A passagem apodrecida
As aranhas carnívoras
Os aventureiros desceram o túnel preparados. O Guia, com sua Intuição magicamente aprimorada, seguia à frente. Réctor retornou e fechou a passagem furtivamente, atravessando o túnel com um feitiço que apagava os rastros da entrada.
A descida era íngreme, em rampa. O Guia liderava o caminho, seguido de perto por Garuk. As trevas imperavam, mas sua visão monocromática no escuro revelou um aranhal, deixando apenas um estreito corredor livre para passagem.
Alguns passos lentos e cautelosos foram dados até que o rastreador percebeu um movimento sobre as teias — algo que Garuk não notou.
Aranhas gigantes caíram sobre os aventureiros, iniciando uma caçada implacável na qual precisariam lutar para sobreviver.
O grupo se espalhou o quanto pôde na caverna estreita. Olgaria avançou; Réctor conjurou brumas protetoras; Garuk atacou com machado e garras; Haldor arremessava seu machado, enquanto Haftor brandia sua marreta brilhante.
O combate foi tenso. Garuk foi ferido, mas resistiu ao veneno. Olgaria foi pega desprevenida e caiu prostrada, com a criatura prestes a inocular-lhe veneno. Haldor tentou ajudá-la, mas foi um feitiço invisível de Réctor que a libertou. Um disparo de vácuo explodiu a cabeça do monstro, banhando a zumi com o sangue do inimigo.
Garuk pôs fim à batalha. Após Haldor derrubar uma aranha no teto com um arremesso preciso, o sekbete eliminou a última criatura com suas próprias garras.
O pós-combate foi de recuperação e coleta de espólios. O grupo ainda se sentia confortável em relação ao tempo.
Olgaria foi curada por um milagre de Haftor. Garuk e Réctor removeram partes úteis das criaturas, como veneno e ovos, enquanto Haldor, Haftor e o Guia verificavam corpos encapsulados em teias.
Uma das vítimas, com cerca de 1,80 m, foi desenrolada pelo Guia. O cadáver era de um humano em trajes simples, com a pele ressecada pelo veneno. Uma tatuagem na nuca revelava a marca da escravidão dos elfos sombrios.
— Procurem por tatuagens e marcas nos corpos. Este aqui era um escravo — alertou.
Haldor e Haftor encontraram sinais semelhantes nos demais corpos, indicando que todos eram escravos dos elfos sombrios.
Garuk havia coletado as quelíceras das criaturas e agora analisava os ovos. Encontrou centenas deles no interior dos corpos.
— Se quiser, a gente pode chocar um desses aí e virar seu animalzinho de estimação — sugeriu Réctor.
— Acho que dava era pra fazer um omelete. Não pensei em vender — respondeu o berserker.
Percebendo que o volume era grande demais para carregar, Garuk levou apenas metade.
Enquanto isso, Demétrius abriu um pequeno baú displicentemente deixado no chão. Dentro, havia um estranho apito.
— Será que isso afasta as aranhas... ou chama elas? — ponderou Réctor.
Sombra detectou outras criaturas em túneis próximos. Para testar, Demétrius soprou o apito. O efeito foi imediato: as aranhas fugiram para os covis mais profundos.
— Guarda isso — ordenou Réctor. — Pode ser útil.
A ponte perigosa
O túnel das aranhas terminava em uma porta metálica trancada. Demétrius foi chamado para abri-la, mas sua gazua quebrou.
— Você não consegue abri-la? — perguntou Réctor.
— Minha gazua quebrou. O jeito é forçá-la.
Mas o grupo queria discrição. O napol atravessou a parede e constatou que não havia inimigos do outro lado. Em seguida, abriu um portal, permitindo que todos atravessassem a porta magicamente, sem precisar destrancá-la.
Os aventureiros entraram em uma câmara retangular. Uma ponte de pedra atravessava um lago repleto de criaturas. Mesmo na penumbra, era possível ver uma enguia e ouvir um chiado característico de estática.
— Tomem cuidado — alertou Haldor. — Esses peixes são enguias elétricas. Podem matar.
O piso da ponte não era uniforme. Entre as quatro colunas que sustentavam o teto, havia trechos com textura diferente. Haftor começou a analisá-los, mas Garuk não hesitou: saltou cerca de dois metros, ultrapassando os padrões, e caiu quase no centro da ponte.
O impacto teve consequências.
A estrutura inclinou-se, revelando ser uma espécie de gangorra com eixo central. Garuk escorregou, cravando as garras na pedra por um triz, evitando cair na água. Um verme gigante emergiu do fundo, aguardando um deslize para atacar.
Réctor voou pelo salão e pousou na extremidade oposta da ponte. Seu peso, sozinho, não foi suficiente para estabilizar a estrutura. O Guia, usando seus portais de sombra, posicionou-se para ajudar no contrapeso, equilibrando parcialmente a passagem.
Enquanto isso, Haftor compreendia o funcionamento do mecanismo.
— Tem um encaixe aqui — disse, utilizando um cajado de madeira encontrado no chão para travar um dos pontos da ponte. — Deve haver outro igual do outro lado.
O napol encontrou o segundo encaixe. Um clique ecoou pela câmara, e a ponte fixou-se na posição horizontal.
Demétrius e Haftor atravessaram com segurança. Os demais cruzaram com o auxílio da nuvem voadora de Réctor.
O caminho secreto
Demétrius destrancou a porta seguinte sem dificuldades. Ela revelou um corredor que exalava um estranho peso místico, sugerindo a proximidade com o Domo de Arminus.
Candeeiros alinhavam-se pelas paredes a cada poucos metros. Estavam apagados, e assim permaneceram. Com suas próprias fontes de luz, os aventureiros analisaram os suportes em busca de símbolos ou encantamentos, mas encontraram apenas a marca de um fabricante caridrândico.
Após uma curva acentuada, pouco antes de cruzarem um riacho subterrâneo, Haftor e Réctor perceberam ranhuras nas paredes, alinhadas com a posição dos candeeiros. Enquanto os dois analisavam as marcas, o Guia e Garuk examinavam a água.
A parede ao redor das ranhuras era mais lisa que o restante, sugerindo uma passagem oculta. Apesar disso, a dupla demorou a encontrar o mecanismo que a revelaria.
A solução surgiu quando Réctor acendeu os candeeiros próximos à área e, em seguida, ele e Haftor apagaram suas próprias fontes de luz. Imediatamente, um mecanismo foi acionado, e a parede deslizou lateralmente.
— Oh! Uma passagem, hein. Vai lá, Demétrius — disse o napol, indicando o caminho estreito e escuro.
O Guia não identificou rastros dos elfos sombrios naquela direção; ao menos, não com a mesma intensidade. Ainda assim, o grupo decidiu seguir.
Ao final do trajeto, encontraram uma porta destrancada.
Além dela, havia uma sala retangular, de teto abaulado e altura baixa, repleta de caixas e objetos espalhados. Uma das paredes era irregular, destoando das demais — sinal de construção recente, segundo Haftor.
Os itens encontrados pareciam pertencer a vítimas escravizadas pelos elfos sombrios: objetos pessoais, livros e escrituras. Alguns, no entanto, indicavam origem caridrândica.
Réctor encontrou um livro preto, fechado por uma trava de couro. Ao lado, estava a chave. Um convite explícito à leitura.
O manuscrito, escrito em élfico, descrevia pessoas e suas qualidades. Tratava-se de um catálogo de escravização, com critérios eugenistas que detalhavam características “desejáveis” e “indesejáveis” entre diferentes povos humanos e de outras raças.
— Isso aqui já serve como prova. Um catálogo de escravos — concluiu Réctor.
Ainda assim, o documento não estabelecia ligação direta com Volrath, tornando-se insuficiente como evidência.
Enquanto isso, os demais vasculhavam o ambiente.
O Guia encontrou um pingente com o símbolo de um golem. Haldor encontrou um anel-sinete de um guarda de Blur, indicando sua função em uma das fortalezas anãs.
— Será que mataram um guarda... ou há um infiltrado entre eles? — ponderou Haftor. — A julgar por esta sala, parece que aqui ficam os restos dos escravos.
Garuk examinava dois espelhos apoiados sobre uma caixa. Ao tocar um deles, sentiu uma atração estranha, difícil de resistir.
Réctor identificou ambos como mágicos e leu a inscrição gravada no verso:
“A casa é o destino em qualquer lugar.”
— Talvez sejam usados para enxergar à distância... ou até para teleporte — sugeriu, guardando-os cuidadosamente em um saco de couro.
Por fim, o grupo tentou forçar a parede mais recente. Réctor recuou, temendo que a estrutura cedesse.
O chute de Garuk, com auxílio de Olgaria, fez o teto estremecer, derrubando detritos sobre todos.
— Vocês têm alguma ideia do que significa ‘discrição’? — criticou Haftor. — Estamos dentro da casa do vizinho.
Diante do risco, o grupo abandonou a tentativa e retornou à rota principal.
O riacho analisado anteriormente exalava um odor pútrido, o que manteve o grupo em alerta. Eles avançaram sem tocá-lo, com o Guia liderando.
Alguns metros adiante, o rastreador avistou, na escuridão, um carniçal balançando o corpo, alheio à presença do grupo.
Aproveitando a surpresa, o Guia sacou arco e flecha e disparou.
O gemido da criatura ecoou pelo túnel.
Outros movimentos responderam.
Uma batalha estava prestes a começar.


Nenhum comentário:
Postar um comentário