A caravana suspeita
Deixando a Casa de Fáfnir
A Casa dos Sonhos de Fáfnir havia retornado a um estado estável, livre das ameaças que o grupo enfrentara ao chegar. Ainda assim, a ameaça maior persistia, e os aventureiros buscavam compreender como impedir a expansão da sombra.
— E o tal do pergaminho, vocês analisaram? — indagou o Guia, esperando obter mais uma peça do quebra-cabeça. O feiticeiro, porém, não conseguiu fornecer muitas informações adicionais.
Por outro lado, foi o próprio grupo que esclareceu a Fáfnir a origem da mensagem que ele carregava, trazida por um comerciante elfo sombrio.
— Ô, Fáfnir… alguém te acha importante lá na Caridrândia. Esse tipo de papel não é usado para qualquer um — ironizou o Guia, explicando que aquele pergaminho era reservado a comunicações destinadas a figuras de relevância no universo sombrio.
Réctor também questionou seu mentor, tentando compreender como a mácula fora capaz de invadir sua Casa dos Sonhos. O napol temia que sua própria morada onírica pudesse ser afetada. Ao ser indagado sobre a chuva estranha, Fáfnir apresentou outra hipótese:
— Aqui choveu, sim, mas creio que tenha sido uma criação minha. Acredito que a contaminação de Eudam tenha passado para mim.
— Se você foi contaminado, qualquer um pode ser — ponderou Réctor, antes de advertir: — Evite a chuva sombria e os cogumelos que nascem dela. Geralmente, uma aurora azulada aparece no céu quando essa chuva cai. Tome cuidado.
Ao retomarem o assunto sobre o comerciante sombrio, o grupo alertou Fáfnir para que fosse cauteloso. Réctor ainda pediu que o mentor comunicasse os patrulheiros humanos sobre a presença daquele indivíduo.
Conduzidos até o arco de flores na estrada, os aventureiros se despediram enquanto Fáfnir, com um gesto mágico, reabria a passagem de volta para a Floresta de Eudam.
— Obrigado pela hospitalidade, senhor. Lamento que não tenha sido como esperava — disse Réctor.
— Eu é que agradeço. Meu poder está um pouco mais forte agora. Se precisar falar comigo, podemos nos encontrar em sonhos — respondeu o feiticeiro.
A caravana suspeita
Nevava na fria Floresta de Eudam quando o grupo deixou a Casa dos Sonhos. A porta do reino onírico se abriu no mesmo ponto da entrada: uma trilha esquecida no meio da floresta.
Ciente dos riscos da região, Réctor utilizou suas energias para transportar o grupo até a estrada principal que levava a Telas. O feitiço precisou ser conjurado várias vezes devido ao tamanho da comitiva, mas poupou-lhes facilmente meio dia de viagem e evitou os perigos da floresta.
O caminho bem cuidado não apresentou ameaças. Ao final do dia, os aventureiros alcançaram uma estalagem fortificada à beira da estrada, onde reservaram um quarto.
A noite transcorreu sem incidentes. A estalagem era ponto frequente de comerciantes, e guardas mantinham vigilância nos andares superiores.
Na manhã seguinte, porém, uma caravana peculiar chamou a atenção do grupo. Liderada por um casal de elfos e escoltada por meia dúzia de humanos, parecia ter chegado durante a noite, detendo-se apenas para reabastecer. Dois bovinos carregavam sacos bem amarrados, dos quais o Guia farejou o odor de ervas.
Desconfiado, Réctor lançou sua Detecção de Magia sobre o elfo dourado. Ele estava envolto em inúmeros efeitos mágicos difíceis de identificar. A quantidade de ilusões era tamanha que o napol chegou a questionar se ele era realmente um elfo. A maioria das magias parecia alterar a aparência de roupas nobres para trajes simples.
Com um gesto exagerado, Réctor curvou-se em reverência diante do elfo, deixando-o visivelmente constrangido.
— Levante-se, senhor. Não sou nenhum nobre. Sou apenas um humilde comerciante.
— Senti cheiro de ervas. Estão vendendo o quê, exatamente?
O elfo, que se apresentou como Alariel, confirmou o transporte de ervas aromáticas. Sua companheira entregou a Réctor uma bolsa contendo uma pequena coleção das plantas comercializadas — um presente. O feiticeiro reconheceu o potencial alquímico do material, mas não comentou.
— Lhes darei um presente também. Uma poção de doenças. Curará, com certeza — disse o napol, entregando o frasco à elfa.
Os elfos respondiam às perguntas sem hesitar, ainda que de forma evasiva, despertando suspeitas quanto ao destino da caravana. Alegaram vir de Lar, ter cruzado as montanhas de Blur e seguir rumo a Trisque, onde exportariam as ervas para os reinos do norte.
Haftor desconfiou imediatamente. Elfos de Lar atravessando as montanhas não soava plausível.
— Vocês passaram por Gama-Tyr?
— Exatamente. Claro — respondeu Alariel, com naturalidade.
Era uma armadilha. Haftor inventara o nome do local e, com isso, confirmou que eles não haviam cruzado o reino anão. Guardou a informação para si até a partida da caravana.
Contrabandistas, fugitivos, espiões dos elfos sombrios — todas as possibilidades passaram pela mente do grupo assim que a caravana deixou a estalagem. Precisavam descobrir mais, mas temiam iniciar um confronto mortal por um engano.
Demétrius se ofereceu.
— Se eu tivesse meu anel de invisibilidade, poderia descobrir mais detalhes…
Réctor entregou-lhe o objeto, depositando nele uma confiança até então inédita. Ainda assim, o napol sabia que o Atravessador não teria para onde fugir, caso tentasse algo.
O retorno do ladino
Demétrius partiu em perseguição à caravana, desaparecendo na floresta.
Enquanto isso, o Guia e Haldor avançaram alguns quilômetros pela estrada, investigando possíveis sinais de perigo. Não encontraram rastros das ameaças da Floresta de Eudam mencionadas por Tariq dias antes.
Horas depois, o Atravessador reapareceu na estalagem, exausto e suando.
— Consegui… ufa. Foi difícil, mas consegui.
— E o que você achou? — perguntou o Guia, quando o grupo se reuniu discretamente.
Demétrius sentou-se, pediu água, recuperou o fôlego e, teatralmente, colocou uma algibeira e um pergaminho sobre a mesa.
— Peguei isso de um dos guardas. Ele vinha por último e não parecia muito esperto.
Da algibeira, retirou duas moedas de ouro cunhadas em Caridrândia. Uma delas estava manchada de sangue.
— Esses elfos… será que estão fazendo negócio lá?
— Elfos de Lar não costumam se dar bem com os sombrios — refletiu Demétrius. — Ou roubaram elfos sombrios, ou são agentes que não mantêm boas relações com Lar.
— Isso aqui também é sangue de elfo sombrio — confirmou o Guia, farejando as moedas.
O pergaminho era um inventário de carga. O detalhe mais importante estava na assinatura.
— Isso aqui me chamou atenção — disse o ladino. — Já escrevi documentos para Táviga vindos dessa pessoa. Litari. Sempre vinham com materiais estranhos, mas despachados como mercadorias comuns.
O nome era desconhecido para o restante do grupo, reforçando ainda mais as suspeitas. Ainda assim, decidiram manter o foco na missão principal: chegar a Telas.
A chegada em Telas
O frio intensificou-se nos dias seguintes. As temperaturas atingiam −10 °C durante o dia, e a neve tornava a viagem extenuante. Encantamentos e agasalhos permitiram que o grupo avançasse pela estrada bem mantida.
A aproximação da lendária Telas ocorreu à noite. O céu cinzento era subitamente interrompido por um círculo perfeito de estrelas, onde as nuvens se dissipavam abruptamente.
Ao avançarem, os aventureiros atravessaram uma fronteira invisível. O frio cortante deu lugar a um calor tropical e úmido. A neve transformou-se em chuva, o solo em lama, e a vegetação mudou gradualmente de pinheiros cobertos de gelo para árvores verdejantes e densas.
— Então é verdade… o campo de calor do Domo de Arminus. Dezesseis quilômetros a partir dele — explicou Silvan, maravilhado.
Logo, Telas revelou-se em toda a sua grandiosidade: um arco de rochas ornamentado em ouro e, ao fundo, o Domo de Arminus, uma estrutura colossal de 200 metros de altura e 400 de largura, refletindo as luzes da cidade ao redor, repleta de casarões e torres de magos.
O grupo forçou a marcha até a cidade. Era tarde demais para visitar o Colégio do Conhecimento, então buscaram uma taverna.
Réctor sobrevoou Telas para um reconhecimento aéreo. Ao planar sobre o Domo, sentiu a corrente de ar quente sustentá-lo com facilidade. Subitamente, porém, sua consciência vacilou. Ele recuou antes que algo pior acontecesse.
— Pelo menos peguem o quarto de luxo! — reclamou a taverneira, quando o grupo tentou alugar um aposento simples para os dezesseis membros da comitiva. Diante do argumento, pagaram as dez moedas de ouro.
Na Casa dos Sonhos, Réctor percebeu mudanças. O Domo de Arminus afetava até sua paisagem onírica, surgindo no horizonte além da névoa que delimitava o feitiço.
— Você sobrevoou o Domo? Interessante. Dizem que aquela área é uma potente antimagia — comentou Silvan, em tom mais amigável.
O Guia não entrou na Casa dos Sonhos. Permaneceu desperto, enviando sua sombra para investigar a cidade. Seu objetivo era encontrar rastros de elfos sombrios.
A projeção percorreu áreas centrais: magos estudando, napóis negociando em jardins suspensos, guardas patrulhando e um púlpito próximo ao Domo. O cheiro de elfos sombrios era inconfundível e estava por toda parte.
Ao se aproximar do Domo, porém, a sombra tornou-se pesada, lenta. Correr era impossível; até andar exigia esforço. Após contornar o perímetro, o Guia desfez o feitiço e encerrou a noite.
O colégio do conhecimento
— Posso ficar na sua Casa dos Sonhos enquanto vocês vão ao Colégio? — perguntou Demétrius, temeroso de ser reconhecido.
Réctor permitiu, não sem uma ameaça velada:
— Você resolveu os assuntos com eles. Eles não resolveram com você.
Frida despediu-se do grupo e de Silvan, encerrando sua escolta iniciada em Portis.
Os aventureiros acompanharam Silvan e seus pupilos ao Colégio do Conhecimento, recebendo ali a recompensa combinada: vinte moedas de ouro para cada um. Antes mesmo de entrarem, enfrentaram um novo obstáculo.
— Senhor Asdrúbal, Arauto da Pedra do Saber, peço acesso a este feiticeiro — disse Silvan.
O homem careca, de robe ornamentado e rubi ao peito, torceu o nariz.
— O artigo quarto da Fundação não permite ignorantes aqui.
— Garanto que está enganado — rebateu Silvan. — Este napol possui conhecimento que poucos pupilos alcançam.
Após breve discussão, Asdrúbal cedeu, a contragosto.
Com a autorização, o grupo desceu por uma vasta biblioteca subterrânea circular. Dorian já estudava em uma das mesas.
O Guia percorreu os corredores farejando rastros de elfos sombrios. Encontrou livros manuseados recentemente e, sem cerimônia, empilhou-os sobre a mesa de Dorian.
— Ei! Não bagunce assim! — protestou um estudante.
— Vai pra lá — rosnou Garuk, mostrando os dentes. O estudante recuou.
Entre os tomos analisados, destacavam-se:
- registros de plantações em ambientes escuros, como Caridrândia;
- um tomo sobre a magia da Restauração;
- estudos sobre armazenamento de karma em focos exóticos;
- outros assuntos místicos variados.
Silvan trouxe Elara, mestra do conhecimento, para conversar com o grupo. A primeira pergunta foi direta: elfos sombrios estiveram no colégio?
— Sim. Vieram como emissários. Em troca, temos acesso à biblioteca de Caridrândia.
A conversa seguiu para o gabinete privado. Elara confirmou informações cruciais: Calindor, um comerciante elfo sombrio ativo na região; prismas que brilham ao redor do Domo; Shalash alegando ver a entidade que desperta; e duas facções entre os elfos sombrios.
Ela também relacionou a Aurora Gelada à Rainha Pálida e ao Rei Dragão das Geleiras.
Pressionada por Réctor, Elara deu sua opinião pessoal:
— Acredito que seja, de fato, uma entidade despertando. Algo de outro tempo.
— Ela me disse: “Desta vez não haverá pausa” — revelou Réctor.
A conversa foi interrompida por um mensageiro.
— Senhora Elara, Divalin exige uma audiência. Diz que a Forja está esfriando outra vez. Está acompanhado de quatro anões armados.
— Preciso atender isso — disse a mestra, encerrando a reunião.
— Se importa de dizer do que se trata? — perguntou Haftor.
— Talvez diga respeito a você. Anões afirmam que o Krokanon está esfriando.
Floresta de Eudam e Telas, dias 4 a 8 do mês da Sabedoria do ano de 1502.




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