A imunidade karuum
Mostrando o problema
O grupo levou os nativos Gravolt e Thulknar para a nave, a fim de mostrar a eles a situação delicada em que se encontrava seu sistema estelar. Devido à gravidade local e ao grande peso dos nativos, Rykk decidiu transportar Gravolt em suas costas, enquanto Kassius carregou Thulknar em seus braços. Isso manteve todos os aventureiros com uma carga viável, permitindo o retorno à nave sem exaustão extrema.
O trajeto de retorno ocorreu sem percalços, apesar do esforço físico envolvido. Ao avistarem Berenice em meio à névoa amarela, Gravolt e Thulknar ficaram visivelmente impressionados, recebendo então a explicação de que aquela estrutura era uma nave capaz de deixar o planeta.
Os visitantes foram conduzidos à sala de conferência, onde lhes foi apresentada a imagem de seu planeta visto do espaço. Em seguida, Berenice exibiu o sistema binário no qual K375-Prime estava inserido e a simulação da catástrofe prevista para ocorrer em aproximadamente 420 anos.
Durante as simulações, porém, Berenice chegou a uma conclusão que mudou completamente o ritmo das descobertas. Segundo a IA, a destruição do planeta não ocorreria no prazo estimado. Na verdade, ela já deveria ter acontecido. O fragmento relicário estava funcionando como uma âncora gravitacional, mantendo o sistema estável de forma permanente.
— Se a gente tirar a âncora daí, o que acontece? — questionou Rykk.
— Setenta e duas horas — respondeu a IA. — Esse seria o tempo necessário para que o planeta fosse consumido pelas estrelas. Eu suponho que a âncora chegou aqui no exato momento em que a catástrofe ocorreria. Não previ que ela estivesse sustentando todo o sistema.
A notícia interrompeu abruptamente a apresentação. Astra solicitou que um dos dois alienígenas se voluntariasse para uma análise médica rápida. Gravolt aceitou.
— Me acompanhe também, capitão. Vou precisar de você.
A imunidade
— São organismos à base de sílica — revelou Astra, enquanto realizava as análises iniciais do karuum. A androide concentrava-se especialmente na Síndrome da Marcha Definhante, considerando a enorme exposição à radiação sepulcral causada pela proximidade com o fóssil relicário.
— Eles estão adaptados à sobrevivência sob radiação sepulcral — continuou. — Contudo, nela, essa energia não provoca a doença. Além disso, a radiação presente nos corpos deles não parece ser inteiramente equivalente àquela que vocês conhecem, como se parte dela não se originasse desta dimensão.
— Então achamos a cura? Agora é só evitar um genocídio! — exclamou Rykk.
Astra foi menos otimista. Reconhecia a importância da descoberta, mas afirmou que seriam necessários mais dados e estudos antes de qualquer conclusão definitiva.
Enquanto isso, Edric e Hothspoth dirigiram-se à quadra de basquete. O operativo esperava uma partida competitiva, mas, ao perceber a falta de entusiasmo do colega, foi direto ao assunto.
— Hothspoth, quando toquei em você lá na câmara da âncora… eu vi vários de vocês.
— Sim. Eles estão comigo. São outros de mim — respondeu o solariano, com naturalidade.
Berenice interveio, explicando que os indícios sugeriam que Ed era um receptáculo, assim como Irlanda, a irmã de Flynn. Hothspoth também tomou conhecimento de que era um clone do soldado Ícarus, embora ainda não compreendesse plenamente suas visões.
O solariano deixou a quadra e seguiu para seu quarto. No caminho, cruzou com a cientista Vexia, mas não interagiu. Pouco depois, Rykk e Astra retornaram à sala de conferência com os demais.
Novas memórias de Evelyn Reed
— Desbloqueei novas memórias de Evelyn Reed — anunciou Berenice. — Ela suspeitava que esses relicários eram peças para completar uma entidade ultradimensional, capaz de fornecer poder ilimitado. Ela tinha conhecimento de quatro deles e consegui as coordenadas.
— Este em K375 é o terceiro?
— Sim. Os outros que conhecem são o braço de Ed e o fóssil em Viez.
— Então são quatro no total?
— Ela conhecia quatro, mas parece haver mais — relatou a IA, dirigindo-se a Rykk e Ed.
O grupo debateu como a Dra. Reed ou a própria IA eram capazes de localizar tais fragmentos.
— Foi assim que você chegou até aqui?
— Analisei a rota e segui a memória de um dado oculto da Dra. Reed. Ela utilizava pontos de sinais relicários como faróis na Deriva.
— Peraí... — intrigou-se Rykk. — Nós podemos usar a Deriva para achar essas relíquias pelo sinal? Podemos voltar rápido para cá ou saltar para outros pontos seguindo a assinatura!
A descoberta garantia uma vantagem tática imensa sobre a Lança de Hierofante, visto que a viagem convencional pela Deriva na Vastidão tendia a ser demorada.
Ainda discutiram sobre a perna do Santo, concluindo que sua remoção seria complexa. A IA sugeriu que Ed, como receptáculo, talvez pudesse resistir a mais um fragmento caso optasse por absorvê-lo. Sobre a escolha de Ed como portador, Berenice mencionou apenas que a seleção de candidatos era responsabilidade do Dr. Kenji Tanaka.
Os enxeridos
Berenice interrompeu as discussões com um alerta de segurança:
— A passageira Vexia esteve na sala de observação há pouco. Ela coletou as coordenadas da nave e tentou traçar a rota para este sistema. Consegui bloquear a etapa final, mas as coordenadas estavam em uma camada acessível e foram visualizadas.
A preocupação tomou conta do grupo. Até então, Berenice era a única detentora da localização. Se a Lança de Hierofante pusesse os pés em K375, não hesitariam em remover o relicário, condenando os 13 milhões de Karuum à morte estelar.
O emissário convocou os cientistas imediatamente.
— Senhorita Vexia, qual era seu interesse nas coordenadas atuais? — questionou Rykk, o tom carregado de ameaça.
— Não... nada. Eu só queria saber onde estávamos, quanto tempo levaria para voltar para casa.
— Ei, cara, você está complicando as coisas. Está ameaçando minha pupila — interveio o Dr. Allen.
Rykk mostrou os dentes, a paciência esgotada.
— Não estou falando com você. Quando chegar a sua vez, eu falo. Está pronto para mudar seu status de convidado para prisioneiro? Quer dar uma volta lá fora para pensar melhor?
— Gravidade 4G, alta temperatura, atmosfera densa, radioativa e tóxica. Irrespirável para seres humanos — complementou Berenice friamente, forçando o doutor a recuar.
— Garanta que eles voltem direto para o quarto, sem paradas. Perderam os privilégios de circulação pela nave — ordenou o capitão.
A decisão
O dilema central persistia: remover a âncora condenaria os Karuum imediatamente; deixá-la, atrairia a Lança de Hierofante.
— A gente vai deixar a âncora aqui, mas sem ela não montamos o Santo, né? — argumentou Flynn. — A questão é que, em algum momento, a Lança vai vir pegar isso.
Rykk tentou traduzir a gravidade da situação para os nativos.
— Viemos buscar a âncora, mas não sabíamos de sua influência no planeta — disse, fixando o olhar em Thulknar. — Porém, existe um grupo que vaga pelo céu como nós, que também a procura, e eles não têm a menor intenção de serem amigáveis. Posso tentar trazer ajuda, gente com armas como as minhas ou melhores. O que acham?
Ainda que a tecnologia fosse um conceito abstrato para eles, os Karuum compreenderam a ameaça de extinção. Gravolt decidiu levar a questão aos anciãos e partiu na frente. Thulknar permaneceu com os aventureiros.
Para chegar à cratera onde estavam os anciãos, o grupo se dividiu. O draconiano levou Ed consigo, planando até a entrada do canyon. Os demais caminhariam pelo deserto radioativo.
O rastro no deserto
Hothspoth e Kassius partiram sob a liderança de Flynn. Viram Rykk sobrevoá-los brevemente antes de desaparecer na névoa amarela. Logo, restaram apenas os três na solidão do deserto, isolados pela interferência ambiental que cortava a comunicação com a Berenice.
O vento tóxico de K375 varria o chão constantemente, polindo rochas e montanhas. Ainda assim, algo chamou a atenção de Flynn: uma pegada que não pertencia ao rastro de retorno deles, feito horas antes. A marca divergia da rota e parecia inequivocamente humana. O solariano supôs serem marcas antigas, mas o ambiente hostil impedia certezas.
— Devemos segui-la? — questionou o trio.
— Vamos ver aonde leva. Pode ter algo escondido que não sabemos.
Enquanto isso, na entrada do canyon, Ed e Rykk já aguardavam. Gravolt, alcançado pela dupla voadora, fora carregado pelo draconiano no trecho final.
— Eles vêm logo — confiava Edric. — Nunca pegariam um desvio...
Mas o grupo de solo havia desviado. As pegadas conduziram Flynn, Kassius e Hothspoth até uma pequena gruta protegida das intempéries.
Lá dentro, viram um corpo humano parcialmente soterrado, revelado apenas por uma perna.
Kassius adiantou-se e puxou o membro exposto. O cadáver deslizou da terra, provocando um choque coletivo.
— Hothspoth... — sussurrou Flynn ao iluminar o rosto do morto.
Hothspoth encarou sua cópia. Desta vez, não era uma visão ou um delírio. Ela estava realmente ali.
K375-Prime, a Vastidão — Sábado e Domingo, 25 e 26 de Desnus de 325 DL.

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