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domingo, 11 de janeiro de 2026

(LA) Sessão 24

Luminávis

A Casa dos Sonhos

A Casa dos Sonhos de Fáfnir revelou-se um jardim gigantesco, composto por um lago e uma estrada pavimentada que levava a uma colossal árvore central, a qual sustentava uma mansão. Diversos animais povoavam o local, mas uma criatura particular atraía a atenção enquanto colhia ramos, limpava folhas e aparava flores: uma figura feminina feita de vidro, com cabelos e esqueleto aparente moldados em galhos. Em seu interior, centenas de pequenos brilhos, semelhantes a vagalumes, moviam-se erraticamente, chocando-se contra as paredes transparentes de seu corpo. Seus olhos, feitos do mesmo brilho, permaneciam estáticos. Era a Jardineira, a amiga imaginária criada por Fáfnir.

O grupo foi conduzido pela estrada até a mansão. Fáfnir manteve-se em silêncio absoluto durante o trajeto, ignorando as tentativas de comunicação de Réctor. No caminho, o napol notou que a região onde antes havia um tear encontrava-se envolta em nuvens tempestuosas, desaparecida como se estivesse fora do perímetro da realidade. Ele questionou a Jardineira sobre o estado do feiticeiro, mas a criatura, muda, apenas gesticulou indicando que algo não estava como de costume.

O saguão da mansão fora inteiramente esculpido no tronco da árvore titânica. Uma madeira rústica, porém ornamentada, conferia uma característica única ao local. Os aventureiros subiram dois lances de escada até um elevador, içado manualmente por uma criatura vegetal no topo, e foram levados a um grande salão circular. Janelas em cada quadrante forneciam visibilidade para todo o jardim, enquanto um tapete redondo e uma cadeira de vime destacavam-se entre as colunas de madeira.

— Aqui estamos seguros para conversar. Vocês querem chá, comida ou fumo? — indagou Fáfnir, falando abertamente pela primeira vez.

O Conhecimento do Sonhador

— Não usa mais o tear? — perguntou Réctor, após aceitar as ofertas do mentor.

— O tear? Ah! Não, não consigo mais usá-lo, e não tenho certeza do porquê — lamentou Fáfnir, com a voz embargada. — A sombra tem tomado toda a minha concentração. Nem sequer consegui prever a chegada de vocês.

— E essa sombra aí? Onde é que ela está? — questionou o Guia, rispidamente.

Com olhos arregalados e tristes, mas atentos, Fáfnir respondeu:

— A sombra é uma mácula deixada no éter por aqueles que trataram Eudam apenas como uma ferramenta — filosofou o feiticeiro. Ao perceber a confusão do rastreador, continuou: — Não há como impedi-la, apenas evitar que aumente. Mas, para isso, a guerra precisaria parar.

O grupo debateu a natureza da entidade mencionada. Réctor e o Guia cogitaram se a sombra de Fáfnir seria diferente de Margoth ou daquela que os perseguira anteriormente. Desta vez, a "sombra" parecia referir-se ao mal em si, ou a algo mais específico.

O Guia resgatou o pergaminho encontrado sob a Torre Branca do Sul. “A sombra precisa do fio. A sombra me seguirá”, dizia o rascunho.

— A sombra à qual me refiro é uma mancha dos restos místicos dos elfos sombrios e dos necromantes, energias que não deveriam ser exploradas, pois contaminam Eudam — argumentou Fáfnir, sem esclarecer o conteúdo do pergaminho.

Réctor retomou o diálogo, questionando sobre a Aurora Gelada. O ermitão reconheceu a entidade por outro nome, "Dama Fria do Orvalho", demonstrando um conhecimento profundo e melancólico.

— Talvez ela não seja exatamente o que eu estou pensando… mas a ideia de bondade e maldade para uma Titã é difícil de interpretar — divagou Réctor.

— O despertar da Dama Fria do Orvalho já ocorreu antes. Ou, pelo menos, uma tentativa — disse Fáfnir, acomodando-se na cadeira de vime. — Uma fada me revelou que algo a interrompeu.

— Meus ancestrais dizem que a entidade trará o verde ao gelo, trará vida onde não tem mais vida — explicou Olgaria, citando a tradição de seu povo.

— Nem toda luz que tenta nascer quer ser adorada — repreendeu Fáfnir, lançando um olhar profundo sobre a jovem. — Algumas só precisam terminar aquilo que começaram.

— Tolice! — A interrupção veio brusca. Era Silvan, que escutava com ceticismo. — Há, sim, uma guerra oculta entre os necromantes e os malditos sombrios, mas os sábios já teriam percebido algo dessa magnitude e revelado.

Silvan rejeitava a visão de Fáfnir, mas não apresentava alternativas. Réctor, enfurecido com a arrogância do mago que mais uma vez esnobava as descobertas do grupo, apontou sua garra em riste:

— Até agora você não conseguiu gerar nenhum tipo de conhecimento ou ajuda. Já percebeu que, na verdade, só vive criando problemas com o que as pessoas acreditam?

O rubor no rosto de Silvan, visto anteriormente na taverna, voltou a surgir. O mago não tirou os olhos do napol, visivelmente desconfortável. Réctor não esmoreceu:

— Suas crenças não servem de nada se você não consegue expressá-las de forma compreensível. O que me importa é o que você poderia agregar à nossa conversa. Só que você geralmente abre a boca apenas para criticar, sem pôr nenhuma ideia que leve o assunto para outro caminho.

A mão de Silvan tremia. Lila, percebendo a tensão escalar, segurou o braço do mestre e balbuciou um "Mestre…", tentando dissuadi-lo. O mago, contudo, forçou o desenlace da aprendiz e, num piscar de olhos, desapareceu com um transporte dimensional.

O Guia farejou Silvan nos andares inferiores e alertou os pupilos. Frida, os guardas e os magos deixaram a sala atrás do mentor, mas não sem antes ouvirem um conselho de Réctor:

— Me incomoda o jeito que ele enxerga as coisas, como se todos fossem inúteis e burros e ele fosse o único detentor da verdade. Não sejam assim. Procurem entender o que se passa no mundo e tirem suas próprias conclusões.

— Ele não é tão mau assim — retrucou Tessa timidamente, abraçada ao seu livro.

— Por favor, peço um pouco mais de paciência com o Mestre Silvan — interveio Dorian. — Ele é cabeça-dura, mas tenho certeza de que dará sua contribuição no momento certo. Todos aprendemos muito com ele até aqui.

Por ironia ou resignação, Réctor concordou com Dorian, o único mago pelo qual o grupo demonstrava respeito real. Os quatro deixaram a sala e o grupo ficou a sós com Fáfnir, que assistira à cena imperturbável.

Réctor voltou sua atenção ao Sonhador, perguntando o que seria melhor: o despertar da Aurora ou a manutenção da escuridão. Fáfnir admitiu sua ignorância:

— Eu não sei se o despertar da Dama Fria do Orvalho destruirá essa sombra ou se ambas são parte do mesmo fenômeno antigo, separadas à força. Talvez a escuridão seja ela… Talvez ela esteja tentando se livrar da escuridão.

Eles debateram sobre a natureza do "bem e mal" e a perspectiva de quem dita as regras, soando como devaneios para o restante do grupo. Porém, o odor deixado por Silvan não veio sozinho. O Guia captou um cheiro distinto, pútrido e úmido, que entranhava em suas narinas até despertar a memória: era o cheiro da sombra, de Mortalos, o cogumelo da chuva escura.

— E esse cheiro podre que eu percebo? É a tal mácula que você falou? — interrompeu o Guia.

Confuso, Fáfnir disse não sentir cheiro algum. A reação colocou o Guia em alerta; ele estava convicto de que a corrupção estava presente ali, fisicamente. "Parece estar misturado em tudo", afirmou.

Desconfiado, Réctor sacou o Prisma da Aurora e o colocou diante de Fáfnir.

— Será que, por ficar tão obcecado pela sombra, você não tenha se contaminado com algum resquício dela?

O brilho da pedra, antes morto, ressurgiu quando o ermitão a tocou. Pálido, azulado, exatamente como a emanação sob a chuva sombria. Uma ventania formou-se ao redor de Fáfnir, que não parecia notar o fenômeno, embora sua expressão mudasse. A Jardineira de vidro perdeu seu brilho.

Haftor avançou com o cabo do martelo para remover a pedra da mão do feiticeiro.

— Ela nos encontrou mais rápido do que eu esperava! Algo deve ter nos acompanhado — gritou Fáfnir, assustado, enquanto um redemoinho sombrio tomava seu corpo. O golpe de Haftor encontrou apenas sombra e vento. Fáfnir sumiu. A sala escureceu e o céu lá fora nublou-se.

Das sombras sob as lamparinas, silhuetas escuras surgiram, serpenteando em direção aos aventureiros. Era a corrupção manifesta.

Confrontando a Corrupção

A ventania sombria dissolveu-se no ar. Garuk tentou farejá-la, mas foi abatido por um efeito místico, caindo desorientado.

Olgaria e Demétrius foram os primeiros alvos. As sombras avançaram rapidamente; a zumi defendeu-se e contra-atacou com seus ritos, mas os inimigos estavam em maior número. Demétrius, ciente de que não podia ferir criaturas incorpóreas, afastou-se estrategicamente. Réctor convocou uma luz intensa, perturbando os inimigos e mantendo-os à distância, enquanto o Guia disparava flechas contra os espectros e o grupo fechava uma formação compacta.

Garuk, ainda atordoado, foi subitamente possuído por uma das sombras. "Morra, criatura!", gritou, com a voz tomada por outra alma, atacando Haldur. O anão aparou o machado com o escudo e desviou de uma garra. O desequilíbrio fez o sekbete cair sobre Demétrius mas, para a sorte do ladino, a sombra abandonou o corpo do bárbaro naquele instante.

Recobrando a consciência e a fúria, Garuk levantou-se e estraçalhou a sombra que o atormentara. O duelo estendeu-se por mais alguns instantes até que Haftor expulsou algumas criaturas com sua esconjuração divina, finalizando a luta ao lado de Olgaria com um ataque combinado.

Imediatamente, a atmosfera do salão mudou. Fáfnir reapareceu no mesmo local onde sumira. A Jardineira voltou a brilhar e a opressão dissipou-se.

— Não sinto mais cheiro de nada — constatou o Guia.

Fáfnir, com o olhar leve e livre do peso que carregava há meses, agradeceu ao grupo.

A Origem da Sombra

A casa estava limpa. A nuvem escura ao redor do tear desaparecera.

— Você viu algum elfo sombrio? — perguntou o Guia, sem cerimônia.

— Sim, vejo muitos elfos sombrios — revelou Fáfnir.

— Teve contato direto com algum aqui recentemente? Tem comido cogumelos?

Fáfnir negou ter ingerido os fungos, mas admitiu contato com um comerciante. Ele recebera um pergaminho com a mensagem de um elfo sombrio que insistia em encontrá-lo, afirmando que "os produtos de Caridrândia estão sempre esperando por mim".

Réctor pediu para analisar o objeto enquanto a Jardineira aproximava-se do mestre para confirmar sua melhora. O napol e o Guia notaram algo estranho: a tinta era feita de Mortalos, o cogumelo da chuva misteriosa, e o material era um pergaminho especial de Caridrândia, usado apenas para mensagens de extrema importância.

Com as pistas exploradas e Fáfnir livre da maldição, a tensão se esvaiu. O mago ofereceu seus aposentos para o descanso. O Guia e Garuk foram se refrescar no lago, onde o rastreador sentiu um súbito acometimento de culpa ao lembrar que tudo aquilo era apenas uma criação mental. Olgaria agradeceu a Haftor pelo milagre de Crizagom que a auxiliara na batalha.

Não haverá pausa

Garuk e o Guia foram os últimos a se recolherem. Réctor, porém, teve um despertar incomum.

Ao abrir os olhos, viu os reflexos do sol iluminando o horizonte, pouco antes da aurora. Mas o sol não nascia; o momento estava congelado. A porta de seu quarto levou-o a uma colina, fora dos limites da Casa dos Sonhos. À sua frente, uma entidade misteriosa: esguia, alta, sem face, formada de vapor e suspiros.

— Eu não tenho nome… sou Aquilo que Vela o Instante — respondeu a forma onírica ao pensamento de Réctor, guiando-o até o topo da colina. Lá, a Aurora Gelada encontrava-se sentada sobre uma lápide.

A Titã era uma silhueta feminina de escuridão com bordas brilhantes e corpo preenchido por estrelas. Seus olhos, fechados, pareciam o sol no horizonte.

— Ela não pode ser ajudada agora e não deve desaparecer — alertou a entidade quando Réctor tentou se aproximar.

— Há algo que eu possa fazer para ajudar?

— A sua presença aqui é irrelevante, mas as suas palavras podem mudar a trajetória do mundo.

A silhueta da Aurora ganhou nitidez. Seus olhos tentaram se abrir, revelando um brilho vermelho.

— Da última vez ela foi interrompida em seu Luminávis… quando o mundo escolheu lembrar dos deuses e esquecer do que veio antes — disse enigmaticamente Aquilo que Vela o Instante.

Réctor compreendia parcialmente. Luminávis era um termo da tradição dos sonhadores: o momento em que os olhos se abrem. Não apenas um despertar, mas o instante em que a luz se revela após um longo descanso e o processo se torna irreversível.

A entidade finalmente se pronunciou com voz forte e ecoante:

— Fui chamada cedo demais e impedida tarde demais da última vez. Quando o Luminávis vier outra vez, não haverá pausa.

Com a sentença proferida, o sol rompeu o horizonte e Réctor despertou em sobressalto na casa de Fáfnir. Intrigado, explicou a visão ao mentor.

— Se ela está preparada para acordar desta vez, talvez esteja precisando de muita energia. E é isso que todos estão atrás — ponderou Fáfnir.

Floresta de Eudam, Terras Selvagens, dias 3 e 4 do mês da Sabedoria do ano de 1502.

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