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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

(VS) Sessão 20

A diplomacia em Zir-Kura

O corpo

O corpo do clone de Hothspoth jazia na gruta, sem vida. Não havia sinais aparentes de luta, embora o capacete estivesse quebrado. Kassius, Flynn e Hothspoth dividiram-se para investigar o ocorrido.

Kassius permaneceu na entrada da gruta, mantendo guarda.

Hothspoth realizou uma análise superficial do cadáver. Encontrou um dispositivo de gravação e coletou digitais após remover a luva. Em seguida, desfez-se do corpo por meio de um buraco negro. O cadáver foi tragado rapidamente pela singularidade; ainda assim, o solariano teve a nítida impressão de vê-lo “pixelar” antes de desaparecer no vácuo, como se sofresse algum tipo de oscilação digital.

Flynn explorou o interior da gruta. Ela não era profunda, mas suficiente para bloquear qualquer luz externa. Utilizando uma lanterna, o solariano identificou dezesseis ranhuras artificiais marcadas na parede final da caverna, sugerindo uma contagem. Rastros de pernas ou pés arrastados eram detectáveis, com algum esforço, no caminho que ligava o fundo da gruta à entrada.

A demora dos companheiros começava a preocupar Ed e Rykk, mas o grupo chegou antes que decidissem abandonar a espera. Reunidos, todos foram conduzidos por Gravolt até um elevador de contrapeso, que os levou ao interior de uma metrópole karuum — uma imensa colmeia chamada Zir-Kura.

A matriarca

Zir-Kura ocupava plenamente as três dimensões. A caverna era repleta de conexões verticais e inclinadas, túneis e passarelas por onde os nativos transitavam e negociavam. Nas paredes mais robustas, grandes entradas levavam a áreas residenciais. A escuridão predominava, mas milhares de olhos azuis brilhantes eram visíveis por todos os lados.

O povo de Zir-Kura era governado por uma matriarca, uma karuum ao menos cinquenta vezes maior que os demais. Ela aguardava o grupo em um vasto ambiente em forma de domo, onde centenas de nativos podiam observá-los através das paredes.

— Bem-vindos a Zir-Kura. Eu sou Burom, e já sei que não trazem boas notícias.

Liderado por Rykk, o grupo explicou o colapso que a Âncora estava impedindo de ocorrer no planeta. Alertaram também sobre a existência de “maus atores” nos Mundos do Pacto, que poderiam tentar tomar o artefato à força.

Burom respondeu que a Âncora era uma salvadora e um símbolo da resistência karuum, e que protegê-la estava intrinsecamente ligado à cultura de sua espécie.

Apesar das controvérsias, a matriarca mostrou-se sábia. Compreendeu que poderia conduzir seu povo a aceitar mudanças, desde que houvesse uma alternativa para salvá-los do planeta moribundo. Em seguida, entregou a Rykk um mineral polido, formado por hexágonos planos em dois lados.

— Com isso, conseguirão nos encontrar novamente.

Rykk então questionou sobre o clone de Hothspoth:

— Gostaria de fazer uma pergunta. Vocês já viram alguma criatura parecida conosco por aqui?

— Sim… além das assombrações da névoa, houve um indivíduo — respondeu Burom. Apontando para Hothspoth, continuou: — Ele já esteve aqui. Eu me lembro de você.

— Não foi exatamente ele, mas alguém muito parecido. Sabe o que ele fazia? Para onde ia?

— Ele era um dos seguidores da Âncora. Aproximava-se dela e fazia orações. A Âncora reagia à sua presença. Às vezes, ele a tocava e sempre saía alterado: por vezes enfraquecido, por vezes energizado.

— E depois disso?

— Ele se perdia na névoa. Às vezes, pensávamos que fosse uma das assombrações. Mas sempre retornava.

Enquanto Rykk dialogava com a matriarca, os nativos mantinham conversas paralelas, um burburinho que Berenice não conseguia traduzir de imediato. Após algum tempo, a IA alertou:

— Consegui decifrar parte do que estão dizendo. Falam que as assombrações estão se aproximando da Âncora. Já levaram três karuum.

— A Âncora nos protege das assombrações — esclareceu Burom. — Elas vivem na superfície, mas não se aproximavam de nosso centro sagrado. Agora estão se aproximando, e não compreendemos o motivo.

Burom ofereceu abrigo ao grupo, mas Rykk recusou educadamente, afirmando que permaneceriam na nave. Os aventureiros deixaram a câmara com o artefato e iniciaram o retorno pela superfície.

A gruta do clone

A superfície de K375 mostrou-se ainda mais hostil durante o retorno. Uma tempestade radioativa e ácida aproximava-se rapidamente. A visibilidade caiu para menos de dez metros, forçando o grupo a buscar abrigo junto às paredes do canyon.

Quando o clima se estabilizou, Flynn guiou o grupo de volta à gruta onde o clone fora encontrado, para apresentá-la a Rykk e Ed.

Flynn mostrou as dezesseis ranhuras. Ed tocou-as com os dedos do braço direito, esperando uma visão semelhante à que tivera ao tocar Hothspoth. Não houve imagens, mas um conhecimento instintivo: aquelas marcas representavam o número de tentativas.

— Tentativas de quê? — perguntou Rykk.

— Talvez de sintonizar com a Âncora — sugeriu Hothspoth.

Nesse momento, Berenice interrompeu:

— Concluí o processamento do dispositivo de áudio encontrado. Eis a gravação:

“Registro unidade Ícarus Beta. Localizei o alvo em K375. Atmosfera irrelevante. A extração do fóssil quatro deve iniciar antes que os nativos percebam a ressonância. Estou usando os vetores de entrada do IC1 de Castrovel. Se a fusão falhar e me capturarem antes, digam a Reed que o cálculo de spin estava errado. Fim da transmissão.”

Apesar da degradação do áudio, Berenice confirmou que o padrão vocal era compatível com o de Hothspoth.

Planejando retorno

De volta à segurança da nave Berenice, a tripulação passou a discutir o próximo destino.

— Você acha que Solária ajudaria? Estamos ficando com poucos aliados — questionou Rykk.

— Talvez. Se não estiverem comprometidos. Não posso garantir — respondeu Flynn.

— Então temos que ir a Solária e falar com Gárik — decidiu o capitão.

Berenice, contudo, relembrou que Grê-On vivia no cinturão de asteroides de Akiton, onde se localizava Solária, e que a Lança de Hierofante já mantinha vigilância na região. A ideia foi descartada, ao menos temporariamente.

— E se enviássemos uma mensagem para que Gárik nos encontrasse em outro planeta, sem informar a Lança?

— A mensagem pode ser interceptada. Há riscos — alertou Berenice.

Pip interveio, recorrendo à sua experiência como pirata:

— Contrata um mensageiro. Eu fazia isso o tempo todo. Na Diáspora sempre tem alguém disposto a entregar mensagens por alguns créditos. Robôs são melhores; têm menos medo de serem abatidos.

— Certo. Mundos do Pacto, então. Pegamos um mensageiro e depois vamos caçar o Tanaka — concluiu Rykk.

Edric iniciou os protocolos de Deriva. A estimativa foi de oito dias de viagem, tempo suficiente para o grupo se preparar.

Rykk fabricou venenos a partir do herbário, produzindo quatro dardos de veneno paralisante. Paralelamente, a doutora Astra instalou um aprimoramento de pele fotossintética em Flynn, ampliando sua resistência a ambientes extremos.

Edric permanecia inquieto com a visão que tivera ao tocar o relicário da perna. Evitou repetir a experiência com os olhos e o cérebro por dias, mas acabou cedendo.

Ao tocar o objeto âmbar com o braço direito, foi lançado a uma nova visão do Incidente Riven Shroud.

Em um corredor metálico, um tentáculo horrendo se expandia, cobrindo cada abertura. A visão acompanhou o apêndice enquanto ele atingia pessoas que pareciam ignorar completamente sua presença. Edric reconheceu uma delas: Irlanda, a irmã de Flynn.

Subitamente, Edric adquiriu conhecimentos que jamais possuíra. O Santo fechava fendas entre realidades — e fragmentara-se deliberadamente após selar a última delas.

A enxurrada de informações foi extenuante. Edric estava à beira do colapso. Sentindo-se fraco, ativou o comunicador:

— Eu acho que vou desm…


K375-Prime, a Vastidão — Domingo 26 de Desnus, a Terça, 2 de Serenith de 325 DL.

domingo, 18 de janeiro de 2026

(LA) Sessão 25

A caravana suspeita

Deixando a Casa de Fáfnir

A Casa dos Sonhos de Fáfnir havia retornado a um estado estável, livre das ameaças que o grupo enfrentara ao chegar. Ainda assim, a ameaça maior persistia, e os aventureiros buscavam compreender como impedir a expansão da sombra.

— E o tal do pergaminho, vocês analisaram? — indagou o Guia, esperando obter mais uma peça do quebra-cabeça. O feiticeiro, porém, não conseguiu fornecer muitas informações adicionais.

Por outro lado, foi o próprio grupo que esclareceu a Fáfnir a origem da mensagem que ele carregava, trazida por um comerciante elfo sombrio.

— Ô, Fáfnir… alguém te acha importante lá na Caridrândia. Esse tipo de papel não é usado para qualquer um — ironizou o Guia, explicando que aquele pergaminho era reservado a comunicações destinadas a figuras de relevância no universo sombrio.

Réctor também questionou seu mentor, tentando compreender como a mácula fora capaz de invadir sua Casa dos Sonhos. O napol temia que sua própria morada onírica pudesse ser afetada. Ao ser indagado sobre a chuva estranha, Fáfnir apresentou outra hipótese:

— Aqui choveu, sim, mas creio que tenha sido uma criação minha. Acredito que a contaminação de Eudam tenha passado para mim.

— Se você foi contaminado, qualquer um pode ser — ponderou Réctor, antes de advertir: — Evite a chuva sombria e os cogumelos que nascem dela. Geralmente, uma aurora azulada aparece no céu quando essa chuva cai. Tome cuidado.

Ao retomarem o assunto sobre o comerciante sombrio, o grupo alertou Fáfnir para que fosse cauteloso. Réctor ainda pediu que o mentor comunicasse os patrulheiros humanos sobre a presença daquele indivíduo.

Conduzidos até o arco de flores na estrada, os aventureiros se despediram enquanto Fáfnir, com um gesto mágico, reabria a passagem de volta para a Floresta de Eudam.

— Obrigado pela hospitalidade, senhor. Lamento que não tenha sido como esperava — disse Réctor.

— Eu é que agradeço. Meu poder está um pouco mais forte agora. Se precisar falar comigo, podemos nos encontrar em sonhos — respondeu o feiticeiro.

A caravana suspeita

Nevava na fria Floresta de Eudam quando o grupo deixou a Casa dos Sonhos. A porta do reino onírico se abriu no mesmo ponto da entrada: uma trilha esquecida no meio da floresta.

Ciente dos riscos da região, Réctor utilizou suas energias para transportar o grupo até a estrada principal que levava a Telas. O feitiço precisou ser conjurado várias vezes devido ao tamanho da comitiva, mas poupou-lhes facilmente meio dia de viagem e evitou os perigos da floresta.

O caminho bem cuidado não apresentou ameaças. Ao final do dia, os aventureiros alcançaram uma estalagem fortificada à beira da estrada, onde reservaram um quarto.

A noite transcorreu sem incidentes. A estalagem era ponto frequente de comerciantes, e guardas mantinham vigilância nos andares superiores.

Na manhã seguinte, porém, uma caravana peculiar chamou a atenção do grupo. Liderada por um casal de elfos e escoltada por meia dúzia de humanos, parecia ter chegado durante a noite, detendo-se apenas para reabastecer. Dois bovinos carregavam sacos bem amarrados, dos quais o Guia farejou o odor de ervas.

Desconfiado, Réctor lançou sua Detecção de Magia sobre o elfo dourado. Ele estava envolto em inúmeros efeitos mágicos difíceis de identificar. A quantidade de ilusões era tamanha que o napol chegou a questionar se ele era realmente um elfo. A maioria das magias parecia alterar a aparência de roupas nobres para trajes simples.

Com um gesto exagerado, Réctor curvou-se em reverência diante do elfo, deixando-o visivelmente constrangido.

— Levante-se, senhor. Não sou nenhum nobre. Sou apenas um humilde comerciante.

— Senti cheiro de ervas. Estão vendendo o quê, exatamente?

O elfo, que se apresentou como Alariel, confirmou o transporte de ervas aromáticas. Sua companheira entregou a Réctor uma bolsa contendo uma pequena coleção das plantas comercializadas — um presente. O feiticeiro reconheceu o potencial alquímico do material, mas não comentou.

— Lhes darei um presente também. Uma poção de doenças. Curará, com certeza — disse o napol, entregando o frasco à elfa.

Os elfos respondiam às perguntas sem hesitar, ainda que de forma evasiva, despertando suspeitas quanto ao destino da caravana. Alegaram vir de Lar, ter cruzado as montanhas de Blur e seguir rumo a Trisque, onde exportariam as ervas para os reinos do norte.

Haftor desconfiou imediatamente. Elfos de Lar atravessando as montanhas não soava plausível.

— Vocês passaram por Gama-Tyr?

— Exatamente. Claro — respondeu Alariel, com naturalidade.

Era uma armadilha. Haftor inventara o nome do local e, com isso, confirmou que eles não haviam cruzado o reino anão. Guardou a informação para si até a partida da caravana.

Contrabandistas, fugitivos, espiões dos elfos sombrios — todas as possibilidades passaram pela mente do grupo assim que a caravana deixou a estalagem. Precisavam descobrir mais, mas temiam iniciar um confronto mortal por um engano.

Demétrius se ofereceu.

— Se eu tivesse meu anel de invisibilidade, poderia descobrir mais detalhes…

Réctor entregou-lhe o objeto, depositando nele uma confiança até então inédita. Ainda assim, o napol sabia que o Atravessador não teria para onde fugir, caso tentasse algo.

O retorno do ladino

Demétrius partiu em perseguição à caravana, desaparecendo na floresta.

Enquanto isso, o Guia e Haldor avançaram alguns quilômetros pela estrada, investigando possíveis sinais de perigo. Não encontraram rastros das ameaças da Floresta de Eudam mencionadas por Tariq dias antes.

Horas depois, o Atravessador reapareceu na estalagem, exausto e suando.

— Consegui… ufa. Foi difícil, mas consegui.

— E o que você achou? — perguntou o Guia, quando o grupo se reuniu discretamente.

Demétrius sentou-se, pediu água, recuperou o fôlego e, teatralmente, colocou uma algibeira e um pergaminho sobre a mesa.

— Peguei isso de um dos guardas. Ele vinha por último e não parecia muito esperto.

Da algibeira, retirou duas moedas de ouro cunhadas em Caridrândia. Uma delas estava manchada de sangue.

— Esses elfos… será que estão fazendo negócio lá?

— Elfos de Lar não costumam se dar bem com os sombrios — refletiu Demétrius. — Ou roubaram elfos sombrios, ou são agentes que não mantêm boas relações com Lar.

— Isso aqui também é sangue de elfo sombrio — confirmou o Guia, farejando as moedas.

O pergaminho era um inventário de carga. O detalhe mais importante estava na assinatura.

— Isso aqui me chamou atenção — disse o ladino. — Já escrevi documentos para Táviga vindos dessa pessoa. Litari. Sempre vinham com materiais estranhos, mas despachados como mercadorias comuns.

O nome era desconhecido para o restante do grupo, reforçando ainda mais as suspeitas. Ainda assim, decidiram manter o foco na missão principal: chegar a Telas.

A chegada em Telas

O frio intensificou-se nos dias seguintes. As temperaturas atingiam −10 °C durante o dia, e a neve tornava a viagem extenuante. Encantamentos e agasalhos permitiram que o grupo avançasse pela estrada bem mantida.

A aproximação da lendária Telas ocorreu à noite. O céu cinzento era subitamente interrompido por um círculo perfeito de estrelas, onde as nuvens se dissipavam abruptamente.

Ao avançarem, os aventureiros atravessaram uma fronteira invisível. O frio cortante deu lugar a um calor tropical e úmido. A neve transformou-se em chuva, o solo em lama, e a vegetação mudou gradualmente de pinheiros cobertos de gelo para árvores verdejantes e densas.

— Então é verdade… o campo de calor do Domo de Arminus. Dezesseis quilômetros a partir dele — explicou Silvan, maravilhado.

Logo, Telas revelou-se em toda a sua grandiosidade: um arco de rochas ornamentado em ouro e, ao fundo, o Domo de Arminus, uma estrutura colossal de 200 metros de altura e 400 de largura, refletindo as luzes da cidade ao redor, repleta de casarões e torres de magos.

O grupo forçou a marcha até a cidade. Era tarde demais para visitar o Colégio do Conhecimento, então buscaram uma taverna.

Réctor sobrevoou Telas para um reconhecimento aéreo. Ao planar sobre o Domo, sentiu a corrente de ar quente sustentá-lo com facilidade. Subitamente, porém, sua consciência vacilou. Ele recuou antes que algo pior acontecesse.

— Pelo menos peguem o quarto de luxo! — reclamou a taverneira, quando o grupo tentou alugar um aposento simples para os dezesseis membros da comitiva. Diante do argumento, pagaram as dez moedas de ouro.

Na Casa dos Sonhos, Réctor percebeu mudanças. O Domo de Arminus afetava até sua paisagem onírica, surgindo no horizonte além da névoa que delimitava o feitiço.

— Você sobrevoou o Domo? Interessante. Dizem que aquela área é uma potente antimagia — comentou Silvan, em tom mais amigável.

O Guia não entrou na Casa dos Sonhos. Permaneceu desperto, enviando sua sombra para investigar a cidade. Seu objetivo era encontrar rastros de elfos sombrios.

A projeção percorreu áreas centrais: magos estudando, napóis negociando em jardins suspensos, guardas patrulhando e um púlpito próximo ao Domo. O cheiro de elfos sombrios era inconfundível e estava por toda parte.

Ao se aproximar do Domo, porém, a sombra tornou-se pesada, lenta. Correr era impossível; até andar exigia esforço. Após contornar o perímetro, o Guia desfez o feitiço e encerrou a noite.

O colégio do conhecimento

— Posso ficar na sua Casa dos Sonhos enquanto vocês vão ao Colégio? — perguntou Demétrius, temeroso de ser reconhecido.

Réctor permitiu, não sem uma ameaça velada:

— Você resolveu os assuntos com eles. Eles não resolveram com você.

Frida despediu-se do grupo e de Silvan, encerrando sua escolta iniciada em Portis.

Os aventureiros acompanharam Silvan e seus pupilos ao Colégio do Conhecimento, recebendo ali a recompensa combinada: vinte moedas de ouro para cada um. Antes mesmo de entrarem, enfrentaram um novo obstáculo.

— Senhor Asdrúbal, Arauto da Pedra do Saber, peço acesso a este feiticeiro — disse Silvan.

O homem careca, de robe ornamentado e rubi ao peito, torceu o nariz.

— O artigo quarto da Fundação não permite ignorantes aqui.

— Garanto que está enganado — rebateu Silvan. — Este napol possui conhecimento que poucos pupilos alcançam.

Após breve discussão, Asdrúbal cedeu, a contragosto.

Com a autorização, o grupo desceu por uma vasta biblioteca subterrânea circular. Dorian já estudava em uma das mesas.

O Guia percorreu os corredores farejando rastros de elfos sombrios. Encontrou livros manuseados recentemente e, sem cerimônia, empilhou-os sobre a mesa de Dorian.

— Ei! Não bagunce assim! — protestou um estudante.

— Vai pra lá — rosnou Garuk, mostrando os dentes. O estudante recuou.

Entre os tomos analisados, destacavam-se:

  • registros de plantações em ambientes escuros, como Caridrândia;
  • um tomo sobre a magia da Restauração;
  • estudos sobre armazenamento de karma em focos exóticos;
  • outros assuntos místicos variados.

Silvan trouxe Elara, mestra do conhecimento, para conversar com o grupo. A primeira pergunta foi direta: elfos sombrios estiveram no colégio?

— Sim. Vieram como emissários. Em troca, temos acesso à biblioteca de Caridrândia.

A conversa seguiu para o gabinete privado. Elara confirmou informações cruciais: Calindor, um comerciante elfo sombrio ativo na região; prismas que brilham ao redor do Domo; Shalash alegando ver a entidade que desperta; e duas facções entre os elfos sombrios.

Ela também relacionou a Aurora Gelada à Rainha Pálida e ao Rei Dragão das Geleiras.

Pressionada por Réctor, Elara deu sua opinião pessoal:

— Acredito que seja, de fato, uma entidade despertando. Algo de outro tempo.

— Ela me disse: “Desta vez não haverá pausa” — revelou Réctor.

A conversa foi interrompida por um mensageiro.

— Senhora Elara, Divalin exige uma audiência. Diz que a Forja está esfriando outra vez. Está acompanhado de quatro anões armados.

— Preciso atender isso — disse a mestra, encerrando a reunião.

— Se importa de dizer do que se trata? — perguntou Haftor.

— Talvez diga respeito a você. Anões afirmam que o Krokanon está esfriando.

Floresta de Eudam e Telas, dias 4 a 8 do mês da Sabedoria do ano de 1502.

sábado, 17 de janeiro de 2026

(VS) Sessão 19

A imunidade karuum

Mostrando o problema

O grupo levou os nativos Gravolt e Thulknar para a nave, a fim de mostrar a eles a situação delicada em que se encontrava seu sistema estelar. Devido à gravidade local e ao grande peso dos nativos, Rykk decidiu transportar Gravolt em suas costas, enquanto Kassius carregou Thulknar em seus braços. Isso manteve todos os aventureiros com uma carga viável, permitindo o retorno à nave sem exaustão extrema.

O trajeto de retorno ocorreu sem percalços, apesar do esforço físico envolvido. Ao avistarem Berenice em meio à névoa amarela, Gravolt e Thulknar ficaram visivelmente impressionados, recebendo então a explicação de que aquela estrutura era uma nave capaz de deixar o planeta.

Os visitantes foram conduzidos à sala de conferência, onde lhes foi apresentada a imagem de seu planeta visto do espaço. Em seguida, Berenice exibiu o sistema binário no qual K375-Prime estava inserido e a simulação da catástrofe prevista para ocorrer em aproximadamente 420 anos.

Durante as simulações, porém, Berenice chegou a uma conclusão que mudou completamente o ritmo das descobertas. Segundo a IA, a destruição do planeta não ocorreria no prazo estimado. Na verdade, ela já deveria ter acontecido. O fragmento relicário estava funcionando como uma âncora gravitacional, mantendo o sistema estável de forma permanente.

— Se a gente tirar a âncora daí, o que acontece? — questionou Rykk.

— Setenta e duas horas — respondeu a IA. — Esse seria o tempo necessário para que o planeta fosse consumido pelas estrelas. Eu suponho que a âncora chegou aqui no exato momento em que a catástrofe ocorreria. Não previ que ela estivesse sustentando todo o sistema.

A notícia interrompeu abruptamente a apresentação. Astra solicitou que um dos dois alienígenas se voluntariasse para uma análise médica rápida. Gravolt aceitou.

— Me acompanhe também, capitão. Vou precisar de você.

A imunidade

— São organismos à base de sílica — revelou Astra, enquanto realizava as análises iniciais do karuum. A androide concentrava-se especialmente na Síndrome da Marcha Definhante, considerando a enorme exposição à radiação sepulcral causada pela proximidade com o fóssil relicário.

— Eles estão adaptados à sobrevivência sob radiação sepulcral — continuou. — Contudo, nela, essa energia não provoca a doença. Além disso, a radiação presente nos corpos deles não parece ser inteiramente equivalente àquela que vocês conhecem, como se parte dela não se originasse desta dimensão.

— Então achamos a cura? Agora é só evitar um genocídio! — exclamou Rykk.

Astra foi menos otimista. Reconhecia a importância da descoberta, mas afirmou que seriam necessários mais dados e estudos antes de qualquer conclusão definitiva.

Enquanto isso, Edric e Hothspoth dirigiram-se à quadra de basquete. O operativo esperava uma partida competitiva, mas, ao perceber a falta de entusiasmo do colega, foi direto ao assunto.

— Hothspoth, quando toquei em você lá na câmara da âncora… eu vi vários de vocês.

— Sim. Eles estão comigo. São outros de mim — respondeu o solariano, com naturalidade.

Berenice interveio, explicando que os indícios sugeriam que Ed era um receptáculo, assim como Irlanda, a irmã de Flynn. Hothspoth também tomou conhecimento de que era um clone do soldado Ícarus, embora ainda não compreendesse plenamente suas visões.

O solariano deixou a quadra e seguiu para seu quarto. No caminho, cruzou com a cientista Vexia, mas não interagiu. Pouco depois, Rykk e Astra retornaram à sala de conferência com os demais.

Novas memórias de Evelyn Reed

— Desbloqueei novas memórias de Evelyn Reed — anunciou Berenice. — Ela suspeitava que esses relicários eram peças para completar uma entidade ultradimensional, capaz de fornecer poder ilimitado. Ela tinha conhecimento de quatro deles e consegui as coordenadas.

— Este em K375 é o terceiro?

— Sim. Os outros que conhecem são o braço de Ed e o fóssil em Viez.

— Então são quatro no total?

— Ela conhecia quatro, mas parece haver mais — relatou a IA, dirigindo-se a Rykk e Ed.

O grupo debateu como a Dra. Reed ou a própria IA eram capazes de localizar tais fragmentos.

— Foi assim que você chegou até aqui?

— Analisei a rota e segui a memória de um dado oculto da Dra. Reed. Ela utilizava pontos de sinais relicários como faróis na Deriva.

— Peraí... — intrigou-se Rykk. — Nós podemos usar a Deriva para achar essas relíquias pelo sinal? Podemos voltar rápido para cá ou saltar para outros pontos seguindo a assinatura!

A descoberta garantia uma vantagem tática imensa sobre a Lança de Hierofante, visto que a viagem convencional pela Deriva na Vastidão tendia a ser demorada.

Ainda discutiram sobre a perna do Santo, concluindo que sua remoção seria complexa. A IA sugeriu que Ed, como receptáculo, talvez pudesse resistir a mais um fragmento caso optasse por absorvê-lo. Sobre a escolha de Ed como portador, Berenice mencionou apenas que a seleção de candidatos era responsabilidade do Dr. Kenji Tanaka.

Os enxeridos

Berenice interrompeu as discussões com um alerta de segurança:

— A passageira Vexia esteve na sala de observação há pouco. Ela coletou as coordenadas da nave e tentou traçar a rota para este sistema. Consegui bloquear a etapa final, mas as coordenadas estavam em uma camada acessível e foram visualizadas.

A preocupação tomou conta do grupo. Até então, Berenice era a única detentora da localização. Se a Lança de Hierofante pusesse os pés em K375, não hesitariam em remover o relicário, condenando os 13 milhões de Karuum à morte estelar.

O emissário convocou os cientistas imediatamente.

— Senhorita Vexia, qual era seu interesse nas coordenadas atuais? — questionou Rykk, o tom carregado de ameaça.

— Não... nada. Eu só queria saber onde estávamos, quanto tempo levaria para voltar para casa.

— Ei, cara, você está complicando as coisas. Está ameaçando minha pupila — interveio o Dr. Allen.

Rykk mostrou os dentes, a paciência esgotada.

— Não estou falando com você. Quando chegar a sua vez, eu falo. Está pronto para mudar seu status de convidado para prisioneiro? Quer dar uma volta lá fora para pensar melhor?

— Gravidade 4G, alta temperatura, atmosfera densa, radioativa e tóxica. Irrespirável para seres humanos — complementou Berenice friamente, forçando o doutor a recuar.

— Garanta que eles voltem direto para o quarto, sem paradas. Perderam os privilégios de circulação pela nave — ordenou o capitão.

A decisão

O dilema central persistia: remover a âncora condenaria os Karuum imediatamente; deixá-la, atrairia a Lança de Hierofante.

— A gente vai deixar a âncora aqui, mas sem ela não montamos o Santo, né? — argumentou Flynn. — A questão é que, em algum momento, a Lança vai vir pegar isso.

Rykk tentou traduzir a gravidade da situação para os nativos.

— Viemos buscar a âncora, mas não sabíamos de sua influência no planeta — disse, fixando o olhar em Thulknar. — Porém, existe um grupo que vaga pelo céu como nós, que também a procura, e eles não têm a menor intenção de serem amigáveis. Posso tentar trazer ajuda, gente com armas como as minhas ou melhores. O que acham?

Ainda que a tecnologia fosse um conceito abstrato para eles, os Karuum compreenderam a ameaça de extinção. Gravolt decidiu levar a questão aos anciãos e partiu na frente. Thulknar permaneceu com os aventureiros.

Para chegar à cratera onde estavam os anciãos, o grupo se dividiu. O draconiano levou Ed consigo, planando até a entrada do canyon. Os demais caminhariam pelo deserto radioativo.

O rastro no deserto

Hothspoth e Kassius partiram sob a liderança de Flynn. Viram Rykk sobrevoá-los brevemente antes de desaparecer na névoa amarela. Logo, restaram apenas os três na solidão do deserto, isolados pela interferência ambiental que cortava a comunicação com a Berenice.

O vento tóxico de K375 varria o chão constantemente, polindo rochas e montanhas. Ainda assim, algo chamou a atenção de Flynn: uma pegada que não pertencia ao rastro de retorno deles, feito horas antes. A marca divergia da rota e parecia inequivocamente humana. O solariano supôs serem marcas antigas, mas o ambiente hostil impedia certezas.

— Devemos segui-la? — questionou o trio.

— Vamos ver aonde leva. Pode ter algo escondido que não sabemos.

Enquanto isso, na entrada do canyon, Ed e Rykk já aguardavam. Gravolt, alcançado pela dupla voadora, fora carregado pelo draconiano no trecho final.

— Eles vêm logo — confiava Edric. — Nunca pegariam um desvio...

Mas o grupo de solo havia desviado. As pegadas conduziram Flynn, Kassius e Hothspoth até uma pequena gruta protegida das intempéries.

Lá dentro, viram um corpo humano parcialmente soterrado, revelado apenas por uma perna.

Kassius adiantou-se e puxou o membro exposto. O cadáver deslizou da terra, provocando um choque coletivo.

— Hothspoth... — sussurrou Flynn ao iluminar o rosto do morto.

Hothspoth encarou sua cópia. Desta vez, não era uma visão ou um delírio. Ela estava realmente ali.


K375-Prime, a Vastidão — Sábado e Domingo, 25 e 26 de Desnus de 325 DL.

domingo, 11 de janeiro de 2026

(LA) Sessão 24

Luminávis

A Casa dos Sonhos

A Casa dos Sonhos de Fáfnir revelou-se um jardim gigantesco, composto por um lago e uma estrada pavimentada que levava a uma colossal árvore central, a qual sustentava uma mansão. Diversos animais povoavam o local, mas uma criatura particular atraía a atenção enquanto colhia ramos, limpava folhas e aparava flores: uma figura feminina feita de vidro, com cabelos e esqueleto aparente moldados em galhos. Em seu interior, centenas de pequenos brilhos, semelhantes a vagalumes, moviam-se erraticamente, chocando-se contra as paredes transparentes de seu corpo. Seus olhos, feitos do mesmo brilho, permaneciam estáticos. Era a Jardineira, a amiga imaginária criada por Fáfnir.

O grupo foi conduzido pela estrada até a mansão. Fáfnir manteve-se em silêncio absoluto durante o trajeto, ignorando as tentativas de comunicação de Réctor. No caminho, o napol notou que a região onde antes havia um tear encontrava-se envolta em nuvens tempestuosas, desaparecida como se estivesse fora do perímetro da realidade. Ele questionou a Jardineira sobre o estado do feiticeiro, mas a criatura, muda, apenas gesticulou indicando que algo não estava como de costume.

O saguão da mansão fora inteiramente esculpido no tronco da árvore titânica. Uma madeira rústica, porém ornamentada, conferia uma característica única ao local. Os aventureiros subiram dois lances de escada até um elevador, içado manualmente por uma criatura vegetal no topo, e foram levados a um grande salão circular. Janelas em cada quadrante forneciam visibilidade para todo o jardim, enquanto um tapete redondo e uma cadeira de vime destacavam-se entre as colunas de madeira.

— Aqui estamos seguros para conversar. Vocês querem chá, comida ou fumo? — indagou Fáfnir, falando abertamente pela primeira vez.

O Conhecimento do Sonhador

— Não usa mais o tear? — perguntou Réctor, após aceitar as ofertas do mentor.

— O tear? Ah! Não, não consigo mais usá-lo, e não tenho certeza do porquê — lamentou Fáfnir, com a voz embargada. — A sombra tem tomado toda a minha concentração. Nem sequer consegui prever a chegada de vocês.

— E essa sombra aí? Onde é que ela está? — questionou o Guia, rispidamente.

Com olhos arregalados e tristes, mas atentos, Fáfnir respondeu:

— A sombra é uma mácula deixada no éter por aqueles que trataram Eudam apenas como uma ferramenta — filosofou o feiticeiro. Ao perceber a confusão do rastreador, continuou: — Não há como impedi-la, apenas evitar que aumente. Mas, para isso, a guerra precisaria parar.

O grupo debateu a natureza da entidade mencionada. Réctor e o Guia cogitaram se a sombra de Fáfnir seria diferente de Margoth ou daquela que os perseguira anteriormente. Desta vez, a "sombra" parecia referir-se ao mal em si, ou a algo mais específico.

O Guia resgatou o pergaminho encontrado sob a Torre Branca do Sul. “A sombra precisa do fio. A sombra me seguirá”, dizia o rascunho.

— A sombra à qual me refiro é uma mancha dos restos místicos dos elfos sombrios e dos necromantes, energias que não deveriam ser exploradas, pois contaminam Eudam — argumentou Fáfnir, sem esclarecer o conteúdo do pergaminho.

Réctor retomou o diálogo, questionando sobre a Aurora Gelada. O ermitão reconheceu a entidade por outro nome, "Dama Fria do Orvalho", demonstrando um conhecimento profundo e melancólico.

— Talvez ela não seja exatamente o que eu estou pensando… mas a ideia de bondade e maldade para uma Titã é difícil de interpretar — divagou Réctor.

— O despertar da Dama Fria do Orvalho já ocorreu antes. Ou, pelo menos, uma tentativa — disse Fáfnir, acomodando-se na cadeira de vime. — Uma fada me revelou que algo a interrompeu.

— Meus ancestrais dizem que a entidade trará o verde ao gelo, trará vida onde não tem mais vida — explicou Olgaria, citando a tradição de seu povo.

— Nem toda luz que tenta nascer quer ser adorada — repreendeu Fáfnir, lançando um olhar profundo sobre a jovem. — Algumas só precisam terminar aquilo que começaram.

— Tolice! — A interrupção veio brusca. Era Silvan, que escutava com ceticismo. — Há, sim, uma guerra oculta entre os necromantes e os malditos sombrios, mas os sábios já teriam percebido algo dessa magnitude e revelado.

Silvan rejeitava a visão de Fáfnir, mas não apresentava alternativas. Réctor, enfurecido com a arrogância do mago que mais uma vez esnobava as descobertas do grupo, apontou sua garra em riste:

— Até agora você não conseguiu gerar nenhum tipo de conhecimento ou ajuda. Já percebeu que, na verdade, só vive criando problemas com o que as pessoas acreditam?

O rubor no rosto de Silvan, visto anteriormente na taverna, voltou a surgir. O mago não tirou os olhos do napol, visivelmente desconfortável. Réctor não esmoreceu:

— Suas crenças não servem de nada se você não consegue expressá-las de forma compreensível. O que me importa é o que você poderia agregar à nossa conversa. Só que você geralmente abre a boca apenas para criticar, sem pôr nenhuma ideia que leve o assunto para outro caminho.

A mão de Silvan tremia. Lila, percebendo a tensão escalar, segurou o braço do mestre e balbuciou um "Mestre…", tentando dissuadi-lo. O mago, contudo, forçou o desenlace da aprendiz e, num piscar de olhos, desapareceu com um transporte dimensional.

O Guia farejou Silvan nos andares inferiores e alertou os pupilos. Frida, os guardas e os magos deixaram a sala atrás do mentor, mas não sem antes ouvirem um conselho de Réctor:

— Me incomoda o jeito que ele enxerga as coisas, como se todos fossem inúteis e burros e ele fosse o único detentor da verdade. Não sejam assim. Procurem entender o que se passa no mundo e tirem suas próprias conclusões.

— Ele não é tão mau assim — retrucou Tessa timidamente, abraçada ao seu livro.

— Por favor, peço um pouco mais de paciência com o Mestre Silvan — interveio Dorian. — Ele é cabeça-dura, mas tenho certeza de que dará sua contribuição no momento certo. Todos aprendemos muito com ele até aqui.

Por ironia ou resignação, Réctor concordou com Dorian, o único mago pelo qual o grupo demonstrava respeito real. Os quatro deixaram a sala e o grupo ficou a sós com Fáfnir, que assistira à cena imperturbável.

Réctor voltou sua atenção ao Sonhador, perguntando o que seria melhor: o despertar da Aurora ou a manutenção da escuridão. Fáfnir admitiu sua ignorância:

— Eu não sei se o despertar da Dama Fria do Orvalho destruirá essa sombra ou se ambas são parte do mesmo fenômeno antigo, separadas à força. Talvez a escuridão seja ela… Talvez ela esteja tentando se livrar da escuridão.

Eles debateram sobre a natureza do "bem e mal" e a perspectiva de quem dita as regras, soando como devaneios para o restante do grupo. Porém, o odor deixado por Silvan não veio sozinho. O Guia captou um cheiro distinto, pútrido e úmido, que entranhava em suas narinas até despertar a memória: era o cheiro da sombra, de Mortalos, o cogumelo da chuva escura.

— E esse cheiro podre que eu percebo? É a tal mácula que você falou? — interrompeu o Guia.

Confuso, Fáfnir disse não sentir cheiro algum. A reação colocou o Guia em alerta; ele estava convicto de que a corrupção estava presente ali, fisicamente. "Parece estar misturado em tudo", afirmou.

Desconfiado, Réctor sacou o Prisma da Aurora e o colocou diante de Fáfnir.

— Será que, por ficar tão obcecado pela sombra, você não tenha se contaminado com algum resquício dela?

O brilho da pedra, antes morto, ressurgiu quando o ermitão a tocou. Pálido, azulado, exatamente como a emanação sob a chuva sombria. Uma ventania formou-se ao redor de Fáfnir, que não parecia notar o fenômeno, embora sua expressão mudasse. A Jardineira de vidro perdeu seu brilho.

Haftor avançou com o cabo do martelo para remover a pedra da mão do feiticeiro.

— Ela nos encontrou mais rápido do que eu esperava! Algo deve ter nos acompanhado — gritou Fáfnir, assustado, enquanto um redemoinho sombrio tomava seu corpo. O golpe de Haftor encontrou apenas sombra e vento. Fáfnir sumiu. A sala escureceu e o céu lá fora nublou-se.

Das sombras sob as lamparinas, silhuetas escuras surgiram, serpenteando em direção aos aventureiros. Era a corrupção manifesta.

Confrontando a Corrupção

A ventania sombria dissolveu-se no ar. Garuk tentou farejá-la, mas foi abatido por um efeito místico, caindo desorientado.

Olgaria e Demétrius foram os primeiros alvos. As sombras avançaram rapidamente; a zumi defendeu-se e contra-atacou com seus ritos, mas os inimigos estavam em maior número. Demétrius, ciente de que não podia ferir criaturas incorpóreas, afastou-se estrategicamente. Réctor convocou uma luz intensa, perturbando os inimigos e mantendo-os à distância, enquanto o Guia disparava flechas contra os espectros e o grupo fechava uma formação compacta.

Garuk, ainda atordoado, foi subitamente possuído por uma das sombras. "Morra, criatura!", gritou, com a voz tomada por outra alma, atacando Haldur. O anão aparou o machado com o escudo e desviou de uma garra. O desequilíbrio fez o sekbete cair sobre Demétrius mas, para a sorte do ladino, a sombra abandonou o corpo do bárbaro naquele instante.

Recobrando a consciência e a fúria, Garuk levantou-se e estraçalhou a sombra que o atormentara. O duelo estendeu-se por mais alguns instantes até que Haftor expulsou algumas criaturas com sua esconjuração divina, finalizando a luta ao lado de Olgaria com um ataque combinado.

Imediatamente, a atmosfera do salão mudou. Fáfnir reapareceu no mesmo local onde sumira. A Jardineira voltou a brilhar e a opressão dissipou-se.

— Não sinto mais cheiro de nada — constatou o Guia.

Fáfnir, com o olhar leve e livre do peso que carregava há meses, agradeceu ao grupo.

A Origem da Sombra

A casa estava limpa. A nuvem escura ao redor do tear desaparecera.

— Você viu algum elfo sombrio? — perguntou o Guia, sem cerimônia.

— Sim, vejo muitos elfos sombrios — revelou Fáfnir.

— Teve contato direto com algum aqui recentemente? Tem comido cogumelos?

Fáfnir negou ter ingerido os fungos, mas admitiu contato com um comerciante. Ele recebera um pergaminho com a mensagem de um elfo sombrio que insistia em encontrá-lo, afirmando que "os produtos de Caridrândia estão sempre esperando por mim".

Réctor pediu para analisar o objeto enquanto a Jardineira aproximava-se do mestre para confirmar sua melhora. O napol e o Guia notaram algo estranho: a tinta era feita de Mortalos, o cogumelo da chuva misteriosa, e o material era um pergaminho especial de Caridrândia, usado apenas para mensagens de extrema importância.

Com as pistas exploradas e Fáfnir livre da maldição, a tensão se esvaiu. O mago ofereceu seus aposentos para o descanso. O Guia e Garuk foram se refrescar no lago, onde o rastreador sentiu um súbito acometimento de culpa ao lembrar que tudo aquilo era apenas uma criação mental. Olgaria agradeceu a Haftor pelo milagre de Crizagom que a auxiliara na batalha.

Não haverá pausa

Garuk e o Guia foram os últimos a se recolherem. Réctor, porém, teve um despertar incomum.

Ao abrir os olhos, viu os reflexos do sol iluminando o horizonte, pouco antes da aurora. Mas o sol não nascia; o momento estava congelado. A porta de seu quarto levou-o a uma colina, fora dos limites da Casa dos Sonhos. À sua frente, uma entidade misteriosa: esguia, alta, sem face, formada de vapor e suspiros.

— Eu não tenho nome… sou Aquilo que Vela o Instante — respondeu a forma onírica ao pensamento de Réctor, guiando-o até o topo da colina. Lá, a Aurora Gelada encontrava-se sentada sobre uma lápide.

A Titã era uma silhueta feminina de escuridão com bordas brilhantes e corpo preenchido por estrelas. Seus olhos, fechados, pareciam o sol no horizonte.

— Ela não pode ser ajudada agora e não deve desaparecer — alertou a entidade quando Réctor tentou se aproximar.

— Há algo que eu possa fazer para ajudar?

— A sua presença aqui é irrelevante, mas as suas palavras podem mudar a trajetória do mundo.

A silhueta da Aurora ganhou nitidez. Seus olhos tentaram se abrir, revelando um brilho vermelho.

— Da última vez ela foi interrompida em seu Luminávis… quando o mundo escolheu lembrar dos deuses e esquecer do que veio antes — disse enigmaticamente Aquilo que Vela o Instante.

Réctor compreendia parcialmente. Luminávis era um termo da tradição dos sonhadores: o momento em que os olhos se abrem. Não apenas um despertar, mas o instante em que a luz se revela após um longo descanso e o processo se torna irreversível.

A entidade finalmente se pronunciou com voz forte e ecoante:

— Fui chamada cedo demais e impedida tarde demais da última vez. Quando o Luminávis vier outra vez, não haverá pausa.

Com a sentença proferida, o sol rompeu o horizonte e Réctor despertou em sobressalto na casa de Fáfnir. Intrigado, explicou a visão ao mentor.

— Se ela está preparada para acordar desta vez, talvez esteja precisando de muita energia. E é isso que todos estão atrás — ponderou Fáfnir.

Floresta de Eudam, Terras Selvagens, dias 3 e 4 do mês da Sabedoria do ano de 1502.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

(VS) Sessão 18

Sessão 18 — Os Karuum

A descida em K375

Os tripulantes da Berenice apertaram seus cintos e se prepararam para rasgar a atmosfera do planeta em declínio, K375-Prime. Ed assumiu o comando na cadeira do piloto, isolado em sua concentração, enquanto Rykk se posicionava para coordenar as ordens da cadeira do capitão. Flynn, Hothspoth e Kassius mantinham-se a postos, prontos para qualquer eventualidade.

O choque inicial contra a atmosfera foi o prelúdio do caos. A Berenice mergulhou em uma densa nuvem gasosa, colidindo fisicamente contra a massa densa. Não fosse a habilidade excepcional de Ed, que ajustou propulsores, sensores gravitacionais e a inclinação da nave com uma velocidade imperceptível até para o capitão, a turbulência da entrada teria sido catastrófica.

Ainda assim, sob a proteção do controle preciso de Ed, a hostilidade do planeta era inevitável. O braço direito do piloto ardia e pesava, como se a própria atmosfera estranha ressoasse dentro de seus ossos, mas ele manteve a descida controlada. Nenhum tripulante ousou deixar seu assento; o silêncio tenso confirmava que todos compreendiam a gravidade da situação.

— Eu preciso de um médico para meu braço — pediu Ed, com a voz tensa.

— Não é um bom momento — respondeu Astra, segurando-se firme enquanto a nave sacudia violentamente na termosfera.

Assim que mergulharam na troposfera, os escudos passaram a ser bombardeados por cargas elétricas intensas. Os raios eram aparados pelas defesas da Berenice, mas Flynn precisou acionar as proteções manualmente para garantir a integridade dos propulsores, desviando energia que, idealmente, estaria disponível para as manobras do piloto.

Quando os sensores captaram bolsões de radiação na rota, foi a vez de Hothspoth agir. O solariano uniu sua intuição e conhecimento aos sensores apurados da nave para mapear os campos radioativos, traçando um corredor seguro para Ed.

Por fim, coube a Rykk determinar o destino. A IA da nave alertara que a atmosfera caótica gerava ruído excessivo nos sensores, comprometendo a precisão dos radares. A localização do sinal relicário tinha uma margem de erro de dois quilômetros. O triaxiano analisou o terreno, dominado por cânions profundos, e identificou o ponto mais plano possível dentro daquela faixa, visando minimizar o tempo de exposição em solo.

Com as coordenadas fixadas, Ed colocou a Berenice no chão. Com sua habitual competência, ele costurou o céu desviando de nuvens radioativas sob bombardeio elétrico, domou a nave contra a esmagadora gravidade de 4G de K375-Prime e pousou em uma planície irregular, o mais próximo possível dos cânions onde o sinal pulsava. O grupo, enfim, tocava o solo.

A caminhada até o cânion

O relevo irregular cobrou seu preço: a rampa de desembarque ficou suspensa a quase sete metros do chão, pois os trens de pouso precisaram buscar apoio em níveis diferentes. Uma altura proibitiva para um salto sob gravidade 4G.

Rykk cogitou usar suas asas, mas a desconfiança em sustentar seu peso excessivo naquela atmosfera o fez desistir. Hothspoth, igualmente, duvidava que sua mochila a jato tivesse potência para vencer a gravidade esmagadora. A solução veio do equipamento de Flynn. O grupo trançou uma corda reforçada do conjunto de escalada e iniciou a descida, um a um. Ed, o penúltimo, cedeu ao cansaço e à gravidade, caindo pesadamente nos metros finais. Apesar do impacto, ergueu-se com ferimentos leves, juntando-se à marcha assim que Flynn tocou o solo.

A paisagem de K375-Prime era a imagem da desolação: um deserto amarelo onde nuvens gasosas lambiam a superfície e fumarolas pontuavam o horizonte. Pequenos cristais e uma vegetação rasteira, fluorescentes pela radiação, eram os únicos pontos de cor. A visibilidade não passava de 400 metros, e a nitidez se perdia muito antes disso.

A caminhada rumo ao sinal relicário começou. Berenice tentou acompanhá-los pelos comunicadores, mas a interferência radioativa cortava o sinal a meros dez metros de distância. O grupo precisou manter-se coeso. Os passos eram lentos, cada movimento um esforço hercúleo. Uma hora de marcha naquele deserto, sob um vento que parecia sólido de tão pesado, exauriu o grupo como se tivessem percorrido quilômetros.

A planície cedeu lugar a uma longa descida rumo a uma fenda estreita no cânion. Durante o trajeto, Hothspoth vislumbrou uma silhueta bípede correndo pelo deserto, desaparecendo logo em seguida em um redemoinho radioativo. Rykk também testemunhou o vulto, mas o grupo manteve o foco. Liderados por Flynn — cuja orientação tornou-se vital após o sinal do radar morrer entre os paredões —, eles adentraram o desfiladeiro.

O percurso pelo corredor de pedra foi uma aventura à parte: encostas estreitas, saltos que exigiam esforço máximo para cobrir um simples metro e subidas íngremes. O desgaste físico no cânion radioativo deixou Hothspoth visivelmente enfraquecido.

Os Karuum

A trilha desembocou em uma abertura circular, uma clareira natural que parecia ter sido moldada pelo impacto de um meteoro ou objeto similar. No centro, parcialmente encravada no solo, erguia-se uma coluna escura envolta em pedra semitransparente. Ao redor dela, dezenas de rochas negras como obsidiana formavam um círculo. O caminho pelo qual chegaram parecia intencionalmente livre, criando um corredor de acesso direto àquele santuário a céu aberto.

Flynn varreu o perímetro com o olhar, temendo emboscadas. Rykk, mais audacioso, avançou em direção à coluna. Ed, sentindo seu braço reagir violentamente à presença do objeto, seguiu o capitão, acompanhado por Hothspoth e Kassius.

Ao se aproximar da coluna, Hothspoth foi tomado por uma visão: viu a si mesmo — ou uma versão alternativa idêntica, vestindo uma capa rígida — ajoelhado em adoração diante do objeto. Quando a visão cessou, o solariano, inconscientemente ou não, imitou sua cópia e ajoelhou-se.

Nesse momento, uma das rochas de obsidiana se moveu. Ergueu-se sobre seis patas, revelando dois grandes olhos azuis opacos. Era uma criatura baixa, com cauda de escorpião bipartida na ponta, capaz de manipular objetos. Feita de pura rocha, possuía uma mandíbula forte repleta de dentes. Ela emitiu sons na direção de Rykk, que inicialmente nada compreendeu.

— Se mantiver a conversa por mais alguns instantes, serei capaz de decodificar a linguagem — informou a voz de Berenice no comunicador, incentivando o contato. — Estes são os Karuum, criaturas nativas. Não existem informações detalhadas no catálogo.

Enquanto Kassius assumia postura de guarda, com arma em punho diante do que claramente era um local de idolatria, Ed cedeu ao chamado da coluna escura. O operativo tocou o objeto. Imediatamente, sua mente foi projetada para o vácuo do espaço sideral. Ele caminhava sobre o nada como se fosse chão sólido, suas mãos moldando uma magia ou encantamento complexo. A visão foi súbita e breve.

— 100% decodificada — anunciou Berenice, ativando a tradução simultânea.

— Diga para seu companheiro sair de perto da Âncora. O que está de joelhos pode permanecer — ordenou a criatura, sua voz agora traduzida nos capacetes do grupo.

Kassius afastou-se, respeitando a exigência do nativo. O cenário era surreal: Rykk dialogando com o Karuum; Kassius e Flynn na retaguarda; Hothspoth ajoelhado diante da "Âncora" e Ed logo atrás dele.

Hothspoth ergueu-se trêmulo, abalado pela visão das cópias. Ed amparou o companheiro e, aproveitando a proximidade, tocou a Âncora uma segunda vez. Novamente, mergulhou em uma memória alheia. Viu-se no espaço, mas agora percebia que a coluna cultuada pelos Karuum era, na verdade, uma de suas pernas — um fragmento do Santo. Seu corpo parou diante de uma fenda na realidade, um buraco no vazio. Com energia colossal, suas mãos costuraram a abertura dimensional, selando-a.

Enquanto Ed recuperava o fôlego, o Karuum explicava a Rykk:

— A Âncora nos protege da radiação dos sóis.

A criatura narrou que aquela peça caíra do céu há "gerações" — milhares de anos, segundo a estimativa da IA — e desde então protegia o planeta. Contudo, os nativos não compreendiam a natureza da radiação sepulcral, nem que K375-Prime seria engolido pelas estrelas em poucos séculos. Rykk iniciou um esforço diplomático para convencê-los do perigo iminente e da necessidade de partir.

Após uma longa argumentação, chegaram a um termo.

— Gravolth e Thulknar irão com vocês para compreenderem o que dizem — sentenciou o Karuum.

Os aventureiros, aturdidos pelas revelações e pelo ambiente opressivo, prepararam-se para o retorno. A segurança da Berenice seria o único lugar onde poderiam organizar aquelas ideias fragmentadas.

K375-Prime, a Vastidão — Sábado e Domingo, 24 e 25 de Desnus de 325 DL.