A diplomacia em Zir-Kura
O corpo
O corpo do clone de Hothspoth jazia na gruta, sem vida. Não havia sinais aparentes de luta, embora o capacete estivesse quebrado. Kassius, Flynn e Hothspoth dividiram-se para investigar o ocorrido.
Kassius permaneceu na entrada da gruta, mantendo guarda.
Hothspoth realizou uma análise superficial do cadáver. Encontrou um dispositivo de gravação e coletou digitais após remover a luva. Em seguida, desfez-se do corpo por meio de um buraco negro. O cadáver foi tragado rapidamente pela singularidade; ainda assim, o solariano teve a nítida impressão de vê-lo “pixelar” antes de desaparecer no vácuo, como se sofresse algum tipo de oscilação digital.
Flynn explorou o interior da gruta. Ela não era profunda, mas suficiente para bloquear qualquer luz externa. Utilizando uma lanterna, o solariano identificou dezesseis ranhuras artificiais marcadas na parede final da caverna, sugerindo uma contagem. Rastros de pernas ou pés arrastados eram detectáveis, com algum esforço, no caminho que ligava o fundo da gruta à entrada.
A demora dos companheiros começava a preocupar Ed e Rykk, mas o grupo chegou antes que decidissem abandonar a espera. Reunidos, todos foram conduzidos por Gravolt até um elevador de contrapeso, que os levou ao interior de uma metrópole karuum — uma imensa colmeia chamada Zir-Kura.
A matriarca
Zir-Kura ocupava plenamente as três dimensões. A caverna era repleta de conexões verticais e inclinadas, túneis e passarelas por onde os nativos transitavam e negociavam. Nas paredes mais robustas, grandes entradas levavam a áreas residenciais. A escuridão predominava, mas milhares de olhos azuis brilhantes eram visíveis por todos os lados.
O povo de Zir-Kura era governado por uma matriarca, uma karuum ao menos cinquenta vezes maior que os demais. Ela aguardava o grupo em um vasto ambiente em forma de domo, onde centenas de nativos podiam observá-los através das paredes.
— Bem-vindos a Zir-Kura. Eu sou Burom, e já sei que não trazem boas notícias.
Liderado por Rykk, o grupo explicou o colapso que a Âncora estava impedindo de ocorrer no planeta. Alertaram também sobre a existência de “maus atores” nos Mundos do Pacto, que poderiam tentar tomar o artefato à força.
Burom respondeu que a Âncora era uma salvadora e um símbolo da resistência karuum, e que protegê-la estava intrinsecamente ligado à cultura de sua espécie.
Apesar das controvérsias, a matriarca mostrou-se sábia. Compreendeu que poderia conduzir seu povo a aceitar mudanças, desde que houvesse uma alternativa para salvá-los do planeta moribundo. Em seguida, entregou a Rykk um mineral polido, formado por hexágonos planos em dois lados.
— Com isso, conseguirão nos encontrar novamente.
Rykk então questionou sobre o clone de Hothspoth:
— Gostaria de fazer uma pergunta. Vocês já viram alguma criatura parecida conosco por aqui?
— Sim… além das assombrações da névoa, houve um indivíduo — respondeu Burom. Apontando para Hothspoth, continuou: — Ele já esteve aqui. Eu me lembro de você.
— Não foi exatamente ele, mas alguém muito parecido. Sabe o que ele fazia? Para onde ia?
— Ele era um dos seguidores da Âncora. Aproximava-se dela e fazia orações. A Âncora reagia à sua presença. Às vezes, ele a tocava e sempre saía alterado: por vezes enfraquecido, por vezes energizado.
— E depois disso?
— Ele se perdia na névoa. Às vezes, pensávamos que fosse uma das assombrações. Mas sempre retornava.
Enquanto Rykk dialogava com a matriarca, os nativos mantinham conversas paralelas, um burburinho que Berenice não conseguia traduzir de imediato. Após algum tempo, a IA alertou:
— Consegui decifrar parte do que estão dizendo. Falam que as assombrações estão se aproximando da Âncora. Já levaram três karuum.
— A Âncora nos protege das assombrações — esclareceu Burom. — Elas vivem na superfície, mas não se aproximavam de nosso centro sagrado. Agora estão se aproximando, e não compreendemos o motivo.
Burom ofereceu abrigo ao grupo, mas Rykk recusou educadamente, afirmando que permaneceriam na nave. Os aventureiros deixaram a câmara com o artefato e iniciaram o retorno pela superfície.
A gruta do clone
A superfície de K375 mostrou-se ainda mais hostil durante o retorno. Uma tempestade radioativa e ácida aproximava-se rapidamente. A visibilidade caiu para menos de dez metros, forçando o grupo a buscar abrigo junto às paredes do canyon.
Quando o clima se estabilizou, Flynn guiou o grupo de volta à gruta onde o clone fora encontrado, para apresentá-la a Rykk e Ed.
Flynn mostrou as dezesseis ranhuras. Ed tocou-as com os dedos do braço direito, esperando uma visão semelhante à que tivera ao tocar Hothspoth. Não houve imagens, mas um conhecimento instintivo: aquelas marcas representavam o número de tentativas.
— Tentativas de quê? — perguntou Rykk.
— Talvez de sintonizar com a Âncora — sugeriu Hothspoth.
Nesse momento, Berenice interrompeu:
— Concluí o processamento do dispositivo de áudio encontrado. Eis a gravação:
“Registro unidade Ícarus Beta. Localizei o alvo em K375. Atmosfera irrelevante. A extração do fóssil quatro deve iniciar antes que os nativos percebam a ressonância. Estou usando os vetores de entrada do IC1 de Castrovel. Se a fusão falhar e me capturarem antes, digam a Reed que o cálculo de spin estava errado. Fim da transmissão.”
Apesar da degradação do áudio, Berenice confirmou que o padrão vocal era compatível com o de Hothspoth.
Planejando retorno
De volta à segurança da nave Berenice, a tripulação passou a discutir o próximo destino.
— Você acha que Solária ajudaria? Estamos ficando com poucos aliados — questionou Rykk.
— Talvez. Se não estiverem comprometidos. Não posso garantir — respondeu Flynn.
— Então temos que ir a Solária e falar com Gárik — decidiu o capitão.
Berenice, contudo, relembrou que Grê-On vivia no cinturão de asteroides de Akiton, onde se localizava Solária, e que a Lança de Hierofante já mantinha vigilância na região. A ideia foi descartada, ao menos temporariamente.
— E se enviássemos uma mensagem para que Gárik nos encontrasse em outro planeta, sem informar a Lança?
— A mensagem pode ser interceptada. Há riscos — alertou Berenice.
Pip interveio, recorrendo à sua experiência como pirata:
— Contrata um mensageiro. Eu fazia isso o tempo todo. Na Diáspora sempre tem alguém disposto a entregar mensagens por alguns créditos. Robôs são melhores; têm menos medo de serem abatidos.
— Certo. Mundos do Pacto, então. Pegamos um mensageiro e depois vamos caçar o Tanaka — concluiu Rykk.
Edric iniciou os protocolos de Deriva. A estimativa foi de oito dias de viagem, tempo suficiente para o grupo se preparar.
Rykk fabricou venenos a partir do herbário, produzindo quatro dardos de veneno paralisante. Paralelamente, a doutora Astra instalou um aprimoramento de pele fotossintética em Flynn, ampliando sua resistência a ambientes extremos.
Edric permanecia inquieto com a visão que tivera ao tocar o relicário da perna. Evitou repetir a experiência com os olhos e o cérebro por dias, mas acabou cedendo.
Ao tocar o objeto âmbar com o braço direito, foi lançado a uma nova visão do Incidente Riven Shroud.
Em um corredor metálico, um tentáculo horrendo se expandia, cobrindo cada abertura. A visão acompanhou o apêndice enquanto ele atingia pessoas que pareciam ignorar completamente sua presença. Edric reconheceu uma delas: Irlanda, a irmã de Flynn.
Subitamente, Edric adquiriu conhecimentos que jamais possuíra. O Santo fechava fendas entre realidades — e fragmentara-se deliberadamente após selar a última delas.
A enxurrada de informações foi extenuante. Edric estava à beira do colapso. Sentindo-se fraco, ativou o comunicador:
— Eu acho que vou desm…
K375-Prime, a Vastidão — Domingo 26 de Desnus, a Terça, 2 de Serenith de 325 DL.



Nenhum comentário:
Postar um comentário