Sessão 34 - O julgamento
Sombra sobre o acampamento
— ACORDA, GUIA!
O grito de Haldor ecoou na tenda e despertou o sekbete vermelho a tempo de perceber a sombra maliciosa de Margoth se aproximando. Em um reflexo de sobrevivência, o rastreador utilizou sua habilidade de Passo Sombrio para se teletransportar, tentando flanquear a entidade.
— Fecha a cortina, Haldor!
— Hah, vocês nem me convidam para a brincadeira — brincou Haldor, enquanto fechava a cortina.
— Você roubou o meu corpo. Eu vou reconquistá-lo e roubar o seu! — gritava Margoth, desfazendo-se na escuridão.
Imediatamente, um brilho intenso surgiu no ombro do Guia. O Coração d’Aurora estava desperto e totalmente carregado.
— Aquele maldito ainda está aqui! — alertou o Guia, enquanto o restante do grupo já despertava e se colocava à postos.
— Cadê? Onde? Bato em quem? — perguntou Garuk, confuso ao acordar.
— Armem-se, vamos sair. Ele deve estar no acampamento.
O Guia sentia a posição do inimigo graças ao Coração d’Aurora pulsando em seu peito. A presença ainda espreitava — ele tinha certeza.
No momento em que o grupo abriu a tenda, uma massa de morcegos sombrios invadiu o local, chocando-se contra eles, bloqueando a visão e confundindo os sentidos.
Enquanto lutavam contra os animais, o Guia, na dianteira, sentiu o amuleto esquentar violentamente. Mesmo com a visão prejudicada, percebeu a aproximação da sombra de Margoth. Garuk, o único a resistir parcialmente à perturbação, tentou atacar — mas seu golpe não teve efeito.
O amuleto brilhou em azul quando a sombra do elfo sombrio o tocou. Em um instante, ela atravessou os trajes do sekbete e escapou com o artefato.
— Ele pegou o meu amuleto! — gritou o Guia.
Réctor conjurou uma área de escuridão ao redor da tenda, tentando conter o inimigo, assim como antes. Porém, o brilho azul do Coração d’Aurora permaneceu visível, denunciando sua posição na treva mágica.
— Peguem ele, sigam a luz! — ordenou Réctor.
O grupo reagiu por instinto. O Guia disparou flechas em direção ao brilho. Garuk e Olgaria tentaram golpes às cegas, atingindo apenas o chão batido do acampamento.
— Da outra vez eu te derrubei da árvore, agora vou derrubar você! — ameaçou Garuk.
Uma risada respondeu.
— Covarde!
Haldor tentou outra abordagem. Pegou sua algibeira para capturar o amuleto, mas, na escuridão, esbarrou em Garuk e falhou.
A forma de Margoth começava a ganhar densidade ao deixar a área de escuridão.
Foi então que Demétrios agiu.
Em um salto preciso, antecipou o movimento do inimigo, arrancando o amuleto de sua posse. Em seguida, executou uma cambalhota e mergulhou na escuridão. O brilho azul incandesceu e desapareceu, tornando o Atravessador invisível dentro da magia de Réctor.
— NÃO! — gritou a sombra, dissipando-se à luz.
Réctor desfez a escuridão. Demétrios estava abaixado, ocultando o brilho vermelho sob sua capa.
— Acabou? — perguntou, devolvendo o amuleto ao Guia.
Os guardas de Lismara chegaram alarmados, encontrando apenas morcegos mortos espalhados pelo chão.
— Não sinto mais a presença dele — disse o Guia.
— Protejam a senhora de vocês — recomendou Garuk.
— Ele fugiu de novo. Por enquanto — concluiu Demétrios. — Mas ele é sorrateiro.
Os Sete Corações
O ataque noturno levou o grupo a reconsiderar o uso da Casa dos Sonhos de Réctor como refúgio.
Durante o descanso, com sua habilidade aperfeiçoada, o napol utilizou seu feitiço para conectar as mentes dos companheiros, conduzindoos a um encontro onírico.
Cada um, em seu próprio sonho, viu uma porta se abrir. Do outro lado, a figura de Réctor os convidava a entrar em uma sala mística.
Hêrda foi a convidada principal, mas o Guia, Haftor e Olgaria também estavam presentes.
— Olá, Réctor, há quanto tempo… — cumprimentou Hêrda.
Olgaria aproximou-se, visivelmente emocionada, e abraçou sua anciã. Réctor foi direto ao ponto:
— Precisamos conversar sobre este item. Já ouviu falar no Coração do Fôlego Estelar?
Hêrda conhecia as relíquias — ou, ao menos, as histórias ao redor delas. A anciã revelou que o Guia e Olgaria carregavam dois Corações d’Aurora. Ela própria possuía outro: o Núcleo Esquecido.
— Diz a lenda que são sete os Corações d’Aurora, cada um representando uma face da Aurora Gelada, com poderes e dons concedidos àqueles que ela escolhe — explicou.
— Ele limpou a água. Você acha que pode fazer mais alguma coisa? — perguntou Réctor.
— O Fôlego Estelar é a face da esperança e da renovação. Nunca o vi antes, então não posso afirmar qual é o seu dom específico, mas essa é sua natureza.
O Guia conduziu a conversa para a ameaça dos elfos sombrios:
— A senhora acha que eles devem ser combatidos?
Hêrda hesitou por um instante.
— Há muito tempo tive uma visão… A Aurora temia o que os elfos sombrios poderiam fazer se tivessem acesso aos seus dons. Talvez estejam colocando algum plano em ação — não para despertá-la, mas para usá-la.
A resposta pairou no ambiente como um presságio.
Pouco depois, o encontro começou a se desfazer. O sonho se dissipava, e Réctor anunciou o fim da conexão.
O Fórum das Sete Esferas
O cenário do julgamento foi montado no centro do Colégio do Conhecimento, em um palanque erguido sob uma árvore monumental.
Diferente das áreas periféricas da cidade, a plateia era composta por cerca de cem cidadãos da elite, vestidos com trajes finos. A disposição em meia-lua, com arquibancadas de madeira, criava um ambiente solene e controlado.
No centro, o púlpito exibia um tomo de leis de Crizagom e os regulamentos de Telas, que proibiam estritamente o uso de magia para influenciar o veredito, sob pena de obliteração.
Asdrúbal, assistente do colégio, caminhou até o centro com um pergaminho longo. Com tom solene e uma arrogância mal disfarçada, iniciou a leitura litúrgica:
— Pela autoridade da Pedra dos Saberes, sob a vigilância imperturbável do equilíbrio místico, damos início ao Fórum das Sete Esferas. Apresento o egrégio responsável pelo veredito final: Mestre Valérius, decano do Colégio do Conhecimento e guardião dos protocolos fundamentais.
Os juízes então se manifestaram.
Mestre Valérius já se encontrava presente. Mestre Mirábilis, do colégio ilusionista, surgiu por meio de transporte dimensional. E a Mestra Móros, dos necromantes, materializou-se subitamente.
Asdrúbal prosseguiu, deixando evidente sua parcialidade. Ao apresentar as partes, exaltou Volrath como um cidadão exemplar, enquanto diminuía Lismara:
— Comparece como réu o senhor Volrath, arqueólogo de renome e cidadão devidamente estabelecido nesta jurisdição. Contra ele pesam acusações de infrações comerciais gravíssimas, apresentadas pela senhora Lismara Kell, cuja presença neste recinto é tolerada conforme as regras vigentes de reconstrução da cidadania.
Na sequência, citou os aventureiros, atribuindo descrições carregadas de desdém, especialmente ao mencionar o passado de Demétrios:
— Acompanham a acusadora, na qualidade de testemunhas: o senhor Haftor, clérigo itinerante da ordem de Crizagom; seu irmão Haldor; o feiticeiro Réctor; o sekbete Garuk; a jovem Olgaria; e o senhor Demétrios, cuja longa ausência desta cidade e histórico de atividades singulares são amplamente conhecidos por este conselho.
Mestre Valérius concedeu a palavra à acusação.
Haftor assumiu o púlpito, tentando estabelecer a gravidade moral dos crimes de Volrath, com foco nas condições dos escravizados encontrados.
— Onde estão estas provas? — questionou Valérius.
— A acusação irá apresentá-las — respondeu Haftor. — Foram encontradas pessoas vivas e mortas, todas em estado deplorável. Isso não pode ser ignorado.
Volrath levantou-se para sua defesa preliminar. Vestido com simplicidade calculada, buscava conquistar simpatia.
— Senhores, estes indivíduos obtiveram tais documentos de forma completamente ilegal! Muitos são forjados! E ainda incendiaram minha propriedade para encobrir os próprios crimes! Torturaram meus empregados, mataram meus guardas! São bárbaros que não respeitam as leis de Telas!
Haftor rebateu com calma:
— O incêndio foi provocado pelo próprio réu. E aqueles que ele chama de empregados nos atacaram primeiro. Se houve ilegalidade na incursão, que seja julgada separadamente. Aqui tratamos de tráfico. E estes documentos são legítimos.
— Documentos forjados! — insistiu Volrath, voltando-se contra Demétrios. — Vocês estão acompanhados pelo maior falsificador das Terras Selvagens!
Percebendo a perda de terreno, Haftor apelou para o caráter místico do tribunal:
— Se este é o Colégio do Conhecimento, que se conjure uma zona de verdade.
Valérius ignorou o pedido.
— Faremos um recesso de dez minutos para análise da documentação.
A cartada final
Durante o recesso, Volrath aproximou-se do grupo com um sorriso desdenhoso, tentando intimidá-los fora do protocolo.
— Você acha mesmo que Telas vai trocar um arqueólogo que gera lucro por um anão itinerante, um lagarto que fede a pântano e um grupo de forasteiros?
— As masmorras de Blur estão lotadas de pessoas como você — afirmou Haftor. — E a justiça de Crizagom vai agir, independentemente do que o julgamento aqui decidir.
Volrath riu de forma debochada e retornou ao seu lugar, confiante de que sua influência e a má fama do grupo seriam suficientes para absolvê-lo.
Preocupado com o desfecho, Haftor quebrou o protocolo e aproximou-se da mesa dos magos.
— Algum problema, senhor Haftor? — questionou Valérius.
— Apenas acompanhando a deliberação.
Enquanto Valérius e Mirábilis pareciam absortos, ignorando os detalhes comprometedores, a Mestra Móros interrompeu sua leitura, ergueu o olhar e encarou Haftor fixamente.
— Vai precisar de mais do que isso, sacerdote.
Sem alarde, Móros fechou um dos volumes de documentos entregues pelo grupo e o estendeu ao paladino. Ao recebê-lo, Haftor percebeu que ela não apenas devolvera o material, mas havia reorganizado sua ordem. Entre os papéis, a carta de Lúcius estava posicionada estrategicamente junto à contracapa, destacada do restante das listas de nomes de escravizados.
— Analisamos a documentação — anunciou o Mestre Valérius, encerrando o recesso. — Ao que tudo indica, não há uma prova relacional entre o senhor Volrath e o tráfico mencionado. Você tem algo mais, Lismara?
Lismara reagiu com choque. A influência de Volrath parecia prevalecer sobre os fatos.
Haftor, então, decidiu dar voz aos documentos.
— Chamarei uma testemunha.
Demétrios foi conduzido ao centro do fórum.
— Senhor Demétrios, o senhor tem um passado de crimes. Isso é verdade?
— É… mais ou menos… é verdade.
— E é verdade o que o réu disse, que o senhor é um grande forjador?
— Sim.
— E quando o senhor foi preso e veio à minha custódia, quem era seu empregador?
— A senhora Táviga, de Trisque.
— Qual o tipo de negócio em que ela se envolvia? — Ela traficava fugitivos de Caridrândia… facilitava a fuga deles, na verdade. Eram quase todos orcos que se dirigiam às Geleiras.
— Senhor Haftor — interrompeu Valérius — aonde o senhor quer chegar? Demétrios já foi julgado aqui. Lismara também. Conhecemos seus crimes e suas índoles.
Haftor manteve a linha de raciocínio:
— Mas a senhora Táviga nunca passou por aqui. E é importante compreender o passado dela, pois temos um documento que demonstra a ligação do réu com essa pessoa. Ele solicitava que ela liberasse a escravização de orcos, mas ela se recusava.
O paladino, então, ergueu o pergaminho.
— Talvez este documento tenha passado despercebido. Gostaria que os senhores o analisassem com atenção. Ou melhor… permitam que eu leia.
Enquanto Haftor iniciava a leitura da carta trocada entre Lúcius e Volrath, os magos se entreolhavam, visivelmente intrigados com a presença daquele documento.
A leitura provocou um murmúrio imediato na plateia.
O mestre Mirábilis, que até então demonstrava desdém pelas provas apresentadas, inclinou-se levemente à frente.
— Estive com este documento em mãos — declarou o ilusionista. — Não identifiquei qualquer indício de falsificação.
A afirmação caiu como um golpe.
Volrath, até então confiante, perdeu a compostura.
— Senhores, meu serviço em Telas tem anos de dedicação! — argumentou. — Jamais executei qualquer tarefa fora das regras estabelecidas! Trago riquezas, pago impostos! Não podem me acusar de tal erro!
— Pois bem — anunciou Valérius — vamos deliberar. Recesso de cinco minutos.
Após uma breve deliberação, os três mestres retornaram ao centro do fórum.
A tensão na plateia era palpável. O favoritismo inicial de Volrath dera lugar à expectativa de sua queda.
Haftor foi convidado a posicionar-se ao lado dos juízes, simbolizando a união entre a autoridade mística dos colégios e a autoridade moral de Crizagom.
— Concluímos — disse Valérius. — Sacerdote, deseja ler a sentença?
Haftor assentiu e dirigiu-se ao centro do palanque. Com voz firme, iniciou a leitura:
— Este Conselho das Sete Esferas, após análise das evidências documentais e dos testemunhos apresentados, conclui que o senhor Volrath incorreu em crime de alta instabilidade arcano-comercial. Restou comprovado que suas escavações não visavam o saber, mas a conspurcação das correntes de karma que sustentam o Domo de Arminus, em benefício da Alcormi Minolis de Caridrândia.
Um silêncio pesado tomou conta do local.
— Diante da ameaça ao equilíbrio de Telas, este colegiado decreta a imediata expropriação de todos os bens e armazéns, o desterro perpétuo das Terras Selvagens, sob pena de obliteração mística, e a marcação de sua carne com o sinete do vazio, para que nenhum colégio de Tagmar lhe estenda abrigo ou voz. Volrath deixa de ser cidadão para tornar-se resíduo histórico. Que o silêncio o consuma.
Um frisson percorreu a plateia ao ouvir os termos da sentença.
Antes do encerramento, Haftor deu um passo à frente.
— Solicito a revisão da condenação de Lismara.
— Lismara não demonstrou qualquer arrependimento pelo que fez — afirmou Mirábilis.
— Porque foi vítima desde o início — rebateu Haftor. — Volrath forjou os acontecimentos que levaram à sua condenação.
Após breve deliberação, o conselho acatou o pedido.
— Retratamos a condenação de Lismara Kell, datada de 1495, eximindo-a de todas as penas imputadas.
Sob ordens dos magos, Asdrúbal aproximou-se de Volrath com um ferro de marcar incandescente.
O arqueólogo, pálido e com as orelhas baixas, foi forçado a estender a mão, com as costas voltadas para cima. Conteve o grito, mas um gemido escapou ao contato do ferro.
— Esta marca será visível sob qualquer traje ou forma que venha a assumir — declarou Mirábilis. — É permanente.
— Pela autoridade deste egrégio conselho, o rito está consumado. Este fórum está encerrado — anunciou Asdrúbal.
O silêncio deu lugar à comoção.
Lismara, visivelmente emocionada e finalmente livre de suas correntes legais, aproximou-se do grupo.
— Quando vocês querem visitar as escavações?


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