O verdadeiro Hotspot
Encontro na estação corroída
Depois de atravessar os corredores corroídos da estação e derrotar as criaturas irradiadas que protegiam o caminho, a equipe finalmente alcançou a sala onde Gharig, agente da Aliança Solar, operava um antigo terminal de dados. Atrás dele permanecia Francis, atento e com uma bazuca apontada para os recém-chegados.
O reencontro, entretanto, esteve longe de ser amistoso. Em vez de cumprimentos, o grupo foi recebido por olhares desconfiados. A dúvida que consumia Gharig e Francis era simples, mas perigosa: o homem diante deles era realmente Hotspot ou apenas mais uma criação da Lança de Hierofante?
A suspeita tinha fundamento. Segundo Francis, o verdadeiro Hotspot havia desaparecido durante um acidente espacial nas proximidades do asteroide Bullet. Desde então, relatos indicavam que alguém idêntico a ele vinha atuando ao lado da Lança de Hierofante. Para os agentes da Aliança Solar, existia a possibilidade de o companheiro da Berenice ser apenas um clone criado para infiltrar-se entre seus inimigos.
Hotspot tentou desfazer a suspeita oferecendo diferentes formas de comprovar sua identidade. Sugeriu comparar sua assinatura manuscrita com documentos antigos, mas Francis recusou a ideia imediatamente.
— Isso não basta. A Lança pode copiar genética, biologia... mas nós não vamos confiar tão facilmente.
Enquanto o clima se tornava cada vez mais tenso, Hotspot tomou uma decisão impulsiva: retirou o capacete em pleno ambiente contaminado pela atmosfera corrosiva da estação.
O efeito foi imediato.
Em poucos segundos, o ar tóxico começou a destruir seus pulmões. O solariano caiu de joelhos antes de desabar completamente, inconsciente, enquanto seus companheiros corriam para recolocar seu capacete.
Mesmo após ser estabilizado, metade de sua vitalidade havia sido consumida apenas por alguns instantes de exposição.
Uma prova impossível
Quando Hotspot recuperou os sentidos, Gharig fez uma única exigência.
— Esperávamos que você pudesse nos contar sobre o encontro em K375.
Hotspot compreendeu imediatamente o problema. Qualquer informação que oferecesse poderia ter sido aprendida por um infiltrado. Nenhuma lembrança seria suficiente para convencer quem já esperava encontrar um impostor.
Foi então que Hothspoth resolveu apostar na única evidência impossível de ser falsificada.
Desde que recebera parte do Nexo, ele vinha desenvolvendo estranhas manifestações psíquicas ligadas às memórias de outras pessoas. Aproximou-se de Gharig e tentou tocar sua cabeça, desejando transmitir-lhe diretamente uma lembrança compartilhada pelos dois durante sua antiga convivência na Berenice.
O plano, porém, não saiu como esperado.
Antes que o contato fosse estabelecido, Gharig recuou por instinto.
Em vez de transmitir qualquer lembrança, Hothspoth foi invadido por outra visão.
Durante um breve instante, viu a si mesmo conversando com Irlanda na Riven Shroud, como se sua própria memória estivesse sendo sobreposta por outra camada de realidade. A sensação desapareceu tão rapidamente quanto surgiu, deixando apenas a certeza de que o Nexo escondia mecanismos muito além da compreensão do grupo.
Ainda assim, a tentativa pareceu suficiente para abalar as últimas dúvidas de Gharig.
Francis permaneceu desconfiado, mas o agente da Aliança Solar finalmente abaixou a guarda.
— Está bem. Acredito que seja você.
As informações da Aliança Solar
Com a tensão diminuída, a conversa finalmente tomou o rumo esperado.
Gharig revelou que a Aliança Solar conseguira confirmar diversas suspeitas surgidas nas últimas missões da tripulação da Berenice.
Informantes infiltrados dentro da Lança de Hierofante voltaram a estabelecer contato recentemente, indicando que a organização mantinha uma ligação muito mais profunda com a Frozen Trove do que se imaginava. Embora ainda não existissem provas definitivas capazes de demonstrar essa aliança publicamente, os indícios acumulados apontavam todos para a mesma direção.
Além disso, a Lança vinha expandindo suas operações militares de forma agressiva. Diversos sistemas da Vastidão estavam sendo ocupados, confrontos isolados já haviam ocorrido contra células do Império Aslanti e novas movimentações indicavam que outro relicário poderia ter sido localizado.
A notícia preocupou imediatamente a tripulação.
Se realmente existisse um novo fragmento do Santo, a corrida para encontrá-lo antes da Lança de Hierofante passava a ser ainda mais urgente.
Hothspoth então compartilhou outra descoberta recente: Cormick, o misterioso androide pesquisado por Tanaka, possuía conhecimento sobre K375 e sobre os receptáculos compatíveis com o relicário.
A revelação surpreendeu até mesmo Gharig.
Embora a Aliança já soubesse da existência de possíveis hospedeiros, aquela era a primeira confirmação concreta envolvendo Cormick.
Questionado sobre o verdadeiro poder dos braços do Santo, Gharig respondeu apenas aquilo que sua organização havia conseguido descobrir.
— Não sabemos exatamente o que cada braço faz isoladamente. Sabemos apenas que, reunidos, seriam capazes de abrir passagem entre universos.
A afirmação mergulhou o grupo em silêncio.
As habilidades que Hothspoth vinha manifestando deixavam de parecer simples anomalias. Talvez fossem apenas um reflexo incompleto de algo infinitamente maior.
Uma despedida apressada
A conversa foi interrompida abruptamente quando todos os comunicadores começaram a apresentar falhas.
Os indicadores de oxigênio passaram a despencar rapidamente.
Entre chiados, a voz da Berenice conseguiu atravessar a interferência.
— Capitão... estamos sofrendo algum tipo de ataque eletrônico. Estão drenando a capacidade respiratória dos trajes. Vocês precisam sair daí imediatamente.
Gharig compreendeu a gravidade da situação.
— Nossa proteção acabou antes do esperado. Não podemos permanecer juntos.
Ele indicou um túnel alternativo que conduzia ao exterior da instalação enquanto Francis desmontava calmamente sua bazuca antes de partir.
Ao cruzar a saída, lançou um último olhar para Hotspot.
— Tome cuidado. Ainda estamos atrás de você.
Sem tempo para novas perguntas, os dois agentes desapareceram pelos corredores metálicos, enquanto a tripulação da Berenice iniciava sua própria retirada pelos túneis desconhecidos da estação, sem imaginar que o verdadeiro perigo ainda estava por vir.
A retirada pelos túneis
Sem perder tempo, a tripulação deixou a sala onde se reunira com Gharig e Francis. Enquanto os agentes da Aliança Solar seguiam por uma rota distinta para preservar o sigilo da operação, a equipe da Berenice escolheu utilizar o túnel alternativo indicado por eles, evitando retornar pelo caminho onde haviam enfrentado as criaturas irradiadas.
O novo trajeto revelou-se pouco mais convidativo que o anterior. Um longo corredor metálico seguia quase em linha reta através da estrutura corroída da estação. Acima das cabeças dos exploradores, grossos dutos transportavam compostos químicos que vazavam continuamente pelas juntas enferrujadas, formando pequenas cascatas de líquido corrosivo. O ar permanecia pesado e impregnado por um forte odor metálico.
A cada bifurcação, era a Berenice quem orientava o grupo.
— Direita... agora esquerda... sigam em frente...
As instruções eram precisas, mas logo algo estranho começou a acontecer.
A voz da inteligência artificial passou a apresentar pequenos chiados. Por trás das orientações, todos conseguiam perceber uma segunda voz, quase imperceptível, como se duas transmissões diferentes ocupassem o mesmo canal ao mesmo tempo. As palavras eram incompreensíveis, dissolvendo-se em meio às interferências antes que pudessem formar qualquer frase inteligível.
Hotspot, entretanto, percebeu algo diferente.
Enquanto os demais ouviam apenas ruídos, uma sequência de mensagens surgiu diretamente em sua interface neural.
Sincronia concluída.
O atraso biológico foi compensado pela minha própria sub-rotina.
O receptáculo digital dois está agora em fase de ancoragem quântica.
Antes que pudesse compreender o significado daquelas informações, a mensagem desapareceu sozinha, como se jamais tivesse existido. Restou apenas a estranha sensação de que as palavras ocultas por trás da voz da Berenice eram exatamente aquelas que havia acabado de ler.
Hotspot optou por não interromper a marcha para comentar a ocorrência. Ainda não havia qualquer explicação plausível para o que acabara de testemunhar.
A ameaça invisível
Poucos minutos depois, uma nova transmissão invadiu simultaneamente todos os comunicadores da equipe.
Ao contrário das mensagens da Berenice, aquela era perfeitamente nítida.
— Vocês não sairão deste local vivos.
O silêncio que se seguiu foi imediato.
Edric tentou localizar a origem do sinal utilizando os sistemas de comunicação da armadura. Após uma rápida análise, concluiu que a transmissão vinha da órbita do planeta. A fonte, entretanto, deslocava-se continuamente, impossibilitando uma localização precisa.
Antes que pudesse aprofundar a investigação, outra informação preocupante surgiu nos visores da equipe.
O oxigênio dos trajes continuava diminuindo em ritmo acelerado.
A Berenice voltou a falar.
— Capitão, estamos a aproximadamente quatrocentos metros da saída.
A ordem foi imediata.
— Corram!
Os cinco dispararam pelos corredores enferrujados enquanto a reserva de oxigênio diminuía segundo após segundo.
O campo minado
Hothspoth assumia a dianteira quando tudo aconteceu.
No instante em que apoiou o pé sobre uma pequena placa metálica quase invisível entre a ferrugem do piso, percebeu tarde demais do que se tratava.
Era uma mina.
Por puro reflexo, interrompeu completamente o movimento antes que retirasse o peso da perna.
Permaneceu imóvel.
— Capitão... eu pisei numa bomba.
Ninguém respondeu imediatamente.
A simples tentativa de socorrê-lo poderia detonar outras armadilhas escondidas ao redor.
Os poucos segundos gastos analisando a situação permitiram que todos compreendessem a verdade.
Aquele corredor inteiro havia sido preparado como uma emboscada.
Enquanto avaliavam a melhor forma de retirar Hothspoth dali, um grito ecoou pelos túneis.
— Ataquem!
Outra voz completou a ordem.
— Atrasem-nos até morrerem sufocados!
No mesmo instante, uma granada foi lançada contra o grupo.
A retirada silenciosa transformava-se, mais uma vez, em combate.
Sob fogo cruzado
Os inimigos aproveitaram as plataformas elevadas do túnel para iniciar o ataque. Protegidos por estruturas metálicas e pelo próprio campo minado, abriram fogo enquanto Ed ainda permanecia preso sobre o explosivo.
Rick foi o primeiro a reagir. Ergueu sua arma e respondeu imediatamente aos disparos, obrigando um dos adversários a buscar cobertura.
Cassius concentrou seu fogo de supressão sobre a posição inimiga, espalhando uma intensa chuva de disparos que limitou os movimentos dos atacantes e obrigou parte deles a permanecer protegida atrás das plataformas.
Enquanto isso, Ed concentrou toda a atenção na bomba sob seus pés. Com extremo cuidado, ajoelhou-se lentamente e começou a desmontar o mecanismo de disparo.
Por alguns instantes, qualquer erro significaria a morte de toda a equipe.
Finalmente, conseguiu desativar o dispositivo.
A mina desprendeu-se do piso e caiu silenciosamente no fundo do corredor sem explodir.
Mal teve tempo de respirar.
Ergueu a arma e respondeu ao fogo inimigo, atingindo um dos atacantes e reduzindo significativamente sua capacidade de reação.
Ao redor deles, porém, a situação continuava se deteriorando.
O oxigênio diminuía.
Os corredores estreitos limitavam qualquer possibilidade de manobra.
E, escondidos entre fumaça, ferrugem e estruturas corroídas, os soldados da Lança de Hierofante demonstravam estar perfeitamente preparados para prolongar aquele combate até que o próprio ambiente terminasse o serviço.
A luta pela sobrevivência
Enquanto os disparos cruzavam o corredor, Hotspot concentrou-se menos em atacar e mais em manter seus companheiros de pé. Utilizando as propriedades incomuns do braço do Santo, passou a manipular a percepção da realidade, fortalecendo psicologicamente seus aliados e concedendo-lhes energia para resistirem ao combate. Embora o efeito parecesse improvável até para ele, a estranha influência do relicário continuava produzindo resultados concretos.
Os soldados da Lança de Hierofante, porém, mostravam-se muito mais perigosos do que simples mercenários.
Alguns desapareciam em pequenas distorções gravitacionais, reaparecendo em posições completamente diferentes poucos instantes depois. Outros manipulavam energia diretamente com as mãos, enquanto mantinham a pressão constante sobre o grupo.
Flynn decidiu encerrar rapidamente aquele impasse.
Canalizou uma poderosa descarga de plasma em linha reta contra os inimigos. O ataque atravessou o corredor como uma lança de fogo, mas encontrou algo inesperado pelo caminho.
As minas remanescentes.
A explosão em cadeia percorreu todo o túnel.
O fogo atingiu os adversários, mas também envolveu os próprios companheiros, obrigando todos a suportarem o impacto enquanto estilhaços metálicos e ondas de calor preenchiam o ambiente.
Apesar do risco, o ataque alterou completamente a dinâmica do confronto. As explosões destruíram parte das armadilhas preparadas pelos emboscadores e abriram espaço para que o grupo voltasse a avançar.
Mesmo assim, os inimigos continuavam firmes.
As ordens da Lança
À medida que o combate prosseguia, os soldados deixavam escapar fragmentos das ordens que haviam recebido.
— Tragam dois vivos!
A frase foi suficiente para que a tripulação compreendesse que aquele não era um simples ataque de extermínio.
Alguém desejava capturar membros específicos da equipe.
Embora os atacantes jamais mencionassem nomes, a conclusão parecia inevitável. Tanto Hotspot quanto Ed, diretamente ligados aos fragmentos do Santo, tornavam-se os candidatos mais prováveis.
A descoberta apenas reforçou a urgência em romper o cerco antes que chegassem reforços.
O peso do relicário
Durante um breve momento da batalha, Ed voltou a concentrar sua atenção no braço do Santo.
Observando que todos os soldados utilizavam capacetes completamente vedados, tentou forçar a realidade a assumir uma versão em que eles simplesmente não estivessem protegidos.
A ideia parecia simples.
Na prática, revelou-se muito além do que conseguia controlar.
O relicário respondeu apenas com uma dor intensa, irradiando pelo braço enquanto sua mente parecia resistir ao próprio esforço de alterar o tecido da realidade. A tentativa fracassou antes mesmo de produzir qualquer efeito perceptível.
Ao perceber o estado do companheiro, Hotspot aproximou-se rapidamente.
— Me ajuda a mudar a realidade... Eles vão matar o capitão.
Mesmo compartilhando parte daquela estranha ligação com o relicário, Hotspot nada pôde fazer além de permanecer ao lado do amigo enquanto a batalha continuava ao redor.
Uma negociação improvável
Foi então que aconteceu o momento mais improvável de toda a operação.
Enquanto tiros e explosões ecoavam pelos corredores, Hotspot simplesmente resolveu conversar com um dos soldados inimigos.
Retirando do bolso um pequeno espelho de bolso, dirigiu-se ao adversário com a maior naturalidade possível.
— Se eu entregar isso para vocês... deixam a gente ir embora?
O pedido foi tão inesperado que o soldado hesitou.
Por alguns instantes, a convicção transmitida por Hotspot pareceu superar o próprio treinamento militar do homem.
Confuso, o atacante estendeu a mão para receber o objeto.
Hotspot entregou-lhe um espelho. Em seguida, retirou outro e ofereceu ao segundo combatente.
Os dois permaneceram observando os pequenos objetos brilhantes sem compreender exatamente o que haviam acabado de receber.
A distração custou preciosos segundos aos emboscadores.
Tempo suficiente para que a equipe reorganizasse suas posições e retomasse a iniciativa do combate.
Uma fuga ainda incompleta
A batalha, entretanto, estava longe de terminar.
O oxigênio continuava diminuindo a cada instante, obrigando todos a economizar movimentos e acelerar as decisões. Cada disparo precisava valer a pena. Cada segundo desperdiçado aproximava a equipe da asfixia.
Mesmo sob intensa pressão, Cassius manteve o fogo de cobertura enquanto Rick e Ed buscavam eliminar os adversários mais perigosos. Flynn avançava continuamente, utilizando seus poderes para romper as defesas inimigas, enquanto Hotspot alternava entre sustentar seus companheiros e procurar oportunidades para explorar as propriedades cada vez mais imprevisíveis do braço do Santo.
Ao final daqueles primeiros minutos de confronto, uma conclusão tornava-se evidente para todos.
A Lança de Hierofante já conhecia sua presença.
Sabia exatamente por onde haviam passado.
E, acima de tudo, demonstrava conhecer muito mais sobre os fragmentos do Santo do que a própria tripulação imaginava.
Enquanto os disparos continuavam ecoando pelos túneis metálicos da estação, restava apenas uma certeza.
Escapar dali seria apenas o primeiro desafio. A verdadeira guerra entre a tripulação da Berenice e a Lança de Hierofante havia finalmente começado.

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