz e o guardou consigo. Ele e seu irmão marcharam em direção ao quartel, carregando os prisioneiros para a reunião com o comandante da fortaleza.
A dupla percebeu olhares estranhos dirigidos a Haftor enquanto caminhava. Apesar disso, ninguém abordou o anão. Ao que tudo indicava, os habitantes da fortaleza ignoravam a ordem emitida pelo sacerdote de Telas.
— Senhor Haldor! — cumprimentou um dos guardas, reconhecendo o compatriota.
— E o senhor, como está? — perguntou outro, dirigindo-se a Haftor. Sua expressão era de pesar. — Lamento pela sua situação e pela situação em Telas. Espero que possa resolver tudo.
— Fique tranquilo. Não estou nem um pouco preocupado. É tudo mentira.
Após tranquilizarem os guardas, os dois foram guiados para o interior da fortaleza, até o gabinete do comandante.
Atrás de uma mesa repleta de documentos, assinando pergaminhos com uma enorme pena tinteiro, o comandante calvo ergueu a cabeça alguns instantes após autorizar a entrada dos irmãos. Levantou-se, contornou a mesa e, com um sorriso, começou:
— Se não é Haftor, o paladino renegado!
— Gostaria de saber: renegado por quem?
Mantendo a postura firme, mas retirando o sorriso do rosto, Dariam Ferrembrasa, o comandante, apontou para a quantidade de problemas burocráticos que estava resolvendo.
— Tem uma pilha de papéis aqui para assinar. Muitos deles dizem respeito ao senhor. Precisamos conversar.
Apesar da entrada tensa, Dariam logo quebrou o clima. Ao perceber Haldor, estendeu a mão para cumprimentar o velho conhecido.
— É bom revê-lo, Haldor.
— É igualmente bom estar em casa.
— Sentem-se. Nossa conversa precisa ser produtiva.
Tar-Néldor, dias 28 e 29 do mês da Sabedoria do ano de 1502.



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