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domingo, 21 de dezembro de 2025

(LA) Sessão 23

Sessão 23 - Tariq

O Ponto de Controle

O nome de Silvan no registro de acesso para Telas não foi suficiente para acalmar o velho guarda Loric. Com um tom arrogante, ele exigiu saber a origem e o destino dos viajantes, deixando claro sua desconfiança para com forasteiros — especialmente considerando a aparência exótica e o equipamento pesado do grupo.

— Revistem a carga — ordenou o vigilante.

Garuk, com sua postura típica, colocou-se entre um guarda e a carroça. O Guia rosnou, demonstrando sua insatisfação primitiva. Os ânimos se acirraram e mãos já buscavam os punhos das armas quando, dos portões do entreposto, um cavaleiro surgiu a passos largos.

Vestindo uma armadura brilhante e uma tabarda vermelha adornada com um leão dourado, o humano aproximou-se com a imponência de quem detinha autoridade natural. Garuk tentou ir até ele, mas foi barrado por um guarda. Mesmo assim, interpelou em voz alta:

— Você que é o guerreiro líder dessa tribo?

O guerreiro respondeu de forma direta e calma:

— Sou eu, sim. — E, observando a confusão na entrada, elevou o tom para questionar seus companheiros de vigília: — Loric, o que está acontecendo aí?

O guarda alegou estar realizando uma “inspeção de segurança”, uma mera operação de rotina. O cavaleiro tomou o pergaminho com as credenciais de Silvan e o analisou com atenção.

— Loric... deixe de ser um obstáculo para a coroa — disse ele, tirando os olhos do documento. — Se estes homens causarem problemas, a responsabilidade é minha. Eu coloco meu selo na passagem deles. Agora, saia da frente.

A postura do cavaleiro pôs fim ao conflito, embora Loric não tenha escondido sua insatisfação com o desfecho. Como demonstração de respeito à força, Garuk desafiou o recém-chegado para um duelo.

— Se eu ganhar, passamos — propôs o sekbete.

O humano sorriu brevemente e recusou. Em seguida, dirigiu-se a Silvan:

— Lamento pelo ocorrido, senhor Silvan. Vejo que traz uma comitiva grande e estranha. — Voltando-se para Réctor, apresentou-se: — Eu sou Tariq, de Verrogar.

O rancor quanto ao guarda problemático permaneceu entre o grupo, mas Tariq justificou:

— Loric é um servo muito antigo. Prestou serviços durante muito tempo, mas tem seus... problemas. — O cavaleiro acomodou a capa e recompôs a postura antes de continuar. — Mais uma vez, peço desculpas pela forma ríspida com que ele tratou seus... contratados.

Notava-se que Tariq buscava palavras para uma interação social com a qual claramente não estava habituado. Réctor e os outros ainda reclamaram de Loric por alguns instantes; o cavaleiro foi cordial e compreensivo, mas deu o assunto por encerrado.

— Bem, senhor Silvan, garanti a passagem de vocês. Agora, o senhor me deve uma conversa. Jantem comigo, por favor. Sua comitiva toda está convidada.

O convite agradou aos aventureiros, de Frida a Garuk. O sol se punha e eles não teriam muito tempo de estrada útil. Assim, caminharam com Tariq para dentro do entreposto militar.

O Jantar

O entreposto era movimentado. Mesmo àquela hora, havia muitas pessoas trabalhando na rua, carregando objetos, ferramentas e alimentos — a maioria, humanos do sexo masculino.

O grupo foi conduzido até uma casa, aguardando breves instantes enquanto Tariq entrava para buscar uma algibeira. Depois, seguiram para a taverna, uma construção de madeira rústica, porém ampla e aconchegante.

Tariq reservou duas mesas grandes. Sentou-se com Silvan e os aventureiros, enquanto Frida, seus guardas, Demétrius e os três pupilos acomodaram-se na mesa ao lado.

— É uma surpresa ver sekbetes contratados por um mago da coroa — comentou Tariq, gesticulando para o taverneiro trazer comida e bebida. — Esse povo geralmente trabalha para os sombrios. Foi tudo que escutei.

— A maioria presta serviço, mas na verdade trocam favores — explicou o napol.

— Conheço pouco dos elfos sombrios e muito de sua fama. Prefiro manter distância.

A conversa fluiu animada. Tariq desejava saber sobre as aventuras do grupo e a visão deles sobre as Terras Selvagens. Silvan explicou que foram contratados justamente pelo conhecimento da região, com a missão de chegar a Telas, mas que os desvios quase os fizeram ser devorados por um dragão na Floresta Gélida.

— Um dragão atormentando a floresta? — perguntou o cavaleiro, curioso. — Vocês mataram a criatura?

— O dragão nós evitamos — revelou Garuk.

Réctor, com teatralidade, colocou dentes e chifres do lagarto de gelo sobre a mesa.

— Nós matamos um lagarto de gelo.

— Parece que tem sido uma aventura e tanto até Telas, senhor Silvan — surpreendeu-se Tariq, observando os troféus.

Haftor e Tariq conversaram sobre a fé em Crizagom nas Terras Selvagens e em Blur. O cavaleiro revelou vir de Verrogar, sob ordens do Rei Éperus I. Criado sob a fé de Selimon, o deus da paz, Tariq estava nas Terras Selvagens há três meses. Após a pacificação de sua terra natal, o monarca enviara representantes para estudar Telas. Tariq fizera a escolta e, depois, ficara livre para investigar os “ermos”.

O motivo crucial da missão de Tariq ao sul revelou-se quando mencionaram Shalash. O cavaleiro comentou que fazia tempo que os orcos não desciam das Geleiras para perturbar as cidades humanas. Réctor, então, mencionou o profeta orco.

— Vocês já ouviram falar nele? Shalash? — indagou Tariq, subitamente alerta.

— Sim — retrucou Garuk, sério.

— O rei deu ordens expressas para que eu obtivesse informações sobre Shalash. Ele está reunindo orcos, convocando-os para alguma coisa nas montanhas ao norte.

Com um rosnado e um olhar ameaçador, o Guia provocou Demétrius para que ele dissesse há quanto tempo aquela movimentação ocorria. “Um ano ou dois”, respondeu o ladino, tentando disfarçar a voz. Porém, o nome “Atravessador” escapou e o entregou.

— Atravessador? O famoso Atravessador de Trisque? — indagou Tariq. — Senta aqui, Demétrius, senta aqui ao meu lado.

O cavaleiro puxou uma cadeira para perto, gesticulando para que o ladino se acomodasse.

— Ele está sendo procurado por alguém daqui também? — provocou o Guia.

— Aqui não... em Telas. Mas meus deveres em Telas já foram cumpridos.

— Paguei a minha dívida em ouro — respondeu Demétrius, resoluto. — Alguém lá não concorda?

— Haha... bem, eu vou deixar que se resolva com eles — desconversou Tariq.

O foco retornou aos orcos. Tariq contextualizou a situação de sua terra natal, que passara recentemente por uma “reconquista”.

— Fui designado para garantir que não há um risco imediato de sofrermos novamente tudo o que sofremos no passado — explicou.

Os aventureiros revelaram detalhes sobre a Aurora Gelada, os prismas cristalinos, a chuva sombria e o gigante Nosrog. Tudo era novidade para Tariq, que ouvia com atenção, registrando cada palavra.

— Vou redigir uma carta para a coroa explicando essas informações — concluiu.

Silvan, sempre contido, passou por um momento de constrangimento protagonizado pelo Guia e por Garuk. A dupla de sekbetes apontou para Dorian, afirmando enfaticamente que o jovem aprendiz era “tão promissor que deveria ser o verdadeiro líder”.

— O Dorian tá sempre lendo o livro, mas quem sempre leva a fama é ele — dizia Garuk, apontando o dedo para Silvan.

A situação deixou o mestre do conhecimento vermelho. O grupo o viu deixar a mesa sem saber se ele estava envergonhado ou enfurecido com o disparate. Tariq demorou a entender a cena, até que Réctor explicou o comportamento peculiar do mago. O cavaleiro complementou:

— Telas tem muitos magos de difícil trato.

A noite avançava e o jantar esfriava. Antes de encerrar, Réctor perguntou sobre Veridion. O cavaleiro disse ter ouvido lendas na infância, no monastério perto da fronteira oeste de Verrogar, mas a história parecia mais uma fábula sobre a ganância mágica do que um fato útil ao napol.

Um Dia de Trabalho

Na manhã seguinte, o grupo se dividiu para aproveitar a estadia no entreposto. Tariq havia negado o uso da forja a Garuk por ser um sekbete, mas Haftor, como membro respeitável de Blur — reino com acordos diplomáticos com Telas —, assumiu a responsabilidade pelo local.

Haftor e Garuk dirigiram-se cedo à oficina, onde receberam a chave das mãos do cavaleiro. O trabalho consumiria o dia inteiro. Olgaria acompanhou-os brevemente, mas, sem ter como ajudar, logo se juntou ao Guia em suas investigações.

Na forja, Garuk construiu um elmo peculiar que cobria a parte superior de sua cabeça e o focinho crocodiliano. Com o tempo restante, confeccionou uma capa para Olgaria. Haftor, por sua vez, dedicou-se a forjar uma adaga ornamental para presentear o anfitrião.

Enquanto isso, o Guia percorria os arredores. Logo cedo, notou trabalhadores transportando barricadas de madeira.

— Para mim é só para não ver a gente parado — resmungou um soldado ao ser questionado.

Tariq surgiu e presenciou o sekbete ajudando nas tarefas manuais. O Guia, curioso sobre peles que vira perto da oficina, indagou o cavaleiro. Tariq disse que precisaria falar com Loric antes de mostrá-las. O rastreador aguardou, auxiliando os soldados, até que a autorização chegou.

O sekbete e Olgaria passaram horas analisando e cheirando as peles estocadas, até que fizeram uma descoberta macabra: uma delas era couro de orco.

— Você já viu isso aqui? — perguntou ele à zumi.

— Fora do orco, não — respondeu Olgaria, inocentemente.

O rastreador tentou identificar o odor do elfo sombrio que vendera aquela peça, conforme Tariq mencionara na noite anterior ("um elfo que passa a cada quatro ou cinco semanas"), mas seu olfato captava muitos cheiros misturados. Quando confrontado com a notícia sobre a origem do couro, Tariq reagiu com asco.

— Quem é que tira couro de orco? — questionou, retoricamente.

O Guia alertou o cavaleiro a não confiar nos elfos sombrios, aviso que Tariq prometeu repassar a Loric.

Paralelamente, Réctor e Haldur deixaram a Casa dos Sonhos juntos após uma pequena discussão com Demétrius. O napol confiava que o Atravessador não fugiria — afinal, não tinha para onde ir —, mas a conversa foi necessária para tranquilizar Haldur. A dupla encontrou Tariq logo após o alerta do Guia.

— Existem documentos que provam que Táviga está forjando registros para movimentações escusas em Trisque — disse Réctor, entregando papéis comprometedores retirados de Demétrius.

O olhar de Tariq denunciou a gravidade da situação.

— Ela é uma peça importante das viagens que vêm do norte. É essencial que seja alguém de confiança.

O napol insistiu que a meio-orca deveria ser vista como uma ameaça. Tariq garantiu que investigaria com atenção, despedindo-se para sua cavalgada matinal.

A Floresta de Eudam

Após o longo dia, houve um novo jantar, desta vez menos opulento e mais descontraído. Haftor presenteou Tariq com a adaga ornamental.

— É o trabalho de apenas um dia, mas é um presente de coração — disse o paladino.

O cavaleiro apreciou muito o adereço com traços anões. Antes da partida, alertou o grupo:

— Sigam a estrada principal. Há boatos de que a Floresta de Eudam anda muito perigosa.

No dia seguinte, porém, Réctor informou que precisariam desviar da trilha para encontrar seu mentor, Fáfnir. Apesar da resistência inicial dos magos, o napol foi convincente: o druida sábio poderia ter informações preciosas sobre o que atormentava a região.

Os aventureiros se embrenharam mata adentro até finalmente encontrarem o mentor de Réctor.

— Então você sobreviveu à viagem! — exclamou o humano com alegria.

Após breves apresentações e a explicação de que buscavam respostas sobre a floresta, o feiticeiro mudou o tom. Ele fez um risco no tronco grosso de uma árvore e abriu a porta para sua própria Casa dos Sonhos, revelando um jardim monumental em beleza e dimensões.

— Vamos conversar em um local particular. Entrem, antes que chamem a atenção da sombra.

Os aventureiros entraram um a um. O Guia rosnou, olhando ao redor, reticente em entrar novamente em um daqueles lugares. No entanto, a curiosidade sobre a “sombra” mencionada por Fáfnir falou mais alto. Ignorando seus receios, o sekbete foi o último a passar. A porta da Casa dos Sonhos, então, fechou-se atrás deles, isolando-os do perigo da floresta.

Entreposto Militar, Terras Selvagens, de 27 do mês do Sangue ao dia 3 do mês da Sabedoria do ano de 1502.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

(VS) Sessão 17

Os Cientistas

A fuga turbulenta

O atrito da atmosfera de Triaxus fazia tremer os painéis e a nave como um todo. O espaço estava ao alcance, mas os inimigos seguiam ao encalço.

— Seis aeronaves em nossa perseguição — anunciou a IA.

Sob o comando de Rykkgnaw, Edric assumiu o manche e iniciou manobras evasivas. — Precisamos despistá-los o mais rápido possível! — gritou o piloto. Hothspoth, no comando da artilharia, interceptou um torpedo com um disparo preciso antes do impacto.

A tripulação organizou-se rapidamente para o confronto: Flynn assumiu a manutenção, Hothspoth e Kassius ficaram nas armas, Edric manteve o controle da nave e Rykk, na cadeira do capitão, coordenava a tática da equipe. Os sistemas de Berenice foram elevados ao limite enquanto Ed forçava a partida dos motores de deriva. A intenção era ganhar tempo suficiente para escapar.

— A deriva vai nos levar para onde? — indagou Rykk.
— Depois a gente vê isso… para nossos maiores sonhos — divagou Ed.

O confronto se acirrava. Os caças cercaram Berenice enquanto os motores ainda aqueciam. Flynn energizava os escudos com perícia, impedindo que os disparos laser penetrassem a blindagem. — Faz essa porra funcionar! — gritou Rykk. Edric concentrou-se na pilotagem e conseguiu forçar os motores a atingirem a carga necessária. Instantes depois, Berenice desapareceu do espaço, deixando os caças de Triaxus sem alvo.

Os cientistas

A viagem pelo plano da deriva levaria dois dias. O destino ainda estava sendo calculado por Berenice, mas o grupo tinha outras preocupações. Uma delas, ao menos para Ed, era descobrir se o cientista mais velho mantinha algum tipo de relacionamento amoroso com sua jovem pupila. O piloto montou um quadro investigativo improvisado e registrou os votos de cada membro da tripulação. Para seu deleite, quase todos apostaram no “sim”, com exceção de Flynn e Astra.

Quando Vexia, a cientista humana, despertou na ala médica sob os cuidados da androide, seu humor não era dos melhores. — Sou uma prisioneira? Por que estou aqui? — perguntou, apreensiva.

Explorando os registros pessoais da mulher e fazendo uso de seu carisma habitual, Rykk a convenceu de que ela e seu mentor, Dr. Allen, estavam apenas de passagem e seriam conduzidos de volta a Absalom “assim que fosse conveniente”. Ofereceu-lhe um quarto em vez de uma cela e começou a fazer perguntas sobre a pesquisa que desenvolviam.

Rykk induziu Vexia a acreditar que Berenice estava em uma missão oficial. Com a guarda baixa, ela revelou que Dr. Allen buscava uma cura, ou ao menos uma compreensão mais profunda, da radiação sepulcral por meio do Reator de Fluxo. Estuávamos fluxos de antienergia estabilizada, explicou ela. Os termos técnicos eram densos demais para os aventureiros, e Vexia não parecia ter muitas informações sobre os patrocinadores da pesquisa.

O Dr. Allen acordou no dia seguinte. — Imagino que queiram uma recompensa por mim… — disse ao ver Hothspoth e Rykk entrarem na ala médica. — Fui sequestrado para um resgate?

Hothspoth tentou uma abordagem direta: — O senhor é da Lança de Hierofante?
— Eles patrocinavam — respondeu Allen, ajustando os óculos como se isso não fosse segredo algum.

Rykk interveio imediatamente. Revelou sua conexão com a MiNI e fingiu ainda estar subordinado a Grutenkrag, fazendo o cientista acreditar que estava entre aliados. A conversa foi conduzida até o “espécime” mantido na sala de contenção, sem mencionar o nome de Irlanda. Allen explicou que aquilo era algo particular do patrocinador e mencionou uma mulher vítima de um "incidente terrível".

Enquanto Rykk se aprofundava na misteriosa pesquisa, Ed e os outros divertiam-se investigando a vida privada dos cientistas. O piloto ansiava por um romance sórdido, mas Berenice pôs fim à especulação informando que todos os indícios apontavam que a senhoria Vexia possuía interesse romântico em outra mulher.

K375

A viagem pela deriva durou o suficiente para Pip realizar a manutenção da nave e Astra recuperar os tripulantes. Allen e Vexia estavam mais à vontade, alojados em quartos de tripulação.

— Destino identificado — anunciou Berenice. — Vastidão. Sistema K375, não cartografado. Sistema binário, com apenas um planeta em zona habitável: K375-Prime.

A nave saiu da deriva a algumas horas de percurso do planeta. Sua atmosfera não era nada convidativa: nuvens de tempestade cobriam quase toda a superfície visível. Havia apenas um continente, exposição intensa à radiação e gravidade quatro vezes maior que a de Absalom. Um mundo rochoso e pequeno, com cerca de um quinto do raio padrão.

— Trace rota de volta para Absalom — ordenou Rykk.
— Detecto sinais de vida adaptada neste planeta — respondeu Berenice. — Além disso, há fortes emissões de radiação sepulcral a partir de uma coordenada na superfície. A emissão coincide com a presença de um fóssil do relicário.

As informações fizeram o grupo reconsiderar. O sistema estava condenado: os cálculos indicavam que K375-Prime seria engolido pelas estrelas em quatrocentos e vinte anos. Ed acomodou-se na cadeira do piloto. A atmosfera hostil colocaria à prova toda a sua habilidade.

Dos Mundos do Pacto para a Vastidão — Quinta-feira a Sábado, 22 a 24 de Desnus de 325 DL

domingo, 14 de dezembro de 2025

(LA) Sessão 22

A Maldição do Lago

O Lagarto de Gelo

O lagarto de gelo serpenteou para fora da abertura no chão congelado, expondo as guelras e expelindo o frio mágico de suas entranhas. O ataque marcou o início abrupto da batalha.

O Guia tornou-se o alvo principal da criatura. A simples proximidade do hálito gelado queimava suas escamas, mas o rastreador era ágil o bastante para escapar do pior e manter distância do inimigo.

O grupo reagiu rapidamente. Réctor alçou voo e passou a disparar à distância; Garuk avançou usando seus poderes místicos para vencer o terreno escorregadio; Olgaria e Haldur, porém, tiveram mais dificuldade com o gelo instável e não conseguiram se aproximar de imediato.

Até Vaela e os outros elfos sombrios atacaram o monstro enquanto preparavam uma rota de fuga por portal, abandonando o combate assim que tiveram oportunidade.

Quando se viu cercado, o lagarto rompeu o gelo sob si e mergulhou na água gelada. Réctor enviou Sombra em perseguição e, ao mesmo tempo, invocou um auxílio de Plandis:

— Esta criatura magnífica que se esconde sob nós… Plandis, ajude-me a enxergá-la.

O deus louco respondeu com Fogo Divino: um raio poderoso e concentrado que abriu uma cratera circular no gelo, expondo a água abaixo — mas sem revelar o inimigo.

Enquanto enfrentava as criaturas imaginárias de Réctor submerso, o lagarto deu tempo suficiente para que o grupo se reorganizasse. O Guia, em especial, estava gravemente ferido.

A criatura retornou à superfície e encontrou os aventureiros mais preparados do que antes. Seus ataques ainda eram perigosos, mas agora o grupo compreendia melhor o inimigo. O lagarto logo foi ferido e desnorteado, até que Haftor desferiu o golpe final com a Marreta da Sentença. O impacto esmagou o crânio da criatura, que tombou imóvel sobre o gelo.

Nosrog e a maldição sobre o lago

Após a vitória, Garuk dedicou-se a esfolar a carcaça, recolhendo presas e ossos, enquanto Réctor extraía as glândulas mágicas do monstro. Simultaneamente, o napol liderou uma investigação no local. Examinaram a carroça destroçada, onde encontraram ovos de gavião apodrecidos, mas logo a atenção de todos se voltou para o gigante submerso.

Identificado pelos símbolos arcanos gravados no gelo como “Nosrog”, o gigante parecia estar ali há eras, mantido por uma magia ancestral. O Guia percebeu que a criatura, embora suspensa, estava viva. O encantamento de aprisionamento vacilava, permitindo o vazamento de sua aura vital, a causa provável da poluição mística do rio.

Os elfos sombrios tentaram abrir um portal de retorno em duas oportunidades. Em ambas, Réctor desfez a magia antes que pudessem atravessar.

— Não, não, não! — exclamou o napol, gesticulando para quebrar o encantamento. — Não quiseram ajudar, mas querem vir agora que o perigo já passou? Agora não.

A ação impeditiva forçou Vaela a se aproximar de outra forma: voando. A pesquisadora chegou sozinha e manteve-se cautelosa a quatro metros de altura, analisando a situação. Réctor começou a rodeá-la com perguntas, mas foi ignorado até que a elfa, finalmente convencida, desceu para conversar. Assim que pousou, Vaela convocou seus subordinados — Thrennor, Líbria e Syrath — que surgiram via portal.

O diálogo subsequente foi tenso, focado na troca de conhecimentos. Vaela comentou que Réctor parecia "culto e diferente dos outros de seu povo". O elogio torto e presunçoso desagradou o napol, mas a conversa prosseguiu. A elfa explicou que o gigante preso, Nosrog, era um guerreiro de uma era passada. Se despertasse, destruiria tudo ao redor. Segundo seus cálculos, o permafrost havia recuado quarenta centímetros nos últimos dias.

Os elfos demonstraram interesse nos Prismas d’Aurora que o grupo carregava, mas a interação cordial irritava profundamente Haftor e, especialmente, o Guia. O rastreador, que nutria antigas rixas contra os elfos sombrios, ficava mais incomodado a cada palavra trocada.

Vaela identificou o fungo negro coletado por Réctor no Rio Calbuen e no Vilarejo da Encruzilhada como Mortalos, uma praga criada artificialmente em Caridrândia com uso de karma infernal. Ocorre então uma troca: o napol entregou o frasco antigo e recebeu um espécime fresco da elfa.

A cordialidade foi a gota d’água para o Guia.

— Fala logo o que vocês ‘tão’ fazendo aí que tá sujando o rio! Ninguém tá confiando em ninguém aqui… Quem de vocês tá fazendo isso? — explodiu o rastreador.

Inicialmente ignorado, Réctor tentou apaziguar: “Não se preocupe, ele é um pouco ríspido… é um batedor, desconfiado, é da natureza dele”. Mas o Guia não se conformou e partiu para insultos diretos, sendo finalmente respondido:

— Não estamos aqui para escutar barbaridades de um escravo.

A resposta gerou reação imediata. Haftor empunhou seu machado, bradando: “Retire o que disse!”. O Guia rosnou, a mão buscando o martelo. Réctor, visivelmente irritado, tentava controlar a situação, mas o combate parecia iminente.

— Calma aí, pessoal — interveio Demétrius. — Senhora, acho que já fiz negócios com sua mestra… a senhora Minolis. Devo dizer que foi proveitoso para ambos, talvez possamos repetir a dose.

A menção do nome Minolis mudou o foco de ofensas pessoais para um tom comercial, acalmando Vaela. Para o Guia e Haftor, Demétrius explicou rapidamente: “A Senhora Minolis faz acordos com muitas pessoas… ela negocia escravos em todas as Terras Selvagens, de todas as raças e povos. Todos aqueles que se sujeitam, servem a ela”.

Embora Vaela não tenha se desculpado, a intervenção do Atravessador reduziu a fervura, transformando a interação em uma troca fria de “informação por informação”. Haftor ainda tentou impor sua fé, lançando Ordens sobre a elfa, que apenas desdenhou: “Seu deus não tem poder sobre mim”.

Com o clima insustentável e as informações essenciais já trocadas, Vaela partiu, deixando uma frase que soou tanto como promessa quanto ameaça: “Teremos outras oportunidades”.

O posto de controle

Após a partida dos elfos, o grupo discutiu brevemente. Réctor acusava o Guia de minar possíveis fontes de informação; o rastreador respondia que não se negocia com monstros de luvas finas.

O napol agradeceu a Demétrius por evitar uma luta desnecessária e, em seguida, chamaram Silvan para analisar Nosrog. O mago confirmou a lenda do gigante, mas reconheceu não possuir meios de reforçar o selo. A decisão foi seguir para Telas em busca de respostas acadêmicas.

Antes disso, cruzariam um posto de controle erguido à entrada da Floresta de Eudam.

Guardas haviam montado uma barreira e uma torre de madeira. Loric, um humano mais velho, assumiu a abordagem com arrogância evidente.

— Coloquem uma focinheira nesse animal.

O Guia reagiu imediatamente, e a tensão escalou. Silvan interveio, exigindo que seu nome fosse verificado nos registros. A autoridade do mago prevaleceu.

Embora o ressentimento tivesse permanecido, a passagem do grupo estava prestes a ser liberada.

As palavras duras ainda ecoavam no Guia, mais alto do que as ameaças antigas. Seu olhar para Loric carregava ira, e o desprezo que lhe era devolvido tornava claro que algumas tensões não se dissipam com ordens ou permissões.

Terras Selvagens — Dias 25 a 27 do mês do Sangue, ano de 1502.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

(VS) Sessão 16

Fuga de Triaxus

Berenice permanecia ancorada no vasto hangar triaxiano, sitiada por engenheiros e soldados em busca do grupo, agora oficialmente foragido. A porta de acesso utilizada pelos aventureiros situava-se no patamar superior, separada da plataforma de embarque apenas por um gradil metálico e uma escada industrial.

O estalo seco da porta abrindo-se foi abafado pelo caos ambiente: serras de energia e martelos magnéticos golpeavam o casco da nave, tentando vencer seus escudos. O ruído serviu de cobertura perfeita para os aventureiros, que permaneceram despercebidos por instantes vitais, avaliando o cenário tático.

— Olá, pessoal. Eles estão tentando invadir a Berenice — alertou Pip pelo comunicador. — Os escudos estão firmes, mas não vão durar para sempre.

Próximo à nave, um draconiano em traje militar pesado comandava duas dúzias de engenheiros e cientistas. Yurok, o engenheiro que recebera o grupo na aterrissagem, também estava lá, coordenando uma equipe, embora visivelmente subordinado à autoridade militar.

Carregar os dois cientistas resgatados representava um fardo tático para o confronto iminente, mas o grupo não hesitou. Kassius tomou a frente junto do gradil metálico, deitando-se em posição de tiro, pronto para a resposta inimiga, que não tardaria. Do andar de baixo, um soldado percebeu os movimentos e soou o alerta para seu compandante.

O Combate no Hangar

Granvox, o comandante draconiano, desdobrou as asas e voou na direção do soldado, descendo com uma maça de energia em punho.

Flynn, invocando sua armadura de gráviton, mergulhou no combate corpo a corpo. Rykk, Ed e Astra davam suporte à distância, aproveitando a distração criada pela vanguarda. O triaxiano e a androide assumiram a proteção direta dos cientistas resgatados, pois eram os únicos com mãos livres para empunhar armas curtas.

No epicentro da confusão, Hothspoth ativou seu projetor de holograma. Sua imagem tremeluziu e assumiu a forma de um cientista riforiano. Carregando o âmbar falso, ele se dirigiu a Yurok. O plano arquitetado no subterrâneo de Krevlan entrava em ação.

Enquanto o solariano executava seu estratagema, o restante do grupo lutava pela sobrevivência contra Granvox e seus subordinados.

O duelo era brutal. Kassius pressionava com a criolança; Granvox defendia-se com manoplas energizadas e contra-atacava com sua maça, trocando golpes intensos. O comandante chegou a derrubar o soldado, mas Kassius se recompôs rapidamente. Auxiliado pelo fogo de supressão de Rykk e Ed, ele teve sua revanche.

Flynn não enfrentou o comandante vermelho, mas conteve quatro inimigos simultaneamente. Seu escudo de gráviton distorcia o espaço ao redor, repelindo os golpes que miravam seu corpo. Embora não tenha evitado todo o dano, seu domínio sobre os poderes solarianos foi posto à prova e aprovado com louvor.

Decolagem Imediata

Perto dali, Yurok encarava o âmbar com surpresa. Desconfiou do estranho que lhe trazia o artefato, mas sua atenção se desviou ao perceber que Granvox estava perdendo a luta. O engenheiro chamou reforços pelo comunicador e ordenou a retirada imediata de seus subordinados com o âmbar. Hothspoth aproveitou a brecha: abriu a porta de acesso de Berenice e correu para a ponte. “Às armas”, pensou.

O desfecho do combate foi rápido. Com um golpe preciso de sua criolança, Kassius abateu e finalizou Granvox. Flynn segurou a onda de inimigos restantes tempo suficiente para que o poder de fogo combinado dos aliados aliviasse a pressão sobre ele. Em poucos minutos, o hangar estava limpo.

Quando os aventureiros correram para embarcar, os canhões laser de Berenice já trovejavam. Hothspoth disparava contra a comporta de acesso do hangar, enfraquecendo a estrutura. Ed aproveitou a fragilidade e, usando o próprio casco e os escudos da nave como um aríete, arrombou a passagem.

Com a nave no ar e a cognição de Berenice operacional novamente, a situação se estabilizou. Assim que o download dos dados coletados em Krevlan foi concluído para o computador principal, a persona da nave voltou a auxiliar no controle e na tática.

Sem perder tempo, Ed traçou a rota de fuga e acionou as turbinas. Berenice rasgou o céu, deixando a atmosfera de Triaxus para trás.

Triaxus, Cidade de Orelan — Quinta-feira, 22 de Desnus de 325 DL

domingo, 7 de dezembro de 2025

(LA) Sessão 21

Águas Amaldiçoadas

A sombra de Margoth

O Guia estava livre das garras da sombra no rio, mas a ameaça não havia desaparecido.

Garuk, Réctor e Haftor correram para as margens a fim de acudir o companheiro e buscar rastros do inimigo. O Guia parecia consternado ao constatar que seu oponente sucumbira a uma forma de Morte-Sem-Descanso, apesar de ser um rastreador como ele, e não um mago.

Um sobrevoo rasteiro de Réctor revelou cogumelos escuros — idênticos aos do Vilarejo da Encruzilhada — crescendo nas margens e até sob a superfície do rio. Enquanto isso, Garuk atacava cada vulto que se manifestava sobre o espelho d’água.

A sensação perturbadora nas águas já purificadas do Rio Calbuen persistia. A presença de Margoth ainda era sentida nas escamas, penas e pelos de cada aventureiro sensitivo. De repente, um braço sombrio irrompeu da água, tentando agarrar o Guia. O rastreador contra-atacou com suas garras; sua sombra e a projeção aquática se entrelaçaram até que a inimiga se desfez.

“— Esperarei seu sangue gelar” — disse uma voz gutural, propagada pelas águas, antes que a presença de Margoth se perdesse na correnteza.

Após investigarem os arredores e concluírem que a corrupção parecia vir de uma fonte acima, o grupo decidiu alterar o curso. Em vez de rumarem diretamente para Telas, fariam um desvio até o Lago Eudam. O lago de altitude, próximo às geleiras, era o berçouro onde os rios Inaji e Calbuen se dividiam.

O grupo recordava o aviso de Ergan, em Vau do Calbuen: a mortandade no rio tinha origem em Telas. Contudo, Réctor e o Guia convenceram os demais — especialmente os magos — a aceitarem o desvio, usando como prova os cogumelos escuros recém-nascidos.

“— Seja lá o que for, vem desse lago e também vai para Telas” — argumentou Réctor. “— Se formos até lá, podemos encontrar a origem.”

“— Bom, podemos ir” — concordou Silvan, complementando: “— Talvez isso ajude nossas pesquisas quando chegarmos à cidade, afinal, estamos indo para estudar anomalias no Domo.”

A jornada para o Eudam

O grupo viajou margeando o Rio Calbuen por sete dias até se aproximar da bifurcação para o Lago Eudam. Os aventureiros aproveitaram a jornada para reforçar suas preparações; Haftor, por exemplo, consagrou os equipamentos de seus companheiros.

A noite fria, já nas proximidades do Rio Inaji, oferecia pontos seguros para montarem acampamento e acessarem a Casa dos Sonhos de Réctor sem risco imediato.

O Guia, Frida e alguns guardas permaneceram do lado de fora na vigilância. O estalar da fogueira e o chiado do rio dominavam a audição, mas o rastreador percebeu algo além: uma pulsação, como um coração batendo na direção das águas.

Sacando sua espada, Frida avançou na direção apontada pelo Guia, mas teve sua perna afundada no gelo derretido da margem.

“— Chame o guarda”, ordenou o Guia a um dos soldados, referindo-se a Haldur, antes de seguir a mulher.

Enxergando na penumbra como uma coruja, o rastreador avançou sob a cobertura da noite. Agmarin e Denégria forneciam a única luz visível, e Frida não conseguia perceber o mesmo que ele: peixes nadando agitados e o gelo mais frágil do que deveria estar naquela época do ano.

Frida, com a espada em punho, soltou um grito de guerra — “Iaaah!” — assim que ouviu duas flechas baterem surdamente contra a água. Fora o Guia quem disparara, buscando atingir qualquer anormalidade, mas nada foi encontrado.

Haldur deixou a Casa dos Sonhos buscando rastros de algum espião. Garuk tentou farejar Guzur, o orco que jurara Demétrius de morte. O sekbete sentiu o odor da espécie e amedrontou o Atravessador:

“— Ele está atrás de você.”

Fazendo contas de cabeça e traçando no mapa o último registro de Guzur, o humano ponderava se seu perseguidor poderia estar tão perto.

“— Ele vai matar todos vocês se me encontrar”, disse Demétrius.

“— Ou matar só você”, retrucou o Guia.

Réctor experimentou uma abordagem diferente. Notando que o Rio Inaji possuía uma tênue aura, quase viva, pediu emprestado o Véu da Alvorada de Olgaria e tentou mergulhá-lo nas águas. O napol esperava uma resposta similar à do pingente do Guia no Calbuen, mas o efeito não veio. Em vez disso, a aura mística foi bloqueada pelo véu, contornando seu corpo a alguns metros. Isolado da aura do rio, ele teve um lampejo de memória e foi transportado para um sonho.

Uma onda salgada bateu nas costas do napol, atirando-o contra a areia de uma praia nos Mangues.

“— Sua casa está com as janelas trancadas para o verdadeiro mistério, mas ainda assim, vejo que não está confiante no caminho que está seguindo” — disse, de forma enigmática, Katilmonda, a entidade na qual Réctor buscava inspiração.

O napol questionou a titã-segunda sobre a índole da entidade que despertava, a Aurora Gelada. Porém, mais perguntas surgiram das respostas:

“— A entidade que desperta nunca esteve no mundo como ele é hoje… Eu não sei a resposta sobre sua índole. Acredito que ela esteja precisando de ajuda… ela ainda não mostrou o que deseja. No momento certo, eu lhe direi quem ela é e o que pode fazer.”

Com as respostas parciais de Katilmonda, Réctor decidiu seguir seus instintos. A entidade não se opôs e desfez-se no oceano. Imediatamente, o napol despertou do transe, ainda na água gelada do Inaji. Seus companheiros não entenderam as palavras que ele pronunciou sozinho, mas Réctor explicou seu momento particular com a titã-segunda.

Nada mais foi descoberto na fria correnteza, e o grupo continuou o descanso até o raiar do sol, partindo então para o Lago Eudam.

O Lago Eudam

O grupo finalmente alcançou o lago que dava origem aos rios Inaji e Calbuen após uma escalada que consumiu quase um dia inteiro.

A vista, obstruída a poucas dezenas de metros por uma névoa densa, revelava uma superfície totalmente congelada e escorregadia. O início das Geleiras estava próximo, com a cordilheira logo além.

Avançaram sobre o gelo com cautela; cada passo era um risco de perder o equilíbrio. Réctor, voando baixo, encontrou uma carroça quebrada a pouco mais de cem metros. O napol notou muitas rachaduras no gelo — o próprio veículo parecia ter se desmanchado após parte dele cair na água. Contudo, o que mais chamou a atenção foi o que jazia sob a grossa camada congelada: um gigante colossal, adormecido e paralisado.

O Guia e os outros se aproximaram das fendas encontradas por Réctor. Protegido por seus sortilégios, o Guia mergulhou na água gélida para investigar o gigante e o que mais poderia existir nas profundezas. A sensação ruim arrastada rios abaixo certamente vinha dali; suas auras podiam sentir.

Enquanto isso, Réctor e Garuk investigavam a carroça. Um cristal da Aurora projetava-se para fora da água, ponto onde o veículo supostamente colidira. Também sob a proteção de um rito berserker, Garuk desceu na câmara fria onde repousavam os destroços, mas o local era apenas um cubículo, uma cela de água com paredes de gelo.

Enquanto os dois sekbetes mergulhavam, Réctor ouviu vozes e viu uma luz no horizonte nebuloso. Logo, quatro elfos sombrios surgiram.

O quarteto não parecia composto por guerreiros, mas todos carregavam armas. Não as sacaram imediatamente, embora a postura de superioridade e desprezo típica da raça estivesse evidente.

“— É de vocês esta carroça?”, indagou Réctor à elfa que se adiantou, demonstrando liderança. “— Estávamos indo para Telas, vimos os destroços e achamos que alguém poderia precisar de ajuda.”

“— Então dediquem-se a isso, por favor. Estamos trabalhando e não queremos ser importunados”, respondeu secamente a elfa, que se identificou como Vaela.

A troca de farpas entre Réctor e Vaela prosseguiu. Embora Haftor e Haldur se colocassem de prontidão, a tensão não evoluiu para vias de fato.

Um dos elfos carregava uma varinha com uma pedra da Aurora na ponta. O objeto brilhou em vermelho quando apontado para o cristal que Garuk investigava submerso. Os elfos pareciam pesquisar as Pedras da Aurora, mas com objetivo incerto. Vaela reiterou que não fossem perturbados, pois iriam apenas “sintonizar” e partir.

Garuk resolveu permanecer sob a água e não se revelar. O Guia, por sua vez, investigava o fundo do lago.

Sua atenção focou-se no gigante: a criatura parecia conservada no gelo grosso, contida por vinhas vegetais tão colossais quanto ela própria, amarrando-a ao assoalho do lago.

O Eudam era profundo; cinquenta metros separavam a camada de gelo do fundo escuro. O mergulho do sekbete o levava cada vez mais para a escuridão. Não fossem suas habilidades místicas, a incursão seria impossível.

O Guia já concluía sua busca quando sentiu um movimento rápido na água. Uma criatura maior que um cavalo o atacou com garras afiadas. Apenas um reflexo rápido o salvou.

Um lagarto de gelo nadava velozmente em seu encalço enquanto ele fugia para a superfície. Uma estaca de gelo sólido condensou-se na boca da besta e foi disparada, mas o rastreador desviou com manobras submersas.

O Guia saltou acrobaticamente pela fenda de onde entrara.

“— Serpente! Uma serpente no gelo!”, gritou, anunciando o inimigo, que se espremeu para fora do buraco, revelando-se uma ameaça imediata.

Os elfos sombrios lamentaram a interrupção, e Vaela ordenou:
“— Recuem.”

Os aventureiros prepararam as armas para combater a fera.
“— Tem carne hoje à noite!”, gritou Réctor, voltando-se brevemente para os elfos: “— Com vocês eu converso depois.”

Terras Selvagens — Dias 17 a 25 do mês do Sangue, ano de 1502.

sábado, 6 de dezembro de 2025

(VS) Sessão 15

A Irmã Ressonante

A sala de pesquisa

Os riforianos mutantes haviam sido derrotados. Os sobreviventes estavam estirados no chão, e Astra garantiu que aqueles derrubados por Flynn sobreviveriam. Enquanto o grupo vasculhava a sala de contenção, uma descoberta se destacou entre todas as outras: uma fotografia impressa de Irlanda, a irmã de Flynn, oficialmente morta durante o incidente de Riven Shroud.

Seguindo pelos corredores de iluminação industrial, os aventureiros chegaram a uma porta com tranca biométrica. Ed não demorou a contornar os algoritmos de bloqueio, permitindo acesso a uma grande sala circular, de teto abobadado.

O ambiente era estranho. A gravidade oscilava em pontos específicos, deixando todos mais leves. Ed sentiu uma dor aguda no braço que reagira ao âmbar anteriormente, embora suportável. No centro do cômodo, um braço mecânico segurava um prisma rubro, enquanto um canhão apontava para ele a curta distância. Acima, dois tubos suspensos emitiam feixes de luz que percorriam trajetórias circulares em altíssima velocidade.

Rykk começou a analisar os terminais, mas foi rapidamente soterrado por uma quantidade absurda de dados. Flynn encontrou uma caixa de arquivos digitais com prontuários e dossiês e iniciou a leitura com cuidado. Hothspoth e Kassius mantiveram-se junto à porta oposta, enquanto Astra permanecia em vigilância.

Rykk conseguiu decifrar parte das informações: equações em draconiano, estudos sobre uma “rotação” e dados cirúrgicos — muitos assinados por Grutenkrag. Ao verificar os logs, encontrou acessos feitos por sua própria mãe. Diante do volume de informações, o grupo decidiu copiar tudo. Berenice alertou que isso comprometeria seu processamento, mas o risco foi aceito. Grande parte da memória dos dispositivos do grupo foi ocupada.

Flynn encontrou referências recorrentes a Irlanda nos arquivos. Rykk confirmou: estavam dentro de um acelerador de partículas. Com os dados copiados, Ed abriu a saída do compartimento circular.

A sala de monitoramento

Após mais alguns corredores, o grupo encontrou três portas fechadas. Ed burlou uma delas e teve acesso a uma sala de controle repleta de máquinas e monitores. Rykk observou as telas e congelou: uma mulher estava presa a uma maca. Flynn se aproximou — era Irlanda.

A cela foi aberta a pedido dele. Estava vazia. Rykk confirmou que as imagens não eram gravações: eram transmissões em tempo real.

Nesse momento, Hothspoth teve um mal súbito. Em sua visão, Irlanda saía da sala e falava com ele. O solariano tentou responder, mas sua voz não saía. Num instante, a visão se dissipou. Embora ninguém mais pudesse vê-la, as câmeras registraram Irlanda deixando a cela assim que as amarras foram soltas.

Ed e Kassius entraram no compartimento. Kassius, invisível aos sensores, removeu uma das câmeras. Isso foi o suficiente para desestabilizar todo o sistema de monitoramento. Com os sistemas sobrecarregados pelos dados copiados, não foi possível restaurar as imagens.

Rykk continuou investigando e encontrou prontuários cruciais: o incidente de Riven Shroud havia removido Irlanda desta realidade. Sua consciência fora deslocada, e a Síndrome da Marcha Definhante não a petrificara — fundira-se a ela, transformando-a em um condutor vivo de energia sepulcral. Todos os arquivos estavam protegidos pela assinatura de Grutenkrag.

O laboratório central

A vigilância de Hothspoth se mostrou necessária. A porta à frente se abriu, revelando um cientista humano. O solariano disparou sem hesitar, derrubando-o inconsciente. Uma jovem que tentou socorrê-lo também foi neutralizada. Os dois foram saqueados e levados consigo. Astra avaliou os feridos: o homem corria sério risco de morte sem atendimento médico urgente.

O laboratório era o centro da pesquisa. Ed acessou os dados e encontrou a transcrição de uma conversa entre Grutenkrag e Laven, o cientista-chefe, além de um arquivo crítico: o Diagrama do Reator de Absorção de Fluxo de Krevlan.

Com as informações coletadas, decidiram partir. Uma escadaria ao norte exibia os símbolos da MiNI e de um Laboratório de Biometria. Rykk reconheceu o local e julgou o risco alto demais. O grupo retornou à subestação, recolhendo o âmbar artificial no caminho.

Vigiados

Kassius e Flynn carregavam os prisioneiros; Hothspoth levava o âmbar. Ao saírem para o beco dos riforianos, foram capturados por uma transmissão ao vivo. Hothspoth tentou negar a situação, sem sucesso. Kassius tomou o datapad do jovem riforiano e o substituiu por um dispositivo vazio. O público se dispersou.

A transmissão havia alcançado treze pessoas. Kassius apagou o registro. No caminho para o hangar, uma placa enorme anunciava: PROCURADOS. Ignorando o aviso, entraram no elevador.

No hangar, dezenas de guardas cercavam Berenice. Pelo comunicador, Pip informou:

— “Tem muita gente aqui fora… mas ainda não conseguiram entrar.”

Triaxus, Cidade de Orelan — Quinta-feira, 22 de Desnus de 325 DL