O androide superpoderoso
O combate mortal
— ONDE ESTÁ EVELYN REED? — gritava o androide com uma voz metálica e masculina, destoando de seu corpo andrógeno.
Foi o último som que o grupo ouviu antes do blecaute total da nave.
Exposto ao vácuo do espaço, Hothspoth não conseguiu alertar o invasor de que a doutora era apenas uma mente digital guiando a inteligência artificial da nave.
Apesar da queda de energia, o escudo permaneceu ativo por alguns instantes. O invasor batia contra ele, enfurecido, enquanto Hothspoth preparava-se para abordá-lo, com a porta atrás de si cerrada.
Na ponte, a tripulação buscava compreender o que estava acontecendo. Berenice havia sumido da comunicação, e o grupo dependia de seu contato vocal pela primeira vez em muito tempo.
— Capitão — ecoou repentinamente a voz de Berenice no comunicador de Rykk — eu conheço esta pessoa. É Kormiik. Ele está atrás de mim. Assim que percebi, me desconectei da nave em um sistema de backup.
— Esconda-se, Berenice. Deixe o resto com a gente — ordenou Rykk.
Quando o escudo de Berenice se desfez, Kormiik avançou como um foguete na direção de Hothspoth. O impacto não produziu som — apenas uma explosão silenciosa na mente do solariano.
Hothspoth interpôs seu escudo de gráviton para evitar o choque, mas o inimigo carregava a energia de uma arma. Ele foi arremessado para trás, e Kormiik avançou rapidamente, desferindo um soco que quebrou o visor de seu capacete.
O sistema de vida entrou em modo de emergência. Uma proteção provisória formou-se no lugar do visor, garantindo apenas alguns minutos de sobrevivência.
— Vamos descer e descobrir onde está o problema — ordenou o capitão.
— Deve ser no setor de energia auxiliar — deduziu o piloto.
— Eu fico na ponte? — perguntou Pip, assustado.
— Precisamos de você aqui — respondeu Rykk, enquanto seguia com Ed, Flynn e Kassius para a área de confronto. — Astra, vigie Allen e Vexia.
B9i fez companhia a Pip na ponte, auxiliando no que fosse necessário e aguardando o retorno da energia para iniciar os sistemas da nave.
O grupo desceu os lances de escada até o andar de carga, onde o caminhão recebido pela Aliança Solar estava estacionado. Eles se dividiram: Ed seguiu para a sala de geradores; Flynn e Kassius, para a área de carga; Rykk permaneceu ao alcance das comunicações, coordenando as ações.
Kormiik pousou as mãos na pesada porta externa e começou a abri-la à força. Hothspoth se recompôs, levantou-se e se aproximou. Tentou ajudá-lo a abrir a porta, mas, no silêncio do espaço, sua aproximação foi interpretada como ameaça.
O inimigo respondeu com um golpe de cotovelo no peito, deixando-o sem fôlego.
Do lado de dentro, Flynn abriu um terminal desenergizado e forçou manualmente o fechamento de uma porta de contenção de vácuo.
A ação foi providencial.
Poucos segundos depois, o grupo percebeu uma explosão — não pelo som, mas pelo impacto. Era Hothspoth, liberando sua explosão solar em uma tentativa falha de se livrar do inimigo.
A porta de carga estava aberta.
Hothspoth estava inconsciente.
Kormiik entrou.
— Eu quero Evelyn Reed. Eu sei que ela está aqui.
Ao ouvir isso, Rykk correu até a sala de carga.
Enquanto isso, Ed descobriu o problema no sistema de energia. Após destravar os sinais elétricos, a distribuição foi restaurada.
— Olá, tripulação. Em que posso servi-los? — disse uma voz masculina nos comunicadores. A IA padrão da nave havia retornado.
— Eu vou para a ponte, capitão — avisou Ed, enquanto corria para sua posição.
Kassius avançou sobre o inimigo, mas Kormiik, com um simples movimento de pulso, disparou um laser que perfurou sua armadura. Diante da demonstração de poder, o soldado parou. Flynn, atrás dele, estava aflito.
— Reed está morta. Ela não está conosco — argumentou Rykk.
— Eu a senti aqui. Eu sei que você está mentindo.
— Não. Você pode ver. Ela não está em lugar nenhum desta nave.
O invasor não pareceu convencido, mas manteve-se parado.
— Estão tentando invadir os sistemas — alertou Astra.
Com Kassius e Flynn, Rykk recuou até antes de uma porta de contenção. Ele ordenou que a tripulação fechasse a passagem para o compartimento de carga e abrisse a comporta.
Kormiik ainda processava alguma informação, tentando invadir os sistemas de Berenice, enquanto o corpo inerte de Hothspoth jazia ao seu lado.
— E Hothspoth, capitão? — questionou Astra. — Talvez ainda possamos salvá-lo.
— Não será possível — respondeu Rykk.
Ed posicionou-se na poltrona do piloto e acionou a comporta de carga. O vácuo invadiu o compartimento.
O corpo de Hothspoth foi lançado ao espaço.
Kormiik agarrou-se firmemente à estrutura, mas o caminhão também foi arrastado, chocando-se contra ele.
— Detone as ogivas do caminhão! — ordenou Rykk.
— Isso vai causar dano na nave — alertou Pip.
— Detone!
Ed explodiu as ogivas no compartimento de carga. Os fragmentos do caminhão arrombaram a comporta, mas lançaram Kormiik para longe no espaço.
— Motores ligados.
Os propulsores foram acionados e a nave partiu rapidamente. Em instantes, entraria na Deriva.
O dano
— Meu nome é Charlie — anunciou a IA da nave. — Ao entrarmos na Deriva, um fragmento desconhecido foi transportado para a área de carga. Não consegui identificar o que é.
— E as câmeras?
— Todas foram destruídas com a explosão das ogivas.
A explosão não havia apenas destruído o compartimento de carga, mas também isolado a área de cargas especiais, onde o relicário se encontrava, e o motor de deriva.
— Precisamos ir até um estaleiro para manutenção urgente — alertou Pip.
— Vamos para o local de encontro com Garig.
— Não será possível, capitão. A nave sofreu danos estruturais e não suportará tanto tempo de viagem sem romper. Precisamos ir até Absalom.
Contrariados, os aventureiros traçaram rota para a Estação de Absalom, um local público, mas com olhos da Lança de Hierofante espalhados por todo canto.
— Levaremos quatro dias — informou o piloto.
— Que seja.
O estaleiro em Absalom era o único local adequado para reparar a nave. Além disso, precisariam parar em algum ponto para verificar, pelo lado externo, o que a Deriva havia trazido consigo no momento da transição.
O que quer que fosse, ocupava toda a área do antigo compartimento de carga.
Os prisioneiros
Uma vista turva. Um laboratório. Computadores. Tubos de regeneração.
Os olhos de Hothspoth estavam pesados. Ele estava em uma câmara de regeneração, mergulhado em um fluido de cura.
Estava vivo.
Um homem robusto, de jaleco e olhos puxados, surgiu do outro lado do vidro. Hothspoth não o escutava, mas o doutor parecia surpreso. Seus lábios se moviam, dizendo algo, até que foi interrompido pela chegada de outra pessoa.
Kormiik entrou na sala, encarou o tubo de regeneração e, em seguida, o doutor. Os dois conversaram, mas Kormiik dominava a interação.
Assim que o androide saiu, o doutor voltou-se para os computadores, e Hothspoth tornou a perder a consciência.
Quando voltou a abrir os olhos, a situação havia mudado. Ele não estava mais no tubo de regeneração, mas preso a uma mesa vertical, conectado a fios e dutos que extraíam amostras de seu corpo e sangue.
— Olá. Eu sou Kanji Tanaka — revelou o homem no laboratório.
Hothspoth contou ao doutor sobre a natureza de Evelyn Reed e o backup de sua mente na nave Berenice.
— Eu sabia que aquela mulher não morreria… — murmurou Tanaka, aliviado.
A conversa não durou muito. Logo, Kormiik entrou na sala e, antes que percebesse que Hothspoth estava acordado, Tanaka manipulou seus equipamentos e o solariano voltou a ficar inconsciente.
Em um novo despertar, Hothspoth teve mais tempo para conversar com Tanaka. O doutor não dizia explicitamente que estava aprisionado, mas os sinais eram claros.
— Kormiik foi apenas um dos dois pacientes nos quais consegui mesclar perfeitamente um fragmento do Santo — revelou Tanaka. — O outro foi Ed, que você conhece.
— Há quanto tempo estou aqui? — perguntou Hothspoth.
— Há quatro dias.
A conversa avançou até os irmãos gêmeos de Hothspoth. Tanaka afirmou que os conhecia, mas que Hothspoth era diferente.
— Você é um Hothspoth — disse o doutor, com um olhar intrigado. — Você não sabe mesmo o que é? Eu vou lhe explicar.
Diáspora, Mundos do Pacto, domingo a quinta, 7 a 11 de Serenith do ano 325 DL.


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