O Nexo
Allen e Vexia
O grupo estava deixando a Deriva rumo à Absalom. A nave carregava um fragmento desconhecido no compartimento destruído pelas ogivas, na ala de carga. Somado a isso, as explosões haviam provocado danos estruturais significativos, obrigando os aventureiros a buscarem reparo imediato.
A jornada pelo espaço convencional levaria algum tempo, e o grupo concentrou-se em decidir o destino do Dr. Allen e de sua pupila, Vexia.
Depois de uma rodada de discussões, concluíram que precisariam propor uma intervenção invasiva na mente dos dois, de forma a fazê-los esquecer o que presenciaram enquanto estavam na presença do grupo. Porém, não desejavam fazer isso contra a vontade dos cientistas.
Rykk convocou Allen para a ponte via comunicador. Charlie, a IA atual da nave, na ausência de Berenice, o guiou protocolarmente.
— Vão me matar? — indagou Allen, ao se aproximar do draconiano.
— Não faz muito sentido, né, meu querido? — desdenhou Rykk, com um sorriso malicioso. — Isso nunca passou pela nossa cabeça. O senhor está aqui para conversar.
— Eu sabia que precisariam da minha genialidade em algum momento.
— Claro, claro… A questão é a seguinte: esse tempo todo que o senhor passou aqui com a gente torna complicado devolvê-lo ao mundo.
Allen ouvia atento, mas buscava o olhar de Kassius com frequência. O soldado encarava de volta com firmeza e uma expressão ameaçadora.
— Estaria disposto a participar de um pequeno procedimento cirúrgico para remover as últimas semanas de sua memória? — sugeriu Rykk, tentando apoiar-se no abalo psicológico que Kassius provocava.
— Vocês querem mexer no meu cérebro? Vocês não têm ideia do que estão falando! Ninguém toca na minha genialidade! — gritava o cientista, com o dedo apontado para o draconiano. — O meu cérebro é uma força da natureza. Jamais tocarão nele.
— O seu cérebro pode ser tudo isso que o senhor está falando, mas, se ele não ficar ligado a um pulmão, coração, rim e estômago… também não vai funcionar.
— Matem-me, matem-me, mas não façam isso. Eu não aceitarei jamais!
Diante da negação veemente, Rykk ordenou que Allen retornasse às suas instalações.
Astra garantia que o único lugar seguro para a realização desse procedimento seria uma clínica em Absalom, apesar de a nave ter espaço suficiente para a instalação de um laboratório capaz de realizar a tarefa.
A estação estava próxima, e Rykk convocou Vexia para conversar. B9i a conduziu até a ponte.
— Senhoria Vexia, em primeiro lugar, eu gostaria de pedir desculpas por toda essa viagem forçada e pelo tempo que ficou longe de seus entes queridos.
— Não tem problema. Vocês estão nos levando de volta para casa?
— Então… essa é a questão. Estamos em uma missão muito crítica, que diz respeito basicamente a toda a galáxia. Não podemos permitir que os últimos acontecimentos da nossa nave vazem para ninguém. Portanto, eu quero te pedir um último favor. Gostaríamos de poder fazer um procedimento com você para que perca toda a ciência do que aconteceu nas últimas semanas.
— Confesso que esse tempo não foi nada bom. Um pouco traumático. Mas não sei se estou entendendo bem. Vocês estão me impondo isso para me libertar?
— Não, estamos apenas perguntando se você pode passar por esse procedimento. Estamos dispostos a bancar todos os custos e até recompensá-la pelo seu tempo.
A proposta abalou a jovem. Ela olhou ao redor, analisando cada um da tripulação, como se soubesse que os esqueceria depois.
— Onde está o homem do capacete? — indagou.
— Ele não resistiu ao nosso último confronto — lamentou Rykk.
Após alguns instantes de reflexão, Vexia encarou Rykk com o olhar pesado e o corpo frouxo:
— Eu vou pensar, mas vocês teriam que prometer que eu serei libertada para retornar à minha família em Absalom.
— Combinado. Será melhor assim — concluiu Rykk. — Sem o procedimento, você se tornará um alvo fácil para a Lança de Hierofante.
— E o doutor?
— Vamos fazer a mesma proposta para ele.
— Me digam depois o que ele responder. Pode me ajudar a decidir também.
O grupo seguiu discutindo a melhor alternativa para os dois cientistas. Quando Vexia deixou a ponte, Rykk teve uma ideia para discutir com Allen. O draconiano tentaria apelar para o ego do doutor.
Rykk se dirigiu rapidamente até o quarto trancado do Dr. Allen. O draconiano acusou o cientista de colaborar para a criação de uma arma biológica poderosa. Allen, em contrapartida, dizia que tudo estava sob controle e que jamais permitiria que tal fado fosse atribuído às suas criações.
— A Lança está tentando militarizar, controlar, transformar em uma arma essa radiação sepulcral. O senhor pode estar se fazendo de tonto ou pode ser só inocente, não está percecendo que é isso que está acontecendo, mas é isso que vai acontecer. Você acha que consegue descer dessa pompa toda e trabalhar para o bem da galáxia, ou ainda acha que o seu jeito é o único jeito certo?
— Você está me oferecendo um emprego?
— Estou te oferecendo uma saída. Não vamos te tratar como um escravo. Vamos te pagar e vamos, inclusive, creditar seu trabalho quando resolvermos toda a situação da síndrome da galáxia. Você quer ser conhecido como o cara que descobriu a penicilina e não quis patentear ou quer ser reconhecido como o cara que criou a bomba atômica?
Com um sorriso controlado, Allen levantou-se da cama em que estava sentado, com mais energia do que nunca:
— Eu sabia que vocês estavam interessados em minha mente desde o começo. Meu serviço é para o bem da galáxia, senhor Rykk. Se vocês oferecerem uma oportunidade melhor nas suas condições, parece que não tenho como recusar. Mas vou precisar reformar o laboratório de vocês. Aquele troço é inútil. Também vou precisar de um assistente. Aquele bruto do seu mercenário servirá.
No entanto, Rykk designou B9i para a tarefa de assistente, o que também agradou Allen. Entretanto, o cientista desejava fazer algumas reprogramações, o que provocou fúria em Ed, que bloqueou o sistema do robô.
O emissário comunicou o cientista sobre Vexia cogitar aceitar o procedimento, e o doutor não hesitou em dizer que ela é “muito apegada à família”, recomendando que desistissem de mantê-la na nave.
Absalom
A atracagem na Estação de Absalom ocorreu após quatro dias de viagem pela Deriva, período em que a tripulação da nave se recuperou dos danos massivos causados pelo confronto com Kormiik.
Ao sair da Deriva, o sistema de comunicação da nave, operado temporariamente pela IA Charlie, interceptou os primeiros sinais da estação. Charlie solicitou ordens ao capitão Rykk sobre o envio das credenciais.
— Estamos nos aproximando de Absalom. Estou recebendo os primeiros sinais de contato para que nos apresentemos. Devo enviar as coordenadas completas, capitão?
— Espera só um minuto — disse o capitão, enquanto sintonizava seu comunicador para o sinal codificado de Berenice, no motor de Deriva. — Berenice, você já consegue voltar?
— Estou isolada no motor de deriva e parece que os danos estruturais estão me impedindo de fazer uma restauração completa.
— Ok. Charlie, pode passar estes dados — informou Rykk, enquanto transmitia as credenciais falsas para que a nave se comunicasse com o controle de tráfego.
— Fomos aceitos, capitão. Aportaremos em Absalom em 12 minutos. Preparem-se para o desembarque.
Assim que Edric assumiu o manche na cadeira do piloto para finalizar a aproximação, os sistemas da estação enviaram um diagnóstico preliminar de danos e a indicação de atracagem no hangar 19. No entanto, o custo de manutenção e permanência era proibitivo para os recursos da tripulação.
— Capitão, vão nos cobrar 2.000 créditos.
— Eu consigo por menos! — interveio Pip. — Conheço algumas pessoas em Absalom que podem nos ajudar a fazer o conserto nós mesmos, mas teremos que ir para um estaleiro nas bases inferiores.
O capitão concordou com a proposta. Segundo o mecânico, os setores inferiores eram menos seguros, mas a vigilância reduzida poderia ser útil.
— Melhor ainda — disse o piloto. — Vou tentar isso, capitão. Só não é uma vizinhança muito boa.
— Nós também não somos pessoas muito boas — concluíu o capitão.
— Você pode requisitar uma atracagem entre os níveis 40 e 50 — instruiu Pip.
Assim que Ed solicitou a alteração do hangar, a estação emitiu um alerta de segurança:
— As atracagens entre os andares 40 e 50 são consideradas de alto risco. Você aceita?
A nave foi redirecionada imediatamente após a confirmação, causando uma turbulência momentânea, porém forte, para a tripulação.
Assim que o procedimento de atracagem foi concluído, os mecânicos do estaleiro se aproximaram e perceberam os danos na nave.
— Mas que merda é essa no casco da nave?
— É uma merda, mas é nossa — amenizou Ed.
A tripulação desembarcou, mantendo Astra e B9i na ponte por segurança. O grupo seguiu diretamente para a avaliação de danos.
Pip saltou da escada de acesso para o chão do hangar. Rykk, Flynn e Kassius seguiram logo atrás. Ed, no entanto, foi surpreendido por uma fisgada dolorida no braço do relicário assim que pôs os pés para fora da nave.
Resistindo à dor, o operativo se aproximou da área danificada juntamente com o capitão. Enquanto isso, Pip foi atrás de seus contatos para realizar o conserto.
A árvore
Ao entrarem na antiga quadra de basquete, agora devastada, depararam-se com uma árvore nativa de Castrovel, inclinada e com as raízes espalhadas por todo o setor. O crescimento era impossível para o período de apenas quatro dias de viagem.
— Olha para isso! — exclamou Ed. — Agora tem a porra de um parque florestal na nave.
A dupla percebeu que a árvore não estava apenas ocupando o espaço; suas raízes estavam se embrenhando nos dutos de ventilação, amarrando-se aos fios e crescendo em direção ao motor de deriva. No centro do tronco, algo emitia uma luz azul pulsante.
— É uma árvore de Castrovel — avaliou o capitão, explorando seu conhecimento em biologia. — O que uma árvore de Castrovel está fazendo aqui? E o que é aquele treco piscando em azul?
Apesar da dor aguda, Edric aproximou-se do tronco, sentindo os galhos baterem em seu capuz e a dor aumentar conforme a proximidade.
— Capitão, acho que eu aguento — gemeu Ed, enquanto tentava tocar no objeto que pulsava dentro do tronco. — Tem alguma coisa aqui dentro.
Ed tocou o tronco e, em seguida, inseriu o dedo em uma pequena abertura do tamanho de uma ervilha, por onde a luz azul escapava. Ele recebeu um choque forte que se espalhou pelo braço, mas o contato permitiu que percebesse a intenção biológica da planta.
— Capitão, eu não sei explicar, mas estou sentindo que essa coisa está indo para o motor de deriva… Recomendo remoção imediata. Tem alguma coisa aqui brilhando que dói quando eu chego perto.
Para evitar mais danos a Edric, a Dra. Astra utilizou um microdrone médico — normalmente usado para procedimentos internos em pacientes — para investigar o interior da árvore.
As imagens projetadas pelo drone revelaram uma barreira metálica e um painel de circuitos integrados à seiva e à madeira. Rykk identificou que a tecnologia era uma mistura biomecânica.
Diante da necessidade de abrir o tronco, o robô B9i interveio ao saber que Pip buscava uma motosserra:
— Possuo motosserra em meus acessórios e não quero ser reprogramado — informou B9i, misturando assuntos. — O que cortamos, capitão?
B9i utilizou uma serra rotatória e um esmeril integrados ao braço para fatiar a madeira e expor o painel interno. A operação revelou uma fiação emaranhada nas raízes, mesclada a elas de forma orgânica.
Edric conectou seu terminal portátil diretamente aos fios expostos para hackear o sistema. Ele identificou que o dispositivo era um propagador de sinal sonoro na frequência de 77 Hz, construído de forma artesanal com peças da Frozen Trove e tecnologia de Castrovel.
— Parece que as duas coisas estão trabalhando juntas — concluiu Rykk. — Se você mexer no mecânico, estraga o biológico. Se mexer no biológico, estraga o mecânico.
Edric descobriu que a programação estava ligada a dados da Síndrome da Marcha Definhante (SMD) e que o dispositivo buscava o motor de deriva da nave.
O operativo iniciou um protocolo de desligamento forçado com duração de dez minutos para neutralizar a anomalia.
Enquanto isso, os mecânicos trazidos por Pip aguardavam para dar início ao trabalho. Com a ajuda do mecânico, o preço havia caído para 500 créditos.
O despertar de Hothspoth
Após o resgate e a recuperação no tubo de regeneração no laboratório de Tanaka, Hothspoth viu-se diante do auxiliar de Evelyn Reed, subordinado à Kormiik, seu algoz no confronto em Berenice.
O solariano passou por diversos ciclos de despertar controlados pelo doutor. Ele percebeu que Tanaka o mantinha consciente na ausência do androide, exceto quando solicitado o contrário.
— Ah, despertou. Foi mais rápido desta vez — aliviava-se Tanaka, enquanto se aproximava da maca do solariano e ajustava a dosagem dos medicamentos. — Baixei a dosagem faz só dois minutos. Como está se sentindo? Você tem algum nome, ou é só Hothspoth?
— Hector.
— Kormiik disse que vai falar com você desta vez. Daqui a pouco ele vem.
Tanaka aproximou-se e sussurrou para Hothspoth, demonstrando uma cumplicidade temerosa em relação ao androide invasor:
— Você me contou de Reed… então acho que estou devendo você alguma coisa.
Enquanto aguardavam a chegada de Kormiik, Tanaka e Hothspoth conversaram sobre o Projeto Eucarion. O cientista perguntou o que o solariano sabia sobre o projeto e, em seguida, revelou que Hector Hothspoth era o quinto na linhagem do Soldado Ícarus — ou seja, o quinto clone de sua realidade.
Tanaka revelou que os Hothspoth servem a um “Santo”. O Projeto Eucarion, na visão da Lança de Hierofante local, visa criar solarianos para atuar como recuperadores dos fragmentos da entidade.
As várias realidades mencionadas pelo cientista confundiram Hothspoth. No entanto, Kormiik entrou na sala, interrompendo o diálogo. Tanaka colocou a maca do solariano em posição vertical para a conversa.
— Você tem controle sobre os seus dons? — indagou Kormiik, direto ao ponto.
— Senhor Kormiik — intrometeu-se Tanaka — eu acho que ele ainda não tem noção do que consegue fazer.
— Não falei com você — e, voltando-se para Hothspoth — se você não souber, é inútil para mim. Vou atrás dos seus irmãos. Talvez sejam mais úteis.
Ao agarrar o queixo de Hothspoth com a mão esquerda — o braço que abriga um fragmento do Santo — o solariano sentiu um choque e teve uma visão de Tanaka trabalhando em outro local.
Kormiik deixou a sala rapidamente.
— Hothspoth, em nossos estudos, chamamos você de Nexo — revelou Tanaka. — Por alguma razão, durante o incidente Riven Shroud, você foi afetado de forma distinta. Enquanto os outros clones da linhagem Ícarus não têm noção da existência uns dos outros, você é o único receptor capaz de vê-los através das realidades. Esse é o interesse de Kormiik em você. Se ele conseguir o seu nexo, ele pode tirar qualquer coisa de qualquer lugar e trazer para cá.
Tanaka revelou que Kormiik possui o braço esquerdo do Santo, o que lhe permite abrir fissuras entre as realidades. No entanto, ele não é capaz de identificar o que está além da fissura, tornando sua capacidade limitada de forma isolada.
As revelações delicadas que o cientista fazia para Hothspoth demonstravam que sua relação com a Lança de Hierofante não estava harmoniosa.
— Minha utilidade aqui está se esgotando — preocupava-se o cientista. — E meu tempo aqui, com eles, também. Se eu libertá-lo, acha que consegue nos tirar daqui vivos? O comandante Signus aportará no asteroide em 11 dias, e podemos usá-lo para fugir.
— Consigo nos levar até Ed.
— O outro receptáculo? Como?
— Meu tablet. Pegue-o. Coloque o código de rastreio que eu lhe informar.
Hothspoth informou a frequência de rastreamento do localizador que adquiriu na Diáspora e que permaneceu em Berenice. Tanaka, então, sintonizou uma estação de processamento potente para buscar o sinal.
Poucas horas depois, na estação Absalom, enquanto o grupo concentrava-se em consertar os estragos na nave, Astra detectou um sinal anômalo nos sensores.
— Capitão, recebemos um sinal de Hothspoth. Não sei se é confiável, mas ele acabou expondo a presença da Berenice para todo o sistema.
Diáspora, Mundos do Pacto, quinta, 11, a quarta, 17 de Serenith do ano 325 DL.


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