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domingo, 26 de abril de 2026

(LA) Sessão 37

O alquimista sombrio

O confronto no moinho

“E será a última coisa que verão.”

As palavras ecoaram na escuridão quando o grupo foi surpreendido após descobrir um moinho de mortalos.

Imediatamente, Réctor conjurou uma fonte de luz, dispersando a escuridão mágica invocada sobre o grupo. Monstros feitos de sombra estavam à espreita. No entanto, os inimigos reais estavam em uma área elevada: um mezanino sobre a área de moenda.

Haldor avançou contra uma das criaturas. Seu machado atravessou o corpo do monstro. O encantamento de sua arma brilhou, e a criatura sofreu.

— Volte para a escuridão de onde veio — bravejou o anão, ao ver que a criatura se reformava à sua frente e outras já o cercavam, obrigando-o a se defender.

Garuk também avançou, mas seus ataques com garras não surtiam efeito contra as criações do inimigo.

— Tem gente lá em cima — alertou o Guia, mirando seu arco.

Haftor convocou um milagre de velocidade. Rapidamente, subiu ao mezanino e avançou sobre o feiticeiro sombrio.

— Ah, eu deveria agradecê-lo, paladino… mas vou matá-los! Não deveriam se meter onde não são chamados. Já atrapalharam demais nossos interesses.

— Pelo jeito você não conhece bem a gente — respondeu Haftor, brandindo seu martelo. O inimigo se esquivou, mas logo se viu encurralado contra a parede.

Invocando poderes sombrios, o feiticeiro criou tentáculos mágicos sobre o grupo. Embora a maioria tenha conseguido evitar o pior, Garuk se viu preso, enroscado. O encantamento afetou sua mente e, em instantes, ele caiu inconsciente.

— Vão morrer aqui, eu disse!

— Geralmente, quando conta vantagem antes da hora… — provocou o Guia — a gente só precisa matar você, cara.

Haftor, Olgaria e Sombra cercaram o elfo sombrio no mezanino.

— Saiam! Ataquem minhas feras! — gritava o elfo, em vão. Ele estava cercado e sob forte pressão dos aventureiros.

Os dois guardas que o protegiam nada podiam fazer. O grupo focava seus ataques no líder e apenas se defendia dos dois, impotentes diante da ferocidade dos aventureiros.

— Seus inúteis! Vou deixá-los aqui — bradou o feiticeiro, antes de desaparecer em um passe de mágica.

Suas criações sombrias, que ainda lutavam contra Haldor e Demétrius no andar de baixo, dissiparam-se imediatamente.

Frustrados com a fuga do vilão, os aventureiros voltaram-se para Garuk. O encantamento o atingira em cheio, e he não acordaria facilmente. Haftor usou um milagre de regeneração, garantindo que ele ficaria bem e despertaria o mais rápido possível.

— Eu sei para onde ele foi — anunciou o Guia, que continuava a rastrear os sinais do inimigo. — Ele se teletransportou para fora. Depois, para a cidade.

A evolução dos poderes do sekbete agora lhe permitia sentir o rastro energético de sua presa. O feiticeiro não escaparia tão facilmente.

— Ok, vamos atrás dele. Temos que pegá-lo! — completou Haftor.

Os dois guardas deixados para trás se renderam sem resistência. Foram amarrados junto à coluna do mezanino. Olgaria e Demétrius ficaram com eles, aguardando o despertar de Garuk, enquanto Haftor, Haldor, Réctor e o Guia saíram em perseguição.

O Guia correu por terra, com seus movimentos ampliados por magia. Haftor veio logo atrás. Réctor voou em direção à cidade, seus olhos atentos a qualquer anomalia. Haldor seguiu seus companheiros de longe.

O rastro levou o grupo até a mansão de Syllen’ae, agora vazia.

O Guia ordenou a seu morcego sombrio que ficasse de prontidão sobre a mansão, enquanto Réctor preparava a convocação os demais.

— Ele não vai longe — disse o Guia. — Rápido.

Enquanto isso, no moinho, Garuk despertou com a visão de Demétrius ao lado dos dois elfos sombrios amarrados. Ao saber que os prisioneiros não colaboravam, resolveu agir.

— Sim ou não? — perguntou Garuk ao prisioneiro, sem qualquer contextualização.

O elfo acenou positivamente com a cabeça.

Sem dizer mais nada, Garuk jogou água em seu rosto e, em seguida, pisou com violência em seu pé, quebrando os ossos com um estalo seco.

Demétrius recuou, assustado com a ação repentina: — Só para saber… se ele tivesse dito “não”, você faria o quê?

Antes que concluísse, Réctor surgiu em um portal.

— Venham. Tragam os prisioneiros.

A morte de Gol-Mir-Huan

A mansão estava quase vazia, mas alguns guardas elfos sombrios ainda faziam a vigilância. No entanto, ao verem os aventureiros avançando impetuosamente, recuaram e trancaram as portas.

— Pé na porta! — ordenou Haftor.

Garuk brandiu seu machado e atacou com ferocidade. A lâmina atravessou a porta e, ao ser puxada de volta, arrancou toda a folha de madeira consigo.

— Com licença, posso entrar? — disse o sekbete, avançando.

Os guardas correram para as alas internas, apavorados.

— Como ousam vir até aqui? — disse o feiticeiro sombrio, Gol-Mir-Huan, do alto da escadaria. — Este local é protegido por leis!

— Ah, cala a boca — retrucou o Guia.

— Eu sou a lei! — anunciou Haftor.

— Eu só quero que você cumpra sua palavra de nos matar — provocou o Guia.

Sem disposição para sustentar o confronto, o feiticeiro desapareceu novamente em meio a flechas e magias disparadas pelos aventureiros. Ainda assim, o Guia continuava a sentir sua energia. O rastro do teleporte o levou para o fundo da mansão. O grupo sabia onde encontrá-lo.

Mais uma vez, os aventureiros partiram em perseguição, correndo pelos corredores estreitos. Poucos segundos depois, Réctor chegou à porta do cômodo indicado pelo Guia. Ao abri-la, encontraram Gol-Mir-Huan abrindo um portal mágico.

Ele olhou para os aventureiros com uma expressão mista de pavor e ira.

Haldor, que vinha correndo desde a floresta, aproximava-se da mansão. Próximo dali, avistou alguns guardas de Telas. Sabia que, se o grupo fosse encontrado dentro da mansão dos elfos sombrios, haveria problemas. Assim, entrou para alertar seus companheiros.

Flechas começaram a chover perto do feiticeiro, que se abaixou, apavorado. Uma delas atingiu seu cajado, arrancando a caveira de sekbete que adornava sua extremidade.

Gol-Mir-Huan ergueu-se, tentando dar um passo em direção ao portal.

Nesse momento, uma flecha do Guia atravessou seu peito.

O elfo caiu instantaneamente, metade para fora, metade para dentro do portal.

Haftor puxou o corpo antes que o portal se fechasse. O inimigo estava morto, com o coração perfurado.

— Elfo sombrio é tudo mentiroso mesmo. Não cumpre nenhuma promessa — disse o Guia.

— Os guardas estão chegando, temos que acelerar — alertou Haldor, ao alcançar o grupo.

O anão fora ágil o suficiente para não ser visto, mas a porta destruída chamava atenção.

Sem perder tempo, Réctor conjurou um feitiço para levar o grupo de volta ao beco onde Demétrius e Olgaria mantinham os prisioneiros e, depois, ao moinho, onde Lismara ainda aguardava.

Para não deixar rastros imediatos, o napol ordenou que levassem todos os itens encontrados.

O segredo dos Mortalos

Com o feiticeiro fora de combate, o grupo voltou sua atenção aos prisioneiros.

— O que vocês estavam fazendo aqui? Por quê? E para quem? — exigiu o Guia. — Já viu que a gente não está com paciência, né?

— Eu não sei direito de nada… — respondeu o elfo sombrio de pé quebrado. — Só protegemos a fábrica de mortalos.

— Cadê o produto?

— Está lá fora, no armazém. É um orvalho… Orvalho de Nosrog.

— E quem é esse inútil aqui? — questionou o Guia, apontando para o cadáver do feiticeiro.

— É um dos alquimistas… Não sei exatamente a quem servia. Talvez Minoliz. Syllen’ae vivia na cidade e transmitia as ordens.

Enquanto o Guia interrogava, Réctor analisava os itens trazidos da mansão e do moinho. Encontrou um mapa, um pergaminho técnico, moedas de ouro e uma chave no corpo do feiticeiro.

O pergaminho continha uma receita alquímica manuscrita: “O Refino da Sombra — Mortalos Purificado”, dizia no cabeçalho.

— “Apresento o registro encontrado nas anotações do mestre alquimista Aroin Beor…” — lia Réctor. — “Destinatária: Ilustríssima Alcormi Minoliz, Cidadela de Icumus, procedente do moinho de Vir-Maliz, nas escavações de Telas.”

— Icumus? Esse nome aí é o quê? — perguntou o Guia, ao reconhecer o termo.

— “O chorume resultante deve ser lavado nas águas que vertem da estátua da Dama…” — continuou Réctor. — “Esta água, por sua natureza divina de repelir o mal, atuará como filtro de ordens superiores, deixando apenas a essência limpa e estável da sombra.”

Em outras palavras, os elfos sombrios estavam utilizando a água da Dama e o pó de mortalos para purificar karma infernal. No entanto, a própria água era contaminada no processo.

— “Este pó, quando ungido sobre ferramentas de corvear…” — seguiu a leitura — “permite que o mestre entalhe o recipiente sem que a fúria da entidade entrelace a mente do artífice.”

Os aventureiros discutiram as implicações do que haviam descoberto. Intrigaram-se com o fato de a água contaminada estar gotejando exatamente sobre a estátua, questionando se aquilo era intencional ou acidental.

— Como funciona esse sistema aqui? — perguntou o Guia ao prisioneiro. — Onde vocês guardam o Orvalho?

— Eu não sei… eu só guardo a porta… — respondeu o elfo ferido, em pânico. — A carga está lá fora… por favor, meu pé…

— Ele não vai falar nada útil — disse Haftor.

Nesse momento, percebendo que o grupo negociava, e não torturava, o segundo elfo sombrio falou pela primeira vez, em élfico:

— Deixe-o. Ele é apenas um recruta. Não sabe a fórmula. Eu posso lhes dizer o que querem saber… sem que precisem recorrer a mais dessa brutalidade.

O prisioneiro ferido reagiu com desprezo, cuspindo na direção do companheiro enquanto era libertado para interrogatório.

O elfo sombrio conduziu o grupo até o armazém. Ao abrir um baú, um gás roxo exalou. Ele mergulhou a mão no conteúdo e retirou um pó fino, que escorreu por seus dedos. O cheiro pútrido de mortalos era inconfundível. A sensação era de um peso místico, perceptível mesmo à distância.

Buscando demonstrar generosidade diante de Lismara, Réctor decidiu libertar o prisioneiro sobrevivente, apesar dos protestos de Garuk e Olgaria.

— Não podemos deixar ninguém para trás — disse Olgaria. — Eles vão voltar para nos atacar!

— Você ainda vai se arrepender dessa generosidade — alertou Garuk.

— Lismara está apavorada com a gente. Eu sou um gentleman. Quero que ela veja que não somos monstros.

— E quem disse que eu quero que ela pense isso? — retrucou Garuk.

A decisão de Réctor prevaleceu.

Antes de libertá-lo, porém, Garuk arranhou o braço do elfo com sua garra. Deixou o sangue escorrer, colheu um pouco e farejou. Em seguida, passou ao Guia, deixando claro que o rastro poderia ser seguido.

O elfo partiu sem dar as costas ao grupo, até sair do armazém. Depois, correu em direção à floresta.

— Quanto ao outro?

— Esse não tem salvação — respondeu Réctor.

Olgaria foi a carrasca. Com um golpe preciso de machado, decapitou o prisioneiro ferido.

Do lado de fora, Lismara e Demétrius conversavam. A arqueóloga mantinha uma expressão severa, talvez de tristeza, talvez de preocupação.

— Viu? — disse Réctor. — Se as pessoas falarem e fizerem o que pedimos, depois de atacarem a gente, saem livres.

A mulher desviou o olhar.

— Não se preocupe comigo — confortou Demétrius, colocando a mão sobre o ombro da amiga.

Após uma breve discussão sobre o destino dos objetos encontrados, Réctor ordenou que Sombra chamasse Móros. A necromante chegou rapidamente por um portal.

— Toma, Móros. Pode ficar com isso — disse Réctor, entregando o pergaminho e indicando os barris.

— Posso ficar com isso? — perguntou ela, surpresa. — Vou trazer alguns serviçais para carregar tudo.

Com um estalar de dedos, quatro esqueletos atravessaram o portal e começaram a transportar os barris para o colégio necromante.

— Vai guardar ou destruir? — questionaram.

— Estudar. Terá o destino adequado. Os elfos sombrios nunca mais verão isso.

— Isso permite usar a energia da Aurora — alertou Réctor. — Mas eu não sei a que custo. Então, cuidado.

— Teremos o cuidado necessário.

O fio dourado dos sonhos

— Ô, magrelo… quanto de moeda tem aí? — perguntou o Guia a Demétrius, arremessando o saco.

— Hum… 57 moedas de ouro e 112 de prata.

— Vamos fazer o seguinte: você fica responsável pelos pagamentos até o fim da nossa jornada. E faça recibo de tudo!

— Eu faço — respondeu Demétrius, com uma risadinha.

— Quando eu precisar de alguma coisa, você compra, entendeu? E sempre tem que ter o dinheiro. A menos que você gaste demais… aí já não é problema meu.

Com isso, o grupo começou a se dispersar para descansar.

Haldor e Haftor foram para a taverna. Ainda no início da noite, receberam um mensageiro.

— O sacerdote Thragnar retornou ao templo de Crizagom. Ele deseja falar com o senhor Haftor. Aguarda-o amanhã pela manhã.

— Não pode ser à tarde? — indagou Haldor.

— Vamos pela manhã — respondeu Haftor.

Réctor passou o restante do dia preparando o ritual para abrir sua casa dos sonhos permanente. A porta ficaria a alguns metros do mausoléu de Vandril Kel, conforme orientação de Móros.

O feiticeiro forjou dez chaves. Além disso, criou “habitantes” para seu mundo onírico. Os moldou como versões alteradas de pessoas que conhecera em suas aventuras. Um Silvan serviçal, um Asdrúbal reclamão, entre outros.

O ritual foi concluído com a criação das chaves, materializadas a partir de sua própria mente. Após entregar uma delas a Móros, Réctor abriu a porta para contemplar sua nova criação.

Em sua mente, o centro do local era ocupado por uma árvore colossal. Ilhas flutuavam ao redor, formando ambientes distintos. Era um espaço moldado por sua vontade.

Mas algo estava diferente.

Um fio dourado envolvia a árvore, apertando-a e se espalhando por seus ramos. Por onde passava, novos galhos surgiam, com folhas vibrantes e cores intensas.

A aura do ambiente não era apenas dele.

Não apenas pela influência do Domo, visível como já ocorrera em sua criação anterior, mas por aquela presença estranha — algo que não lhe pertencia.

Telas, dia 14 do mês da Sabedoria do ano de 1502

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