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sábado, 28 de março de 2026

(LA) Sessão 33

Provas manchadas de sangue

O armazém

O Guia e Garuk haviam saído dos túneis escuros para o armazém de Volrath. A atmosfera era carregada pelo peso místico do Domo, localizado a poucos metros dali.

O armazém, repleto de caixas, mesas de desenho e livros, estava escuro, com as janelas fechadas.

— Garuk, essa é a sala em que eu vi a elfa. Vá chamar o Haftor e o Réctor. O documento deve estar aqui.

Enquanto Garuk descia para convocar os companheiros, o Guia passou a escutar os sons externos. Ouviu passos abafados e movimentos no lado de fora, no jardim. O odor de Syllen’ae ainda permeava o ambiente, mas era impossível dizer se era recente.

Instantes depois, todos se reuniram no armazém de Volrath e começaram a busca pelo documento que o incriminaria.

— A gente tá no meio de um jardim — orientava o Guia, com seu conhecimento prévio do ambiente. — Eu tô escutando passos, mas ainda estão longe. Eu já vou fuçar aqui em cima.

— Eu e Haftor vamos começar por aqui — disse Réctor, analisando as gavetas com minúcia, assim como o anão.

Enquanto isso, Garuk e Olgaria ficaram atentos aos movimentos no exterior. Haldor e Demétrius verificavam as caixas.

— Isso aqui são coisas escavadas… — disse Haldor, mexendo em estatuetas e ferramentas de arqueologia, sem encontrar documentos relevantes.

Réctor e Haftor, analisando os papéis nas escrivaninhas, depararam-se com diversos documentos redigidos em malês e élfico. Eram como contratos, mas complexos demais para uma leitura rápida. Ainda assim, como o nome de Volrath aparecia com frequência, o napol decidiu guardá-los.

— Ei, pessoal, estão se posicionando para uma emboscada! — anunciou Garuk. — Eles vão investir aqui a qualquer momento.

O sekbete se posicionou para uma abordagem direta. Caso alguém invadisse o armazém, seu machado brandiria em chamas imediatamente.

— Peguem as caixas pesadas e ponham na porta. Vamos barricá-la! — ordenou o paladino.

No andar superior, o Guia encontrou um escritório pequeno e oculto, com uma escrivaninha central e estantes junto às paredes. Não havia janelas.

Ao forçar uma das gavetas, arrancando-a, ativou um mecanismo oculto: um dardo envenenado disparou em sua direção. Graças aos seus poderes sombrios, ele resistiu.

A gaveta caiu no chão durante sua breve hesitação. De dentro, rolaram pergaminhos e uma pena preta, que flutuou lentamente até o chão.

No andar inferior, a urgência aumentava.

— Estão jogando óleo! — alertou Haftor. — Vão incendiar isso aqui!

Hector subiu para ajudar o Guia e sugeriu: — Quebra a outra gaveta contra a parede!

O Guia entregou os pergaminhos e a pena a Réctor, que imediatamente reconheceu o objeto como pertencente a um napol.

O cheiro de fumaça já tomava o ambiente.

Haftor subiu por último e destruiu armários trancados. Em um deles, encontrou um cofre de metal maciço. Pesado e difícil de abrir, decidiram levá-lo.

— Me ajuda com o cofre! — gritou Haftor. — Vambora!

O alçapão era a única saída. Porém, ao retornarem, encontraram a passagem bloqueada por uma parede de cristal.

Garuk a golpeou com força. — Tem magia aqui!

Com um feitiço de anulação, Réctor desfez a barreira, consumindo grande quantidade de energia devido à proximidade com o Domo de Arminus.

Com a passagem liberada, o grupo saltou para o túnel. Demétrius machucou a perna na queda, mas todos sobreviveram. O caminho de volta era conhecido, mas os perigos poderiam ter mudado.

Emboscada no calabouço

O golem não fora um obstáculo. Assim como na entrada, o pingente encantado garantiu que a criatura não os atacasse. Os aventureiros retornaram rapidamente ao calabouço dos prisioneiros.

Ao abrirem a porta metálica onde suas vítimas ainda jaziam no chão, depararam-se com um portal mágico aberto no centro da sala.

— Não deixem eles escaparem com vida! — gritou Volrath, do outro lado do portal, enquanto capangas surgiam armados.

— Vamos matar todos ou só tentar passar? — perguntou Haftor.

— Precisamos matar todos. Ninguém pode saber que somos nós — respondeu Réctor.

O combate foi inevitável. Réctor iniciou as hostilidades com uma flechada antes mesmo que os inimigos se posicionassem. Em poucos instantes, o grupo se viu diante de um número elevado de combatentes.

— Matem todos eles e destruam o que estiverem carregando! — ordenou Volrath, antes de desaparecer com o fechamento do portal.

Garuk e Olgaria avançaram em conjunto, flanqueando um dos oponentes. O rugido aterrorizante do sekbete fez o inimigo hesitar, abrindo espaço para golpes brutais.

Haldor e Haftor foram especialmente eficientes. A dupla de anões antecipava os movimentos adversários com precisão. O martelo de Haftor e o machado de Haldor trabalhavam em perfeita sincronia.

Quando o primeiro inimigo caiu, um dos sobreviventes tentou se render. O código de honra de Haftor o fez hesitar. O Guia, no entanto, não compartilhava daquela limitação. Uma flecha precisa atravessou o crânio do oponente rendido, encerrando sua vida.

A batalha seguiu sem recuo. Um a um, os inimigos caíam.

— Por favor… eu não estou sendo pago tão bem… — implorou o último sobrevivente.

— Quem troca armas com a guarda, morre — sentenciou Haldor, abrindo o abdômen do homem com um golpe seco.

Sem perder tempo, Réctor convocou seu transporte pelas brumas, levando todos diretamente para a tenda de Lismara, até mesmo os corpos dos inimigos.

Recomposição no acampamento da arqueóloga

Os guardas de Lismara entraram em posição defensiva ao verem vultos e cadáveres surgindo do nada.

— Não cheguem mais perto — alertou um dos guardas.

— Vocês também querem brincar? — retrucou Garuk, empunhando o machado.

— Não, não, Garuk! Esses são aliados — interveio Réctor. — Senhores, viemos falar com sua patroa.

Lismara saiu de sua tenda e deparou-se com a cena: aventureiros ensanguentados cercados por corpos.

— O que você fez, Demétrius?

— Olha esse monte de gente armada… você acha mesmo que fui eu? — respondeu o Atravessador.

— Não foi culpa dele — explicou Réctor. — Encontramos um meio de entrar lá… e vimos coisas que não podíamos ignorar. Ninguém saiu vivo para contar.

— É pior do que você imagina — completou Haftor.

— Tragam tudo para dentro. Rápido — ordenou Lismara. — Se alguém perceber isso…

— Mulher, obrigado! — disse Garuk, abraçando-a de forma inesperada. — Você me deu um pouco de diversão no meio dessa pasmaceira!

Dentro da tenda, o grupo começou a analisar os documentos, separando o que poderia incriminar Volrath.

— Syllen’ae… a patronesse das artes? — surpreendeu-se Lismara. — Ela está envolvida nisso? Ela financia pesquisas em Telas…

— Existe alguma autoridade em Telas? — perguntou Haftor.

— Às vezes, os magos assumem esse papel quando não há representante da Igreja de Crizagom. E o atual está viajando.

— Então temos um. Eu sou esse representante — declarou Haftor.

Enquanto isso, o Guia pressionava Demétrius a abrir o cofre recuperado. Demétrius, exibindo habilidade, manipulou suas gazuas e abriu a fechadura com rapidez.

Dentro, encontraram pergaminhos ainda mais comprometedores, escritos em élfico arcaico.

— Mais papel… — resmungou o Guia. — O cheiro de Volrath e Syllen’ae está em tudo isso.

Os documentos detalhavam contratos de comércio de “mercadorias vivas”, realizadas na Estrada do Ogro Morto a cada vinte dias. Tudo indicava uma operação organizada — exatamente o que Lismara precisava para expor Volrath.

Córgan e a mensagem da justiça

Haldor e Haftor atravessaram o acampamento de Lismara até a tenda dos prisioneiros resgatados. O ambiente, iluminado por uma fogueira tênue, oferecia algum calor aos feridos. Córgan, o único que recebera tratamento intensivo, fazia a guarda.

— Ah, vocês voltaram! Eu temia não vê-los novamente.

— Não se preocupe, está tudo bem — respondeu Haftor. — Me conte o que aconteceu. Como veio parar aqui?

Do lado de fora da tenda, longe dos outros sobreviventes, Córgan começou seu relato.

— Fomos emboscados durante a travessia entre Blur e Telas. Éramos três: eu, Troin e Bori… — sua voz vacilou por um instante — eles não sobreviveram.

O anão respirou fundo antes de continuar. — Eu fui capturado, já ferido, e trazido para cá. Nossa localização foi entregue por aquele maldito… fiquei sabendo que ele mudou de nome depois de ser expulso de Blur. Durnan. Lembram dele?

O nome não era estranho para Haldor. Um anão exilado por traição, banido das montanhas e destituído de seu nome.

— Agora ele se chama Horgrundis — revelou Córgan. — Foi ele quem nos vendeu. Sabia exatamente quando estaríamos vulneráveis. Levaram os lingotes que transportávamos de Blur para Telas.

— Sabe onde podemos encontrá-lo? — perguntou Haldor.

— Não. Mas ouvi dizer que ele é um contato frequente dos elfos sombrios. Tem vendido os nossos para eles.

— Então os crimes dele vão além do exílio — concluíu Haftor. — Ele não merece continuar vivo.

Córgan assentiu, em silêncio. Percebendo o estado do anão, Haftor fez uma oferta: — Você pode se recuperar conosco. Estamos a caminho de Blur. Se quiser, pode vir.

— Seria um grande favor… eu jamais teria como pagar.

— Não é necessário.

A acusação

Após organizarem as provas, o grupo decidiu que a melhor estratégia seria levar os documentos às autoridades religiosas de Crizagom. Na manhã seguinte, Haftor reuniu a papelada e atravessou a cidade até o templo de seu deus, acompanhado dos companheiros.

— Nosso responsável encontra-se viajando — informou a acólita ao recebê-los. — Ele foi ao norte, mas deve retornar em poucos dias.

— Temos um caso de crime muito grave. Já que o responsável não está, eu assumirei — declarou Haftor.

A acólita conduziu o sacerdote até uma mesa, onde começou a redigir a acusação com base nas informações apresentadas. O texto elaborado por Haftor condenava diretamente Volrath. No entanto, a burocracia de Telas logo se impôs:

— Precisamos levar essas informações ao Conselho dos Colégios. Eles também possuem voto e devem ratificar a decisão. Em duas ou três horas, consigo as assinaturas necessárias.

Ao perceber que a acólita reunia todos os documentos, Lismara demonstrou preocupação. — Mas precisa de todos?

— Eu fico com os documentos — interveio Haftor. Valendo-se de sua autoridade como sacerdote, ele convenceu a acólita a levar apenas o testemunho inicial para abertura do processo.

Com isso, restava ao grupo aguardar. Haftor decidiu permanecer no templo de Crizagom, esperando ser o primeiro a receber qualquer resposta, mesmo que durante a madrugada.

Os demais retornaram ao acampamento de Lismara para descansar e se preparar. Olgaria permaneceu na tenda da arqueóloga, enquanto o restante do grupo se abrigou em outra.

Durante a noite, Haftor foi despertado por um corvo batendo insistentemente na janela. Ao abri-la, ouviu uma voz grave vinda da ave:

— Os necromantes sabem que você tem pesquisado sobre eles.

— Isso é um problema? — respondeu o paladino.

— Depende. Alguns deles estão dispostos a conversar. Vá ao colégio amanhã, ao entardecer. Procure por Kel.

Enquanto isso, no acampamento, uma presença menos sutil se aproximava. Haldor, em vigília, percebeu uma sombra movendo-se próxima à fogueira, deslizando rapidamente para trás de uma das barracas.

O anão retornou à tenda dos aventureiros e abriu a entrada com cautela. A luz externa invadiu o interior escuro — e, com ela, uma sombra distorcida se projetou no chão e sobre os tapetes.

— ACORDA! — gritou, chutando Garuk. — Temos movimento!

A sombra se movia… e buscava o Guia.

— ACORDA, GUIA! — O sekbete despertou em alerta imediato. Ao ver a figura sombria se aproximando, reconheceu-a sem hesitar: Era Margoth.

Telas, dias 12 e 13 do mês da Sabedoria do ano de 1502

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