O plano de Garig
O moinho na floresta
Flynn analisava com cuidado o sujeito que acompanhava Garig naquele moinho: alto, vestindo uma armadura pesada e carregando uma bazuca. Porte de soldado. O mais preocupante: era desconhecido.
— Quem seria seu companheiro, Garig? — indagou Flynn, com desconfiança.
— Este é Francis, um protetor leal.
Flynn não se atreveu a entrar. Seus companheiros, no entanto, tomaram a iniciativa. Hothspoth caminhou até o centro do armazém, removeu o capacete e observou o soldado. O símbolo da Aliança Solar em seu traje lhe trouxe mais confiança.
Mais uma nave quebrando a barreira do som sobrevoou os aventureiros.
— A Lança de Hierofante tem uma base militar aqui perto. Está em ação há algumas semanas. É preocupante — revelou o soldado, com voz firme e ríspida.
— Não para nós — interveio Garig. — Estamos apenas de passagem e ninguém nos detectou.
— A gente também não foi detectado, mas estamos mergulhando a fundo no assunto da cura da SMD — começou Rykkgnaw. — Trouxemos algumas informações para compartilhar, e tinha que ser pessoalmente.
Uma breve pausa se seguiu. Garig mostrou-se interessado em escutar. Rykk continuou:
— Bom, primeiramente falaremos sobre dois projetos da Lança de Hierofante: o Projeto Eucarion e o Projeto Receptáculo. O Projeto Receptáculo envolve partes de um santo que se espalhou fechando fendas. Na verdade, essa entidade existiu. Ele fechava fendas e, por algum motivo, acabou se dividindo em partes. A Lança está atrás dessas partes para colocá-las em pessoas.
Garig demonstrou interesse técnico e questionou as fontes dessas informações. O grupo detalhou as descobertas feitas no cofre da Lança no planeta Viez. Hothspoth explicou que Gre-ôn era o “paciente zero” da Dra. Evelyn Reed e que a consciência da doutora agora estava fragmentada dentro da nave Berenice.
A pauta
Para conduzir a reunião ao ponto principal, Rykkgnaw apresentou sua pauta.
— Descobrimos uma possibilidade de cura ou convivência com o eco sepulcral. Uma raça chamada Karuum, que habita um planeta protegido por um fragmento do Santo, parece resistir à síndrome. Precisaríamos evacuar o planeta e assimilar essa âncora de proteção contra a radiação sepulcral, evitando que a doença se espalhe.
— Eles resistem à doença mesmo expostos a um fragmento como esse? — perguntou Francis.
— Essa raça vive isolada e em relativa harmonia com o fragmento, que eles chamam de âncora.
O grupo explicou a relação entre a âncora e o frágil equilíbrio cósmico do planeta: sua chegada, as consequências de sua remoção e a relação religiosa que os nativos desenvolveram com ela.
Também enfatizaram o risco de a localização ser descoberta pela Lança de Hierofante.
— Assim que a Lança souber desse pedaço do Santo, acabou para eles — temia Rykkgnaw.
— E onde fica esse planeta? — perguntou Francis.
— É melhor não revelarmos por enquanto — respondeu Rykk.
— Mas esse pedaço do Santo é físico?
— É físico — afirmou o draconiano. — Parte de um corpo de um ser que talvez seja divino. Não sabemos exatamente o que ele é. Sabemos apenas que protege essa raça da destruição do planeta deles. O planeta está em rota de colisão com seus dois sóis, mas essa âncora mantém sua estabilidade física.
— E quem são esses Karuum?
— Seres minerais insetoides adaptados a uma gravidade de 4G — explicou Hothspoth.
— As simulações do computador de nossa nave confirmam que a remoção do Santo provocaria o colapso do planeta em apenas doze horas.
Os aventureiros usaram todos os argumentos possíveis para convencer o solariano.
— Uma cura… vocês acreditam que isso seja possível? — perguntou Garig.
— A biologia deles pode representar uma cura. Pelo menos sabemos que são imunes. É uma esperança.
Francis, ainda empunhando sua bazuca, voltou a perguntar:
— Vocês têm as coordenadas desse local?
— A chance de cura só existe se evacuarmos a espécie — respondeu Rykk. — Está no DNA deles. Precisamos preservá-los, realocá-los e depois retirar a âncora.
— Treze milhões? — impressionou-se Garig. — A logística de algo assim seria… sem precedentes.
O androide pediu alguns instantes para processar os dados.
— A Aliança Solar poderia iniciar a construção de uma nave de transporte dedicada em seus estaleiros em Akiton — disse ele após alguns segundos — porém o tempo estimado seria de meses.
— Os Karuum não dispõem de meses. No máximo semanas — respondeu Rykk.
— Precisarei usar os sistemas de busca estelar em Akiton para encontrar um novo lar para essa espécie. As condições de sobrevivência deles são bastante peculiares.
A frequência do eco
Hothspoth apresentou o dispositivo sônico capturado dos guerrilheiros elfos.
— Posso ativá-lo? — perguntou Garig.
— Pode. Mas isso vai me causar uma dor lancinante no braço — ironizou Edric.
Ao pressionar o botão, o dispositivo emitiu um ruído agudo e Ed reagiu imediatamente com gritos de dor.
Garig realizou um escaneamento rápido.
— A frequência é de 77 Hz. A mesma da radiação sepulcral. É o eco sepulcral.
O androide devolveu o aparelho para Hothspoth.
O momento técnico foi interrompido por um alerta de Berenice:
— Senhores, a emissão do sinal parece ter alertado a base da Lança. Detectei movimentação a alguns quilômetros daqui.
— Vamos sair daqui imediatamente! — ordenou Rykk.
A fuga de Castrovel
Ed foi o escolhido para conduzir o veículo carregado de bens.
Antes de partir, Rykk e Garig discutiram um local e uma data para um novo encontro. Absalom foi descartada em razão da vigilância da Frozen Trove, e acabaram marcando a reunião em Vesk Prime.
— Talvez não seja muito seguro, mas está fora do radar da Lança de Hierofante por enquanto — afirmou o solariano.
Nesse instante, uma nave de caça da Lança de Hierofante realizou um voo rasante sobre o moinho, fazendo o solo e o rio oscilarem com a reverberação.
— Parece que eles já enviaram uma tropa de batedores. É melhor se apressarem — informou Berenice pelos comunicadores dos cinco aventureiros estelares.
Com uma despedida rápida, o operativo foi levado na carona de Garig até a camionete todo-terreno.
O veículo estava estacionado em frente a um grande mercado, na periferia de uma pequena cidade. Garig entregou a etiqueta eletrônica de acesso da camionete para Ed e apresentou o passageiro que ocupava o banco do carona: um robô.
— Este é 661. Não se preocupe com ele, está programado para obedecer você.
O operativo se acomodou na cadeira com um olhar desconfiado para seu copiloto autômato. Garig, porém, retomou a conversa.
— Ei, Ed, tome cuidado. A viagem a Vesk pode ser rápida, mas Vesk é um local perigoso. As coordenadas estão no painel do veículo. É longe de qualquer cidade. Vamos tentar ser discretos.
— Não se preocupe, Garig. Discrição é o nome do meio desse grupo. Nós nunca faríamos algo que chamasse atenção.
— Não se esqueça de outra coisa importante. Apenas a nave de vocês é irrastreável para a Lança.
Ed ativou os motores do veículo e seguiu viagem, interagindo com o robô copiloto de personalidade configurável.
Já no compartimento de carga da Berenice — sobre a quadra de basquete — o operativo, auxiliado por Astra, Pip e 661, começou a descarregar as 12.000 cápsulas de UBPs que a Aliança Solar havia enviado. Além delas, havia 20 granadas e 20 medpatchs.
Com a carga do veículo vazia, Ed retornou para a floresta e reencontrou o grupo, reduzindo o tempo de caminhada deles.
Os planos antes de Vesk
Os preparativos para a decolagem começaram assim que todos assumiram suas posições na ponte.
— Capitão, a frota de defesa ainda está na atmosfera. Como vamos passar por ela? — questionou Berenice.
— E se a gente passar como quem não quer nada?
— Nesse caso, sugiro que peguemos uma rota comercial e partamos de uma cidade importante.
Edric iniciou a navegação manual, mantendo a Berenice abaixo dos radares enquanto sobrevoava a floresta em direção a uma zona urbana, tentando camuflar a assinatura da nave. Ao se aproximarem da cidade, a IA apresentou o plano de infiltração.
— Precisamos clonar a identidade de uma nave comercial.
O capitão alterou os dados de identificação da espaçonave. O sinal foi aceito sem questionamentos pela frota de defesa.
A nave deixou a atmosfera de Castrovel e traçou uma rota para a Diáspora, com o objetivo de localizar o Dr. Tanaka antes de seguir para o encontro final em Vesk Prime.
A jornada até o cinturão de asteroides levaria três dias pela Deriva.
Tempo precioso para os aventureiros melhorarem seus equipamentos com os UBPs fornecidos pela Aliança Solar.
Com isso, Kassius e Ed tiveram suas armas aperfeiçoadas. Flynn melhorou a qualidade de seu escudo. Hothspoth e Rykk focaram em aprimorar suas armaduras.
Dos 12.000 UBPs recebidos, restavam ainda 5.538 para futuras necessidades.
Os aventureiros estavam prontos para o que encontrassem.



Nenhum comentário:
Postar um comentário