Os interesses necromânticos
O Tomo das Sete Faces
Enquanto o julgamento de Volrath atraía uma multidão no pátio do Colégio do Conhecimento, o Guia e Dorian permaneceram na biblioteca. O ambiente, inicialmente silencioso, logo foi contaminado pelos sons externos da multidão.
— O que exatamente está acontecendo? — indagou Dorian.
— Ah, você não é daqui, né? — lembrou-se o Guia. — Então, teve um cara que passou uma rasteira em uma mulher. Aí, ela falou com a gente, a gente invadiu a casa dele e descobriu que ele tava mancomunado com os elfos sombrios. Ele tinha um esquema de tráfico de escravos anões e humanos. Aí a gente passou o machado em todo mundo lá, trouxe uns papéis como prova e agora vamos machucar o cara — resumiu o sekbete.
Enquanto conversavam, a dupla não interrompeu a busca pelos tomos que Dorian sabia ter lido sobre os objetos de interesse do Guia. Com esforço, encontraram um manuscrito de capa de couro vermelho. Ao abri-lo, o Guia viu desenhos que lembravam os Corações d’Aurora que possuíam.
— Aqui, ó! Achei!
— Calma. As informações podem estar dispersas. Precisamos analisar com atenção para confirmar.
Ao examinarem o livro juntos, não encontraram o termo exato “Coração d’Aurora”, mas referências a “gemas ancestrais”, “pedras antigas” e “fontes do éter”.
— Quem é esse tal de éter? Foi ele que fez essa pedra?
— Ah, esqueça isso, é só teoria — desconversou Dorian, sem tempo para uma explicação mais profunda. — É só a forma como funciona.
— Veja, este é o Tomo das Sete Faces — apontou Dorian, referindo-se ao manuscrito.
A dupla seguiu buscando relações entre os textos e os objetos que conheciam. O Guia encontrou referências à pedra que carregava.
— Esta pedra da renovação… — Dorian iniciou a leitura na página onde encontrou o desenho do artefato — …é capaz de restaurar a energia mística da criação. É uma das pedras com maior poder entre as conhecidas… — o mago hesitou. O idioma arcaico dificultava a compreensão. — Nem tudo está traduzido.
Dorian ofereceu o tomo para que o Guia o levasse. O conteúdo era extenso, mas talvez Haftor e Réctor pudessem ajudar a compreendê-lo.
— Não vai dar problema para você, não?
— Não vai. Tome cuidado, isso não parece ser um objeto qualquer.
— Com certeza não é. E você tá bem com seus estudos?
— Sim. Ainda estou me adaptando ao colégio.
— Você tá de parabéns, hein. Normalmente, os engomadinhos que nem você que eu guio pra cá não duram nem uma semana — “elogiou” o sekbete, antes de se despedir e partir ao encontro do restante do grupo, que já havia encerrado sua participação no julgamento de Volrath.
A abordagem do conhecimento e da necromancia
Silvan abordou o grupo assim que o julgamento terminou. Com um sorriso incomum, o mago parabenizou os aventureiros pelo desempenho.
— Parabéns, Haftor. Parabéns para você também, Réctor. Suas intervenções foram bastante úteis e civilizadas.
— Eu sou civilizado — respondeu o napol, em tom provocativo, mas logo mudando de assunto. — Posso te pedir um favor? Tem como eu fazer uma porta para a minha casa aqui dentro?
— Do colégio? Impossível. Jamais vão autorizar algo assim. Você não é membro!
— Cadê Elara? Cadê a mulher que manda de verdade?
Apesar da provocação, Silvan chamou Elara, que ainda se dispersava da multidão.
— Posso te pedir um favor? — disse Réctor, direto ao ponto. — Eu poderia criar uma porta da minha casa aqui dentro do colégio, para mantê-la protegida? Eu deixo uma chave com vocês, assim podem entrar e sair quando quiserem.
— Preciso entender melhor esse seu feitiço — afirmou a maga, curiosa.
O feiticeiro então criou uma porta temporária para seu plano místico, impressionando Elara. Silvan ofereceu uma explicação técnica, tentando minimizar o feito, mas a chefe do conselho manteve o interesse. Fez perguntas detalhadas sobre o funcionamento da magia e, por fim, autorizou — com ressalvas.
— Isso pode representar um risco para o colégio. Posso autorizar, mas você terá que assinar um termo. Se necessário, poderemos desmanchá-la.
— Tá bom, ótimo — assentiu o napol, firme, embora visivelmente apreensivo com as condições.
O grupo se despediu dos magos do conhecimento e seguiu para discutir seus assuntos nas ruas de Telas.
— Vamos ao colégio necromântico — lembrou Haftor.
Atravessaram a cidade até o imponente edifício, adornado por gárgulas que despejavam água em canais laterais. A enorme porta de madeira possuía um batedor em forma de argola.
— Sejam bem-vindos. Vocês são aguardados — disse um acólito ao recebê-los.
O homem encapuzado, cujo rosto permanecia oculto nas sombras, conduziu os aventureiros por um corredor subterrâneo impregnado com cheiro de formol. Ao descerem a escada, encontraram um rosto conhecido.
— Mestra Móros — surpreendeu-se o acólito.
— Quero falar com eles também. Você está dispensado — ordenou a necromante.
Réctor apresentou-se com um cumprimento exagerado, mas Móros respondeu com simplicidade.
— Não precisa disso. Já nos encontramos no julgamento. Fiquei curiosa quando soube que Kel queria falar com vocês.
— Achei que vocês estavam juntos nessa questão — comentou Haftor.
— Kel tem interesses que vão além dos do conselho. Mas, às vezes, eles convergem. E este caso… me interessa.
Móros guiou o grupo pelo corredor. O silêncio era tão profundo que o som das armaduras ecoava como um trovão.
— Os sombrios têm causado problemas sérios não apenas para nós, necromantes, mas para toda Telas — disse ela, quebrando o silêncio. — Temos lidado com isso da forma menos prejudicial possível, mas não tem sido fácil. Foi bom que vocês agiram contra Volrath. Isso elimina um peão importante.
— Vocês sabiam o que acontecia lá? — perguntou Haftor.
— Tínhamos indícios, mas nada preciso. Syllen’ae não fazia questão de esconder que tentava corromper.
— Então ela tava tentando me corromper, é? — comentou o Guia, em tom irônico.
Vandril Kel
Móros abriu a grade de um mausoléu com o nome “Vandril Kel” gravado. O grupo entrou em uma sala ampla, decorada com tumbas e grades, onde um homem pálido, portando um cajado de ossos, os aguardava em um trono de pedra.
— Sejam bem-vindos ao meu repouso.
— Obrigado por nos receber — respondeu Haftor, com formalidade. O paladino avaliava se aquele diante dele era um morto-vivo, mas manteve a etiqueta.
— Não há de quê. Eu sou Vandril Kel. É um prazer conhecê-los, especialmente após saber que realizaram uma façanha diante dos conselheiros da justiça de Telas. Driblar um ilusionista não é para todos.
Levantando-se, o homem pálido aproximou-se do grupo. Suas feições rígidas reforçavam a suspeita de Haftor.
— Volrath, a quem derrubaram, era um homem útil. Um excelente “laranja” para as ambições de Caridrândia. Mas vocês encontraram sua ruína, feriram a rede de Minoliz e, com isso, acredito que já saibam: atraíram novamente o olhar de Ghevra.
— Acho que ele nunca deixou de olhar para nós — ponderou Haftor.
— Minoliz havia proposto um acordo a vocês, não havia?
— Sim. E você já sabe disso, não é?
— Soube no momento em que foi feito. Me surpreende que não tenham aceitado.
— Não é do meu feitio me envolver com eles.
— Pois bem. Eu os trouxe aqui por uma razão. Preciso compreender de que lado estão.
— Embora eu não aprove seus métodos, não o vejo como inimigo.
— E eu tô sempre do lado contrário dos sombrios — acrescentou o Guia.
— Este é um bom começo — afirmou Kel, sem alterar sua expressão. — Suas ações contra a rede sombria indicam que poderei confiar em vocês para alguns arranjos futuros.
Corações e segredos
O grupo passou a questionar o necromante sobre os interesses dos sombrios. Réctor buscava entender as diferenças entre as facções, e Kel respondeu à maioria das perguntas com precisão.
— Caridrândia busca o Corvear, os Corações d’Aurora, para alimentar um rito de fúria. Os necromantes de Telas buscam estabilidade. Somos os vigiadores do silêncio do Domo. Queremos mantê-lo como está. Não buscamos adoração, nem o terror de Shalash. Queremos apenas que o Domo de Arminus permaneça como sempre foi: uma tumba lacrada para o que veio antes.
— E vocês veem esse objetivo ameaçado?
— Sim. Os elfos sombrios têm avançado rapidamente. Os dois alcormis com quem vocês lidaram, Aymon e Minoliz, estão entre os que mais progrediram em seus estudos sobre aquilo que desperta.
— Eles pretendem usar essa fúria como arma — completou Móros.
— E me diga uma coisa — provocou Réctor — qual é a visão de vocês sobre o despertar da Aurora?
— Não esperamos bem ou mal de uma entidade ancestral — respondeu Kel. — Ela existe. E demanda. Se é boa ou má, só poderemos julgar depois de seu despertar.
— Mas ela vai despertar de qualquer jeito? — perguntou o Guia.
— Claro — respondeu Garuk. — Esqueceu que fomos escolhidos para isso?
“Desta vez, não haverá pausa”, recordou Réctor.
A conversa seguiu para a ameaça dos orcos no norte.
— O orco das Geleiras, Shalash — disse o Guia — vocês sabem algo? Ele tem relação com isso?
— Shalash reage à energia da entidade. Um efeito colateral, talvez.
— Ele menciona esse despertar em suas profecias — acrescentou Móros. — Está reunindo orcos. Há uma migração em massa.
— Todos os orcos — afirmou Kel.
— Nem todos — contrapôs Haftor.
— Guzur — disse Garuk.
Kel voltou-se para Móros, desconfiado.
— Conhecem Guzur?
— Ele carrega um poder único: um fragmento da própria entidade.
— Eu quero duelar com ele — disse Garuk.
— Se eliminarem Guzur, eliminam a única resistência a Shalash. Ele ainda não está completo.
O grupo compreendeu: Shalash precisa unir os orcos das Terras Selvagens, e Guzur é o obstáculo.
A conversa se prolongou. Kel tinha muito a dizer — e o grupo, muito a perguntar.
— Há um sombrio que já matamos, mas que retorna como sombra — disse Haftor. — Há algo que possa detê-lo?
— Falam do estrígio de Aymon Ghevra.
— Parece ter uma vendeta contra o Guia.
— Não — interrompeu Kel. Voltando-se para ele: — O coração que você carrega, Goragar, é o que Margoth busca. O “fio”.
— O que é esse fio?
— Algo que perdi há séculos. Ainda assim, persisto sem ele. O fio é o rastro da vida da Aurora Gelada — o vínculo que a mantém neste mundo. É isso que eles perseguem. Se Margoth o obtiver, poderá recuperar seu corpo.
— Só isso? A gente mata ele de novo! — disse o Guia.
— Vejo que você não compreende o que significa se livrar da maldição que os assola.
— E esse prisma? — perguntou Réctor, exibindo o artefato.
— O seu é apenas uma ressonância — explicou Móros. — Uma pedra ligada ao fio da Aurora. Não foi lapidada nem transformada em um Coração. Não possui seu poder pleno, mas pode se sintonizar com ele.
Voltando-se a Haftor, completou:
— O conhecimento para criá-los se perdeu. Dizem que os anões foram os últimos a dominá-lo.
O grupo deixou os aposentos de Kel. Móros fechou o pesado portão de grade e guiou os aventureiros de volta pelos corredores silenciosos.
Ainda curiosos, perguntaram à necromante se o colégio mantinha mortos-vivos. Antes de se despedir, ela os conduziu a uma sala de estudos, onde esqueletos eram mantidos sob controle.
Surpreso com a receptividade dos necromantes, Réctor teve uma ideia.
— Posso fazer a porta para minha casa aqui?
A mestra Móros respondeu sem rodeios, cláusulas ou ameaças:
— Você poderá fazê-la no corredor do mausoléu de Kel, mas não hoje.
Sombras e ruínas
O grupo deixou o colégio necromântico com muitas informações para processar. No caminho de volta ao refúgio na cidade, decidiram passar em frente à mansão onde haviam conversado com a poderosa elfa sombria, Syllen’ae.
Era noite fechada. O jardim mantinha o movimento habitual — alguns transeuntes, casais e bêbados. A mansão ficava a poucos metros dali. No entanto, algo havia mudado: uma carruagem luxuosa e três carroças estavam sendo carregadas às pressas.
— E aí, vamos dar oi? — provocou o Guia.
— Será que ela está indo embora? — questionou Réctor.
O sekbete avançou até uma das carroças. Logo, um elfo sombrio, com a mão no punho da espada, aproximou-se. O Guia se antecipou:
— Sua chefe já meteu o pé ou ainda está por aqui?
— A mestra Syllen’ae foi convocada de volta à Caridrândia. A negócios.
— Não. Meteu o pé. Enfiou o rabinho entre as pernas — provocou o rastreador.
— Veja como fala, lagarto.
— Só diz para ela que ainda vamos nos encontrar.
— Se quiser marcar um duelo — completou Garuk.
Sem prolongar o confronto, o grupo seguiu para o refúgio na ruína no meio da cidade.
Descansaram na Casa dos Sonhos de Réctor e se prepararam para, no dia seguinte, seguir até a escavação protegida por Lismara.
Chegaram ao acampamento sob um clima chuvoso e ventoso. Lá, encontraram Olgaria e Demétrius, que haviam passado a noite protegendo a arqueóloga.
— Olá, pessoal. Como foi ontem?
— Foi muito bom, Olgaria — respondeu Réctor. — Digamos que foi… revelador.
— Olgaria, eu vi um morto-vivo ontem! — contou o Guia, empolgado. — A mulher lá tinha uma varinha que fazia ele montar e desmontar.
Haldor e Haftor dirigiram-se à barraca dos prisioneiros em busca de Córgan.
— Você acha que essas pessoas precisariam de quanto para voltar para casa? — perguntou Haftor. — Para se manter por um mês?
— Acho que umas dez moedas de ouro seriam suficientes para todos.
O paladino, então, entregou uma moeda de ouro a cada prisioneiro.
— Não é muito, mas é o que eu tenho — disse Haftor, enquanto distribuía o restante do tesouro. Ao entregar a moeda à ladra que havia tentado rouá-lo, não perdeu a oportunidade:
— Não roube.
— Prontos, então? — perguntou Lismara, após reunir o grupo. A arqueóloga demonstrava ânimo renovado após sua reabilitação política no dia anterior. — Quero cumprir minha parte agora que vocês cumpriram a de vocês.
O grupo seguiu para o oeste de Telas. Embora a curta distância, atravessaram uma área florestal, cruzaram um túnel subterrâneo e retornaram à superfície. Em uma colina, avistaram uma abertura que lembrava a entrada de uma caverna.
— Estas são as escavações — anunciou Lismara.
Dentro da caverna, encontraram uma estátua de bronze representando uma mulher empunhando um bastão de duas lâminas, cercada por quatro pilares.
— Estas paredes datam de pelo menos dezoito séculos. A arquitetura é típica de Telas e parece ter pertencido a algum tipo de calabouço — explicava Lismara, enquanto os aventureiros se espalhavam para investigar.
A estátua apresentava vestígios de um revestimento branco já desgastado. Próximo a ela, havia um poço de água pura, extremamente fria.
Com um simples “licença”, o Guia encheu seu cantil e, em seguida, mergulhou o pingente.
O Coração d’Aurora brilhou intensamente. A água ao redor também se iluminou com o halo místico do artefato. De repente, o brilho cessou e a emanação do pingente tornou-se mais concentrada, mais intensa.
“Está carregado”, pensou o Guia, guardando o objeto.
Os túneis eram interrompidos por trechos desmoronados. Com um feitiço, Réctor atravessou um dos bloqueios, levando consigo Lismara, Olgaria e Haldor.
Ao investigar o que parecia ser uma árvore encravada na parede, percebeu tarde demais que se tratava de uma criatura.
— Essa árvore se moveu! — alertou Réctor, recuando rapidamente, enquanto a criatura o atacava com um pesado tacape.
— Cuidado! — gritou Haldor, erguendo o machado e preparando-se para o combate.




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