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domingo, 15 de março de 2026

(LA) Sessão 31

O sórdido esquema

Os carniçais

O cheiro pútrido dos corpos em decomposição dos mortos-vivos espalhava-se pela galeria que os aventureiros percorriam. O Guia, na dianteira, tinha linha de visão clara para um deles, que se agitava e gemia, alheio à presença do grupo.

A flecha do rastreador voou em silêncio pela penumbra e penetrou no corpo decrépito. O gemido do monstro alertou outras criaturas, e o grupo se pôs à frente, pronto para o confronto.

Eram quase uma dezena de mortos-vivos. Eles aguardavam a eternidade na escuridão da caverna.

Olgaria e Garuk avançaram furiosamente. Haldor não fez diferente, assim como Sombra. Réctor e o Guia permaneceram à distância, alternando entre magia e flechas. Haftor, o paladino, brandiu sua marreta brilhante e invocou a autoridade de Crizagom para ameaçar os inimigos.

O poder do sacerdote afastou um punhado de criaturas. Amedrontadas, tornaram-se alvos fáceis para o grupo. Enquanto isso, os demais eliminavam os carniçais resistentes. Os ataques brutais de Garuk destruíam os corpos inimigos, enquanto a mordida incandescente de Sombra reduzia os membros atingidos a brasas.

Com a derrota dos carniçais que resistiram à autoridade de Crizagom, o combate tornou-se uma mera limpeza. Os inimigos foram abatidos com facilidade, permitindo aos aventureiros explorar a câmara.

Um lago apodrecido ocupava o norte da área cavernosa. Corpos em decomposição — de mortos-vivos destruídos ou sequer animados — ajudavam a contaminar o local.

— Essa água fede — disse Olgaria, enojada, afastando-se.

— Ô sacerdote, será que esse aqui vai levantar também? — perguntou Garuk, puxando um cadáver de dentro do lago.

— Não, não vai levantar. Está faltando alguma coisa… — ponderou o paladino. — Esses carniçais não têm como voltar. Vocês desmantelaram vários deles.

— Depois a gente vem fazer uma limpa. Acho que não precisa fazer muita coisa aqui, não. Esse Volrath vai ser preso, com certeza — concluiu o feiticeiro.

Réctor buscou algo de útil nos corpos e encontrou um objeto peculiar no cadáver de uma mulher: uma corrente de bronze com um pequeno pingente em forma de disco que se abria. No entanto, o que havia dentro já se perdera há muito tempo. Na parte traseira, havia a gravação de um símbolo heráldico de tradição élfica. O napol guardou o objeto, na esperança de encontrar seu herdeiro.

— Pessoal, o rastro segue por aqui. Vamos? — instigou o Guia. — Ou vocês vão olhar mais alguma coisa?

— Vamos. E com cuidado a partir de agora. Podemos ter feito barulho.

O cofre sombrio

Os aventureiros desceram a escadaria até um corredor largo. O gotejamento natural da caverna misturava-se ao som do farfalhar das chamas das lanternas e a um ruído rítmico de madeira batendo ao longe.

Analisando o chão e os rastros dos elfos que os guiaram até ali, o Guia observou que as pegadas seguiam pelo canto da parede, em fila, em vez de ocuparem o centro do caminho.

— Ninguém passa no meio… — murmurou. — Ô magrelo… Atravessador… — completou, já com um plano em mente. — Tá vendo ali? As pegadas vão só pelo canto. Deve ter algum motivo. Qual?

— Isso aqui parece um alarme — concluiu Demétrius, ao se debruçar sobre o centro do túnel.

Haftor e Demétrius ergueram suas fontes de luz. No teto, perceberam um sino. O ladino encontrou um fio de seda extremamente fino conectado a ele.

— Eu vou cortar — disse Demétrius, sacando o punhal.

— Mas aí pode disparar, não? — questionou o Guia.

— Não. Se eu cortar aqui, o sino não toca. A vibração não chega.

O corte rápido e preciso do Atravessador impediu qualquer vibração na corda. O sino permaneceu imóvel. A armadilha estava desativada.

— Vou na frente. Pode ter mais — afirmou o Guia.

Demétrius seguiu desmontando as armadilhas seguintes da mesma forma, sem dificuldades, até que o trecho protegido terminou.

O grupo avançou até uma divisória. Ao sul, o corredor se estreitava, e o chão tornava-se repleto de pedras soltas.

O Guia se adiantou para observar.

— Ali na frente tem brita. É pra fazer barulho — alertou. — E lá no fundo tem uma porta… uma porta chique. Não sei o que tem lá, mas não dá pra passar pisando no chão.

Após discutirem como cruzar sem alertar quem estivesse além da porta, Hector utilizou Sombra para espiar pelo buraco da fechadura. Do outro lado, havia um ambiente iluminado, com baús e vozes em conversa.

— Galera, vou abrir um portal lá dentro. Os caras vão se assustar, e a gente entra. Vai ser “matar e imobilizar”. Tentem imobilizar pelo menos um.

O feiticeiro encontrou uma barreira mística que dificultava a criação do portal. Ainda assim, sua vontade prevaleceu, e a magia foi evocada.

Com a passagem aberta, o grupo atravessou rapidamente, um a um. Do outro lado, dois elfos sombrios observavam a invasão, surpresos. Amedrontados, recuaram contra a parede, sacando suas espadas.

— Quem vai pedir pra se render? — perguntou o Guia, já tarde demais.

Haftor avançou, marreta em punho.

— Não era pra render os caras?

— A gente rende depois que desmaiar — respondeu o paladino.

Garuk se aproximou de um dos inimigos, erguendo o machado em brasa. A lâmina incandescente desceu sobre a cabeça do elfo, abrindo-lhe o crânio. No mesmo movimento, um golpe bruto o lançou contra a parede, já sem vida.

A cena fez o outro elfo se render imediatamente.

— Ajoelhe-se. Mãos atrás da cabeça! — ordenou Haldor.

O prisioneiro obedeceu. Foi amarrado e colocado no centro da sala.

O ambiente continha dezessete baús feitos de um metal escuro. O elfo possuía as chaves da maioria deles, exceto de um, que Demétrius começou a arrombar.

Enquanto alguns exploravam os baús, o Guia concentrava-se nos odores do local: Syllen’ae, Caridrândia… e até Táviga. Cada cheiro se intensificava em um baú diferente.

Nos recipientes, encontraram:

Lingotes metálicos vindos de Blur, marcados por forjas anãs, mas com o odor característico da meio-orca Táviga, de Trisque.

Trinta e dois frascos de poções de cura.

Mapas de Telas com marcações de conflitos com necromantes e listas de nomes a evitar ou procurar, escritos em élfico.

Armas comuns anãs, como picaretas, martelos e machados.

— Isso é roubado de Blur! — indignou-se Haftor.

Enquanto isso, Demétrius concluiu a abertura do baú marcado com um “X”. Dentro, havia diversos porta-mapas.

O Guia analisou-os um a um. Os documentos revelavam entradas fortificadas de Caridrândia e detalhavam contingentes militares alocados em rotas específicas. Ele reconheceu algumas delas, mas o conteúdo era muito mais amplo do que seu conhecimento prévio.

Garuk voltou-se ao prisioneiro.

— E o “Escaravelho”? Fala.

— Não sei do que está falando — respondeu o elfo, confuso.

Sem hesitar, Garuk avançou e arrancou o braço do prisioneiro com uma mordida brutal.

— Quer falar alguma coisa agora? — disse, com a boca ensanguentada. — Ainda posso te curar. Temos 32 poções.

O elfo não respondeu. Caiu ao lado, gritando em dor extrema. Não fosse a barreira mágica, seus gritos ecoariam por todo o complexo.

Haftor observou a cena com desaprovação. Em um movimento rápido, cravou um punhal no peito do prisioneiro, encerrando seu sofrimento.

— Sem barulho. Isso aqui é uma incursão.

O cativeiro do horror

Após limparem a sala e esconderem os corpos nos baús vazios, os aventureiros retornaram pelo túnel da forma que entraram e retomaram a rota principal.

O caminho tortuoso os conduziu até uma enorme porta metálica. O Guia identificava pegadas de elfos, como antes, mas agora também de humanos.

À medida que avançavam, um cheiro insuportável de carne em decomposição dominava o ambiente, revirando o estômago dos aventureiros e quase lhes impondo desvantagem.

O Guia se aproximou da porta para escutar o outro lado: gemidos e o som de metal balançando. No entanto, o odor que já afligia os companheiros o atingiu de forma visceral, forçando-o a pôr para fora sua última refeição.

— Cheiro de morte, som de tortura. Acho que aqui estão os prisioneiros — concluiu o Guia.

O grupo invadiu a sala em modo de assalto, mas o que encontraram não foi um exército, e sim um depósito de seres humanos e anões.

Inúmeras gaiolas fechadas, algumas cobertas, espalhavam-se pelo local. Dentro delas havia pessoas — algumas feridas, outras mortas. Em uma delas, os restos mortais de um anão.

Havia dois humanos fora das gaiolas, presos por grilhões às paredes.

Réctor e Sombra aproximaram-se de um homem em trapos, preso aos grilhões. Seus punhos estavam em carne viva, mas seu olhar era vazio.

— Quem é você? Qual o seu nome? — começou o napol. — A gente está aqui para te ajudar. Agora você não vai mais sofrer.

Haldor e Haftor caminhavam entre as gaiolas, buscando sobreviventes, quando uma voz rouca e familiar chamou:

— Haldor…

Debaixo de um trapo que cobria uma gaiola metálica, os irmãos anões encontraram um dos seus.

Era Kórgan, um colega de academia de Haldor.

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