Syllen’ae
Investigando a tecelagem
A carta da elfa sombria colocou os aventureiros em alerta. Eles estavam sob vigilância e não poderiam esperar demais para colocar seus planos em ação.
Réctor resolveu investigar sozinho o entorno da tecelagem. Embora os efeitos mágicos fossem afetados ao redor do Domo de Arminus, suas asas eram confiáveis o suficiente para permitir uma aproximação sigilosa.
O Guia, preocupado, alertou o feiticeiro para que tomasse cautela extra.
— Até agora não sei como é que aquela elfa detectou que eu estava presente. Além da questão de os efeitos da nossa magia serem afetados pelo Domo, eu também não sei se pode haver alguma coisa lá que permita detectar quem está usando magia.
Réctor deixou seus equipamentos mágicos aos cuidados de Garuk e partiu pela noite escura, após avisar ao grupo que manteria contato através de Sombra que, por meio de sua conexão telepática com o criador, poderia informar tudo o que ele estivesse fazendo.
Ao contornar o Domo, o feiticeiro avistou a tecelagem pelos fundos. Havia uma torre no centro do prédio, na qual um humano mantinha vigília. No entanto, Réctor contava que as sombras noturnas protegeriam sua posição.
A aterrissagem sobre a cumeeira do telhado foi sutil. O guarda mantinha vigilância na direção da cidade, deixando descoberto o lado voltado para o Domo.
— Ataca esse cara aí e pega ele! — sugeria Garuk através da conexão com Sombra.
— Deixa comigo — dizia Réctor, despistando. O feiticeiro não tinha a intenção de começar uma luta sozinho.
O napol aproveitou o ponto cego do guarda e explorou o telhado. Ele encontrou um pequeno vitral abaixo do beiral e convocou um amigo imaginário para analisá-lo de perto.
A intenção do feiticeiro era trazer um pombo de sua mente. Porém, a proximidade do Domo de Arminus estava afetando bastante sua capacidade mágica. Réctor sentiu o karma esvair-se de seu corpo de forma acelerada e, mesmo assim, a criação surgiu deformada. Apesar disso, ainda era reconhecível como um pombo, como pretendido.
O pássaro bicou o vitral e descobriu que a janela era pivotante, com um vão de cerca de 30 cm em cada lado. O rangido da abertura, no entanto, foi alto. A peça parecia estar naquela posição havia muito tempo.
— Tem uma janela aqui, de uns 30 cm. Quem consegue passar?
— Eu passo — afirmou Olgaria, confiante.
— Mas você tem a graciosidade de um paquiderme!
— Talvez eu passe — sugeriu Demétrius, medindo seu corpo com as mãos.
Mas Demétrius não tinha como chegar ao telhado. O feiticeiro considerava uma magia de transporte muito arriscada, tendo em vista os efeitos erráticos que a proximidade com o Domo de Arminus poderia provocar. Assim, resolveu procurar uma entrada no térreo.
Uma enorme árvore mergulhava os fundos da tecelagem em trevas. A copa gigante seria um bom esconderijo.
Mas a sorte do feiticeiro com o guarda havia acabado. Sua decolagem do telhado provocou um ruído que, difundido na noite fechada do norte de Telas, alertou o vigilante. Ele olhou na direção do napol e sacou uma luneta.
Réctor desistiu da investida. Abriu as asas e mergulhou na escuridão para despistar o olhar do homem.
Os rastros da floresta
Retornando para as ruínas, o feiticeiro contou com mais detalhes sobre sua tentativa.
— Consegui ser visto.
— Vamos conseguir entrar? — indagou Demétrius.
— Talvez agora ele fique mais atento. O cara está num bunker. Vai ser difícil entrar nesse lugar. Ele ainda tem a vantagem antimagia do Domo. Vocês não querem dar uma olhada no túnel da floresta, não?
— Vamos, então. Vamos ver se tem uma fera lá mesmo — empolgou-se Garuk.
Os aventureiros preparam suas armas e partem em direção à floresta ao norte da cidade, além do Colégio Naturalista. O Guia lidera a comitiva com cerca de vinte metros de dianteira.
A escuridão da mata forçou o feiticeiro a acender uma pequena luz para si, Olgaria, Garuk e Demétrius. Os anões tinham boa visão nas trevas, e Garuk enxergava perfeitamente com seu sortilégio de rastreador noturno.
O mapa de Larial fora escrito em um pergaminho qualquer. Porém, mesmo com a baixa precisão, o Guia foi capaz de corrigir a rota e encontrar, sem dificuldades, o alçapão camuflado que dava acesso ao túnel secreto.
— Achei! — anunciou o Guia ao encontrar os sinais da passagem. — Mas deixa eu varrer o perímetro para tentar encontrar alguma pegada.
— Eu estou sentindo o cheiro dos sombrios — disse Garuk, enquanto o rastreador investigava o solo. — Será que eles usam essa passagem para chegar lá?
— Olha — anunciou o Guia, levantando-se e apontando para os rastros que encontrou — três elfos sombrios entraram e saíram por esta passagem. Ontem.
— Deve ser uma passagem bastante usada — concluiu o berserker.
Os aventureiros discutiram brevemente se deveriam ou não iniciar a travessia naquele momento.
— Vamos conhecer. Vamos ver se tem uma fera lá mesmo!
— Espere, Garuk. Vamos encontrar os elfos sombrios primeiro. Talvez eles tenham algum tipo de papelada que já resolva o nosso problema. A gente não precisa invadir aqui agora — ponderou Réctor, considerando o encontro com Syllen’ae agendado para a noite seguinte.
O Guia sugeriu que o grupo seguisse os rastros dos elfos sombrios que haviam deixado o esconderijo antes de entrar. A proposta foi aceita pela maioria.
— Pelo menos já são dois elfos a menos no mundo.
O Guia segue os rastros dos elfos de volta para o centro de Telas. O rastreador garante que seus próprios rastros e os do grupo sejam apagados enquanto avançam.
As pegadas dos elfos se misturam com uma multidão de outras marcas nas ruas noturnas, mas bem iluminadas da cidade, e seguem para o sul, até as proximidades do Jardim dos Prazeres.
— O rastro termina nesta casa — informou o Guia, indicando discretamente uma mansão luxuosa.
O grupo segue até o Jardim para não discutir assuntos delicados em frente à casa dos elfos. Eles não demoram a perceber que a mansão era, precisamente, o local do encontro com Syllen’ae.
Antes do encontro
A revelação de que Syllen’ae — ou seus asseclas — estavam utilizando a trilha na floresta não soou como uma surpresa completa. Ainda assim, mexeu com os planos dos aventureiros. Agora eles tinham certeza de que deveriam aguardar o encontro antes de dar o próximo passo.
A madrugada avançava rapidamente e logo seria manhã. Os aventureiros retornaram para a Casa dos Sonhos e descansaram por algumas horas.
Na tarde seguinte, o Guia retornou até a Pedra do Saber, o Colégio do Conhecimento, para continuar o aprimoramento de sua Escrita. Haftor também se dirigiu para lá, mas seu objetivo era continuar o estudo do Testamento da Ordem. Réctor foi ao Colégio Naturalista, enquanto os outros permaneceram treinando.
Os manuscritos de arcanismo complexo do Testamento da Ordem eram difíceis de decifrar. O paladino avançou em seus estudos e descobriu que Altherion de Corvear estudava as propriedades do metal homônimo. Segundo os manuscritos, o metal seria capaz de canalizar a energia titânica das Geleiras — uma energia ligada especificamente ao frio primordial.
A pesquisa sobre o Testamento avançava lentamente. O anão retornou ao esconderijo antes do anoitecer para preparar-se para o encontro com a elfa.
A visita de Réctor ao Colégio Naturalista trouxe algumas informações já conhecidas, mas sob outra perspectiva.
O feiticeiro foi recebido por uma elfa de sorriso simpático.
— Niliel, muito prazer. Deseja algo nas dependências de nossa escola? É difícil ver os seus entrando aqui.
— É... eu sou diferenciado. Você por acaso conhece alguém que possa falar um pouco sobre os distúrbios que têm acontecido na natureza? Eu reconheço isso como Aurora Gelada, mas talvez vocês a chamem de outra maneira.
— O colégio anda bastante preocupado com estes acontecimentos, senhor Réctor — revelou Niliel, depois de compreender melhor o assunto trazido pelo napol. — Vou chamar alguém que possa conversar com o senhor.
Réctor aguardou por alguns minutos, em uma espera tensa. Em seguida, foi apresentado a Thranduil, um explorador dos naturalistas que o convidou para conversar em um local mais reservado.
— Acomode-se e me diga o que você sabe sobre o tal “Mal-Sob-O-Gelo”.
O feiticeiro relatou todas as aventuras vividas com seus companheiros, omitindo apenas pequenas partes. Em seguida, questionou sobre a estátua da Dama.
— A estátua da Dama está a cargo das guildas de arqueólogos. Aparentemente, a estátua é capaz de fornecer um tipo peculiar de karma ao lago em que se encontra. Ao que tudo indica, ela repele o mal.
Mostrando o cristal da Aurora em sua posse, Réctor explicou sobre a purificação do rio que presenciara em Vau do Calbuen.
— As pedras reagem ao Domo. São minerais que já estavam aqui há muito tempo, mas recentemente têm se manifestado de forma diferente. Parece que estão reagindo a este novo karma.
A conversa encerrou-se com um aviso sobre a cobiça de outras facções, confirmando que os elfos sombrios não eram os únicos interessados nos artefatos do grupo.
— Se você tiver alguma ideia, pode me procurar nos sonhos. Eu sou um feiticeiro dos sonhos — despediu-se o napol.
O pacto de Minoliz
O grupo chega pontualmente à mansão de Syllen’ae e é recebido por um mordomo elfo sombrio vestido com um fraque justo e gola alta. O serviçal faz um gesto extravagante de boas-vindas e autoriza a entrada dos aventureiros.
— Fala, cara! Esse aí manja! — comemorou Réctor ao ver o gesto semelhante ao seu.
A sala de estar para a qual são conduzidos era confortável e ampla. Uma escadaria larga o suficiente para cinco pessoas se destacava no centro do ambiente.
O mordomo conduziu o grupo até um canto da sala, onde dois sofás os aguardavam. Uma cadeira foi providenciada para Réctor. Taças de vinho foram trazidas, mas ninguém aceitou.
Os aventureiros não se sentaram, com exceção de Demétrius. O ladino, no entanto, levantou-se assim que percebeu que era o único acomodado.
Logo cinco elfos sombrios desceram a escadaria. No centro estava Syllen’ae, uma elegante e bela elfa sombria vestindo trajes de exploração. Os outros quatro eram guardas. Eles pararam no último degrau e ali permaneceram, estáticos, bloqueando toda a passagem para o andar superior.
Syllen’ae sentou-se na poltrona.
— Eu sou Syllen’ae e serei a anfitriã de vocês.
— Eu não confio em você — acusou o Guia. — Cadê a dona que escreveu a carta?
— Fui eu. Eu sou Syllen’ae, representante de Minoliz, e os trouxe aqui hoje para que possamos redigir um acordo que seja bom para ambos.
A elfa se acomodou melhor na cadeira, enquanto Garuk se posicionava perto dela em uma tentativa de intimidação.
— Vocês fizeram um excelente trabalho com Margoth. Gostaria de conceder-lhes meus parabéns.
— Ele não era uma missão. Era só um obstáculo. Um acaso que queria matar a gente, e ele teve o azar dele — respondeu Garuk.
A elfa referia-se a Margoth como um “desprezível servo de Aemon”. Sua relação com o compatriota era, no mínimo, ambígua.
Ela então propôs um acordo para livrar o grupo da perseguição de Aemon Ghevra, mas os aventureiros não acreditaram.
— Eu não proponho uma trégua, mas um acordo de paz — disse Syllen’ae, ao ouvir Réctor supor que o acordo duraria apenas enquanto eles fossem úteis.
— A gente sabe que não funciona assim, né? — desdenhou o Guia.
Mesmo assim, a elfa insistiu. Segundo ela, o acordo protegeria o grupo da vingança implacável de Aemon Ghevra, alguém que eles certamente não desejariam ter como inimigo. O acordo, obviamente, tinha um preço.
— Eu preciso que me entreguem uma bigorna feita de corvear. Minoliz deseja esse metal específico das profundezas de Blur. Se a trouxerem até mim, considerem o acordo fechado.
— O que você vai fazer com essa bigorna aí, dona?
— Entregarei à minha mestra. O que fará com ela está além do meu alcance descobrir.
— Eu ainda não vi qual é a vantagem para a gente nessa história — disse o Guia.
O grupo hesitou e recuou. A proposta da elfa soava como parte de um plano do qual eles não deveriam fazer parte.
Garuk se agitou e começou a elevar o tom agressivo.
— Eu não lhe atacarei — respondeu Syllen’ae, encarando o berserker de baixo para cima. — Não me rebaixarei ao negociar com alguém como você. Minha proposta está colocada: tragam a bigorna. Se não a tiverem, morrerão nas mãos de Aemon.
— Elfos sombrios não têm aliados. Têm ferramentas — acusou o Guia.
O grupo começou a deixar a mansão, mas os sekbetes deixaram sua marca. Garuk acertou um sofá com sua cauda e o arremessou contra a adega do outro lado do ambiente.
O Guia pegou uma taça da bandeja do mordomo e se aproximou da elfa sombria.
— À sua saúde, dona.
E despejou a bebida no chão.
Os aventureiros deixaram a mansão sob o olhar penetrante de Syllen’ae.
A visita não seria esquecida.
A decisão imediata
O grupo retorna para as ruínas com cautela extra. Enquanto discutiam a reunião com a elfa sombria, Réctor percebeu um odor forte vindo do Guia: era carniça.
O sekbete farejou o ar e logo percebeu que o cheiro estranho vinha de seus próprios dedos e do copo que trouxera consigo.
— Eu já senti esse cheiro antes. Lembra-me de Caridrândia… de mortos-vivos. Será que o mordomo já está morto?
O Guia decidiu descartar o objeto para não atrair o perigo para o esconderijo.
A sensação de vigilância parecia constante. Por isso, mesmo exaustos, os aventureiros decidiram que não poderiam esperar mais para invadir o armazém de Volrath.
— Eu preciso ir lá pegar aquele documento — afirmou Réctor. — O que vocês acham de irmos pela floresta?
— Eu acho melhor também — concordou Garuk. — Até porque, se a gente tentar voltar na elfa para pegar alguma coisa, ela vai acabar desconfiando.
Réctor invocou um feitiço de teletransporte e levou seus companheiros até os arredores do alçapão na floresta. Assim que o Guia reencontrou a passagem, o napol garantiu que ninguém estivesse sob efeito de magia.
— Ninguém está com magia, então podemos entrar.
— Eu vou primeiro — candidatou-se o Guia, já procurando por armadilhas no entorno da passagem.
Logo que o rastreador removeu as pedras e galhos que encobriam a passagem, revelou-se um alçapão de madeira com um puxador, construído sobre uma plataforma de pedra.
Garuk ajudou o Guia a abrir a passagem. No momento em que a porta foi aberta, um choque mágico atingiu os sentidos místicos dos sensitivos do grupo, confirmando a presença de algum poder arcano em seu interior.
Ao mesmo tempo, a abertura liberou o forte odor que estava contido lá dentro.
Carniça.
O mesmo cheiro que estava no copo.
Com armas em punho, o grupo iniciou sua descida.
Telas, dias 11 e 12 do mês da Sabedoria do ano de 1502.


