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domingo, 15 de fevereiro de 2026

(LA) Sessão 28

As três rotas do Sete Rotas

A ameaça no armazém e o novo plano

Repentinamente, o Guia se viu cercado pelas paredes em ruínas da antiga construção de Telas. Seu sortilégio se desfez assim que as sombras ocuparam todo o ambiente.

A visão não lhe oferecia muitas pistas, mas seu faro não falhava: ele havia encontrado uma elfa sombria naquele armazém. Mais do que isso, ela fora capaz de detectar seu encantamento e sabia como quebrá-lo.

A porta da Casa dos Sonhos estava aberta. O Guia despertou os outros, com pressa:

— Eles estão lá agora! Vamos! Temos que falar com os outros! — alardeava, dirigindo-se a Réctor.

— Mas não seria melhor se eles não tivessem percebido? — ponderava o napol. — Precisamos pegar documentos.

— Tem uma elfa sombria lá. Ela tem uma lista. Ela entregou para uma mulher que deve ser ajudante desse tal cara aí. Talvez essa lista seja o que vocês querem.

— Pode ser alguma coisa relacionada a algum carregamento.

— Mas vamos entrar lá derrubando tudo? — preocupou-se Olgaria.

— É muito bem guardado. Eu vi pelo menos umas dez pessoas ao redor da casa, mas pode haver mais — contou o Guia, explicando ao grupo sobre as defesas que poderiam encontrar. — E tem mais uma coisa: eu não sei se eles têm domínio sobre as sombras, mas conhecem a “Arte das Sombras”, porque ela percebeu que eu estava lá e cortou o foco de luz.

— Os elfos sombrios têm dessas. Eu sempre suponho que eles sabem tudo o que está acontecendo — ponderou Demétrius. — É bem provável que estejam atentos.

Tendo em vista os obstáculos apresentados, os aventureiros resolveram realizar a missão em outra oportunidade, com melhor planejamento. Descansaram a noite na Casa dos Sonhos e retomaram a discussão no dia seguinte.

— Eu conheço uma pessoa que pode ter informações de como entrar naquele lugar… — disse Demétrius. O ladino falava de um meio-elfo residente de Telas conhecido como Larial ‘Sete Rotas’.

— Larial conhece toda a cidade. Se houver uma forma de entrar, ele saberá. Mas ele cobra em ouro.

Larial ‘Sete Rotas’

O grupo se dividiu em três frentes:

  • Demétrius e Réctor iriam ao Alambique de Vidro, a taverna onde Larial passava suas noites, para abordá-lo.
  • O Guia e Haldor infiltraram-se na taverna como clientes, com o objetivo de observar os acontecimentos.
  • Haftor, Garuk e Olgaria permaneceriam do lado de fora, à postos para qualquer contramedida necessária.

O Alambique de Vidro era uma estalagem simples, com odor forte de bebida desde a porta de entrada, mas com público muito variado, desde aldeões comuns até magos e aventureiros em busca de discrição.

Larial estava acomodado com três mulheres e um homem em uma das mesas mais abastecidas de bebidas. Demétrius se aproximou e sentou-se na mesa ao lado, onde alguns clientes já ocupavam a maioria dos lugares. Réctor, percebendo o desconforto daqueles que já estavam ali, puxou conversa e ganhou tempo. O napol ofereceu algumas de suas folhas de Láudis e vendeu um punhado de sementes para um aprendiz do Colégio Naturalista.

Não demorou muito para que Demétrius encontrasse o momento certo para abordar seu antigo conhecido. Os dois trocaram algumas palavras discretas, e logo Réctor foi apresentado. O trio deixou a taverna com os braços de Larial apoiados sobre seus ombros.

O Guia e Haldor, que haviam encontrado uma mesa discreta no canto da taverna, continuaram observando seus companheiros. O anão se levantou e tentou obter algumas informações das pessoas que dividiam a mesa com Larial, mas elas sabiam pouco. O Guia, por sua vez, observou pela janela o trio deixar a taverna e, pouco depois, também saiu dali.

Larial não pareceu muito à vontade ao notar o paladino de Crizagom por perto. Mesmo tentando ser discreto, o símbolo da justiça parecia uma visão que o incomodava profundamente.

— Hoje parece que as coisas estão meio estranhas. Até um paladino está rondando a taverna. É melhor irmos para o meu escritório. Não traz sorte a esta hora, mas pelo menos não traz prisão — disse Larial, enquanto guiava os aventureiros pelas ruelas de Telas até um sobrado em um beco sem saída.

O escritório era um cômodo amplo, com poucas janelas. Livros, pergaminhos e ferramentas espalhavam-se sobre bancos e estantes junto às paredes, mas uma mesa redonda central se destacava. Era organizada, com livros, papéis, tinta e penas. Larial garantiu a segurança do local:

— Não se preocupem, este lugar é protegido. Nenhum som entra, nenhum som sai.

— Hum, muito bom — elogiou Réctor, observando. — Eu também consigo fazer algo parecido.

— Cheio de segredos, o seu amigo, Demétrius! — comentou Larial, surpreso. — Podia trabalhar para nós, o que acha?

— Eu sou um espírito livre. Não posso ficar com vocês.

— Tenho certeza de que esse espírito livre tem seu preço, não?

— A riqueza é diferente para mim do que talvez seja para vocês… pelo menos do que é para Demétrius — justificou-se Réctor.

Percebendo que não convenceria o napol, embora não tenha fechado a porta para futuros negócios, Larial foi direto ao ponto. Consultando seus registros, mencionou que o prédio pertencera a “Lésia Silver” e que se tratava de uma construção recente, com não mais que trinta anos e, portanto, com poucas entradas.

— Tenho certeza de que alguém com suas habilidades conhece um caminho?

— Conheço. Mas é difícil, e dificuldade é caro.

— Mas seu “caro” é em ouro, ou…?

— O que eu faria com outra coisa? Ouro, é claro.

— Tenho coisas que podem ajudar você de várias formas — negociou Réctor, prevendo um custo elevado. — Sou versado em algumas magias, e muitas delas envolvem poções — revelou, abrindo o manto e mostrando os frascos.

— Os magos daqui têm muitas coisas assim também. Não parece ser tão raro… Vamos ver quanto isso vai lhe custar primeiro.

O trambiqueiro analisou as plantas, verificou as possíveis rotas e a dificuldade de reprodução. Após alguns minutos, concluiu:

— Faço uma cópia para vocês. Mas, como é um prédio novo e difícil de entrar e sair, o preço é 10 moedas de ouro.

— Nossa, tudo isso? — exclamou Demétrius.

— Acredito que seja justo — disse Réctor, pagando as moedas.

O meio-elfo fez a cópia diante deles e explicou que existiam três acessos alternativos para o prédio de Volrath:

  • Chaminé/telhado, a opção mais óbvia e mais vigiada;
  • A tecelagem vizinha, através de uma entrada secreta que se conecta ao armazém externo por um túnel subterrâneo. A tecelagem é frequentada por cerca de 40 trabalhadores diariamente;
  • O túnel pela floresta, uma passagem secreta antiga que percorre pelo menos duzentos metros entre a mata e o armazém interno. Este acesso, porém, é o mais perigoso.

— O túnel que vai à floresta é o mais perigoso. Estamos em Telas, e dizem que algumas criaturas foram colocadas lá para proteger a passagem e nunca foram removidas. A menos que tenham sido.

— Se você fosse entrar lá, por onde iria? — perguntou Réctor.

— Pela porta da frente, usando um convite. Não usando essas passagens. Mas, se querem acessar os armazéns externos, entrem pela tecelagem. Ali ninguém vai desconfiar, desde que consigam se disfarçar.

Réctor e Demétrius retornaram caminhando para o refúgio na mansão em ruínas, seguidos de longe pelo Guia e por Haldor.

Como de costume, o Guia não pernoitou na Casa dos Sonhos de Réctor. Sua noite ainda não havia terminado. Na floresta, o rastreador armou uma armadilha para capturar uma coruja e a deixou preparada até a tarde seguinte.

Um dia de preparativos

Na manhã seguinte, enquanto Haldor vigiava a tecelagem e estudava o comportamento dos trabalhadores, Haftor e o Guia decidiram investigar a origem do artefato anão adquirido anteriormente. Eles se dirigiram a um pequeno santuário de Selimon, onde o sacerdote Távio regava as plantas quando os viu chegar.

— Vieram fazer suas oferendas a Selimon? —

— Lembra-se de mim? — apresentou-se Haftor, com um gesto cordial. — Nós negociamos há algum tempo.

— Ah, sim, você é o sacerdote de Crizagom que procurava aquele objeto estranho.

— Trouxe um amigo, e queremos mais informações sobre o antigo proprietário dos itens que você adquiriu.

— Ah, eu apenas comprei aquilo. Era de uma comerciante itinerante. O nome dela era Elira, se não me engano.

— Ela ofereceu mais alguma coisa? — questionou o Guia, com sua habitual rispidez.

— Tinha muitas coisas para vender. Ofereceu uma tiara dourada, com algumas gemas. Também tinha armas, mas não me interesso por elas.

— E você sabe como podemos encontrar essa Elira? — perguntou Haftor.

— Ela disse que estaria em viagem por mais uns dois anos. Daqui, partiu para o noroeste, dizendo que atravessaria as montanhas acima das terras dos anões.

Haftor alertou o sacerdote sobre a possível procedência ilícita dos objetos que ele havia adquirido. Távio demonstrou surpresa e constrangimento, desculpando-se sinceramente.

O anão ofereceu seis moedas de prata a Selimon e deixou o santuário acompanhado do Guia. Durante a tarde, os dois se separaram. O paladino seguiu para o Colégio do Conhecimento com seu irmão, Haldor, enquanto o rastreador retornou à floresta para verificar sua armadilha.

— Creio que vocês já terminaram o serviço que tinham aqui — disse Asdrúbal com desdém, impedindo os anões de entrar.

— Não, ainda não. Temos assuntos pendentes. Você prefere ser advertido aqui ou prefere que eu chame sua superior?

A discussão durou alguns minutos, mas foi suficiente para convencer o arauto a permitir a entrada. Ele percebeu que não conseguiria impedi-los e não insistiu.

Dentro da biblioteca, Tessa realizava suas pesquisas. A aprendiz auxiliou os irmãos a encontrar uma cópia do Testamento da Ordem, um tomo enorme, manuscrito e extremamente antigo.

A leitura mostrou-se extremamente difícil. A caligrafia era irregular e o pergaminho estava muito deteriorado. Haftor estimou que o manuscrito tivesse quase dois mil anos.

Apesar das dificuldades, algumas informações relevantes foram extraídas.

O autor do Testamento da Ordem era Altherion de Corvear, um arqui-feiticeiro do Segundo Ciclo que havia fundado uma ordem mística. No entanto, o nome dessa ordem havia sido raspado ou apagado deliberadamente em todas as ocorrências no manuscrito.

Sabendo que permaneceriam em Telas por mais alguns dias, Haftor separou o tomo para estudá-lo com mais profundidade posteriormente. A tarde já avançava quando ele retornou ao refúgio.

Enquanto isso, a armadilha do Guia havia funcionado. Uma coruja piava assustada quando ele se aproximou. O sekbete espantou um predador próximo e lançou um encantamento sobre a ave, estabelecendo um elo espiritual entre ambos.

A nova ligação permitiu que ele começasse a ensinar truques à criatura — algo impossível sem aquela conexão mística.

Caça ou caçador

— O amigo do Demétrius me pareceu um cara bacana… igual ao Demétrius… — insinuava Réctor com sarcasmo, já na segurança de sua Casa dos Sonhos, depois que todos se reuniram. — Ele nos mostrou três possíveis entradas, duas viáveis: uma pela floresta, outra pela tecelagem. Disse que a melhor forma seria se disfarçando.

O feiticeiro explicou sobre os trabalhadores da tecelagem, cerca de quarenta, e que eles encerravam o expediente ao cair da noite. Também forneceu detalhes adicionais apresentados por Larial, enfatizando que a entrada pela floresta poderia trazer riscos inesperados caso encontrassem inimigos ou chamassem atenção.

— Mas, se não forem muito fortes, a gente dá conta — afirmou Olgaria.

— O problema é o barulho. Aqueles elfos sombrios não devem entrar pela porta da frente. Devem usar algum acesso alternativo.

— A não ser que também entrem disfarçados — completou a zumi.

Tendo antecipado a visita ao armazém, o Guia acrescentou uma observação importante:

— Aquela área que eu mencionei, o jardim interno que leva ao escritório, não parece ser acessível a todos os trabalhadores. Imagino que a maioria opere apenas no armazém maior.

Enquanto a discussão avançava, Haftor permaneceu em silêncio. Estava incomodado com o grau de confiança depositado no trambiqueiro. Por fim, dirigiu-se diretamente a Demétrius:

— Você confia muito nesse seu amigo? Ele é confiável o suficiente para conseguir o que precisamos?

— Por quê? Você está pensando em… — perguntou Demétrius, fazendo um gesto de degola com o polegar.

— Qual a chance de ele vender a informação de que estamos investigando o armazém?

Demétrius não hesitou:

— Eu diria que é certo que ele falaria, se alguém oferecesse dinheiro suficiente.

— Estamos mesmo cogitando matá-lo? — perguntou Olgaria, surpresa.

— Não, claro que não. Ele é um amigo agora — respondeu Réctor. — Espero que ele não nos coloque em perigo, Demétrius.

— Não se preocupem. Ele não fará nada que não possamos prever.

O planejamento continuou. Réctor sugeriu que apenas ele e Demétrius realizassem a infiltração.

Preocupado, o Atravessador respondeu:

— Se formos poucos, corremos o risco de sermos cercados.

— Então é melhor você não ir. Já está com medo. Eu posso ir sozinho.

— Eu vou. Não se preocupe. Vamos nós dois — respondeu Demétrius, ofendido.

O grupo permaneceu indeciso. Consideraram agir imediatamente, mas decidiram estudar o local por mais um dia antes de qualquer ação.

O Guia deixou a Casa dos Sonhos e assumiu sua posição de vigília nas ruínas. Aproveitando a porta aberta, apresentou sua nova companheira ao grupo:

— Este é Petisco.

A coruja pousava calmamente em seu braço.

Subitamente, o rastreador percebeu algo errado. A ave estalava o bico repetidamente, utilizando um dos sinais que ele havia ensinado horas antes.

Havia perigo.

De um buraco em uma parede parcialmente destruída, surgiu um rato de olhos vermelhos, carregando um pergaminho na mandíbula. Ao perceber que havia sido visto, o animal fugiu, deixando o manuscrito cair no chão.

— Ali! Viram o pergaminho?

Haftor recolheu o documento e imediatamente reconheceu o selo.

Minoliz.

A alcormi que comandava Vaela e seus asseclas no lago congelado. O anão leu o conteúdo em silêncio. Em seguida, compartilhou com os demais:

“Eu sei o que vocês fizeram com Margoth.

Aymon está perseguindo vocês.

Eu posso lhes oferecer o silêncio que precisam para sobreviver.

Cortesia de Minoliz.

Encontrem-me amanhã à noite, na Rua do Elemento Partido, penúltima casa antes do Jardim dos Prazeres.

Syllen’nae.”

Telas, dias 10 e 11 do mês da Sabedoria do ano de 1502.

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