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domingo, 19 de abril de 2026

(LA) Sessão 36

Sessão 36 - O artefato tindaeli

Os plantores amaldiçoados

Um senso de corrupção familiar era sentido por Haldor. O anão, recém-descobrira seus dons sensitivos, mas já era capaz de perceber que o monstro que atacava seu companheiro estava sob algum efeito maligno.

Do outro lado dos escombros, Garuk escutou os gritos de Réctor e Haldor e foi até o monte de pedras que os separava. Com as próprias mãos, potencializadas por seu rito berserker, o sekbete começou a remover pedra sobre pedra a fim de abrir caminho até seus companheiros em apuros.

Réctor havia desviado de um golpe repentino de tacape. Sombra surgiu para protegê-lo, cuspindo chamas contra o inimigo, que se defendeu sacrificando o escudo que carregava.

O feiticeiro lançou disparos de vácuo contra o monstro vegetal. A magia rompeu sua casca, revelando veios sombrios e cogumelos mortalos crescendo em seu interior.

— Ela está corrompida! — percebeu Réctor. — Essas criaturas não costumam ser malignas — completou o feiticeiro, lembrando que se tratavam de plantores, criaturas vegetais em harmonia com a natureza.

A criatura ainda não havia se recomposto de sua investida quando Haldor se aproximou com seu machado em prontidão. O golpe do anão partiu o monstro vegetal em dois. Um vapor escuro e ácido exalou do corpo destruído, penetrando suas vias respiratórias e fazendo-o tossir. Não fosse sua resistência inabalável, algo pior poderia ter ocorrido.

Garuk, auxiliado por Demétrius, conseguiu abrir a passagem alguns minutos depois. Réctor, Haldor, Lismara e Olgaria aguardaram antes de prosseguirem pelos corredores escuros.

— Essas criaturas… eu não sabia que elas estavam aqui — revelou Lismara.

A corrupção era forte no local. Mortalos cresciam junto às paredes, e uma sensação pesada assolava os sensitivos.

— Guia, talvez o seu pingente consiga purificar esse lugar, né? — sugeriu Haldor. — Ou talvez a água que vocês pegaram na nascente.

Mas o sekbete não arriscou descarregar seu artefato naquele momento. Os aventureiros exploraram a caverna por mais algumas dezenas de metros e, em uma área mais ampla, depararam-se com outra estátua, desta vez muito maior.

— Tem outra estátua aqui — avisou Réctor, enquanto coordenava seus companheiros para deixarem os corredores estreitos.

A estátua, com cerca de quatro metros de altura, erguia-se próxima à parede da caverna, sobre uma base alta e larga. Era de bronze e representava uma mulher apoiada em um cajado fincado no chão, cuja extremidade superior sustentava um cristal azulado. Mortalos cresciam na base, e veios sombrios pareciam se espalhar por algumas juntas.

Um som agudo e distante ecoou nos ouvidos de Haftor. Ao mesmo tempo, uma vibração em sua bolsa chamou sua atenção — mas o anão ignorou a sensação momentaneamente.

O Guia experimentou borrifar um pouco da Água Fria da Dama sobre a estátua de bronze. Sacou seu cantil e posicionou o Coração d’Aurora no caminho do fluxo. A água escorria pelo artefato antes de alcançar a estátua.

O efeito foi imediato: os mortalos atingidos murcharam e ressecaram.

Ágil, o sekbete escalou a estátua até sua cabeça. De lá, coletou mais água de seus companheiros e repetiu o processo, fazendo o líquido escorrer por toda a estrutura.

A água limpava o bronze, mas também revelava veios escuros de corvear. A estátua não era feita de uma liga, mas sim composta por dois metais distintos: bronze na forma e corvear em veios que se espalhavam por todo o corpo.

No entanto, o Guia percebeu um gotejamento vindo de uma estalactite. A água pingava sobre a estátua e, por onde passava, restaurava a aura contaminada. Para impedir isso, ele improvisou uma corda para desviar o fluxo até a parede.

A tentativa de purificação despertou mais plantores.

As criaturas avançaram sobre o grupo, que se dividiu para enfrentá-las enquanto o Guia mantinha seu experimento.

Um dos plantores posicionou-se no centro do salão. Um brilho mágico surgiu ao seu redor, e os aventureiros sentiram a temperatura subir drasticamente. Réctor e Olgaria foram os mais afetados. O napol caiu de joelhos, ofegante. Olgaria sofreu um choque térmico e desmaiou em meio à batalha.

O paladino correu para acudir a companheira. Com um milagre de regeneração, ela voltou a si, enquanto Garuk e Haldor continuavam a enfrentar os plantores.

— Que dor de cabeça… — resmungou a zumi ao se reerguer.

Garuk e Haldor garantiram a vitória contra as criaturas. No entanto, ambos pisaram inadvertidamente em poças de água contaminada.

As botas de Haldor impediram o contato direto com a pele, mas ele viu mortalos crescendo sobre elas. Já Garuk percebeu suas escamas enegrecerem e perderem a sensibilidade.

Ainda assim, ambos resistiram aos efeitos venenosos aos quais haviam sido expostos.

O enigma da chama e do fio

Com a área livre de inimigos, o grupo voltou sua atenção ao artefato preso ao cajado da estátua.

Réctor aproximou-se voando para observar o pedestal. Enquanto isso, a água despejada pelo Guia escorria até a base da estátua e revelava um texto antes oculto. O idioma era humano, mas ancestral.

— Nossa… parece uma inscrição tindaeli — surpreendeu-se Lismara. — Talvez eu consiga traduzir. Só preciso me concentrar…

Enquanto ela estudava a base, o Guia e Réctor analisavam o objeto esférico transparente encaixado no bojo do cajado.

O feiticeiro desenroscou a estrutura externa e revelou, em seu interior, uma esfera semitransparente. Pequenas luzes brilhavam como estrelas, e um disco luminoso agitava-se suavemente com o movimento.

Após alguns minutos de análise, a arqueóloga conseguiu traduzir o primeiro trecho:

— “A chama da Geleira protege o fio e germina o futuro.”

— Eu acho que isso aí é a tal da chama — supôs Réctor, apontando para a esfera no cajado. — O fio deve estar aí dentro.

— E aí, diz o que é essa tal de chama, dona? — questionou o Guia. — Essa pedra aqui?

Réctor removeu o objeto esférico do cajado. As luzes em seu interior pareciam apontar sempre para o mesmo lugar, independentemente da posição da esfera. As orbes funcionavam como níveis, mantendo sua orientação apesar do movimento.

O artefato repousava sobre uma base de corvear. Abaixo dela, uma nova inscrição em tindaeli foi traduzida por Lismara:

— “Onde o olho falha na brancura, o compasso revela o fio. O que foi espelhado em Tindael, só a vontade pode atravessar.”

— Estranho… o que isso remete? Tindael? — indagou o feiticeiro.

— Tindael foi uma civilização muito antiga, que ocupou todo o sul das Terras Selvagens — explicou Lismara. — Hoje, a região é inabitável. Dizem que há um deserto de cristais por lá.

Percebendo a semelhança e a ressonância entre o objeto encontrado e o artefato anão carregado por Haftor, o grupo decidiu testar uma interação entre eles.

Quando Réctor colocou o artefato anão sobre a base e o fechou dentro do bojo, um brilho azul intenso foi emitido — o mesmo que haviam percebido ao entrar na área. A reação parecia idêntica.

O napol removeu o artefato anão e o devolveu a Haftor. O brilho cessou, embora a sensação de ressonância entre os objetos permanecesse.

Voltando sua atenção para a esfera humana, Haftor recordou-se de algo:

— Essa esfera lembra um pouco aquela serviçal que seu mestre sonhou… a Jardineira, como ele chamava. Aquelas luzes ali parecem aqueles vagalumes batendo contra a superfície.

O cofre de corvear

As investigações do Guia, Haftor e Réctor começavam a entediar Garuk. O berserker olhou ao redor e percebeu que a estátua não era a única construção incomum naquele ambiente. Havia duas tumbas com pesadas tampas de pedra, uma de cada lado do grande salão natural.

O sekbete avançou até uma delas e apoiou suas garras na tampa. Lismara, assustada, tentou intervir:

— Para, para, Garuk! Pare, por favor! É um objeto arqueológico, você pode destruí-lo!

— Não. Eu faço com cuidado.

Movendo seus músculos poderosos, o sekbete ergueu a tampa, que acabou se partindo sob o próprio peso. Ele arremessou o fragmento que permanecia em sua mão para o centro do salão, vendo-o se estilhaçar em inúmeros pedaços.

A arqueóloga levou as mãos à cabeça e olhou para Réctor.

— Não posso fazer nada — esquivou-se o napol.

Dentro da tumba destruída, Garuk encontrou um esqueleto humano envolto em um tecido azul com bordados dourados. Os restos mortais carregavam um jarro feito de corvear.

A descoberta não agradou o sekbete, que esperava encontrar armas ou armaduras dignas de um guerreiro.

Réctor voltou sua atenção ao jarro. Uma rolha o vedava e foi facilmente removida. No interior, encontrou um escopro. O cabo, feito de madeira nobre, era ornamentado com runas anãs, e a lâmina permanecia em perfeito estado de conservação. Provavelmente fora a ferramenta utilizada na construção da estátua.

Com novos pedidos de cautela por parte de Lismara, Garuk dirigiu-se à segunda tumba. Desta vez, com mais cuidado, moveu a tampa para o lado e conseguiu abri-la sem destruir a estrutura.

— Esses esqueletos tão tudo carregando jarro — resmungou o berserker ao ver outro esqueleto, agora anão, envolto em tecido cinza com bordados em prata.

O Guia pegou o jarro e imediatamente analisou seu conteúdo. Dentro, encontrou uma pequena roca de fiar, acompanhada de um novelo de fios dourados.

Réctor recolheu os objetos e os entregou a Sombra. Já os jarros chamaram mais a atenção do Guia.

— Garuk, me empresta seu prisma aí. Vou botar dentro do vaso. Verifica aí, Haftor, se vai aumentar o brilho ou diminuir.

O teste foi bem-sucedido.

Haftor percebeu que seu artefato deixou de reagir ao prisma de Garuk — comportamento que normalmente ocorreria — assim que ele foi colocado dentro do jarro de corvear.

— Aqui, ó! É isso que eu tava falando. A gente pode ficar mais difícil de ser detectado. Achamos o nosso “cofre” — empolgou-se o Guia.

Lismara, já mais recomposta, analisava a tampa intacta da segunda tumba. Em sua face interna, encontrou outra inscrição em tindaeli:

— “Onde o corvear silencia, meu martelo selou o destino. Que o sangue de Blur sustente o bronze para que o fio nunca se parta sob o peso da sombra.” Assinado: Torgan, o escultor. Parece um epitáfio.

O grupo decidiu levar todos os artefato encontrados. A arqueóloga protestou, mas eles prometeram devolvê-los após investigá-los com os anões.

Antes de partirem, Réctor decidiu fazer uma sondagem da superfície para tentar identificar a origem do gotejamento sobre a estátua.

Ao sair das escavações e alçar voo, o napol percebeu que a caverna se situava sob uma densa área florestal. Em uma clareira próxima, avistou um moinho de vento e um armazém. Pelos seus cálculos, a estrutura estava posicionada exatamente sobre a caverna onde se encontrava a estátua.

— Avise o restante do grupo — disse Réctor a Sombra, antes de abrir um portal que ligava a caverna às proximidades do moinho.

A construção de madeira não parecia abandonada. Pilhas de palha estavam organizadas, e ferramentas, limpas. Ainda assim, não havia sinais claros de atividade.

— Você já tinha visto isso aqui, Lismara? — perguntou Réctor.

— Tá nos nossos mapas, eu acho… mas nunca investigamos.

— Então vamos investigar — disse o Guia. — Porque parece que a água vem daqui. Você viu alguém lá de cima?

— Não vi ninguém.

Antes de entrarem, o Guia analisou o ambiente ao redor e identificou sinais de movimentação recente.

— Parece que algumas pessoas passaram por aqui. É bem recente.

O grupo entrou no armazém com cautela. O interior era organizado: pilhas de favos de grama seca, ferramentas e utensílios de corte estavam espalhados pelo local.

Ao fundo, encontraram uma porta. Do outro lado, o som de rochas se chocando era claramente audível.

— Será que são os cogumelos sendo esmagados? — supôs Réctor.

— Vamos descobrir, né? — respondeu Garuk, chutando a porta e arrombando-a.

A passagem revelou um moinho em funcionamento, onde cogumelos mortalos eram triturados. O processo exalava um odor nauseante e produzia um líquido viscoso que escorria para um poço. A massa restante acumulava-se ao final do trilho.

Os cogumelos eram transportados até o mecanismo por uma esteira automatizada. Diversos barris estavam posicionados entre os aventureiros e a entrada do sistema.

— Achamos — concluiu Réctor. — Foram os sombrios que colocaram esse troço.

O grupo avançou para dentro da área de produção.

Subitamente, um domo de escuridão envolveu o ambiente, cegando todos os aventureiros.

— E será a última coisa que verão — anunciou uma voz aguda, porém masculina.

Telas, dia 14 do mês da Sabedoria do ano de 1502

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