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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

(VS) Sessão 18

Sessão 18 — Os Karuum

A descida em K375

Os tripulantes da Berenice apertaram seus cintos e se prepararam para rasgar a atmosfera do planeta em declínio, K375-Prime. Ed assumiu o comando na cadeira do piloto, isolado em sua concentração, enquanto Rykk se posicionava para coordenar as ordens da cadeira do capitão. Flynn, Hothspoth e Kassius mantinham-se a postos, prontos para qualquer eventualidade.

O choque inicial contra a atmosfera foi o prelúdio do caos. A Berenice mergulhou em uma densa nuvem gasosa, colidindo fisicamente contra a massa densa. Não fosse a habilidade excepcional de Ed, que ajustou propulsores, sensores gravitacionais e a inclinação da nave com uma velocidade imperceptível até para o capitão, a turbulência da entrada teria sido catastrófica.

Ainda assim, sob a proteção do controle preciso de Ed, a hostilidade do planeta era inevitável. O braço direito do piloto ardia e pesava, como se a própria atmosfera estranha ressoasse dentro de seus ossos, mas ele manteve a descida controlada. Nenhum tripulante ousou deixar seu assento; o silêncio tenso confirmava que todos compreendiam a gravidade da situação.

— Eu preciso de um médico para meu braço — pediu Ed, com a voz tensa.

— Não é um bom momento — respondeu Astra, segurando-se firme enquanto a nave sacudia violentamente na termosfera.

Assim que mergulharam na troposfera, os escudos passaram a ser bombardeados por cargas elétricas intensas. Os raios eram aparados pelas defesas da Berenice, mas Flynn precisou acionar as proteções manualmente para garantir a integridade dos propulsores, desviando energia que, idealmente, estaria disponível para as manobras do piloto.

Quando os sensores captaram bolsões de radiação na rota, foi a vez de Hothspoth agir. O solariano uniu sua intuição e conhecimento aos sensores apurados da nave para mapear os campos radioativos, traçando um corredor seguro para Ed.

Por fim, coube a Rykk determinar o destino. A IA da nave alertara que a atmosfera caótica gerava ruído excessivo nos sensores, comprometendo a precisão dos radares. A localização do sinal relicário tinha uma margem de erro de dois quilômetros. O triaxiano analisou o terreno, dominado por cânions profundos, e identificou o ponto mais plano possível dentro daquela faixa, visando minimizar o tempo de exposição em solo.

Com as coordenadas fixadas, Ed colocou a Berenice no chão. Com sua habitual competência, ele costurou o céu desviando de nuvens radioativas sob bombardeio elétrico, domou a nave contra a esmagadora gravidade de 4G de K375-Prime e pousou em uma planície irregular, o mais próximo possível dos cânions onde o sinal pulsava. O grupo, enfim, tocava o solo.

A caminhada até o cânion

O relevo irregular cobrou seu preço: a rampa de desembarque ficou suspensa a quase sete metros do chão, pois os trens de pouso precisaram buscar apoio em níveis diferentes. Uma altura proibitiva para um salto sob gravidade 4G.

Rykk cogitou usar suas asas, mas a desconfiança em sustentar seu peso excessivo naquela atmosfera o fez desistir. Hothspoth, igualmente, duvidava que sua mochila a jato tivesse potência para vencer a gravidade esmagadora. A solução veio do equipamento de Flynn. O grupo trançou uma corda reforçada do conjunto de escalada e iniciou a descida, um a um. Ed, o penúltimo, cedeu ao cansaço e à gravidade, caindo pesadamente nos metros finais. Apesar do impacto, ergueu-se com ferimentos leves, juntando-se à marcha assim que Flynn tocou o solo.

A paisagem de K375-Prime era a imagem da desolação: um deserto amarelo onde nuvens gasosas lambiam a superfície e fumarolas pontuavam o horizonte. Pequenos cristais e uma vegetação rasteira, fluorescentes pela radiação, eram os únicos pontos de cor. A visibilidade não passava de 400 metros, e a nitidez se perdia muito antes disso.

A caminhada rumo ao sinal relicário começou. Berenice tentou acompanhá-los pelos comunicadores, mas a interferência radioativa cortava o sinal a meros dez metros de distância. O grupo precisou manter-se coeso. Os passos eram lentos, cada movimento um esforço hercúleo. Uma hora de marcha naquele deserto, sob um vento que parecia sólido de tão pesado, exauriu o grupo como se tivessem percorrido quilômetros.

A planície cedeu lugar a uma longa descida rumo a uma fenda estreita no cânion. Durante o trajeto, Hothspoth vislumbrou uma silhueta bípede correndo pelo deserto, desaparecendo logo em seguida em um redemoinho radioativo. Rykk também testemunhou o vulto, mas o grupo manteve o foco. Liderados por Flynn — cuja orientação tornou-se vital após o sinal do radar morrer entre os paredões —, eles adentraram o desfiladeiro.

O percurso pelo corredor de pedra foi uma aventura à parte: encostas estreitas, saltos que exigiam esforço máximo para cobrir um simples metro e subidas íngremes. O desgaste físico no cânion radioativo deixou Hothspoth visivelmente enfraquecido.

Os Karuum

A trilha desembocou em uma abertura circular, uma clareira natural que parecia ter sido moldada pelo impacto de um meteoro ou objeto similar. No centro, parcialmente encravada no solo, erguia-se uma coluna escura envolta em pedra semitransparente. Ao redor dela, dezenas de rochas negras como obsidiana formavam um círculo. O caminho pelo qual chegaram parecia intencionalmente livre, criando um corredor de acesso direto àquele santuário a céu aberto.

Flynn varreu o perímetro com o olhar, temendo emboscadas. Rykk, mais audacioso, avançou em direção à coluna. Ed, sentindo seu braço reagir violentamente à presença do objeto, seguiu o capitão, acompanhado por Hothspoth e Kassius.

Ao se aproximar da coluna, Hothspoth foi tomado por uma visão: viu a si mesmo — ou uma versão alternativa idêntica, vestindo uma capa rígida — ajoelhado em adoração diante do objeto. Quando a visão cessou, o solariano, inconscientemente ou não, imitou sua cópia e ajoelhou-se.

Nesse momento, uma das rochas de obsidiana se moveu. Ergueu-se sobre seis patas, revelando dois grandes olhos azuis opacos. Era uma criatura baixa, com cauda de escorpião bipartida na ponta, capaz de manipular objetos. Feita de pura rocha, possuía uma mandíbula forte repleta de dentes. Ela emitiu sons na direção de Rykk, que inicialmente nada compreendeu.

— Se mantiver a conversa por mais alguns instantes, serei capaz de decodificar a linguagem — informou a voz de Berenice no comunicador, incentivando o contato. — Estes são os Karuum, criaturas nativas. Não existem informações detalhadas no catálogo.

Enquanto Kassius assumia postura de guarda, com arma em punho diante do que claramente era um local de idolatria, Ed cedeu ao chamado da coluna escura. O operativo tocou o objeto. Imediatamente, sua mente foi projetada para o vácuo do espaço sideral. Ele caminhava sobre o nada como se fosse chão sólido, suas mãos moldando uma magia ou encantamento complexo. A visão foi súbita e breve.

— 100% decodificada — anunciou Berenice, ativando a tradução simultânea.

— Diga para seu companheiro sair de perto da Âncora. O que está de joelhos pode permanecer — ordenou a criatura, sua voz agora traduzida nos capacetes do grupo.

Kassius afastou-se, respeitando a exigência do nativo. O cenário era surreal: Rykk dialogando com o Karuum; Kassius e Flynn na retaguarda; Hothspoth ajoelhado diante da "Âncora" e Ed logo atrás dele.

Hothspoth ergueu-se trêmulo, abalado pela visão das cópias. Ed amparou o companheiro e, aproveitando a proximidade, tocou a Âncora uma segunda vez. Novamente, mergulhou em uma memória alheia. Viu-se no espaço, mas agora percebia que a coluna cultuada pelos Karuum era, na verdade, uma de suas pernas — um fragmento do Santo. Seu corpo parou diante de uma fenda na realidade, um buraco no vazio. Com energia colossal, suas mãos costuraram a abertura dimensional, selando-a.

Enquanto Ed recuperava o fôlego, o Karuum explicava a Rykk:

— A Âncora nos protege da radiação dos sóis.

A criatura narrou que aquela peça caíra do céu há "gerações" — milhares de anos, segundo a estimativa da IA — e desde então protegia o planeta. Contudo, os nativos não compreendiam a natureza da radiação sepulcral, nem que K375-Prime seria engolido pelas estrelas em poucos séculos. Rykk iniciou um esforço diplomático para convencê-los do perigo iminente e da necessidade de partir.

Após uma longa argumentação, chegaram a um termo.

— Gravolth e Thulknar irão com vocês para compreenderem o que dizem — sentenciou o Karuum.

Os aventureiros, aturdidos pelas revelações e pelo ambiente opressivo, prepararam-se para o retorno. A segurança da Berenice seria o único lugar onde poderiam organizar aquelas ideias fragmentadas.

K375-Prime, a Vastidão — Sábado e Domingo, 24 e 25 de Desnus de 325 DL.