Aurora no horizonte
Os pensamentos intrusivos
A casa dos sonhos de Réctor não era o que ele imaginava. Fios dourados espalhavam-se pelas raízes, tronco e ramos. Faziam florescer e transformavam a paisagem além de sua imaginação. Além disso, a vista do Domo permanecia estática, como se fosse observada do colégio necromântico.
O feiticeiro aproximou-se para observar os ramos. Percebeu que eram como fios de luz: intangíveis e brilhantes. Ao tocar um dos filamentos, experimentou uma reação física e psíquica imediata, semelhante àquela de seus encontros anteriores com a Aurora Gelada.
Réctor sentia os filamentos como uma intrusão em sua mente. No entanto, eles não eram as únicas anomalias em sua casa dos sonhos. Algo mais chamava sua atenção.
O napol voou até los limites de seu plano onírico e percebeu um arco de ramos crescendo em forma de portal. Além dele, fios dourados costuravam uma tapeçaria que seguia um caminho em meio às névoas que delimitavam seu mundo particular.
Cansado, e percebendo que as anomalias não representavam um risco imediato, o feiticeiro pediu um chá para sua criação com a aparência de Silvan e adormeceu.
Serviço concluído
O dia seguinte foi dedicado à recuperação dos objetos encomendados.
Garuk, Haftor, Haldor e Guia foram até o estabelecimento do alquimista. A porta estava destrancada, mas o grupo pôde ver o mago ocupado com frascos de um líquido verde borbulhante, tubos e um sistema de gotejamento.
Lembrando que Réctor o aconselhara a “não ser mal-educado”, mas sem abandonar sua delicadeza típica, o berserker bateu na porta com tanta força que fez o ambiente estremecer.
O trabalho delicado do alquimista quase foi destruído.
— Cuidado! Não vão gostar se derrubarem alguma coisa aqui.
— É que falam pra gente que é educado bater na porta.
— É educado manter a porta no lugar também! Entrem, entrem… já terminei as suas coisas.
O alquimista retirou os objetos pesados de sua mesa de trabalho. Entregou o martelo remodelado para o Guia e o novo tridente de ossos de gigante para Garuk.
— Tu falou que dava pra botar mais coisa mágica nessa pedra aí — referia-se o Guia à pedra mágica que encantava seu martelo. — Como é que faz isso? Tem que procurar que tipo de pessoa?
— Precisa de um fabricador. Não é comum. Algum mago que esteja disposto a perder o tempo dele com encantamentos para outra pessoa.
— Todo mundo gosta de dinheiro ou precisa de algum favor, né?
— Como está, já vai servir para grande parte do que você espera, tenho certeza. A pedra é poderosa.
— Eu já consigo acertar sombras com isso? Sombras mágicas.
— Sim, conseguirá. Ficou especialmente bem elaborado. Quanto ao seu tridente — voltou-se para Garuk — eu nunca tinha trabalhado com materiais como estes, mas adorei o resultado.
— Esse daqui foi um osso de gigante. Agora, o próximo passo é arrumar um escaravelho.
— Você vai a Caridrândia para buscar um escaravelho? Tome cuidado, ou vão acabar presos e servindo nas minas.
— Ou a gente destrói aquilo tudo lá.
— Eu não vou me intrometer nos assuntos de vocês… E o napol, cadê?
— Por aí. Deve tá batendo asa.
— Os protetores que ele mandou fazer também estão prontos.
— Eu entrego — disse Haldor.
O alquimista retirou uma bolsa com protetores de asa para napóis, conforme solicitado, e a entregou nas mãos do anão, acrescentando:
— Mande lembranças para Algur Braçadeira de Aço, no templo de Parom, em Blur.
Haldor assentiu, embora não conhecesse o anão mencionado, e então o grupo partiu.
Prática e política
Enquanto parte do grupo se dirigia ao alquimista, Haftor percorria as ruas de Telas para seu encontro agendado com Thragner, o sacerdote local de Crizagom.
O paladino observou uma ampliação na vigilância ostensiva da cidade. Guardas estavam por toda parte, em duplas ou trios. O prédio de mármore que abrigava o templo de Crizagom erguia-se imponente ao fim de seu percurso.
A mesma acólita que redigira a acusação contra Volrath recebeu Haftor na entrada do templo.
— Bom dia — cumprimentou o anão.
— Bom dia, senhor Haftor — respondeu a sacerdotisa, interrompendo a pintura em um vaso. — O mestre Thragner já o está aguardando.
A moça o conduziu até uma sala ao fundo do templo: um escritório repleto de livros e pergaminhos. No centro, sobre uma mesa desorganizada com diversos documentos e tomos espalhados, um homem vestindo uma capa branca, roupas pesadas de tecido e uma tabarda com o símbolo de Crizagom trabalhava incessantemente, analisando textos.
— Bom dia, paladino Haftor, Tain-umur de Blur — iniciou o sacerdote local assim que percebeu a presença do visitante. — É um prazer conheê-lo.
— É um prazer… recebi sua convocação.
— Sim. Creio que temos bastante a conversar. Fiquei sabendo de suas ações em Telas na minha ausência. Sente-se — disse Thragner, enquanto abria espaço na mesa e acomodava uma cadeira para Haftor. — Perdão pela desorganização, mas há muito papel e muitos documentos para assinar.
— Essa cidade parece meio perdida, não?
— Não creio. Ela tem seu rumo bem traçado, mas precisamos de cautela. Quem governa esta cidade são os magos.
— Não há ordem.
— Recebi uma acusação ontem à tarde que precisei rebater com bastante argumentação, mestre Haftor. A mansão de Syllen’ae não era um armazém de marginais, mas a residência de uma patronesse de Telas. Vocês arrombaram suas portas sem mandado do colegiado. Aquilo não foi justiça.
— Isso é sua opinião.
Embora Thragner mantivesse a calma durante a conversa, a reação de Haftor o provocou.
— Atacar emissários de Caridrândia sem o devido processo é chamar os elfos para os nossos portões — disse o sacerdote, em tom firme. — Minha presença ostensiva é um lembrete desagradável aos colégios de que eles ainda respondem aos reinos do norte.
— E deveria ser mais ostensiva! Porque o que vejo aqui é corrupção, uma rede nefasta de escravidão… Não acha que isso é algo que a Ordem deveria combater em vez de tentar resolver tudo com diplomacia e política?
— Combater com um martelo, arrombando casas e destruindo vilas? Justiça sem provisão é apenas uma sentença de fome. Se você tivesse esperado o meu retorno, Volrath teria caído por canais que não comprometeriam nossa relação com o colegiado.
— A nossa relação com o colegiado não está abalada. A minha está! Eu dei a ordem, eu dei a sentença.
— Infelizmente, você falou pela Ordem, não por si mesmo.
— Eu falei por Crizagom! Se a Ordem está disposta a trabalhar politicamente e esquecer seus preceitos e sua honra, então não está agindo de acordo!
Thragner desviou o olhar de Haftor e se levantou. Uma respiração profunda marcou alguns segundos de silêncio entre os sacerdotes. O responsável pelo templo voltou-se à mesa e começou a folhear os documentos enquanto continuava:
— O que, então, sua fé e sabedoria dizem que devo fazer diante destes depoimentos de tentativa de assassinato, invasão e destruição de domicílio? Tudo isso será levado aos magos.
— Tentativa de assassinato? Quem nós tentamos assassinar?
— Cinco elfos sombrios. Vocês mataram Gor-Huan, um diplomata de Caridrândia, e destruíram a casa da magistrada.
— Calma, meu querido, vamos lá — Haftor pegou os pergaminhos das mãos de Thragner e começou a analisá-los um a um. — Esse aqui era um alquimista que estava usando um fungo nefasto e poluindo a fonte da Aurora… e a Syllen’ae era uma traficante de escravos. Nós não tentamos matar ninguém. Nós eliminamos quem precisávamos eliminar.
Thragner mantinha uma expressão impassível, mas sua voz e seus trejeitos carregavam o peso das palavras.
— Sua estadia em Telas está se tornando permanente. Talvez seja a hora de continuar sua peregrinação.
— Talvez esteja na hora de eu pedir para que a Ordem venha ver o que está acontecendo em Telas. Quando eu chegar em Blur, vou solicitar que mandem uma comitiva para ajudá-lo.
— Tudo vai bem em Telas, Haftor.
— Então vamos deixar que a comitiva veja com os próprios olhos e decida.
Thragner virou-se e deu um passo para longe de Haftor. Depois de alguns instantes, voltou-se novamente para o paladino.
— Se deixarem a cidade até amanhã, não levarei isso aos magos.
— Está me ameaçando?
A expressão do sacerdote mudou pela primeira vez. Com um olhar altivo, ele ergueu a cabeça e pousou a mão sobre a bainha da espada.
— Eu esperava que um Tain-umur da sua estirpe soubesse agir com a temperança de um magistrado, e não com o ímpeto de um mercenário.
Sem erguer a voz ou levantar-se da cadeira, Haftor reagiu:
— Espero que não esteja pensando em sacar isso dentro de um templo.
— Jamais… não estou lhe ameaçando, Haftor. Apenas lhe dando um conselho.
Assim que ouviu Thragner negar a ameaça, Haftor levantou-se e partiu.
— Tá bom. Vamos embora assim que tivermos nossos negócios resolvidos aqui.
A revelação de Ketil-Monda
Depois de um longo dia de negociações, os aventureiros reuniram-se com Réctor no refúgio. O napol abriu a porta para sua casa dos sonhos a fim de revelar a todos as anomalias que haviam surgido.
A árvore entrelaçada em fios dourados, a passagem incompleta, o Domo de Arminus visto do colégio necromântico. Tudo isso somava-se a uma nova sensação percebida por Réctor. Uma sensação familiar.
O grupo foi conduzido até os limites nebulosos da casa dos sonhos de Réctor e encontrou outra passagem: uma trilha sinuosa em meio a uma floresta que ele jamais imaginara.
Enquanto caminhavam, a paisagem mudou drasticamente, tornando-se úmida e pantanosa. O grupo tentou identificar o que estava sentindo, enquanto Réctor percebeu tratar-se de Kétil-Monda, a titã-segunda que o inspirava a aprender novos feitiços.
Os aventureiros sacaram seus objetos mágicos para avaliá-los. A esfera dos humanos brilhava, mas permanecia estática, diferente dos movimentos que realizava no mundo real. Enquanto observavam, uma criatura surgiu das águas pantanosas. Era Kétil-Monda.
Réctor fez uma reverência extravagante, enquanto os outros, confusos e impressionados, tentavam compreender quem, ou o que, era aquela aparição.
— Gostei da decoração — iniciou o napol.
— Quem é essa dona aí?
— É a minha… entidade.
— Isso quer dizer o quê? Você casou com ela?
— Ela é quem provê o que eu sei fazer.
Com uma voz ressonante e mística, a entidade alertou Réctor sobre o perigo de ser consumido pela influência da Aurora Gelada, ou “a Dama Fria”, como ela a chamou.
— Réctor… você caminha sobre o orvalho de um novo tempo. A Dama Fria não busca apenas um mundo para despertar; ela busca uma mente para habitar. Cada folha que brota em sua árvore hoje é uma lembrança sua que ela consumirá amanhã. Se você não aprender a segurar a roca, se tornará apenas mais um fio no tear dela.
— Eita! Eu falei que tinha a ver com o negócio do fio. Ela pode querer me dominar?
— Ela irá dominá-lo, se você não dominá-la antes.
— E como eu faço isso? Como é que eu vou contra uma entidade desse tamanho?
— Você precisa compreender o padrão do tecido. O fio que agora vibra em seus sonhos é a vida dela, mas está solto, chicoteando contra a realidade. Você precisa das órbitas de Luminávis para esticar esse fio e enxergar o caminho. Use a gema dos humanos para guiar sua visão onde o olho falha na brancura. Use a gema dos anões para dar peso e corpo ao que é apenas espírito.
— Dona, eu tô aprendendo a ler ainda. Tem como a senhora desenhar isso aí, não?
— É essa? — indagou Réctor, mostrando a órbita encontrada na estátua da Dama. — A gema dos humanos?
— Sim… — respondeu Kétil-Monda. Ao ver a gema que Haftor apresentava, continuou: — E a gema dos anões, da matéria. Mas tema a terceira, pois ela foi tecida antes da sombra e agora pode se tornar o próprio vazio que nos consumirá. Procurem pela quarta, criada pelos reis feiticeiros para imitar o sopro da vida.
Garuk mostrou seu prisma, que não emitia qualquer brilho naquele momento.
— Disseram que isso aqui pode ajudar de alguma forma. Você sabe dizer?
— Você não carrega uma pedra, mas o sangue solidificado da Aurora, filha da Rainha Maira, que herdou o dom de germinar o futuro.
— Então ela é uma deusa?
— Ela é uma titã-segunda, como eu. Mas, enquanto eu me escondo nas brumas, ela deseja ser a própria luz que as dissipa.
Enquanto o grupo analisava as orbes, perceberam que elas reagiam em sincronia: a esfera humana emanava brilhos na mesma frequência em que as runas do artefato anão se acendiam.
— Como é que a gente vai montar isso se, quando uma chega perto da outra, dá uma explosão violenta?
— Em algum momento, recriar uma titã-segunda não será feito com pedras e gemas, mas com karma e mente.
Com as palavras de Kétil-Monda, todo o local começou a ser coberto por névoa. Uma bruma ergueu-se da água e tomou conta do ambiente. Réctor percebeu que seriam expulsos dali. Como gesto final, o napol fez uma reverência com a cabeça.
Rapidamente, o grupo viu-se novamente diante da colossal árvore-pilar no plano onírico de Réctor. Ela estava saturada pelos fios brilhantes, e a “estrada de tijolos amarelos” avançara metros desde a manhã anterior.
O paladino auxiliou o feiticeiro em tentativas de descobrir como tornar o filamento tangível. Após alguns experimentos, descobriram que ele reagia fisicamente aos artefatos humano e anão.
Lembrando-se das palavras da titã-segunda sobre controlar a Dama Fria, Réctor tentou usar o escopro encontrado nas escavações para tocar o filamento. Assim como ocorrera com as esferas, ele conseguia manipulá-lo. Agora, tentariam encaixá-lo na roca.
Garuk, o mais habilidoso do grupo em trabalhos delicados, pegou os objetos das mãos de Réctor. As mãos grandes, com garras afiadas, seguraram os instrumentos com uma delicadeza surpreendente. Com precisão, o sekbete enrolou o filamento dourado na roca e começou a tecer. À medida que a roda girava, o fio perdia seu brilho e enrolava-se em um novelo metálico dourado.
O trabalho de Garuk produziu efeito imediato. O filamento puxava os fios presos na árvore, reduzindo-a, ramo a ramo, ao estado imaginado originalmente por Réctor.
— Mas, se tirar isso aí, será que aquele caminho vai se fechar? — perguntou o feiticeiro, preocupado e curioso para descobrir o que existia ao fim da estrada que se tecia sozinha.
— A mulher não falou que você tinha que aprender a controlar isso aí, senão ela ia dormir na tua cabeça? — alertou o Guia, orientando Réctor a não interromper o tear.
Compreendendo o risco, Réctor decidiu continuar a tarefa. Ele chamou um amigo imaginário com a aparência de Asdrúbal para ajudá-lo a tecer, mas a criação não foi capaz de tocar os objetos. Assim, resolveu que ele mesmo faria a fiação enquanto permanecesse ali.
Réctor surpreendeu-se com o resultado. Ao tecer, sentiu um alívio místico na aura do local. No entanto, ouvia uma voz em sua mente repetindo: “Luminávis… não haverá pausa”.
Embora perturbadora, a voz não impediu o feiticeiro de continuar. À medida que o novelo aumentava, o som diminuía, enquanto a aura estranha que invadia sua casa dos sonhos se dissipava.
Antes de deixarem o plano onírico, Réctor entregou uma chave para cada um dos seis companheiros e explicou o funcionamento simples delas:
— Aproximem-se de uma superfície com a chave. Ela abrirá uma porta para cá.
Investigações finais em Telas
O despertar pela manhã revelou algo ainda não visto: dois guardas estavam de prontidão, patrulhando em frente à mansão em ruínas que o grupo escolhera como abrigo.
Intrigados com a situação, os aventureiros deixaram as ruínas com um propósito: encontrar a origem dos morcegos sombrios que os atacaram no acampamento de Lismara.
O Guia utilizou seu aliado mágico para isso: o morcego que encantara anteriormente. Orientando o animal a retornar ao cativeiro, o grupo chegou até uma mansão alta, de três andares, próxima da taverna onde haviam se encontrado com Sete Rotas. O odor característico dos elfos sombrios impregnava o local. Não havia dúvidas de que eles estiveram ali.
A residência parecia vazia: janelas fechadas, porta trancada. No entanto, marcas no chão e a vegetação ao redor indicavam que o lugar fora abandonado havia pouco tempo.
Réctor voou até o telhado para monitorar os arredores, enquanto o Guia usou as ferramentas e técnicas aprendidas com Demétrius para arrombar a porta discretamente. Imediatamente, ele, Garuk, Olgaria e Demétrius entraram e fecharam a porta. Haftor e Haldor permaneceram do lado de fora, explorando os arredores.
O quarteto encontrou uma residência recém-abandonada. Arranhões no chão de madeira, marcas de poeira revelando móveis removidos às pressas e o odor recente da presença de elfos sombrios indicavam uma retirada apressada.
Olgaria e Demétrius permaneceram no andar inferior, enquanto Garuk e Guia subiram em busca de sinais dos morcegos.
Depois de encontrar um piso falso ao lado de uma escada, o Guia percebeu sinais de caixas removidas, além do odor intenso de morcegos e elfos sombrios. O rastreador usou seus poderes sombrios para reconstruir uma cena de um dia antes.
Ele viu elfos sombrios arrastando gaiolas com morcegos vindos de Caridrândia. Quase todo o ambiente já estava vazio. Os dois trabalhadores resmungavam em élfico, mas o Guia conseguiu interpretar a conversa lendo seus lábios:
— Mal consegui me assentar nessa cidade e aquela megera já tá mandando a gente embora. Lá vamos nós pra uma viagem longa outra vez.
A escada ao lado do ponto investigado pelo Guia conduzia à torre de lançamento dos morcegos, próxima de onde Réctor observava do telhado.
Enquanto o grupo investigava o interior da mansão, Haftor e Haldor encontraram, nos fundos, uma pequena horta abandonada. Quando concluíam a volta ao redor da propriedade, perceberam que os dois guardas que estavam em frente às ruínas também circulavam pelos arredores da casa.
— Estão nos seguindo — concluíram os anões.
Os dois permaneceram na esquina, conversando e ocultando sua presença até terem certeza de que os guardas os observavam. Em seguida, caminharam rumo à rua principal para atraí-los. O plano funcionou: os guardas deixaram a frente da mansão e passaram a persegui-los.
Os anões percorriam um trajeto circular. A intenção era chegar até a taverna e despistar os perseguidores. Réctor veio em auxílio.
— Quem mandou vocês? — indagou o napol, aterrissando repentinamente à frente dos guardas; suas asas cobriam quase toda a largura da rua.
As pessoas ao redor desviaram das asas do napol e observaram com desconfiança a afronta aos guardas, que responderam apressadamente:
— Como assim? O que você quer dizer com isso?
— Não quero dizer nada. Só tô constatando. Vocês estão seguindo aqueles dois anões? Pode me contar. Não vou falar nada pra eles, não.
— Veja como fala com a guarda de Telas, ou pode acabar numa gaiola!
— Opa, opa! Eles estão seguindo a gente, pessoal! — disse o napol em voz alta.
O estardalhaço desencorajou os guardas que, àquela altura, já haviam perdido os anões de vista. Eles partiram em outra direção, e o grupo teve certeza de que estava sendo perseguido.
Aquela seria a última investigação do grupo em Telas. Assim que se reuniram novamente na casa dos sonhos de Réctor, decidiram deixar a cidade.
A decisão foi reforçada quando, na manhã seguinte, observaram não apenas dois, mas três guardas patrulhando em frente às ruínas onde mantinham acesso à casa dos sonhos.
Antes da partida, o grupo fez um pequeno passeio para despedir-se das pessoas que marcaram sua estadia. O Guia despediu-se de sua professora, que lhe presenteou com um dicionário élfico. Depois, todos seguiram até a tenda de Lismara, que se despediu afetuosamente do grupo — especialmente de Demétrius.
O destino era Blur. Porém, pouco depois de cruzarem a barreira mística que mantinha Telas aquecida e retornarem ao frio característico do sul das Geleiras, lembraram-se de Rodérico, o artesão das rochas da Aurora que residia ao sul da cidade.
Ao alterarem a rota, percorreram cinco dias pela fria Floresta de Obriana, cruzaram um vilarejo e, cinco dias mais tarde, depararam-se com uma estrada obstruída por uma árvore caída.
Rindo da situação, Garuk aproximou-se do enorme tronco e o ergueu com as próprias mãos. Olhou para o grupo com orgulho.
Naquele instante, uma flecha cruzou o ar e, por um milímetro, não atingiu o corpo do sekbete.
Um humano maltrapilho surgiu entre as árvores.
Ele certamente não estava sozinho.
O grupo estava sendo emboscado.
Telas e Floresta de Obriana, dias 14 a 26 do mês da Sabedoria do ano de 1502.


Nenhum comentário:
Postar um comentário