O combate contra os skreesires mostrou-se desafiador. Flynn estava estável
graças à perícia improvisada de Ed, mas Hothspoth e Kassius também haviam
sofrido ferimentos.
— Vamos esperar um pouco e nos recuperar — disse Flynn, ainda com cortes
abertos pelo corpo.
O horário ainda permitia que continuassem. O ponto de encontro ficava a apenas
algumas horas de caminhada, mas concluíram que seria mais prudente aguardar e
recuperar parte das energias, caso encontrassem novos inimigos pelo caminho.
O percurso pela floresta densa não demorou a melhorar. Logo encontraram uma
trilha que facilitou o trajeto.
Enquanto avançavam, um novo caça da Lança de Hierofante sobrevoou a floresta.
Desta vez voava mais alto, mas ainda assim o estrondo supersônico reverberou
sobre a superfície, sacudindo copas e folhas.
Depois de cruzarem um rio, continuaram até uma ponte de madeira. Rykk passou
voando sobre ela, seguido de perto por Flynn. Do outro lado, um monstro
emergiu da vegetação e atacou imediatamente.
O grupo não teve tempo para hesitar. Posicionaram-se e abriram fogo contra os
inimigos.
Os ksariks eram criaturas psíquicas. O braço de Ed ressoava em sintonia
dolorosa com a mente delas, mas isso não o impediu de agir. O operativo
permaneceu do lado oposto da ponte, montando seu tripé para disparar com
precisão. Enquanto isso, Flynn, Kassius e Hothspoth assumiram a linha de
frente.
Flynn e Hothspoth canalizavam seus poderes solarianos para atingir as
criaturas, que se embrenhavam na mata e atacavam a partir de posições ocultas.
Kassius iniciou o confronto com seu fuzil, mas logo partiu para o combate
direto com sua eficiente criolança.
— Suba nas minhas costas! — gritou Rykk para Ed.
O draconiano transportou o operativo para outra posição estratégica no campo
de batalha. De lá, seus disparos contribuíram decisivamente para a derrota dos
monstros, que murchavam como plantas envelhecidas ao morrer.
Garig não está sozinho
Após a queda do último inimigo, os aventureiros fizeram nova parada. A
floresta mostrava-se traiçoeira, e a preocupação com os recursos tornava-se
cada vez mais presente.
O ponto de encontro estava a pouco mais de uma hora de caminhada. Optaram por
não aguardar demais. Dez minutos de descanso bastaram antes de retomarem a
marcha.
O destino era uma construção no vale, às margens do rio. Um moinho erguia-se
ao lado da água, com uma jangada ancorada próxima. Duas motos estavam
estacionadas diante da estrutura. A estrada principal terminava ali, assim
como a trilha utilizada pelo grupo.
Com cautela, aproximaram-se do local. Flynn seguiu na dianteira.
A porta estava entreaberta.
O solariano segurou a maçaneta e a empurrou lentamente, atento ao que
encontraria do outro lado.
Garig estava lá.
Ao seu lado, um humano vestindo uma armadura robusta e portando uma arma
pesada.
Castrovel, Mundos do Pacto, quinta-feira, 4 de Serenith do ano 325 DL.
Repentinamente, o Guia se viu cercado pelas paredes em ruínas da antiga
construção de Telas. Seu sortilégio se desfez assim que as sombras ocuparam
todo o ambiente.
A visão não lhe oferecia muitas pistas, mas seu faro não falhava: ele havia
encontrado uma elfa sombria naquele armazém. Mais do que isso, ela fora capaz
de detectar seu encantamento e sabia como quebrá-lo.
A porta da Casa dos Sonhos estava aberta. O Guia despertou os outros, com
pressa:
— Eles estão lá agora! Vamos! Temos que falar com os outros! — alardeava,
dirigindo-se a Réctor.
— Mas não seria melhor se eles não tivessem percebido? — ponderava o napol. —
Precisamos pegar documentos.
— Tem uma elfa sombria lá. Ela tem uma lista. Ela entregou para uma mulher que
deve ser ajudante desse tal cara aí. Talvez essa lista seja o que vocês
querem.
— Pode ser alguma coisa relacionada a algum carregamento.
— Mas vamos entrar lá derrubando tudo? — preocupou-se Olgaria.
— É muito bem guardado. Eu vi pelo menos umas dez pessoas ao redor da casa,
mas pode haver mais — contou o Guia, explicando ao grupo sobre as defesas que
poderiam encontrar. — E tem mais uma coisa: eu não sei se eles têm domínio
sobre as sombras, mas conhecem a “Arte das Sombras”, porque ela percebeu que
eu estava lá e cortou o foco de luz.
— Os elfos sombrios têm dessas. Eu sempre suponho que eles sabem tudo o que
está acontecendo — ponderou Demétrius. — É bem provável que estejam atentos.
Tendo em vista os obstáculos apresentados, os aventureiros resolveram realizar
a missão em outra oportunidade, com melhor planejamento. Descansaram a noite
na Casa dos Sonhos e retomaram a discussão no dia seguinte.
— Eu conheço uma pessoa que pode ter informações de como entrar naquele lugar…
— disse Demétrius. O ladino falava de um meio-elfo residente de Telas
conhecido como Larial ‘Sete Rotas’.
— Larial conhece toda a cidade. Se houver uma forma de entrar, ele saberá. Mas
ele cobra em ouro.
Larial ‘Sete Rotas’
O grupo se dividiu em três frentes:
Demétrius e Réctor iriam ao Alambique de Vidro, a taverna onde Larial
passava suas noites, para abordá-lo.
O Guia e Haldor infiltraram-se na taverna como clientes, com o objetivo de
observar os acontecimentos.
Haftor, Garuk e Olgaria permaneceriam do lado de fora, à postos para
qualquer contramedida necessária.
O Alambique de Vidro era uma estalagem simples, com odor forte de bebida desde
a porta de entrada, mas com público muito variado, desde aldeões comuns até
magos e aventureiros em busca de discrição.
Larial estava acomodado com três mulheres e um homem em uma das mesas mais
abastecidas de bebidas. Demétrius se aproximou e sentou-se na mesa ao lado,
onde alguns clientes já ocupavam a maioria dos lugares. Réctor, percebendo o
desconforto daqueles que já estavam ali, puxou conversa e ganhou tempo. O
napol ofereceu algumas de suas folhas de Láudis e vendeu um punhado de
sementes para um aprendiz do Colégio Naturalista.
Não demorou muito para que Demétrius encontrasse o momento certo para abordar
seu antigo conhecido. Os dois trocaram algumas palavras discretas, e logo
Réctor foi apresentado. O trio deixou a taverna com os braços de Larial
apoiados sobre seus ombros.
O Guia e Haldor, que haviam encontrado uma mesa discreta no canto da taverna,
continuaram observando seus companheiros. O anão se levantou e tentou obter
algumas informações das pessoas que dividiam a mesa com Larial, mas elas
sabiam pouco. O Guia, por sua vez, observou pela janela o trio deixar a
taverna e, pouco depois, também saiu dali.
Larial não pareceu muito à vontade ao notar o paladino de Crizagom por perto.
Mesmo tentando ser discreto, o símbolo da justiça parecia uma visão que o
incomodava profundamente.
— Hoje parece que as coisas estão meio estranhas. Até um paladino está
rondando a taverna. É melhor irmos para o meu escritório. Não traz sorte a
esta hora, mas pelo menos não traz prisão — disse Larial, enquanto guiava os
aventureiros pelas ruelas de Telas até um sobrado em um beco sem saída.
O escritório era um cômodo amplo, com poucas janelas. Livros, pergaminhos e
ferramentas espalhavam-se sobre bancos e estantes junto às paredes, mas uma
mesa redonda central se destacava. Era organizada, com livros, papéis, tinta e
penas. Larial garantiu a segurança do local:
— Não se preocupem, este lugar é protegido. Nenhum som entra, nenhum som sai.
— Hum, muito bom — elogiou Réctor, observando. — Eu também consigo fazer algo
parecido.
— Cheio de segredos, o seu amigo, Demétrius! — comentou Larial, surpreso. —
Podia trabalhar para nós, o que acha?
— Eu sou um espírito livre. Não posso ficar com vocês.
— Tenho certeza de que esse espírito livre tem seu preço, não?
— A riqueza é diferente para mim do que talvez seja para vocês… pelo menos do
que é para Demétrius — justificou-se Réctor.
Percebendo que não convenceria o napol, embora não tenha fechado a porta para
futuros negócios, Larial foi direto ao ponto. Consultando seus registros,
mencionou que o prédio pertencera a “Lésia Silver” e que se tratava de uma
construção recente, com não mais que trinta anos e, portanto, com poucas
entradas.
— Tenho certeza de que alguém com suas habilidades conhece um caminho?
— Conheço. Mas é difícil, e dificuldade é caro.
— Mas seu “caro” é em ouro, ou…?
— O que eu faria com outra coisa? Ouro, é claro.
— Tenho coisas que podem ajudar você de várias formas — negociou Réctor,
prevendo um custo elevado. — Sou versado em algumas magias, e muitas delas
envolvem poções — revelou, abrindo o manto e mostrando os frascos.
— Os magos daqui têm muitas coisas assim também. Não parece ser tão raro…
Vamos ver quanto isso vai lhe custar primeiro.
O trambiqueiro analisou as plantas, verificou as possíveis rotas e a
dificuldade de reprodução. Após alguns minutos, concluiu:
— Faço uma cópia para vocês. Mas, como é um prédio novo e difícil de entrar e
sair, o preço é 10 moedas de ouro.
— Nossa, tudo isso? — exclamou Demétrius.
— Acredito que seja justo — disse Réctor, pagando as moedas.
O meio-elfo fez a cópia diante deles e explicou que existiam três acessos
alternativos para o prédio de Volrath:
Chaminé/telhado, a opção mais óbvia e mais vigiada;
A tecelagem vizinha, através de uma entrada secreta que se conecta ao
armazém externo por um túnel subterrâneo. A tecelagem é frequentada por
cerca de 40 trabalhadores diariamente;
O túnel pela floresta, uma passagem secreta antiga que percorre pelo menos
duzentos metros entre a mata e o armazém interno. Este acesso, porém, é o
mais perigoso.
— O túnel que vai à floresta é o mais perigoso. Estamos em Telas, e dizem que
algumas criaturas foram colocadas lá para proteger a passagem e nunca foram
removidas. A menos que tenham sido.
— Se você fosse entrar lá, por onde iria? — perguntou Réctor.
— Pela porta da frente, usando um convite. Não usando essas passagens. Mas, se
querem acessar os armazéns externos, entrem pela tecelagem. Ali ninguém vai
desconfiar, desde que consigam se disfarçar.
Réctor e Demétrius retornaram caminhando para o refúgio na mansão em ruínas,
seguidos de longe pelo Guia e por Haldor.
Como de costume, o Guia não pernoitou na Casa dos Sonhos de Réctor. Sua noite
ainda não havia terminado. Na floresta, o rastreador armou uma armadilha para
capturar uma coruja e a deixou preparada até a tarde seguinte.
Um dia de preparativos
Na manhã seguinte, enquanto Haldor vigiava a tecelagem e estudava o
comportamento dos trabalhadores, Haftor e o Guia decidiram investigar a origem
do artefato anão adquirido anteriormente. Eles se dirigiram a um pequeno
santuário de Selimon, onde o sacerdote Távio regava as plantas quando os viu
chegar.
— Vieram fazer suas oferendas a Selimon? —
— Lembra-se de mim? — apresentou-se Haftor, com um gesto cordial. — Nós
negociamos há algum tempo.
— Ah, sim, você é o sacerdote de Crizagom que procurava aquele objeto
estranho.
— Trouxe um amigo, e queremos mais informações sobre o antigo proprietário dos
itens que você adquiriu.
— Ah, eu apenas comprei aquilo. Era de uma comerciante itinerante. O nome dela
era Elira, se não me engano.
— Ela ofereceu mais alguma coisa? — questionou o Guia, com sua habitual
rispidez.
— Tinha muitas coisas para vender. Ofereceu uma tiara dourada, com algumas
gemas. Também tinha armas, mas não me interesso por elas.
— E você sabe como podemos encontrar essa Elira? — perguntou Haftor.
— Ela disse que estaria em viagem por mais uns dois anos. Daqui, partiu para o
noroeste, dizendo que atravessaria as montanhas acima das terras dos anões.
Haftor alertou o sacerdote sobre a possível procedência ilícita dos objetos
que ele havia adquirido. Távio demonstrou surpresa e constrangimento,
desculpando-se sinceramente.
O anão ofereceu seis moedas de prata a Selimon e deixou o santuário
acompanhado do Guia. Durante a tarde, os dois se separaram. O paladino seguiu
para o Colégio do Conhecimento com seu irmão, Haldor, enquanto o rastreador
retornou à floresta para verificar sua armadilha.
— Creio que vocês já terminaram o serviço que tinham aqui — disse Asdrúbal com
desdém, impedindo os anões de entrar.
— Não, ainda não. Temos assuntos pendentes. Você prefere ser advertido aqui ou
prefere que eu chame sua superior?
A discussão durou alguns minutos, mas foi suficiente para convencer o arauto a
permitir a entrada. Ele percebeu que não conseguiria impedi-los e não
insistiu.
Dentro da biblioteca, Tessa realizava suas pesquisas. A aprendiz auxiliou os
irmãos a encontrar uma cópia do Testamento da Ordem, um tomo enorme,
manuscrito e extremamente antigo.
A leitura mostrou-se extremamente difícil. A caligrafia era irregular e o
pergaminho estava muito deteriorado. Haftor estimou que o manuscrito tivesse
quase dois mil anos.
Apesar das dificuldades, algumas informações relevantes foram extraídas.
O autor do Testamento da Ordem era Altherion de Corvear, um arqui-feiticeiro
do Segundo Ciclo que havia fundado uma ordem mística. No entanto, o nome dessa
ordem havia sido raspado ou apagado deliberadamente em todas as ocorrências no
manuscrito.
Sabendo que permaneceriam em Telas por mais alguns dias, Haftor separou o tomo
para estudá-lo com mais profundidade posteriormente. A tarde já avançava
quando ele retornou ao refúgio.
Enquanto isso, a armadilha do Guia havia funcionado. Uma coruja piava
assustada quando ele se aproximou. O sekbete espantou um predador próximo e
lançou um encantamento sobre a ave, estabelecendo um elo espiritual entre
ambos.
A nova ligação permitiu que ele começasse a ensinar truques à criatura — algo
impossível sem aquela conexão mística.
Caça ou caçador
— O amigo do Demétrius me pareceu um cara bacana… igual ao Demétrius… —
insinuava Réctor com sarcasmo, já na segurança de sua Casa dos Sonhos, depois
que todos se reuniram. — Ele nos mostrou três possíveis entradas, duas
viáveis: uma pela floresta, outra pela tecelagem. Disse que a melhor forma
seria se disfarçando.
O feiticeiro explicou sobre os trabalhadores da tecelagem, cerca de quarenta,
e que eles encerravam o expediente ao cair da noite. Também forneceu detalhes
adicionais apresentados por Larial, enfatizando que a entrada pela floresta
poderia trazer riscos inesperados caso encontrassem inimigos ou chamassem
atenção.
— Mas, se não forem muito fortes, a gente dá conta — afirmou Olgaria.
— O problema é o barulho. Aqueles elfos sombrios não devem entrar pela porta
da frente. Devem usar algum acesso alternativo.
— A não ser que também entrem disfarçados — completou a zumi.
Tendo antecipado a visita ao armazém, o Guia acrescentou uma observação
importante:
— Aquela área que eu mencionei, o jardim interno que leva ao escritório, não
parece ser acessível a todos os trabalhadores. Imagino que a maioria opere
apenas no armazém maior.
Enquanto a discussão avançava, Haftor permaneceu em silêncio. Estava
incomodado com o grau de confiança depositado no trambiqueiro. Por fim,
dirigiu-se diretamente a Demétrius:
— Você confia muito nesse seu amigo? Ele é confiável o suficiente para
conseguir o que precisamos?
— Por quê? Você está pensando em… — perguntou Demétrius, fazendo um gesto de
degola com o polegar.
— Qual a chance de ele vender a informação de que estamos investigando o
armazém?
Demétrius não hesitou:
— Eu diria que é certo que ele falaria, se alguém oferecesse dinheiro
suficiente.
— Estamos mesmo cogitando matá-lo? — perguntou Olgaria, surpresa.
— Não, claro que não. Ele é um amigo agora — respondeu Réctor. — Espero que
ele não nos coloque em perigo, Demétrius.
— Não se preocupem. Ele não fará nada que não possamos prever.
O planejamento continuou. Réctor sugeriu que apenas ele e Demétrius
realizassem a infiltração.
Preocupado, o Atravessador respondeu:
— Se formos poucos, corremos o risco de sermos cercados.
— Então é melhor você não ir. Já está com medo. Eu posso ir sozinho.
— Eu vou. Não se preocupe. Vamos nós dois — respondeu Demétrius, ofendido.
O grupo permaneceu indeciso. Consideraram agir imediatamente, mas decidiram
estudar o local por mais um dia antes de qualquer ação.
O Guia deixou a Casa dos Sonhos e assumiu sua posição de vigília nas ruínas.
Aproveitando a porta aberta, apresentou sua nova companheira ao grupo:
— Este é Petisco.
A coruja pousava calmamente em seu braço.
Subitamente, o rastreador percebeu algo errado. A ave estalava o bico
repetidamente, utilizando um dos sinais que ele havia ensinado horas antes.
Havia perigo.
De um buraco em uma parede parcialmente destruída, surgiu um rato de olhos
vermelhos, carregando um pergaminho na mandíbula. Ao perceber que havia sido
visto, o animal fugiu, deixando o manuscrito cair no chão.
— Ali! Viram o pergaminho?
Haftor recolheu o documento e imediatamente reconheceu o selo.
Minoliz.
A alcormi que comandava Vaela e seus asseclas no lago congelado. O anão leu o
conteúdo em silêncio. Em seguida, compartilhou com os demais:
“Eu sei o que vocês fizeram com Margoth.
Aymon está perseguindo vocês.
Eu posso lhes oferecer o silêncio que precisam para sobreviver.
Cortesia de Minoliz.
Encontrem-me amanhã à noite, na Rua do Elemento Partido, penúltima casa antes
do Jardim dos Prazeres.
Syllen’nae.”
Telas, dias 10 e 11 do mês da Sabedoria do ano de 1502.
Edric conduziu a nave para uma aterrissagem em uma clareira às margens de uma vasta área florestal, uma região discreta e distante dos grandes centros urbanos do planeta.
— Todos os sistemas estão desligados. Vou ativar a camuflagem de sistemas. Isso impedirá que ondas de rádio e outras transmissões que vocês enviarem sejam detectadas — anunciou Berenice.
Após uma breve conferência entre a tripulação para decidir quem iria ao encontro de Garig, o capitão determinou que Pip ficaria responsável pela nave e pela vigilância de Allen e Vexia. Astra o acompanharia. Enquanto isso, Rykkgnaw, Edric, Hothspoth, Flynn e Kassius partiriam ao encontro do líder solariano.
A caminhada pela floresta densa e úmida tinha previsão de durar algumas horas. Apesar da existência de trilhas, sua manutenção era precária e a progressão era lenta. Os insetos eram uma perturbação constante, mitigada pelo uso de repelentes, conforme sugerido por Ed.
Assumindo a dianteira devido às suas habilidades de sobrevivência, Flynn encontrou marcas de veículos e pegadas humanoides em um trecho mais preservado da trilha. Logo em seguida, Hothspoth detectou movimentos na vegetação e teve a clara impressão de estar sendo observado.
O solariano tentou avançar discretamente para abordar os intrusos, mas perdeu o contato. Ed, no entanto, encontrou pegadas recentes de botinas de tamanho humano.
— São quatro indivíduos mais ou menos do mesmo tamanho, se deslocando em marcha leve naquela direção — apontou Flynn, após analisar o rastro.
Antes que pudessem prosseguir com a perseguição, um estrondo supersônico irrompeu do céu, levantando folhas e sacudindo as árvores. Uma nave da Lança de Hierofante sobrevoou a floresta em voo rasante.
— Ela não detectou a nave. Passou muito rápido — informou Berenice, para alívio do grupo. — Tenho imagens do caça.
Berenice reproduziu as imagens capturadas pelas câmeras da nave em solo. Era um veículo pequeno, provavelmente em patrulha, que passou a cerca de três quilômetros do local de aterrissagem.
Apesar da preocupação causada pela presença da Lança de Hierofante na região, o grupo optou por seguir a trilha e investigar os vigilantes, desviando-se parcialmente do caminho que levaria até Garig.
Os guerrilheiros elfos
A trilha conduziu o grupo até uma grande clareira na floresta. Imediatamente, o braço de Ed latejou com intensidade, como se estivesse na presença de outro relicário. Um som agudo ecoava periodicamente e, a cada pulsação, Ed sentia uma dor lancinante.
Um enorme tronco caído, com cerca de 2,5 metros de largura, bloqueava a visão direta da clareira. Para observar além dele, Rykk sobrevoou o obstáculo.
Do outro lado, encontrou quatro elfos armados, preparando um dispositivo no solo.
Eram guerrilheiros. Ao avistarem Rykk, abriram fogo imediatamente.
O confronto teve início. Hothspoth ultrapassou o tronco com sua mochila a jato, enquanto Flynn e Kassius escalaram o obstáculo para saltar do outro lado.
Os elfos abandonaram o dispositivo e buscaram cobertura, disparando contra Rykk e qualquer outro alvo que surgisse.
— Eles chegaram antes da hora — disse um dos guerrilheiros em élfico.
A frase foi traduzida por Berenice e transmitida ao grupo.
O dispositivo no chão era a fonte da dor de Ed. A cada pulsação, uma onda de sofrimento irradiava de seu braço.
Poucos segundos depois, dois monstros emergiram da floresta e entraram no combate. Os elfos passaram a atirar tanto no grupo quanto nas criaturas.
Com três facções envolvidas, o confronto tornou-se caótico. Flynn e Kassius avançaram para a linha de frente. Rykk concentrou-se em um dos guerrilheiros. Ed permaneceu próximo ao dispositivo, enquanto Hothspoth manteve distância, disparando seus raios solares.
Os monstros, skreesires, atraíram Rykk para mais perto. O draconiano havia agarrado um dos guerrilheiros e tentava erguê-lo no ar, mas foi obrigado a se reposicionar diante da ameaça maior. Ainda assim, conseguiu se desvencilhar graças à cobertura de Flynn e Kassius.
Com o braço imobilizado pela dor causada pelo dispositivo, Ed desistiu de usar seu rifle e avançou diretamente até o aparelho. Isso o tornou o alvo principal dos elfos, mas o operativo foi rápido o suficiente para alcançá-lo, pegá-lo e desligá-lo.
Imediatamente, os elfos iniciaram sua retirada. Mesmo o guerrilheiro que Rykk havia arremessado contra um skreesire conseguiu se recompor e fugir. Ainda disparavam contra as criaturas, mas não demonstravam mais intenção de manter o confronto.
Flynn encontrava-se no centro do combate. Cercado pelos dois monstros, utilizou toda a sua força para matar um deles, mas sofreu ferimentos graves no processo.
Coube a Kassius e Hothspoth eliminar o último inimigo. Com uma explosão solar, o skreesire restante foi incinerado.
Edric socorreu Flynn. Utilizando o próprio kit médico do solariano, conseguiu estabilizar seus ferimentos e colocá-lo fora de perigo.
Os elfos, porém, já haviam desaparecido na floresta. Os esforços de Rykk para rastreá-los não tiveram sucesso.
Castrovel, Mundos do Pacto, quinta-feira, 4 de Serenith do ano 325 DL.
Antes de pernoitar na Casa dos Sonhos, Réctor e Garuk realizaram alguns experimentos com a Água Fria da Dama que haviam comprado do menino na praça.
O feiticeiro notou que o líquido permanecia gelado dentro do frasco. Garuk sacou o prisma e percebeu um brilho leve sendo emitido quando o aproximava da água. Com o aumento da proximidade, o grupo observou uma reação física no interior do recipiente, semelhante a uma efervescência.
Olgaria entrou na conversa e mencionou seu próprio Coração D’Aurora. O feiticeiro aplicou uma gota da água sobre o objeto e percebeu que ela perdia imediatamente sua característica fria ao entrar em contato com o amuleto.
O mesmo experimento foi repetido com o prisma de Garuk. Desta vez, o sekbete despejou o restante da água sobre o objeto. No entanto, nenhuma reação significativa ocorreu.
— Eu acho que o seu amuleto, Olgaria, quebra encantos ou magias desse tipo — concluiu Réctor, antes de encerrar os testes e o grupo recolher-se para descansar até a manhã seguinte, quando se encontrariam com o contato de Demétrius.
Golias
Demétrius havia chamado seu contato em Telas para obter mais informações sobre Shalash e os orcos. O ladino enviara uma mensagem enquanto permanecera sozinho em seu quarto, e Golias respondeu que o encontraria pela manhã.
Haftor, Garuk e o Guia acompanharam o Atravessador até a taverna.
Golias era um homem enorme e desproporcional, de aparência rústica e incomum. Ainda assim, seu olhar era atento e astuto.
Demétrius apresentou o grupo como aliados de confiança. Golias começou a falar sem reservas:
— Shalash é um feiticeiro, um profeta, nascido entre os orcos do vale, mas nunca foi considerado comum. Primeiro amaldiçoado, depois escolhido. Dizem que ele consegue ver o futuro.
Segundo Golias, os orcos estavam recebendo uma convocação para o norte, onde se reuniriam com o profeta e aguardariam o despertar do Grande Guerreiro.
— Shalash previu coisas como a Aurora Azulada. Ele acredita que os orcos ascenderão a outro patamar quando as profecias se cumprirem.
Por fim, o homem recitou uma canção profética atribuída ao profeta:
“Quando o gelo cantar
quando o ferro chorar sangue
o guerreiro despertará.”
Shalash encontrava-se junto da tribo Ortoor Maerk, nas geleiras. A localização exata era desconhecida, mas dominavam grande parte da região.
— O Shalash é forte? — perguntou Garuk.
— Se ele controla os orcos, então sim.
Golias então revelou outra informação:
— Guzur está nas montanhas sobre Caridrândia. Ele não respondeu ao chamado. Dizem que está planejando algo contra os elfos sombrios.
A conversa se encerrou após isso. Tudo que o contato sabia já havia sido compartilhado.
O alquimista
As informações de Golias ajudaram o grupo a compreender melhor o panorama geral sobre Shalash. No entanto, os acontecimentos em Telas continuavam intrigantes.
Réctor desejava visitar a estátua da deusa. Demétrius, porém, alertou que isso não seria simples, pois as áreas de escavação eram fortemente vigiadas pelas guildas de arqueólogos. Ele mencionou que poderia apresentar o grupo a uma antiga conhecida, Lismara, embora os acontecimentos do passado talvez não a deixassem muito disposta a ajudá-lo.
Os aventureiros buscaram compreender melhor a relação entre os dois. Embora evasivo, Demétrius deixou claro que haviam sido amigos, mas que um erro seu havia destruído essa relação.
Tendo essa possibilidade em mente, o grupo deixou a estalagem e foi buscar suas armas. Em seguida, encontraram um alquimista, a quem confiaram seus equipamentos para encantamento.
— Estou aqui para auxiliar dois amigos que desejam que suas armas se tornem poderosas o suficiente para causar desconforto até mesmo às sombras — explicou Réctor.
Com isso, Garuk, o Guia e Réctor contrataram os serviços do mago para aprimorar o tridente recém-construído, o martelo ajustado do Guia e o protetor de asas de Réctor. O trabalho levaria uma semana para ser concluído.
Percebendo que permaneceriam em Telas por um período prolongado, os aventureiros decidiram abandonar a dispendiosa estalagem onde estavam hospedados e procurar um abrigo mais discreto. Após vagarem pelas ruas antigas da cidade, encontraram um casebre em ruínas e decidiram utilizá-lo como base. O local serviria tanto para Réctor abrir sua Casa dos Sonhos quanto para o Guia manter vigilância sem chamar atenção.
Lismara
Demétrius conduziu o grupo até os arredores das escavações mais recentes, a oeste do centro da cidade. Um conjunto de barracas e tendas formava uma barreira diante da entrada do sítio arqueológico. O ladino guiou os aventureiros até uma tenda marcada com uma bandeirola que ele reconheceu.
Dois guardas, um homem e uma mulher, protegiam a entrada. Ambos reconheceram Demétrius imediatamente.
— Demétrius! Achei que você estava morto. Como se atreve a voltar? — disse a mulher, com evidente hostilidade.
— Não se preocupe comigo. Estou apenas apresentando alguns amigos para Lismara — respondeu ele, com cautela.
Os aventureiros entraram na tenda. O interior era amplo e desorganizado, com livros empilhados no chão e ferramentas de escavação — pás, picaretas e trenas — espalhadas por toda parte. No centro, uma mesa retangular coberta por pergaminhos e manuscritos era analisada por uma mulher de costas.
Réctor chamou sua atenção. Ao se virar e ver Demétrius, sua expressão endureceu imediatamente.
— Saia, Demétrius. Não tenho tempo para fantasmas do passado.
O grupo tentou apaziguar a situação e entender o motivo da hostilidade. Demétrius também tentou se explicar, mas sua voz apenas agravava a irritação da arqueóloga.
— Velhos tempos? Você quase destruiu minha carreira com aquelas suas “rotas seguras”. Saia. Posso falar com eles, se quiserem. Com você, não.
Os guardas entraram e removeram Demétrius à força, deixando o grupo sozinho com Lismara.
A arqueóloga então explicou o ocorrido.
Anos antes, ela e Demétrius haviam feito um acordo. O ladino lhe forneceria rotas seguras até Uno, atravessando a Caridrândia, para o transporte de mercadorias, artefatos e trabalhadores. Ele a mantinha informada sobre caminhos livres de ataques de elfos, bandidos ou orcos.
Porém, uma das caravanas foi atacada. A carga foi roubada e os trabalhadores sequestrados. Um rival chamado Volrath aproveitou o incidente e a denunciou como traficante de escravos, destruindo sua reputação.
O pior era que a acusação possuía fundamento: a rota estava sendo usada para transporte de escravos, embora Lismara desconhecesse esse fato.
Demétrius foi expulso, mas ela não revelou sua participação. Sua própria carreira foi destruída.
Com enorme esforço, Lismara reconstruiu sua reputação sozinha. Recentemente, conseguiu autorização exclusiva para liderar a escavação da Dama, que ela própria mapeou e iniciou.
Apesar de compreender a situação, o grupo ainda precisava de acesso ao sítio arqueológico.
— Tenho uma proposta para vocês — disse Lismara. — Um acordo.
Ela explicou que Volrath era, na verdade, o verdadeiro traficante. Ele havia assumido rotas legítimas e as transformado em canais para comércio de escravos entre Telas e a Caridrândia.
— Preciso que consigam um documento que prove a ligação dele com esse tráfico. Qualquer coisa que o incrimine. O armazém dele fica próximo ao Domo de Arminus.
O grupo aceitou a proposta.
— Temos a pessoa certa para isso — disse Réctor.
Lismara respondeu imediatamente:
— Não quero Demétrius envolvido. Se ele participar, nosso acordo está encerrado.
Os aventureiros deixaram a tenda e retornaram ao refúgio.
Demétrius, que vinha conquistando gradualmente a confiança do grupo, viu seu passado voltar para condená-lo mais uma vez.
— Tudo o que você toca se desfaz — disse Réctor, com frieza. — Você é um merdeiro.
Era tarde. O grupo decidiu iniciar a investigação no dia seguinte e entrou na Casa dos Sonhos para descansar, com exceção do Guia, que permaneceu de vigia.
O armazém de Vorath
Utilizando as sombras como aliadas, o Guia decidiu realizar um reconhecimento do armazém de Volrath ainda naquela madrugada.
Entrando em transe, projetou sua sombra e percorreu as ruelas antigas de Telas em direção ao Domo de Arminus.
Como antes, sua projeção enfraquecia à medida que se aproximava do Domo. Seus movimentos tornavam-se pesados e lentos, e o próprio encantamento parecia fragilizado. Ainda assim, prosseguiu.
O armazém de Volrath ficava a poucos metros do Domo. Aproximadamente dez guardas protegiam o exterior, atentos.
A sombra infiltrou-se no interior do armazém e encontrou uma barreira de escuridão absoluta. Sem contraste de luz, a sombra não conseguia existir.
O Guia aguardou pacientemente, observando o comportamento dos guardas, até que um deles acendeu uma lanterna e entrou no armazém.
Aproveitando a oportunidade, a sombra o seguiu, mantendo-se dentro da luz projetada pela lamparina.
O guarda percorreu um corredor longo, repleto de caixas e estátuas, até chegar a uma porta que levava a um pátio interno. Alguns passos adiante, outro armazém isolado.
O patrulheiro entrou.
A luz revelou um espaço semelhante ao anterior, dominado por caixas e baús.
Então, uma voz fina ecoou na escuridão:
— Você trouxe a lista?
— Sim. Está aqui — respondeu o guarda.
De repente, uma figura élfica emergiu das sombras. Seus olhos encontraram a projeção do Guia.
Sem hesitar, a figura sacou uma faca e a arremessou contra a lanterna.
A luz se apagou instantaneamente.
Privada de sua fonte de existência, a sombra do Guia se desfez, e o encantamento foi interrompido.
Telas, dias 9 e 10 do mês da Sabedoria do ano de 1502.
A reunião com Elara terminou abruptamente com a chegada da comitiva anã ao
Colégio do Conhecimento. O grupo foi dispensado, mas Haftor foi avisado para
que permanecesse em alerta, pois sua presença poderia ser requisitada a
qualquer momento.
O Guia solicitou uma instrutora para aprimorar sua leitura e permaneceu no
Colégio durante a tarde. Réctor, Garuk e Haldur convocaram Dorian e seguiram
em direção ao Domo de Arminus.
A praça central de Telas era ampla e localizava-se abaixo do colossal Domo de
Arminus. Junto a ele, um palanque de madeira servia de palco para um bardo que
entretinha um pequeno grupo de cidadãos.
Garuk, ignorando convenções sociais e a etiqueta urbana, decidiu encurtar o
caminho atravessando o palanque. Com seus 2,10 metros de altura e 160 quilos,
saltou sobre a estrutura de madeira, fazendo-a estremecer violentamente. O
movimento brusco assustou o bardo, que desafinou no meio de uma nota de tenor
e caiu sentado no palco.
Imediatamente, dois guardas que vigiavam o local entraram em alerta e subiram
as escadas do palanque, cruzando lanças para bloquear a passagem e proteger o
músico.
— Alto lá! — anunciaram os guardas.
O sekbete ignorou a advertência e contornou o trio. Enquanto se dirigia ao
Domo, o bardo recompôs-se e deixou o palco, encerrando o espetáculo. Os
guardas o acompanharam.
O grupo finalmente se aproximou do Domo de Arminus. Uma sensação estranha
tomou conta de Réctor. Não era boa nem ruim, apenas profundamente inquietante.
Em menor grau, Garuk e Dorian relataram a mesma impressão.
Antes que pudessem formular conclusões, a palma escamosa de Garuk tocou a
superfície lisa e reflexiva do Domo negro. Um tremeluz percorreu os reflexos,
como uma onda formada na água, irradiando-se a partir do ponto de contato.
— Não tem porta? — indagou Garuk.
— Não. Ele é completamente fechado. Pelo que li, nem mesmo por baixo há acesso
— respondeu Dorian.
— Acho que é impenetrável — concluiu Réctor.
A frase soou como provocação para Garuk. O sekbete sacou seu gancho armado e
golpeou o Domo com toda a força. O impacto foi imediato: a energia retornou
integralmente contra ele, arremessando-o quase um metro e meio para trás.
Disfarçando a dor enquanto ajeitava o ombro, Garuk retornou aos companheiros,
intrigado. Nenhuma marca fora deixada na superfície lisa; nenhum reflexo se
perdera.
— Imagina um escudo feito disso — comentou Réctor, animado.
— Uma armadura seria formidável — completou Garuk.
Garuk sacou o Prisma da Aurora e o aproximou do Domo. Um
brilho vermelho intenso irrompeu, mais forte do que em qualquer ocasião
anterior. O objeto vibrava e aquecia à medida que se aproximava da parede
reflexiva. Temendo uma reação explosiva, ainda mais violenta do que a ocorrida
na Torre de Gelo Quebrada, o berserker recuou.
Dorian agradeceu a prudência. Também considerava perigoso encostar os prismas
no Domo de Arminus; a reação era imprevisível.
— Dorian… aquele velho barbudo — disse Garuk, referindo-se a Silvan — eu não
confio nele. Quando os filhotes começam a mostrar potencial, os mais fortes
tentam esmagá-los. Cuidado para não ser esmagado.
O pupilo reagiu com timidez, respeitoso à hierarquia do Colégio, mas a semente
da desconfiança fora plantada.
Réctor voltou-se então ao Domo. Tentou criar a porta de sua
Casa dos Sonhos diretamente na superfície reflexiva, mas não
conseguiu sequer riscá-la. Em vez disso, moldou a entrada como um alçapão no
chão batido da praça.
Ao entrarem no refúgio onírico, o grupo percebeu que o Domo de Arminus era
visível no horizonte daquela dimensão, projetando uma sombra colossal que
bloqueava o sol daquele mundo.
— Olha isso… e não sou eu que estou fazendo — alertou Réctor. — Acho que a
Aurora Gelada está aí dentro. Quando sonhei, vi a Casa de Fáfnir na posição em
que o Domo está agora, como se eu estivesse lá, olhando para cá.
— Há indícios muito fortes de que seja ela — concordou Dorian. — Vamos sair
daqui. Estou com uma sensação estranha.
A água fria da Dama
O quarteto decidiu encerrar a investigação no Domo. Ao se afastarem pela
praça, ouviram um menino anunciar seu produto aos berros:
— Bebam a água fria da Dama! Da nova escavação recém-descoberta!
O garoto ofereceu um copo de água gelada por uma moeda de prata, alegando ser
"gelada como se tivesse saído das Geleiras". Réctor interessou-se pela origem
do líquido, vindo de uma escavação abaixo da estátua da Dama no sítio
arqueológico.
Réctor comprou um copo e armazenou o líquido em um frasco. A água permaneceu
fria, provocando condensação imediata ao redor do vidro. O menino mencionou
rumores de que a água fazia as pessoas "ouvirem sussurros", mas mesmo após um
desafio de Réctor, nenhum efeito imediato foi percebido além do frescor.
Intrigados, o grupo seguiu em direção ao apotecário mágico, suspeitando que a
Aurora Gelada estivesse se infiltrando pelos canais
subterrâneos da cidade.
Explorando Telas
O grupo visitou um estabelecimento alquímico para reabastecer suprimentos.
Garuk adquiriu tintas para rituais e trocou ossos de um gigante por ouro. Em
seguida, encontraram Olgaria, que estava preocupada com o desfazimento
repentino da Casa dos Sonhos.
Na oficina dos ferreiros, conheceram Torben. Embora o ferreiro tenha recusado
fabricar uma lança de ossos para Garuk, Réctor conseguiu trocar objetos por um
machado encantado para Haldor.
Enquanto isso, o Guia passou a tarde estudando na biblioteca com uma
instrutora, demonstrando interesse em sua linhagem de escamas vermelhas e
adquirindo um tomo sobre as raças de sekbetes. Mais tarde, reuniu-se ao grupo
na forja para adaptar a marreta de gigante recuperada na Torre de Gelo
Quebrada.
A forja fria
Haftor, após pesquisar na biblioteca sobre o conflito entre elfos sombrios e
necromantes, encontrou-se com Divalin, do clã Feriaforte de
Blur. A notícia era alarmante:
— A situação é grave, amigo. A Forja está esfriando. O Krokanon não fornece
mais o calor necessário. Se continuar assim, ferreiros ficarão sem trabalho.
Ou pior, toda a ala congelará.
Haftor relacionou o enfraquecimento do vulcão aos fenômenos da Aurora Gelada.
O paladino redigiu cartas para a Alta Magistrada Murtek e para a Ordem de
Crizagom, alertando sobre os prismas e os artefatos recuperados, selando as
mensagens para entrega segura em Blur.
Ao retornar à estalagem, encontrou Demétrius impaciente e exigiu compostura do
ladino, que permanece sob constante vigilância.
Rumos
Reunidos, os aventureiros traçaram planos: investigar Rodérico e sua filha
(colecionadores de prismas), buscar a versão completa do Testamento da Ordem
em Telas e explorar a misteriosa escavação da Dama. A partida foi decidida
para a manhã seguinte.
Telas, dias 5 e 6 do mês da Sabedoria do ano de 1502.
Ed caiu inconsciente na sala de contenção após entrar em contato com o fóssil
âmbar. A oscilação de seus sinais vitais alertou imediatamente Berenice, que
comunicou o capitão.
— Mande Astra para lá. Eu já vou — ordenou Rykk.
Kassius, Hothspoth e Flynn também se dirigiram ao local.
Astra já atendia o paciente quando Rykk chegou. A androide informou que Ed
estava estável, mas precisava ser transferido para a ala médica. Com a
confirmação de que não havia ferimentos graves, a tripulação se dispersou.
Edric despertou dentro de um tubo de recuperação. Astra monitorava seus
processos biológicos e drenou o líquido regenerativo assim que percebeu o
retorno da consciência.
— Que bom que despertou, Ed. Está se sentindo melhor?
Ainda desnorteado, o operativo falou diretamente com o capitão:
— Capitão… eu vi. Eu toquei no vidro. Eu toquei no cérebro.
— Você teve alucinações? — questionou Astra.
— Não foram alucinações. Eu sou um vidente — respondeu Edric, com convicção.
Astra não se mostrou plenamente convencida e recomendou observação contínua.
Rykk, porém, acreditava no relato.
— Não são necessariamente alucinações, Astra. Parece haver uma conexão
extradimensional envolvida.
— Você viu essa entidade, o Santo, “andando” no espaço? — perguntou a
cientista.
— Tecnicamente, era eu. Mas sim, foi exatamente isso.
Edric relatou os conhecimentos adquiridos durante a simbiose temporária com o
relicário. Confirmou a lenda do Santo da Fenda e revelou um detalhe
inédito:
— Esses fragmentos são partes do corpo de um santo de eras passadas. A lenda é
verdadeira. Ele fechava fendas dimensionais… e se despedaçou por vontade
própria após fechar a última.
Edric descreveu o corredor metálico de sua visão, a sombra se espalhando e
atingindo pessoas desconhecidas — exceto por uma.
— Irlanda — disse ele. — Vi o tentáculo atravessar o corpo dela.
— Onde? — perguntou Flynn, tenso.
— Eu não sei. Era apenas um corredor. As pessoas não reagiam… como se não
percebessem nada.
O grupo questionou se Berenice havia desbloqueado novas memórias do projeto
Receptáculo. A IA explicou:
— Os desbloqueios dependem de gatilhos específicos. Continuo tentando, mas
certos eventos parecem funcionar como chaves criptográficas. Um encontro
direto com Tanaka pode liberar novos fragmentos.
O Reciclo
A missão seguinte exigia discrição: entregar uma mensagem a Garig. Berenice
alertou que transmissões convencionais poderiam ser interceptadas. Pip sugeriu
um mensageiro robótico na Diáspora.
O destino foi Reciclo, um asteroide pirata de cerca de quatro
quilômetros de diâmetro, oculto em meio à nuvem de detritos da região.
— É aconselhável pilotagem manual o tempo todo, Ed — alertou Berenice.
— Relaxa… não é como se eu tivesse desmaios aleatórios — respondeu ele, com
pessimismo habitual.
Ao se aproximarem, a nave foi interpelada:
— Atenção, nave desconhecida. Informe suas intenções.
— Comércio — respondeu Rykk.
— Comércio registrado. Acesso autorizado. Armas estão apontadas. Não tentem
nada.
Berenice mergulhou a nave em uma abertura colossal no centro do asteroide. A
aterrissagem foi feita automaticamente por tração magnética.
Pip anunciou que permaneceria a bordo.
— Acho que minha antiga tripulação ainda anda por aqui… e eu devo algumas
décadas de serviço.
Astra também decidiu ficar.
— Este lugar é um desmonte. Não é seguro para androides.
Antes de desembarcar, o grupo revisou a descrição do mensageiro-alvo, gerada
por Berenice:
— Um robô um pouco mais alto que Flynn, um pouco mais baixo que Rykk, cabeça
quadrada, dois braços, duas pernas e quatro olhos vermelhos. B9i.
Hothspoth, Flynn, Kassius, Rykk e Edric desceram até um bazar gigantesco e
caótico. Prédios incrustados nas paredes da cavidade conviviam com barracas
improvisadas. Oficinas vendiam artefatos, implantes e serviços ilegais.
Espécies e máquinas de todos os tipos se misturavam.
Edric e Hothspoth notaram que cada barraca possuía câmeras próprias, mas
nenhuma monitorava os corredores públicos.
Ainda marcado pelo incidente em Triaxus, Hothspoth adquiriu tecnologia de
contravigilância em uma banca especializada.
— Quero um microfone com localizador.
O equipamento foi comprado sem garantia de autenticidade, apesar da
insistência de Hothspoth.
Flynn tentou negociar alguns itens, mas desistiu diante dos preços
predatórios.
— Vale dois mil créditos — disse, mostrando um cristal solariano.
— Pago cinquenta — respondeu o comerciante.
Indignado, Flynn encerrou a negociação.
Os Mensageiros
O grupo dirigiu-se à sede dos Mensageiros, indicada por Pip.
Um robô recepcionista os recebeu:
— Somos os mensageiros mais confiáveis da Diáspora.
— Procuro B9i — disse Rykk.
— Desaparecido. Última vez visto com indivíduos de baixa reputação.
— Então me recomende outro.
Após opções e cálculos, Rykk escolheu Cortex Édher.
O mensageiro chegou pontualmente. Tinha corpo robusto, braços longos e cabeça
monocular. Ao apertar a mão de Hothspoth, o solariano implantou discretamente
o rastreador.
Em uma sala hermeticamente fechada, o grupo redigiu duas mensagens usando
codificação fotônica e gravitônica. Cortex recebeu as coordenadas de entrega
em Solária.
— 350 créditos. Entrega em até três dias.
Negócio fechado, o grupo retornou à nave.
O surto de Vexia e a chegada a Castrovel
Ao regressarem à Berenice, Astra informou que
Vexia Flux sofrera um ataque de pânico. Ela fora sedada e
colocada em um tubo regenerativo após se ferir ao tentar forçar a saída de seu
quarto.
Ao despertar, Vexia tentou minimizar o ocorrido, mas Rykk voltou a
interrogá-la sobre o acesso não autorizado aos sistemas da nave. Não obteve
novas respostas.
Preocupado, o capitão restringiu severamente a liberdade dos dois cientistas.
Berenice bloqueou seus terminais e intensificou o monitoramento. O Dr. Allen,
embora não soubesse do surto da pupila, recebeu o mesmo tratamento.
Com tudo resolvido, Ed iniciou a viagem para Castrovel pela
Deriva. Dois dias depois, ao emergirem do salto, Berenice detectou uma
presença militar maciça na órbita do planeta. Tratava-se da frota de defesa
local — mas havia assinaturas mercenárias compatíveis com a
Lança de Hierofante.
A frota iniciou o protocolo de identificação.
Rykk decidiu agir rápido: a nave se passaria por comerciante para evitar
inspeções.
O blefe funcionou. Acesso autorizado.
Edric conduziu manualmente a descida até uma savana, escolhida para permitir
uma aproximação furtiva pela floresta, onde encontrariam Garig.
O corpo do clone de Hothspoth jazia na gruta, sem vida. Não havia sinais
aparentes de luta, embora o capacete estivesse quebrado. Kassius, Flynn e
Hothspoth dividiram-se para investigar o ocorrido.
Kassius permaneceu na entrada da gruta, mantendo guarda.
Hothspoth realizou uma análise superficial do cadáver. Encontrou um
dispositivo de gravação e coletou digitais após remover a luva. Em seguida,
desfez-se do corpo por meio de um buraco negro. O cadáver foi tragado
rapidamente pela singularidade; ainda assim, o solariano teve a nítida
impressão de vê-lo “pixelar” antes de desaparecer no vácuo, como se sofresse
algum tipo de oscilação digital.
Flynn explorou o interior da gruta. Ela não era profunda, mas suficiente
para bloquear qualquer luz externa. Utilizando uma lanterna, o solariano
identificou dezesseis ranhuras artificiais marcadas na parede final da
caverna, sugerindo uma contagem. Rastros de pernas ou pés arrastados eram
detectáveis, com algum esforço, no caminho que ligava o fundo da gruta à
entrada.
A demora dos companheiros começava a preocupar Ed e Rykk, mas o grupo chegou
antes que decidissem abandonar a espera. Reunidos, todos foram conduzidos
por Gravolt até um elevador de contrapeso, que os levou ao interior de uma
metrópole karuum — uma imensa colmeia chamada Zir-Kura.
A matriarca
Zir-Kura ocupava plenamente as três dimensões. A caverna era repleta de
conexões verticais e inclinadas, túneis e passarelas por onde os nativos
transitavam e negociavam. Nas paredes mais robustas, grandes entradas
levavam a áreas residenciais. A escuridão predominava, mas milhares de olhos
azuis brilhantes eram visíveis por todos os lados.
O povo de Zir-Kura era governado por uma matriarca, uma karuum ao menos
cinquenta vezes maior que os demais. Ela aguardava o grupo em um vasto
ambiente em forma de domo, onde centenas de nativos podiam observá-los
através das paredes.
— Bem-vindos a Zir-Kura. Eu sou Burom, e já sei que não trazem boas
notícias.
Liderado por Rykk, o grupo explicou o colapso que a Âncora estava impedindo
de ocorrer no planeta. Alertaram também sobre a existência de “maus atores”
nos Mundos do Pacto, que poderiam tentar tomar o artefato à força.
Burom respondeu que a Âncora era uma salvadora e um símbolo da resistência
karuum, e que protegê-la estava intrinsecamente ligado à cultura de sua
espécie.
Apesar das controvérsias, a matriarca mostrou-se sábia. Compreendeu que
poderia conduzir seu povo a aceitar mudanças, desde que houvesse uma
alternativa para salvá-los do planeta moribundo. Em seguida, entregou a Rykk
um mineral polido, formado por hexágonos planos em dois lados.
— Com isso, conseguirão nos encontrar novamente.
Rykk então questionou sobre o clone de Hothspoth:
— Gostaria de fazer uma pergunta. Vocês já viram alguma criatura parecida
conosco por aqui?
— Sim… além das assombrações da névoa, houve um indivíduo — respondeu Burom.
Apontando para Hothspoth, continuou: — Ele já esteve aqui. Eu me lembro de
você.
— Não foi exatamente ele, mas alguém muito parecido. Sabe o que ele fazia?
Para onde ia?
— Ele era um dos seguidores da Âncora. Aproximava-se dela e fazia orações. A
Âncora reagia à sua presença. Às vezes, ele a tocava e sempre saía alterado:
por vezes enfraquecido, por vezes energizado.
— E depois disso?
— Ele se perdia na névoa. Às vezes, pensávamos que fosse uma das
assombrações. Mas sempre retornava.
Enquanto Rykk dialogava com a matriarca, os nativos mantinham conversas
paralelas, um burburinho que Berenice não conseguia traduzir de imediato.
Após algum tempo, a IA alertou:
— Consegui decifrar parte do que estão dizendo. Falam que as assombrações
estão se aproximando da Âncora. Já levaram três karuum.
— A Âncora nos protege das assombrações — esclareceu Burom. — Elas vivem na
superfície, mas não se aproximavam de nosso centro sagrado. Agora estão se
aproximando, e não compreendemos o motivo.
Burom ofereceu abrigo ao grupo, mas Rykk recusou educadamente, afirmando que
permaneceriam na nave. Os aventureiros deixaram a câmara com o artefato e
iniciaram o retorno pela superfície.
A gruta do clone
A superfície de K375 mostrou-se ainda mais hostil durante o retorno. Uma
tempestade radioativa e ácida aproximava-se rapidamente. A visibilidade caiu
para menos de dez metros, forçando o grupo a buscar abrigo junto às paredes
do canyon.
Quando o clima se estabilizou, Flynn guiou o grupo de volta à gruta onde o
clone fora encontrado, para apresentá-la a Rykk e Ed.
Flynn mostrou as dezesseis ranhuras. Ed tocou-as com os dedos do braço
direito, esperando uma visão semelhante à que tivera ao tocar Hothspoth. Não
houve imagens, mas um conhecimento instintivo: aquelas marcas representavam
o número de tentativas.
— Tentativas de quê? — perguntou Rykk.
— Talvez de sintonizar com a Âncora — sugeriu Hothspoth.
Nesse momento, Berenice interrompeu:
— Concluí o processamento do dispositivo de áudio encontrado. Eis a
gravação:
“Registro unidade Ícarus Beta. Localizei o alvo em K375. Atmosfera
irrelevante. A extração do fóssil quatro deve iniciar antes que os nativos
percebam a ressonância. Estou usando os vetores de entrada do IC1 de
Castrovel. Se a fusão falhar e me capturarem antes, digam a Reed que o
cálculo de spin estava errado. Fim da transmissão.”
Apesar da degradação do áudio, Berenice confirmou que o padrão vocal era
compatível com o de Hothspoth.
Planejando retorno
De volta à segurança da nave Berenice, a tripulação passou a discutir o
próximo destino.
— Você acha que Solária ajudaria? Estamos ficando com poucos aliados —
questionou Rykk.
— Talvez. Se não estiverem comprometidos. Não posso garantir — respondeu
Flynn.
— Então temos que ir a Solária e falar com Gárik — decidiu o capitão.
Berenice, contudo, relembrou que Grê-On vivia no cinturão de asteroides de
Akiton, onde se localizava Solária, e que a Lança de Hierofante já mantinha
vigilância na região. A ideia foi descartada, ao menos temporariamente.
— E se enviássemos uma mensagem para que Gárik nos encontrasse em outro
planeta, sem informar a Lança?
— A mensagem pode ser interceptada. Há riscos — alertou Berenice.
Pip interveio, recorrendo à sua experiência como pirata:
— Contrata um mensageiro. Eu fazia isso o tempo todo. Na Diáspora sempre tem
alguém disposto a entregar mensagens por alguns créditos. Robôs são
melhores; têm menos medo de serem abatidos.
— Certo. Mundos do Pacto, então. Pegamos um mensageiro e depois vamos caçar
o Tanaka — concluiu Rykk.
Edric iniciou os protocolos de Deriva. A estimativa foi de oito dias de
viagem, tempo suficiente para o grupo se preparar.
Rykk fabricou venenos a partir do herbário, produzindo quatro dardos de
veneno paralisante. Paralelamente, a doutora Astra instalou um aprimoramento
de pele fotossintética em Flynn, ampliando sua resistência a ambientes
extremos.
Edric permanecia inquieto com a visão que tivera ao tocar o relicário da
perna. Evitou repetir a experiência com os olhos e o cérebro por dias, mas
acabou cedendo.
Ao tocar o objeto âmbar com o braço direito, foi lançado a uma nova visão do
Incidente Riven Shroud.
Em um corredor metálico, um tentáculo horrendo se expandia, cobrindo cada
abertura. A visão acompanhou o apêndice enquanto ele atingia pessoas que
pareciam ignorar completamente sua presença. Edric reconheceu uma delas:
Irlanda, a irmã de Flynn.
Subitamente, Edric adquiriu conhecimentos que jamais possuíra. O Santo
fechava fendas entre realidades — e fragmentara-se deliberadamente após
selar a última delas.
A enxurrada de informações foi extenuante. Edric estava à beira do colapso.
Sentindo-se fraco, ativou o comunicador:
— Eu acho que vou desm…
K375-Prime, a Vastidão — Domingo 26 de Desnus, a Terça, 2 de Serenith de
325 DL.