O resgate no calabouço
O guarda anão
— Haldor, aqui!
O guarda ouviu seu nome vindo de uma gaiola fétida no calabouço, repleto de prisioneiros. Ao se aproximar, encontrou um antigo companheiro de Blur: Kórgan. O anão estava ferido, cansado e desarmado. Marcado como escravo, fora deixado à própria sorte em uma cela, aguardando que sua vontade sucumbisse.
— Eu achei que nunca mais o veria — disse o prisioneiro, entre tosses secas.
— Calma, amigo. Vamos tirar você daqui.
Haldor logo percebeu que as gaiolas possuíam travas resistentes, exigindo a intervenção de Demétrius.
Enquanto o Atravessador trabalhava nas fechaduras, o restante do grupo discutia como retirar os onze prisioneiros do calabouço.
— Eu posso abrir um portal para um lugar seguro e mandar essas pessoas para lá. Levar todo mundo a pé vai ser complicado — sugeriu Réctor.
A proposta foi rapidamente aceita.
O Guia, atento à porta sul, ouviu sons mecânicos vindos do outro lado, acompanhados de vibrações no solo.
— Tem alguma coisa atrás da porta. Parece uma criatura presa por correntes.
— Gente, vamos andar logo com isso aí? Vocês estão tomando cuidado demais. A pergunta é: vamos esperar alguém chegar para brigar ou vamos arrebentar essa porta? — sugeriu o sekbete berserker.
Assim que Demétrius abriu as celas, Kórgan bebeu uma das poções de cura do grupo e se recuperou rapidamente.
— Eu preciso te falar agora… aquele verme que todos olhavam de lado em Blur… Durnam. Ele nos vendeu.
— Durnam? Ele foi expulso de Blur há uns 30 anos — respondeu Haldor, surpreso.
— Aquele verme…
A conversa foi interrompida. Demétrius terminava de abrir as gaiolas, enquanto Garuk arrancava os grilhões que prendiam dois prisioneiros às paredes.
Réctor abriu um portal instável e disforme, afetado pela influência mística do Domo. Os prisioneiros se organizaram em fila. O assunto de Kórgan teria que esperar.
— Quando chegarem lá, procurem por Lismara — orientou o feiticeiro.
Haftor, organizando a fila, foi surpreendido por uma prisioneira tentando roubá-lo. O paladino se irritou e a ameaçou.
— Como você faz isso com quem está tentando te ajudar?
— Perdão… — implorou ela, de joelhos, após as moedas caírem no chão. — Eu só queria sair daqui e ter alguma coisa.
Enquanto isso, Haldor se despedia do companheiro:
— Esta não é nossa última conversa. Sobreviva e tome cuidado.
— Obrigado — respondeu Kórgan, agora empunhando um malho emprestado. — Aguardo vocês lá em cima.
Réctor pediu que Kórgan ficasse atento à ladra. Um a um, os prisioneiros atravessaram o portal. Quando o último passou, a passagem se fechou.
Os inimigos na caverna
Imediatamente após o portal de Réctor se fechar e os prisioneiros serem salvos, o ambiente mergulha em um silêncio absoluto, quebrado apenas pelo gotejamento constante da caverna.
O Guia, com seus sentidos aguçados, percebe uma perturbação.
— Pessoal… alguma coisa vem!
O som metálico de uma fechadura destranca a porta sul. Uma fresta se abre rapidamente. Uma mão humana surge apenas o suficiente para lançar um objeto esférico no centro da sala, próximo às gaiolas agora vazias.
O grupo se protege instintivamente.
A esfera explode em uma bola de fogo, atingindo quase todos.
Logo após a explosão, a porta é escancarada. Soldados humanos e elfos sombrios avançam, acompanhados de mastins. O combate começa imediatamente.
Haftor assume a linha de frente, atraindo a atenção de parte dos inimigos. O Guia se dissipa nas sombras e surge na retaguarda adversária. Réctor permanece atrás, disparando projéteis à distância. Olgaria, Garuk e Haldor avançam para sustentar o combate corpo a corpo.
— Vou chamar reforços! — grita um dos elfos sombrios, tentando recuar.
A resposta é imediata.
Uma flecha precisa do Guia atravessa a perna do inimigo, derrubando-o. Antes que pudesse reagir, um enorme golem de pedra se aproxima e o esmaga com golpes brutais.
Enquanto isso, Haldor, Garuk e Olgaria eliminam os inimigos restantes no calabouço.
Com o caminho limpo, o grupo avança até a posição do Guia.
— Tem um bicho pesado ali — alerta o rastreador. — Eu atingi o elfo que tentou chamar reforços. O bicho chegou e partiu ele no meio… e agora pegou o mastim. Ele é forte.
Haftor e Garuk decidem avançar para enfrentar a criatura na área cavernosa. O golem reage imediatamente.
À luz trêmula que revela um pequeno altar no centro da caverna, a criatura se impõe.
— É melhor recuar. Recuar! — ordena Haftor.
— Aqui onde eu tô ele não veio. Tô parado na porta e ele não veio até mim — observa o Guia, identificando um limite claro no comportamento da criatura.
Enquanto o golem intimida qualquer um que se aproxime, Réctor retorna à sala anterior e começa a vasculhar os corpos dos inimigos, suspeitando que possuam algum meio de passar pelo guardião sem serem atacados.
A busca dá resultado.
O feiticeiro encontra um pingente idêntico ao que o Guia havia recuperado anteriormente na sala de pertences dos prisioneiros.
Ao colocarem o pingente e entrarem novamente na área do golem, percebem que a criatura não reage.
Com uma ordem direta de Réctor, o golem recua e permanece inerte.
O pingente funcionava.
A entrada do armazém
Com o golem neutralizado, o grupo avançou até o altar e a porta metálica ao fundo da caverna.
Réctor e Haftor voltaram sua atenção ao altar. Entre pergaminhos e anotações dispersas, um livro com cadeado se destacava.
Os registros continham nomes de pessoas e locais em Caridrândia.
Demétrius tentou abrir o livro, mas recuou.
— É delicado. Há uma armadilha que derrama ácido sobre as páginas se eu forçar sem sucesso. O livro seria destruído — explicou o ladino, desistindo da tentativa naquele momento.
Enquanto isso, o Guia examinava a porta metálica. Do outro lado, ouvia um mecanismo pesado operando em intervalos regulares, acompanhado pelo som de correntes.
Usando seus poderes sombrios, o rastreador atravessou para o outro lado.
Lá, encontrou um elevador suspenso por correntes grossas e uma alavanca de acionamento.
Pouco depois, dois humanos desceram pelo mecanismo, carregando barris. Eles comentavam sobre os sons vindos da sala do golem, desconfiados, mas ainda dentro de uma rotina aparentemente normal.
— Melhor alertarmos lá em cima.
Enquanto isso, do outro lado da porta, Demétrius ainda tentava abri-la — até Garuk perder a paciência.
— Sai daí. Tá devagar demais.
Com um chute brutal, o sekbete arrombou a porta metálica, assustando os dois homens. Um deles caiu ao lado do Guia, que já estava na sala, enquanto o outro entrou em pânico.
— Fiquem quietos! — ordenou o Guia, sem sucesso. — Aquela alavanca ali, o que aciona?
Preocupados com o alarme iminente, os sekbetes agiram rápido.
Garuk dilacerou um dos homens com suas garras. O Guia, mais contido, bateu a cabeça do outro contra a parede até silenciá-lo.
BUM
O som veio de cima.
Alguém havia travado o elevador e selado o acesso ao andar superior.
O grupo entendeu imediatamente: haviam sido detectados.
Sem perder tempo, o Guia subiu nos ombros de Garuk e tentou forçar o alçapão, mas não conseguiu.
— Eu tenho uma ideia — disse Haftor. — Réctor, você não encontrou uma daquelas esferas de fogo?
— Encontrei. Vamos tentar.
O grupo se protegeu enquanto a esfera era lançada contra o mecanismo do elevador.
A explosão destruiu parte da estrutura e abriu o alçapão.
O Guia e Garuk escalaram as correntes e emergiram no andar superior.
Assim que saiu do poço, o rastreador reconheceu o ambiente.
O escritório de madeira. O cheiro característico dos elfos sombrios. As caixas.
Foi ali que ele viu Syllen’ae pela primeira vez.



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