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terça-feira, 5 de maio de 2026

(VS) Sessão 32

Sessão 32 - A proposta por Berenice

O reencontro e o despiste

— Hothspoth está aqui. O Hothspoth que vocês conhecem — anunciava Berenice nos comunicadores do grupo.

Enquanto isso, o solariano, acompanhado de Tanaka, Sora, Signus e o motorista da van, atravessava as cinco faixas movimentadas da avenida de Porto Furioso para encontrar os viajantes.

— Tomem cuidado com essa pessoa — transmitia Hothspoth em segredo para seus ex-companheiros.

O clima era de hostilidade e desconfiança. O sinalizador deixado por Hothspoth causara uma má impressão sobre o solariano. Ao mesmo tempo, Signus e sua companhia também não pareciam amigáveis.

O Dr. Kenji Tanaka encarava Edric. O operativo notou, com desconforto e desconfiança, o olhar indiscreto, mas não reconheceu aquele homem.

— Faça as apresentações — pediu Signus ao encontrar os aventureiros.

Hothspoth apresentou aqueles que o acompanhavam — Tanaka, Sora e Signus — e depois apresentou cada um dos tripulantes de Berenice. Rykk, no entanto, permanecia desconfiado e pediu para conversar com ele em particular.

O draconiano conduziu o solariano para trás de uma parada de ônibus. Não era longe, mas o som intenso da avenida movimentada impediria qualquer tentativa de escuta à distância.

Enquanto isso, Tanaka dirigiu-se a Ed:

— Você deve ser o Ed…

O cientista demonstrava empolgação em conhecer um de seus primeiros objetos de pesquisa. O piloto, porém, não compartilhava do sentimento e, ao contrário, parecia confuso.

Rykk ignorou as formalidades.

— Hothspoth, o que aconteceu?

— Eu morri.

— É, a gente viu. E por que diabos a Lança está buscando a gente?

— Ah, isso foi por causa do fragmento do Santo.

— E o que era aquele transponder dentro do seu quarto? Ele revelou a nossa posição para a galáxia inteira!

— Aquele foi o que a gente comprou lá na feira do rolo, nos asteroides… para eu achar vocês. Eu não imaginei que a Lança encontraria vocês. Minha intenção era chegar primeiro.

— O Ed passou por muitas emoções nos últimos dias, sabia?

— Eu sei que o braço esquerdo do Santo está com Kormiik. Aliás, eu sei muita coisa agora.

Enquanto a conversa acontecia, Signus quebrava o gelo com o restante do grupo.

— Eu sou Signus, capitão da Memória de Shilos, e estou aqui porque gostaria de falar com vocês.

— Olá. Eu sou Edric Sarvin, o vice-capitão interino, enquanto o capitão está ali conversando com Hothspoth.

— Excelente — disse ele, apertando a mão de Edric in cumprimento. — Eu sabia que tinha estudado os costumes humanos. Precisamos conversar em particular. Temos assuntos e negócios de mútuo interesse.

— Não podemos conversar agora. Precisamos falar em um lugar mais reservado.

O capitão e o solariano retornaram da conversa particular. Hothspoth iniciou falando sobre suas descobertas no cativeiro:

— O braço esquerdo do Santo está com Kormiik. Ele abre fendas para outras dimensões. E ele sabe a localização de K375.

— E como será que ele descobriu isso, hein? — indagou Rykk.

Em seguida, o capitão voltou-se para Signus.

— Olá, eu sou Rykkgnaw.

— Aha! O influente emissário triaxiano. Ouvi falar também de você. Ouvi dizer que vocês têm talento para escapar. Isso é valioso. Gostaria de falar com o capitão da nave… Berenice, não é?

— Sim. Sou eu.

— Tenho assuntos e negócios que podem render créditos valiosos.

— Bom, nós temos um compromisso agora. Se quiser, podemos nos encontrar mais tarde.

Signus aceitou esperar, aliviando parcialmente a tensão que ainda pairava no ar. Assim que ele partiu com a van e o motorista, o grupo se organizou para entrar no pub e encontrar-se com Garig e Francis. Hothspoth, porém, decidiu permanecer do lado de fora, aguardando junto de Sora e Tanaka.

Alguns degraus separavam a porta do pub do passeio público onde Hothspoth aguardaria. Rykk, Ed, Flynn e Kassius entraram no local movimentado, impregnado pelo odor de álcool e tomado por dezenas de vesks espalhados pelo salão, muitos deles armados. Porém, não viram Garig ou Francis.

Ed sentiu uma dor intensa no braço direito imediatamente ao entrar. Berenice informou que se tratava de uma reação ao Eco Sepulcral.

O grupo dirigiu-se até uma mesa vazia no canto do estabelecimento e se acomodou. Um garçom vesk, esguio, alto e com rosto semelhante ao de uma iguana, veio atendê-los.

— Os senhores beberão algo?

— Sim — respondeu o capitão em nome do grupo.

Rykk, Ed e Kassius sentaram-se de frente para a entrada, enquanto Flynn ficou de costas para o salão. O capitão e Ed buscavam incessantemente por sinais de Garig, mas o androide não estava no estabelecimento. Kassius, porém, notou o bartender lhe sinalizando algo.

— Espero que seja tão discreto quanto seu companheiro — disse o bartender quando Kassius se aproximou do balcão.

— Discrição não é bem o nosso forte, mas prossiga.

— De graça?

— Bota uma bebida para mim aí. E coloca o valor da informação nela.

— Duzentos créditos pagam esta bebida.

O bartender colocou uma garrafa no balcão e a inclinou levemente, revelando um microchip oculto no fundo.

— Seu outro amigo humano, bem armado, deixou isto aqui para você.

Kassius retornou à mesa com o objeto. Através do comunicador do soldado, Berenice acessou os dados e começou a traduzir a mensagem criptografada por Garig.

— Status do local: área comprometida — leu Berenice.

A mensagem detalhava alguns pontos estratégicos:

A aproximação da van de Signus fora detectada junto de assinaturas térmicas da Lança de Hierofante. A presença de Hothspoth revelou que o grupo fora rastreado voluntariamente.

A Aliança Solariana já iniciara o plano de realocação dos 13 milhões de karuum do planeta K375 para evitar a destruição total após a futura retirada da Âncora.

Um novo contato seria restabelecido na frequência 77.17.7. Eles deveriam aguardar um sinal na órbita de Vesk-4 dentro de 72 horas.

O contrabandista verthani opera com tecnologia de rastreio da Lança de Hierofante integrada ao próprio corpo e aos equipamentos. A ordem era clara: não permitam que ele se aproxime de Berenice ou do Dr. Tanaka.

— Ih, capitão… fodeu — desanimou-se Ed.

Diante do risco, o grupo deixou o pub para se reorganizar em outro local.

Informações cruzadas

Rykk ordenou que o grupo buscasse um local mais discreto para realizar uma varredura em busca de grampos e dispositivos localizadores. O capitão convocou Astra para trazer os equipamentos necessários enquanto escolhiam um beco próximo, sem movimento ou vigilância intensa.

Astra iniciou o escaneamento biológico e tecnológico em Tanaka.

— Não há nenhum grampo no corpo dele, mas o datapad está comprometido.

— Não pode ser. Ele nem está conectado!

Astra pegou o datapad por orientação de Rykk.

— Não quebra, por favor.

— Vou isolá-lo em uma caixa de areia — sugeriu Berenice. — Isso impedirá que seja detectado, mas ele ficará inutilizável até a limpeza.

Hothspoth também foi escaneado.

— O comunicador dele já está comprometido — informou a androide.

Irritado, Rykk ordenou que o solariano não utilizasse mais o equipamento.

Sora estava limpa, sem qualquer sinal de rastreador.

Durante o isolamento no beco, o Dr. Tanaka tentou estabelecer uma conexão emocional com Edric, tratando-o como o maior feito de sua carreira científica. A ideia, porém, gerou desconforto no piloto.

— Eu não estou interessado em relacionamentos afetivos — esquivou-se Ed.

— Ed, desculpe. Eu só gostaria de vê-lo. Você foi o ápice da minha carreira. Um milagre da ciência!

— Um milagre do quê?

— Um milagre da ciência. Kormiik e você foram os únicos que conseguiram. Você é perfeito.

Tanaka estava emocionado; o piloto, desconcertado. Mesmo assim, Ed pediu para tocar o corpo do cientista, esperando obter algum vislumbre sobrenatural do passado.

A visão surgiu repentinamente, mas era nítida.

Ed observou a si mesmo aos quatorze ou quinze anos, preso a uma mesa circular de metal, suspenso pelos braços e pernas enquanto cientistas inseriam uma agulha em seu abdômen sob o brilho do braço direito.

Apesar da clareza da visão em terceira pessoa, Ed não se lembrava de nada daquilo.

— Só um segundo… vocês me amarraram em uma mesa circular e enfiaram uma agulha no meu abdômen, seus malditos!

— Isso é passado, e foi para um bem maior. Veja você agora.

— Sim. Caçado pela galáxia.

— O Projeto Receptáculo teve o maior sucesso em você, muito mais do que em Kormiik. Mesmo que você ainda não tenha despertado seu grande poder, você é o receptáculo perfeito — dizia Tanaka, justificando-se e esclarecendo. — Kormiik tem a capacidade de abrir fendas nas dimensões. Eu acredito que você possa fechar essas passagens, porque o Santo era canhoto e Ed é destro.

Lembrando-se dos dados encontrados no planetoide da Deriva, Ed perguntou sobre o terceiro possível hospedeiro, surpreendendo Tanaka.

— É quase certo que exista um terceiro compatível. Estávamos quase chegando lá. Tudo indica que é uma mulher que vive em Absalom.

— Absalom… — interrompeu Rykk — onde nós somos procurados.

Berenice interrompeu as discussões para alertar que Signus estava chegando. Embora o verthani tivesse tentado marcar o encontro em um local conhecido por ele, Rykk insistira no beco.

— Vocês estão grampeados? — iniciou Rykk.

— É óbvio que eu tô — revelou Signus, sem se opor à varredura.

— É verdade, capitão — confirmou Astra enquanto escaneava o contrabandista.

— Eu não posso me desfazer desses grampos. É um acordo comercial.

— No brinco, na arma e no comunicador — destacou a androide.

— Algum deles transmite? — indagou Rykk.

— Todos transmitem localização. Voz, não. Foi difícil colocar isso no contrato, mas eu consegui.

Signus queria a tecnologia de Berenice para escapar da localização da Lança de Hierofante. Segundo ele, a vigilância constante prejudicava seus negócios. Tinha créditos a oferecer e garantia que o grupo ficaria rico em troca da tecnologia.

— Deixa eu te explicar uma coisa. Você, com todos esses rastreadores, não vai chegar a dez quilometves de Berenice — ameaçou Rykk.

— Você acha que eu não sei onde vocês estão aportados? — provocou Signus em resposta.

— Eu sei que você sabe onde estamos, mas você também sabe que, se chegar perto dela, fica bem mais difícil o vestidinho dela funcionar — respondeu Rykk, usando metáforas para despistar possíveis ouvintes.

— Eu não vim lá da Diáspora para ouvir um não. Eu preciso estudar essa capacidade. Isso pode mudar completamente a forma como faço negócios. A Lança de Hierofante está me sufocando. Não vou sair daqui de mãos vazias.

— Certo. Vou dar um jeito para você. Me dá um dia que eu resolvo isso.

Mesmo com um olhar de desaprovação, Signus selou o acordo com um aperto de mão.

— Estarei de olho em vocês — alertou o capitão da Shilos antes de deixar o beco com seu motorista.

Coordenadas multiversais

O plano de Rykk não envolvia entregar Berenice. Na verdade, o capitão pretendia encontrar uma nave da mesma geração para servir de engodo na venda da falsa tecnologia de invisibilidade.

Orientados pela IA, o grupo chegou a um depósito de naves usadas em Porto Furioso. Uma vesk chamada Tilarim os recebeu.

— Estamos procurando uma nave. Uma corveta tipo C2 — disse Rykk.

— Eu não consigo armazenar corvetas aqui. Elas são desmontadas para reaproveitamento. Temos apenas naves menores. Talvez vocês encontrem uma no estaleiro — informou Tilarim, passando as coordenadas do novo local comandado pelo engenheiro Orion.

A vendedora guiou o grupo até uma cargueira leve em manutenção.

— Carrega até seis pessoas. Custa setecentos mil créditos.

— Vamos ver as outras opções. Se não rolar, eu volto aqui — respondeu Rykk.

Durante o deslocamento para o litoral, Flynn deparou-se com um outdoor familiar. Uma antiga lembrança de uma propaganda que vira antes de se mudar para Rive Shroud veio à mente. O cartaz estava desgastado e envelhecido, compatível com o tempo que deveria ter.

O trajeto levou alguns minutos, e o destino foi um estaleiro massivo em uma área menos movimentada do porto.

Enquanto caminhavam em busca do engenheiro, Hothspoth foi atingido por uma visão do Nexo, desencadeada por uma aplicação do soro de Tanaka.

Na visão, viu-se naquele mesmo estaleiro, mas em uma realidade onde era supervisor autoritário da corporação Frozen Trove, intimidando trabalhadores locais.

— A Frozen Trove vai pagar quando achar necessário — dizia uma versão dele mesmo para um trabalhador rebelde.

Enquanto isso, Rykk encontrou-se com Orion.

— Soube que o senhor trabalha com vendas de naves, vamos dizer… clássicas.

— Sim, sim. Todas as que ainda voam, nós melhoramos e vendemos. Temos uma corveta no pátio que ainda não passou pelo serviço.

A nave era uma C24, quase idêntica à Berenice, embora mais armada e sem a pintura característica.

— Quatrocentos mil créditos. Tem capacidade para trinta e cinco tripulantes.

Rykk vistoriava a nave procurando defeitos, tentando depreciar o máximo possível o valor da compra.

— …esse trem de pouso ainda parece meio frouxo. E se eu pagar trezentos e vinte mil créditos?

— É, está bom. Porque eu gostei de você. Veio de tão longe e parece conhecer o negócio.

— Vou chamar meu associado para fechar com você.

Com o acordo verbal selado, Rykk e o grupo deixaram o estaleiro discutindo o plano: apresentar a nave análoga para Signus e convencê-lo de que a tecnologia estava nela.

Porém, quando Rykk se preparava para contatar Signus, acreditando ter encontrado a solução para o impasse, foi interrompido por Berenice.

— Capitão, aquela nave também é rastreável.

— Por quê?

— Creio que ela tenha vindo de outra realidade.

— A nave? A nossa nave?

— Sim.

— Eu desbloqueei uma memória estranha… não tenho certeza de que as informações estejam completamente compiladas, mas talvez seja prudente levar Hothspoth de volta à nave.

— Interessante… — ponderou Rykk.

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