O rastro encontrado
O sinalizador de Hothspoth
A busca pelo rastreador iniciou-se assim que a nave Berenice partiu de Absalom, com a tripulação em estado de alerta devido à possibilidade de estarem sendo monitorados pela Lança de Hierofante.
Kassius foi designado para encontrar o objeto. O soldado dirigiu-se ao quarto de Hothspoth e vasculhou móveis, gavetas e compartimentos. A tarefa, porém, não era fácil.
O restante da tripulação manteve-se em alerta na ponte, até que receberam um aviso de Berenice:
— Capitão Rikk, nossa nave foi travada na mira de alguma coisa. Não consigo identificar o agressor, está oculto. Parece vir da direção de Absalom.
Edric observou o painel de controle e notou um disparo iminente. A IA confirmou em seguida:
— Projétil em direção à nave. Dispararam contra nós.
Flynn identificou o projétil: um torpedo da Lança de Hierofante, também conhecido como “torpedo de vácuo”, capaz de perfurar escudos e causar danos estruturais massivos. O solariano detectou que o projétil estava seguindo especificamente o sinal emitido pelo dispositivo deixado por Hothspoth.
Kassius apressou sua busca. O quarto do solariano continha muitas informações, incluindo um manual de criação de bombas atômicas portáteis. Por fim, encontrou um pequeno dispositivo que emitia uma luz azul pulsante.
— É esse — anunciou Berenice ao vê-lo pelo comunicador de Kassius. — Tome cuidado. Se pretende destruí-lo, precisa atingir o emissor; caso contrário, ele pode continuar funcionando sem que você o encontre.
O torpedo estava a apenas dois minutos de distância. Rykk e a tripulação decidiram executar uma manobra de engodo.
Kassius pegou o dispositivo e correu em direção às docas. O mais rápido que pôde, instalou o apetrecho em uma cápsula de fuga.
— Contato em 90 segundos — anunciava Berenice.
A instalação foi concluída restando apenas 15 segundos para o impacto. Kassius acionou o lançamento, e a cápsula de fuga foi disparada em alta velocidade no espaço.
O torpedo respondeu imediatamente: seguiu a cápsula e a destruiu completamente. O vácuo gerado na explosão provocou uma turbulência na nave, mas todos saíram ilesos.
O escudo de Héctor
Hothspoth despertou e encontrou o Dr. Tanaka em estado de empolgação técnica.
— Aperfeiçoei minha fórmula, Hothspoth — dizia ele. — Acho que entendi o que controla suas visões. Kormiik virá aqui em duas horas para avaliar os resultados.
Da gaveta de sua mesa, o cientista retirou um recipiente com oito seringas. Pegou uma delas e aplicou a substância diretamente no abdômen de Hothspoth, provocando um choque imediato em sua cognição.
— Deixe-me te soltar — informou o doutor, liberando as amarras do solariano pela primeira vez em dias.
Hothspoth concentrou sua energia para manifestar seu escudo solar habitual. No entanto, em vez da barreira de fótons ou gráviton padrão, he gerou um escudo de arco elétrico. O brilho e a intensidade da descarga foram sem precedentes, impressionando Tanaka.
Enquanto mantinha o escudo, Hothspoth entrou em um estado de transe. Vislumbrou um combate em um ambiente lacustre, ao lado de uma nave em destroços. Havia companheiros lutando ao seu lado, mas ele não reconhecia nenhum deles.
— O que está acontecendo, Tanaka? — perguntou Sora ao entrar no laboratório. — O que ele está fazendo? Você o soltou?
— Não é o que parece. Kormiik não pode ver isso.
Tanaka estava assustado. O escudo elétrico de Hothspoth destruiu a mesa à sua frente.
— Vou buscar outra mesa, mas você precisa prometer que vai me levar com você quando sair daqui.
— Eu prometo.
Quando Hothspoth saiu do transe, Tanaka retomou imediatamente os questionamentos:
— Ainda tenho sete ampolas. Preciso ajustar a fórmula. Acho que seu grau de adequação ao nexo está próximo do ideal. O que você fez? Por que ativou seus poderes na mesa? O que pretendia alcançar?
A sequência de perguntas confundia Hothspoth.
— Pelo que nossos estudos indicam, você consegue se conectar com outros Hothspoth… mas apenas com Hothspoths. Há muitos deles — dezenas, talvez centenas — espalhados por diferentes realidades.
— Peguei outra maca — interrompeu Sora. — Estava em uma das naves de transporte. Vão sentir falta dela. Espero que isso valha a pena.
O vislumbre de K375
— O que tem para mim? — indagou Kormiik, entrando no laboratório com autoridade.
— Hothspoth está conseguindo sincronizar o Nexus de forma consistente nos últimos dias — explicou Tanaka, visivelmente tenso. — Podemos demonstrar isso.
— Coloque-o de pé. Quero ver. Quero saber onde está a perna do Santo.
Sob efeito de uma nova aplicação da substância, Hothspoth foi lançado em uma visão vívida. Ele caminhava de forma capenga e ofegante sob o clima árido e opressor do planeta K375.
Escondido, observou três nativos karuum atravessando uma trilha. Em seguida, chegou diante de uma estrutura envolta por uma pedra semitransparente conhecida como “Âncora”. Hothspoth compreendia, instintivamente, que aquilo era a perna do Santo — e que os karuum sabiam que o artefato protegia o planeta do colapso.
Seu outro “eu” tentou romper o casulo protetor para extrair o fragmento, mas falhou.
Um sorriso sutil surgiu no rosto de Kormiik quando Hothspoth retornou do transe. O androide estava muito próximo — próximo demais. Se respirasse, sentiria o ar de seus pulmões.
— Pelo visto, sua engenhoca funcionou, Tanaka.
Hothspoth permaneceu em silêncio. Isso irritou Kormiik.
— Instale os eletrodos nele. Vamos extrair o cérebro deste idiota.
O androide deixou o laboratório logo após dar a ordem.
Tanaka entrou em pânico. Ele compreendia que sua própria utilidade estaria em risco caso executasse a extração cerebral de Hector Hothspoth.
— Você consegue mesmo nos tirar daqui? — sussurrou para o solariano, que respondeu com um aceno. — Seu companheiro, Ed… ele já despertou o dom do braço direito?
Tanaka explicou que Kormiik possuía o braço esquerdo do Santo e, com ele, era capaz de abrir fendas entre realidades.
— O Santo era canhoto. Então, acredito que o braço direito seja capaz de fechá-las. Se o que você disse for verdade… é isso que Ed pode fazer.
Tanaka deixou o laboratório. Ele havia obtido as coordenadas da perna do Santo a partir dos dados coletados durante o transe de Hothspoth. Com isso, tentaria ganhar tempo para salvar o solariano e a si mesmo.
A Adaga de Vácuo
Berenice iniciou os protocolos de entrada na Deriva. A nave inimiga se aproximava rapidamente, e a tripulação sabia que não possuía capacidade militar para enfrentar uma nave da Lança de Hierofante.
No entanto, Edric constatou uma obstrução no fluxo de energia entre a ala de geração e os motores de deriva. O superaquecimento colocava o salto em risco.
— Capitão, é melhor não sofrermos danos na parte reparada. Ela ainda não está completa — alertou Pip, lembrando que os reparos em Berenice haviam sido emergenciais para permitir a saída imediata de Absalom.
Kassius dirigiu-se à sala dos motores de deriva para investigar. Ao entrar, encontrou o ambiente saturado por vapor, com intensa vibração e uma luminosidade arroxeada incandescente emanando do núcleo.
O soldado resistiu à radiação e avançou com dificuldade. Observou que, apesar das podas anteriores, raízes da árvore biomecânica ainda se encontravam enroladas em componentes vitais, infiltradas em fendas do núcleo.
— Três minutos para alcance de disparo — anunciou Berenice, referindo-se à aproximação da Adaga de Vácuo.
A aproximação ao núcleo exigiu esforço extremo. Kassius resistiu à forte ressonância magnética, que lhe provocava dores de cabeça intensas. Com força bruta, arrancou os galhos infiltrados ao redor do núcleo e dos parafusos que fixavam a célula central. A violência da ação também danificou partes estruturais da peça, mas isso poderia ser corrigido depois.
Pip chegou logo em seguida. O skittermander se aproximou e, com a fixação do núcleo garantida por Kassius, conseguiu desenroscar a célula central.
Sob a tampa do cilindro elevado do motor, Kassius e Pip removeram o dispositivo interno: um disco contendo um fluido verde que se movia de forma orgânica, como se estivesse vivo. A exposição ao componente causou mal-estar e enjoo na dupla.
— Noventa segundos para alcance de disparo.
As raízes ao redor da célula central foram removidas, e Pip iniciou a reinstalação da peça no núcleo. O skittermander estava visivelmente nervoso.
— Não tô achando o vão do parafuso… — disse, passando seus seis braços pela superfície em busca do encaixe. — Achei!
Com os parafusos fixados e o núcleo selado, os motores de deriva voltaram a operar plenamente. Edric reassumiu o controle na ponte e reiniciou o aquecimento para o salto, restando menos de um minuto para a interceptação da Adaga de Vácuo.
Berenice projetou nos consoles uma contagem regressiva dupla: prontidão dos motores de deriva e chegada da nave inimiga. As duas marcavam diferenças de apenas frações de segundo.
— Vamos esperar até o limite — ordenou o capitão Rykk.
A intenção era forçar a coronel Crey a testemunhar a fuga do grupo antes da transição para a Deriva.
Como gesto de provocação, Rykk ordenou o descarte de resíduos do sistema de esgoto no exato momento do salto. Ao mesmo tempo, Edric utilizou os lasers da nave para projetar uma mensagem visível no espaço.
O portal dimensional começou a se abrir no instante em que a nave inimiga entrou no alcance visual.
Berenice desapareceu do espaço normal, deixando para trás apenas detritos e uma única palavra brilhando no vazio:
“TCHAU.”
O destino de Vexia
No segundo dia de viagem pela Deriva, com a ala médica devidamente preparada por Astra para a realização de procedimentos complexos em Vexia, o capitão Rykk dirigiu-se aos aposentos da cientista para verificar seu estado e discutir os detalhes da alteração de memória.
Ao entrar no quarto, encontrou a moça em profundo abatimento. Sem o habitual jaleco, vestia apenas um top e calças, sentada no chão com os braços em volta dos joelhos.
— Vocês saíram de Absalom… e eu estou aqui. Você tinha prometido.
Com postura diplomática, o capitão a convidou para uma caminhada pela nave. Os dois seguiram até o bosque biomecânico — área que antes fora uma quadra de basquete —, permitindo que ela observasse os danos ainda visíveis e os reparos em andamento.
Vexia demonstrou surpresa diante da extensão dos estragos. Enquanto caminhava entre destroços, Rykk notou, em seu ombro exposto, manchas escuras — sinais que reconheceu imediatamente como estágio inicial da SMD.
— Você possui a SMD — afirmou.
— Do que você está falando? — respondeu Vexia, visivelmente constrangida, tentando esconder a marca. Após um breve silêncio, cedeu. — Eu não sabia o que era isso até o Dr. Allen me contar. Ele disse que pode levar anos até que os efeitos mais graves apareçam. Depende da pessoa. Ele me disse que não tem cura.
Rykk explicou que a tripulação vinha investigando profundamente a Síndrome da Marcha Definhante e que acreditavam na existência de uma cura. A revelação abalou Vexia, que chorou ao admitir que havia julgado o grupo de forma equivocada.
Exausta, pediu para retornar aos seus aposentos. Antes de sair, indicou que consideraria a proposta do capitão sobre o procedimento de alteração de memória.
No quarto dia após a entrada na Deriva, a nave já estava completamente reparada externamente, e o novo laboratório médico encontrava-se pronto para a operação. Ainda assim, o Dr. Allen demonstrava impaciência e irritação com a demora, enviando mensagens agressivas pela interface da IA:
— Esses incapazes disseram que iam preparar um laboratório adequado para mim e até agora não me entregaram nada. Sabia que não podia confiar em piratas.
Enquanto a tripulação lidava com a tensão crescente entre os prisioneiros, Berenice interrompeu as comunicações com um alerta de prioridade máxima:
— Capitão, estamos cruzando um trecho da Deriva que coincide com as coordenadas da localização da Estase da Dra. Reed.
Deriva e Diáspora, sábado, 12 a quarta, 16 de Serenith do ano 325 DL.



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