O mistério de Reed e a fuga de Bullet
A Fuga
Hothspoth continuava em sua rotina desorientadora de dopagem e despertar, enquanto Tanaka planejava o melhor momento para escapar.
Em algum momento anterior, Sora entrou sozinha no laboratório, carregando uma bandeja com equipamentos médicos, e dirigiu-se a Hothspoth. Ela o encarou fixamente por alguns instantes antes de falar. Após perguntar se ele estava bem, aproximou-se e continuou, em voz baixa:
— Como você se sente ao saber que é um clone?
Hothspoth assentiu, como se não se importasse.
— Este lugar é assustador. As coisas que Kormiik faz aqui são repugnantes. Ele não é confiável, embora muitos não percebam. Eu preciso ir embora.
A mulher parecia buscar algum sinal de confiança. Ao sair, deixou implícito que acreditava que Hothspoth poderia ajudá-la a deixar o asteroide.
Alguns dias depois, Hothspoth despertou com Tanaka e Sora entrando discretamente no laboratório. O cientista carregava uma caixa, enquanto Sora permanecia na porta, armada, vigiando o corredor.
— Kormiik não está. Foi atrás da coordenada da perna. Temos tempo — disse Tanaka, nervoso.
Ele abriu a caixa, retirou duas pistolas, libertou Hothspoth e lhe entregou uma delas.
— A nave de Signus chegou. Está na hora.
O trio saiu do laboratório em direção ao hangar de naves grandes. Não encontraram ninguém nas áreas de pesquisa, mas o ambiente mudou ao se aproximarem da ala residencial.
No corredor que dividia as alas, viram um grupo de soldados conversando próximo aos alojamentos.
— Não chamem atenção — alertou Tanaka.
Hothspoth manteve o ritmo com diligência. Ainda assim, um dos guardas desconfiou e passou a segui-los. No meio do corredor, chamou por Tanaka, mas o cientista seguiu andando sem reagir.
Sora liderava o caminho. Ao se aproximar de uma porta metálica, ela se abriu automaticamente. Hothspoth entrou em seguida e se deparou com uma área de segurança, detecção e purificação de radiação. Dois operadores armados, um em cada extremidade da sala, monitoravam os computadores que analisavam quem passava pelo centro do corredor.
Alguns instantes depois, Tanaka conseguiu despistar o guarda e entrou na sala.
Sora atravessou a área sem problemas. Hothspoth veio logo atrás. Quando passou pelo centro, um alerta foi disparado. Um dos operadores se levantou:
— Parado!
Hothspoth não hesitou. Avançou e disparou seu raio solar, neutralizando o operador junto aos terminais. O alarme soou imediatamente.
Tanaka correu até alcançá-los, enquanto o segundo operador abriu fogo. Os disparos foram imprecisos, mas um atingiu o cientista de raspão.
O trio escapou da área de segurança e avançou até o hangar. Quando a porta automática se abriu, encontraram quatro guardas armados em posição de emboscada.
— Rendam-se! — ordenou um deles.
Sora, Tanaka e Hothspoth ergueram as mãos. Porém, quando um dos guardas se aproximou, o solariano reagiu rapidamente: desarmou o inimigo, fez dele refém e sacou a pistola recebida de Tanaka, abrindo fogo contra os demais.
O hangar foi tomado por disparos elétricos, enquanto a porta de carga da nave de Signus se abria. O som das armas era abafado pelo alarme incessante.
O refém de Hothspoth foi atingido por armas incapacitantes, e a descarga elétrica se propagou para o solariano, que o soltou. O guarda tentou reagir no chão, mas um chute preciso o lançou contra o piso rochoso.
Tanaka foi alvejado e caiu inconsciente. Sora também foi atingida, mas resistiu.
Enfrentando os três soldados restantes, Hothspoth disparou sua arma laser até ela travar. Sem hesitar, descartou-a e passou a usar seu poder solar, ferindo um dos inimigos.
O som da porta da área de segurança se abrindo indicava reforços chegando. Hothspoth avançou e liberou sua aura solar, mas apenas um dos soldados caiu.
Foi então que, da nave, surgiu uma silhueta armada com uma bazuca. No momento em que a porta do hangar se abriu para revelar dezenas de reforços, um míssil foi disparado, destruindo a entrada e bloqueando o avanço inimigo.
— Corram! — gritou a voz vinda da nave.
Hothspoth agarrou Tanaka pelo colarinho e o arrastou consigo. Carregando o cientista, atravessou o campo de batalha enquanto os inimigos, atônitos, não reagiam a tempo. Sora o seguiu.
Em poucos segundos, estavam dentro da nave de Signus. Os disparos inimigos atingiam o casco e os escudos sem efeito.
Hothspoth havia escapado.
O coração metálico
A coordenada apontada como destino do corpo da Dra. Reed levava a um planetoide à deriva. Pequeno, metálico, deserto e sem atmosfera, o local não representava obstáculo para pouso.
— A coordenada aponta para o subterrâneo — informou Berenice. — As características do planetoide indicam que perderemos contato com a nave assim que descermos.
— Há indícios de SMD no núcleo — afirmou Flynn, analisando os sinais complexos dos sensores.
— Vamos descer — ordenou o capitão.
O grupo desembarcou com equipamentos apropriados para baixa gravidade e ausência de atmosfera. Caminharam algumas dezenas de metros até uma estrutura semelhante a um alçapão. Ao abri-lo, o ar interno escapou rapidamente para o vazio. Abaixo, uma escada descendente revelava o único caminho.
A escadaria metálica era longa. Enquanto desciam, o alçapão se fechou, e o ambiente começou a ser pressurizado.
Ao final da descida, encontraram uma cortina metálica que levava a um corredor extenso. O sinal da nave já havia sido perdido, e Berenice permanecia acessível apenas pelos comunicadores.
O ar que preenchia o ambiente carregava um cheiro ácido de metal antigo e corrosão. A atmosfera era densa e desconfortável.
Após uma curva, um ruído mecânico os colocou em alerta. Um robô humanoide surgiu adiante e, sem qualquer aviso, abriu fogo contra o grupo.
O confronto foi inevitável. Flynn assumiu a linha de frente, alternando entre seus poderes fotônicos e gravitônicos. Kassius posicionou-se logo atrás, protegendo Rykk e Edric na retaguarda.
As máquinas não economizavam munição: metralhadoras giratórias varriam o corredor enquanto uma delas disparou um foguete que explodiu contra a estrutura metálica, sacudindo o ambiente. Ainda assim, os aventureiros estavam preparados. Já não eram iniciantes. Em poucos minutos, destruíram as duas primeiras unidades. Em seguida, mais duas que surgiram pelos corredores metálicos pouco iluminados.
A estase de Evelyn Reed
O fim dos corredores metálicos conduziu o grupo até uma porta destrancada. Apesar de pesada e enferrujada, abri-la não foi um desafio.
Do outro lado, depararam-se com dois tanques de incubação. Dentro deles, imersas em um fluido esverdeado, espesso e opaco, podiam ser vistas as silhuetas de corpos femininos adultos em formação.
Na mesma sala, do outro lado, havia terminais, consoles, uma maca e uma câmara de armazenamento criogênico.
— Está vazia — avisou Flynn, ao se aproximar da câmara. — Evelyn não está aqui.
Edric dirigiu-se aos consoles. Com habilidade, burlou os sistemas de segurança e acessou registros de um projeto já conhecido: o Projeto Receptáculo.
“O hospedeiro Edcrin teve 97,5% de aprovação”, dizia um dos trechos.
“Kormiik e Ed são dois dos três receptáculos mais prováveis para hospedar o Santo”, apontava outro.
“Kormiik hospeda o braço esquerdo do Santo.”
As informações eram numerosas… e perigosas. Os dados ocuparam rapidamente toda a capacidade disponível nos dispositivos do grupo, impedindo Berenice de processar novos conteúdos em tempo real.
Entre os registros, um novo projeto chamou atenção: o Projeto Receptáculo Digital. Tratava-se de uma tentativa de digitalizar completamente uma mente humana e, posteriormente, restaurá-la em um cérebro físico.
Evelyn Reed figurava como responsável.
Seu nome aparecia repetidamente nos registros daquele local. Os arquivos indicavam que suas pesquisas haviam começado há cerca de dois anos e seguido de forma intensa e contínua até seis meses atrás.
Então, abruptamente, cessaram.
Sem conclusão ou registros finais.
Projetos interrompidos. Estudos incompletos.
Algo havia acontecido com a cientista.


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